maio 18, 2008
setembro 22, 2007
O meu eu quero em "créditos pessoais de carbono"
Se entendo bem a lógica que sustenta os famosos “créditos de carbono”, os países ganhariam “bônus” para deixarem de poluir, porém permitindo que outros o façam em seu lugar, mantendo uma média mundial sem oscilações.
Eu disse que não sei se entendi direito, mas acho que o sentido é esse.
Caso seja, esse Dia sem Automóvel – que eu tratei como “farsa” e não mudei minha opinião a respeito, ainda que considerando as boas intenções dos seus idealizadores – me atiçou uma idéia, que ainda deverá ser lapidada devidamente.
Eu andava pelo meu “a-cada-dia-que-passa-está-progredindo-porém-às-custas-da-hediondamente-denominada-”qualidade-de-vida”‘ bairro, observando algumas casas antigas, porém habitáveis, derrubadas pelos tratores da especulação imobiliária; também percebi que, no mesmo dia em que o telejornal mostrou uma triste paisagem do árido sertão – que, revelou-se depois, tratava-se na verdade da represa Billings ( ou Guarapiranga, não lembro ) – seco e esturricado, algumas pessoas regavam os quintais e as calçadas ( para que a limpeza fosse mais eficiente, nada melhor que um jato interminável de mangueira ) e outras lavavam os carros.
Bem.
Pensei: “Esse pessoal é que está certo: faz o diabo para conseguir comprar um carro; cimenta ( ou compra cimentado ) o quintal da casa, que é para botar o carro; rebaixa ( ou às vezes suspende) a guia, contando com a, digamos, péssima fiscalização da Prefeitura, para facilitar a entrada do automóvel em casa, mas dificultando a caminhada do pedestre; gasta uma puta água potável regando o carro, a vaga ou quintal, a calçada, o meio-fio e às vezes até o asfalto ( e essas áreas todas que mencionei, só que da residência ao lado ); sai com o carro para ir até a esquina, na padaria; quando pode, dá um carro para a esposa e para os filhos que podem guiar, além de adquirir um para rodar nos dias de rodízio;
Para estes despreocupados, a consequência de se adquirir um automóvel se encerra na possibilidade ou não de comprá-lo, pagar os impostos e taxas, abastecer no posto e trocar alguma peça quando necessário for, sem contar o pagamento da mão de obra.
Óbvio que, quando o espaço necessário falta para comportar tanto aço circulando nas ruas, o carro jamais é visto como causa disso, mas vítima ( sim, como se fosse uma pessoa ): do motorista ao lado “que dirige mal”, da Prefeitura, da CET, dos pedestres, dos ônibus, caminhões, ciclistas, dos políticos, dos motoboys. Jamais da Física.
Como esse pessoal baba quando o noticiário diz que foram vendidos milhares de carros a mais do que no mês anterior. E como baba quando um novo modelo lindão sai da prancheta. Nesse mundo utópico, reforçado ininterruptamente pela propaganda e pela mídia empresarial, as ruas estão sempre livres. Ou então, estão intransitáveis e caóticas, mas só porque você possui um carro de outra marca que não aquela do comercial.
Sabe, infelizmente somos obrigados a respirar chumbo por causa de camaradas que são complexados pelo seu pau pequeno, ou damas que acham seus glúteos pouco atraentes. A propaganda lança essa idéia subliminarmente, a “necessidade” ganha corpo junto à sociedade e esta, por sua vez, obedece os comandos dos handlers das agências. Difícil ir contra tais ideais tão arraigados. Quem deseja ser um pária, um perdedor, não é mesmo?
E quem não reza pela cartilha do “sucesso”? Quem usa as pernas ou o transporte público coletivo?
Digamos que, entre outras coisas, o poder público não se sente muito obrigado a resolver os problemas, quando estes exigem respostas “radicais”. Não. Quem colocaria em jogo sua carreira política dizendo ao público aquilo que esta classe de marmanjos mimados não deseja ouvir?
Uma atitudezinha localizada aqui, outra acolá, como uma estação de Metrô.
Tem gente que ganha com isso: a construção de uma estação de Metrô, por exemplo, envolve interesses, e nem sempre se trata apenas da disponibilização de equipamento público de transporte à população.
