ENCALHE

outubro 21, 2007

Viu, como se faz? Uma notícia boa/regular se transforma em mais uma notícia ruim.

Leiam esse horror, um retrato do Brasil:
“Desemprego leva a inadimplência”
Cresce o número de paulistanos que atribuem dívidas à perda do emprego
Que medo, hein?
Foi publicado desse jeito no site MONITOR MERCANTIL EM 19/10/2007 .
Vamos ler o artigo ( grifos meus, como de costume ) :
“Para 59% dos paulistanos, o desemprego é a principal razão para deixar as contas atrasarem. Há dez anos, em setembro de 1997, apenas 39% apontaram a falta de emprego como motivo para inadimplência.
Os dados são de pesquisa realizada pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Outros itens que constam no “Perfil do Inadimplente” apresentaram queda nesta década. Foi o caso, por exemplo, do “descontrole dos gastos”, que caiu de 22% para 9%. Também
registrou recuo o item “queda na renda” (de 16% para 6%).
As mulheres, que há dez anos representavam 28% dos inadimplentes, agora já são quase a metade (42%). Isso não significa, entretanto, que as mulheres ficaram mais irresponsáveis em suas contas – pelo contrário.
De acordo com o presidente da ACSP, Alencar Burti, isso ocorre justamente porque a participação feminina no mercado de trabalho avançou. “Apesar deste crescimento (de inadimplência feminina), muitos lojistas garantem que, no geral, as mulheres são mais responsáveis para honrar seus compromissos financeiros”, observa Burti.
Com relação à idade, o levantamento aponta um dado curioso e desmistifica a idéia de que os jovens são mais irresponsáveis com relação às suas contas. Se em 1997, 42% dos devedores tinham entre 21 e 30 anos, em 2007 este índice caiu 18 pontos percentuais (24%).
Na faixa etária de 41 a 50 anos, houve avanço de 17% para 26%. Entre aqueles com idade entre 51 e 60 anos, também foi verificado aumento, de 4% para 11%. Entre os inadimplentes, cerca de 50% dos entrevistados informaram ter rendimento mensal de dois a cinco salários mínimos.
Quando indagados se pretendiam quitar o débito em atraso nos próximos 30 dias, 61% responderam positivamente. Outros 25% afirmaram que não pretendiam quitar no prazo de 30 dias, e 14% se mostraram indecisos”.
Bom, eu procurei esse “Perfil dos Inadimplentes” no site da ACSP e não encontrei. Mas, afinal, quero apenas fazer pequenas observações sobre o que o Monitor Mercantil escreveu e como poderia ter manchetado essa notícia, com dados de seu próprio artigo, caso não quisesse empurrar-nos mais uma versão anti-Lula.
Primeiro: não dá para saber se a pesquisa é de “opinião”, ou se foram colhidos dados que resultassem em um instantâneo oficial da inadimplência paulistana; por “opinião” entenda-se: pedir ao entrevistado suas impressões sobre um assunto, e não que comprove com documentos a sua situação junto às instituições de crédito. Incompleta como está, não é motivo para botar uma manchete dessas.
Um exemplo de que não dá para concluir muita coisa com esse artigo: diz que há dez anos ( “Setembro de 1997″ ), 39% apontavam o desemprego/ falta de emprego como motivo para inadimplência; nessa última pesquisa, 59% teriam dito ser essa a causa principal. A pesquisa anterior, tal como esta última, não há nada dizendo que se baseiem em números oficiais, sugerindo tratar-se de “O que o senhor acha disso?”. Faltou, ainda, apresentar estimativas pós-97 ( como 99 e 2002, p.ex. ) já que, com os números acima disponibilizados, pode-se pensar que o desemprego ou a inadimplência cresceram desde o segundo mandato de FHC, atingindo o pico agora no governo Lula. As entrelinhas dizem muito, e idéias são contrabandeadas dentro de outras idéias. Surpreende que o Monitor não tenha dado o seguinte título: “59% dos paulistanos estão desempregados e inadimplentes. Em 97 eram 39%”. Talvez se fosse a Veja.
Que mais? Ah, tá.
Opinião ou dado oficial, o ítem “queda de renda” em negrito diz que 6% dos entrevistados consideram forte motivo de inadimplência, contra 16% em 97. Possíveis manchetes ( caso seja decidido que este ítem – atenção: o “ítem”, não o percentual – mereça virar manchete ), dependendo do governo na ocasião: “Em 10 anos, queda na renda do paulistano diminui. Inadimplência também registra queda.”; “Renda do paulistano pára de cair, depois de 10 anos. Inadimplência recua.”; “Pesquisa mostra reação da renda do paulistano e recuo da inadimplência”; “Renda sobe e paulistano paga dívidas”.
Daria para ficar a tarde toda bolando chamadas “pró” um governo ao qual fôssemos a favor.
Para finalizar, outro trecho que destaquei em negrito, na medida para ser estampada, eufóricamente, na primeira página de um jornal “pró” e agradar o governo de plantão: “(…) Quando indagados se pretendiam quitar o débito em atraso nos próximos 30 dias, 61% responderam positivamente. Outros 25% afirmaram que não pretendiam quitar no prazo de 30 dias, e 14% se mostraram indecisos(…)”.
Vamos dar asas à imaginação: se fosse em 1996, 1997 ou 1998, como poderíamos apresentar, à opinião pública, esse número altamente favorável? Que tal: “61% dos paulistanos quitarão suas dívidas em até 30 dias” ?
Meio fraco. “Pesquisa revela otimismo dos paulistanos. 61% espera quitar débitos atrasados no prazo de até 30 dias.”; “61% dos paulistanos pagarão suas dívidas neste mês”; “Só 14% dos paulistanos não sabe se quitará dívidas nos próximos 30 dias”; “Em 30 dias, maioria dos paulistanos terá limpado seu nome e poderá tomar crédito novamente”; “Em um mês, 61% dos paulistanos retirarão o nome do cadastro de maus-pagadores”; “61% dos paulistanos ouvidos em pesquisa pagarão contas atrasadas ainda neste mês”.
E por aí vai. Nesse último caso, o importante é notar que um dado que poderia ser explorado favorávelmente pelo governo ( qualquer um ) está muito bem escondido no texto caudaloso e, por vezes, ambíguo. Haja criatividade e jogo de cintura. Criem e recriem. Façam, vocês também, suas próprias manchetes negativas e ajudem a prejudicar o governo. Milhares de analfabetos funcionais – ou seja, incapazes de compreender um texto – fabricados em escala industrial nas escolas tucanas, nos últimos 12 anos, são o alvo perfeito de editores mal-intencionados.

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