ENCALHE

maio 1, 2007

Operaçăo Hurricane e a Máfia italiana

Filed under: Hurricane, Jogo do Bicho, Judiciário, Máfias, Polícia Federal — Humberto @ 7:22 pm

por Jasson de Oliveira Andrade

A Operaçăo Hurricane (Furacăo), que levou à prisăo, no dia 13 de abril, banqueiros do bicho, desembargadores, delegados de policia, um juiz trabalhista e um procurador da República e tem ainda, como suspeito, o ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Paulo Medina, foi a maior açăo da Polícia Federal contra o crime organizado em território brasileiro.
Segundo informa a Folha, essas pessoas săo acusadas de integrar grupo especializado na compra e venda de sentenças judiciais para beneficiar casas de bingos. Outros nomes estăo sendo investigados.
A CartaCapital, na ediçăo de 25 de abril, publicou: “A estrutura revelada pela Operaçăo Hurricane representava, como observa a cientista social Sílvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes, no Rio, um mecanismo de proteçăo da ilegalidade nunca visto no Brasil. “O aspecto mais interessante que veio à tona até agora é a blindagem das atividades criminosas.
Com polícia, Ministério Público e Justiça envolvidos, era praticamente impossível chegar aos chefes do esquema. Gostaria de ver a polícia investigando se essa mesma estrutura de proteçăo năo se repete, por exemplo, para favorecer o tráfico de armas e contrabando”, diz”. Noticia ainda a revista: “O total de bens apreendidos pela operaçăo, principalmente em poder dos três barơes do bicho, inclui 51 automóveis, boa parte deles de alto luxo, e o total de 20 milhơes de reais, entre somas em dinheiro e jóias”. Essa apreensăo mostra o poderio desses barơes do bicho. No entanto, o pior era ou ainda é a ligaçăo deles com a máfia italiana, como revela o juiz aposentado Walter Fanganiello Maierovitch.
Mairovitch, em artigo na CartaCapital (“Conexăo Parque Laje”), mostra que a ligaçăo dos barơes do bicho com a Máfia vem de longe: “No Rio, a cúpula do bicho sempre andou de namoro e agrados com a Cosa Nostra siciliana. Nos anos 50, o capo-máfia Antonino Salamone, foragido da polícia, desembarcou no porto do Rio. Foi recebido por Castor de Andrade [bicheiro], que lhe deu um emprego de fachada na Tecelagem Bangu, de sua propriedade. (…) Mais tarde, Salomone, mafioso e traficante internacional de drogas, condenado e com mandados de prisăo nos Estados Unidos e na Itália, recebeu a cobertura da ditadura brasileira. O entăo ministro da Justiça Armando Falcăo concedeu ao foragido a naturalizaçăo. Salamone virou brasileiro naturalizado por influência de Castor de Andrade”.
O autor revelou que a máfia siciliana modernizou-se e ingressou no universo da tecnologia de ponta, com assessoria especializada em lavagem de dinheiro. Contratou, entăo, Lillo Lauricella para limpar os milhơes arrecadados de forma ilícita. Ele era associado a Fausto Pellegrinetti. A dupla está relacionada com o Brasil. Segundo Mairovitch: “Com o FBI nos calcanhares, Pellegrinetti resolveu mudar de ares. Começou a trabalhar no Brasil, na República Dominicana e na Rússia. Os principais clientes passaram a ser os chefơes do tráfico internacional de drogas, principalmente da Colômbia. (…) No Brasil, coube a Lauricella [sócio de Pellegrinetti] procurar a cúpula do bicho do Rio”. Revela mais o autor do artigo: “Em interceptaçăo telefônica realizada pela DIA, Lauricella informa, do Rio, a Pellegrinetti, na Itália, que tudo caminhava bem.
Uma lei nova autorizava a exploraçăo de máquinas eletrônicas de jogos de azar (Lei Zico). Nenhum empresário da jogatina, ou mesmo da cúpula dos bicheiros do Rio, tinha recursos financeiros suficientes para investir em um país de dimensăo continental como o Brasil (…) Lauricella, em outra interceptaçăo e em interrogatório policial e judicial, afirmou ter fechado parcerias com a cúpula do jogo do bicho do Rio, com a família Ortiz, Alejandro pai e Alejandro filho, em Săo Paulo e com o bicheiro paulista Ivo Noal. (…)
Com Pellegrinetti foragido e Lauricela metralhado depois de colaborar com a Justiça italiana, os brasileiros da jogatina, de Săo Paulo e do Rio, receberam a herança deixada, de bandeja. A velha-guarda da cúpula carioca aproveitou-se da evoluçăo tecnológica e o bicho cedeu espaço para a exploraçăo das máquinas de jogos de azar”.
Segundo CartaCapital, bicheiros executam concorrentes. “O atentado mais conhecido, depois da chegada das máquinas eletrônicas aos pontos de jogo, foi o que resultou na morte do bicheiro Waldemir Paes Garcia, o Maninho, executado em 2004”. Eles năo copiaram tais métodos da Máfia italiana?


Ainda é prematuro prever o que vai acontecer com os acusados. O advogado Walter Ceneviva, em artigo na Folha (Judiciário em choque), afirma e pede: “O juiz inepto é mais fácil de afastar. O corrupto é arisco. Sobrevive até na indiferença culposa de seus iguais. É preciso reverter o quadro”. Principalmente se realmente a grave denúncia de Walter Fanganiello Maierovitch ( envolvimento da cúpula do bicho, que suspostamente comprava sentenças, com a máfia italiana) for verdadeira. Tem razăo Gaudêncio Torquato: “Da primeira ou da última instância, no mais distante ou no mais central rincăo da Pátria, o juiz deve ser, por excelência, o protótipo das virtudes”.
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Postado por Redaçăo Portal Mogi Guaçu

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