Uma incorporador enche as burras de dinheiro adquirindo e comercializando as àreas próximas aos locais escolhidos para receberem as futuras estações. Esses locais passam a custar caro. O assédio se torna irresistível. Os moradores destas regiões que não disponham de recursos à altura para se manterem onde estão, sucumbirão às pressões, e passarão o ponto. E irão para outra freguesia, mais em conta que aquela de onde está saindo. Quem paga aluguel, esse está mais distante ainda de continuar na região. Seja porque o proprietário venderá o imóvel, seja porque o perfil econômico dos novos moradores exigirá serviços à altura das possibilidades destes, ou seja, mais caros.
Não pergunte por quê esses investidores ( que adoram dizer que farejam oportunidades e se gabam que suas ações terminam por melhorar a cidade como um todo, porém começando no local em que estejam operando diretamente ) não vão atrás de oportunidades em locais que realmente precisariam de alguma reforma urbanística – que realmente viria com a implantação dos novos projetos – e seus entornos.
Ora, já que o aeroporto de Congonhas está praticamente lotado, como um ônibus Terminal Capelinha, e a solução imediata é a transferência de ocupação para Guarulhos, por quê a Tecnisa ou a Rossi não constroem seu condomínios sensacionais em lugares próximos ao município vizinho, mesmo ainda na Capital, para o público que utiliza os aeroportos com frequência?
Eu sugeriria São Miguel Paulista, Jardim Helena, próximo à Petroquímica. Una-se o útil ao agradável: o governo estadual não precisará gastar o dinheiro dos pedestres e usuários de transportes públicos na construção de uma linha de trem expressa ligando a Capital ao aeroporto de Cumbica, e esta não precisará ser entregue de graça à iniciativa privada, como costuma ser o modelo tucano de parceria com os empresários.
A região que estou sugerindo conta com imóveis bem baratos ( dá para fazer um ótimo lucro em todos os estágios da obra ); possui sua linha de trem ( uma maravilha de acordo com a propaganda do governo estadual, à época da reforma ); situa-se próxima à Jacu-Pêssego e portanto, permite um melhor acesso à Trabalhadores e à Imigrantes, além da Marginal e do aeroporto; a mão de obra da região costuma ser barata; é servida pelo Metrô linha Leste-Oeste; tem áreas verdes, como o Parque do Carmo; conta com Universidades de ponta, como a USP Leste.
É quase um Paraíso.
Voltando aos créditos pessoais de carbono
É, meu amigo…
Eu, para mudar de assunto não precisa muito não.
Já falei que eu não tenho carro e não sei dirigir porque nunca me interessei? E que não tenho e jamais terei filhos ( e estes, inexisitindo, não comprarão carros, não cimentarão jardins, não lavarão quintal e calçada, não ocuparão espaço nas ruas e não votarão em candidatos apoiados e financiados pela indústria automobilística e pela especulação imobiliária; além disso não serão os vermes consumistas que a sociedade costuma parir )? E, finalmente, que reutilizo água de chuva, da máquina de lavar e até do banho, há mais de década?
Claro que não sou perfeito. Eu como carne, por exemplo. Não há como não causar algum dano ao meio ambiente, mas isso não é desculpa para condená-lo à danação que é abrigar em si os seres humanos horrendos que somos.
Voltando: já que eu abro mão, em benefício de outrem, do meu “direito inalienável” de destruir, poluir, desperdiçar água estupidamente, concretar a cidade, jogar CO2 pelo escapamento, matar iraquianos por petróleo, derrubar governos venezuelanos por petróleo, invadir países por suas reservas de água doce e outras atitudes socialmente justificadas e aceitas em nome de um estilo de vida que não pode jamais ser questionado, e garantindo que não terei descendentes para que os descendentes daqueles que fazem tudo isso que eu falei reproduzam tais ações, então:
Cadê a minha fração? Não é o caso da Bolsa de Valores ou da CVM criarem algum título no varejo, inspirado naquele comercializado entre as nações e empresas, que resulte em ganhos para as pessoas que se disponham a não piorar ainda mais o quadro ambiental apocalíptico em que vivemos?
Não sou uma pessoa ingênua ou de princípios. Eu quero minha parte em grana!!!

TRIVELA
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