O governo federal irá suspender a multa mensal de R$ 10 milhões que a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) cobra do Paraná por conta de títulos ‘podres’ assumidos durante a privatização do Banestado. A União também irá devolver ao Estado o dinheiro retido por conta da punição. A decisão foi anunciada nesta segunda-feira (9) pela procuradora-geral do Estado, Jozélia Broliani, que está em Brasília. Na semana passada, o procurador-geral da Fazenda Nacional, Luis Inácio Lucena Adams, informou Jozélia que a STN decidira suspender a cobrança da multa e devolver o dinheiro retido. Os detalhes da suspensão devem ser definidos nesta terça-feira pela manhã, na reunião da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.“A União acolheu o pleito do Paraná, aceitou os argumentos que apresentamos. O fim da multa será ratificado pelo Senado”, diz Jozélia. Ela está em Brasília desde a semana passada, negociando a suspensão com a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional.O fim da multa cobrada pela STN é fruto da bem-sucedida mobilização de lideranças políticas liderada pelo governador Roberto Requião, que reuniu no final de junho, em Brasília, três senadores e 37 deputados federais e estaduais. Juntos, eles reuniram-se com os ministros Dilma Roussef (Casa Civil), Paulo Bernardo (Planejamento) e Guido Mantega (Fazenda). À época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou sua intenção de atender à reivindicação dos paranaenses e resolver a questão.Ainda em junho, Requião e Jozélia também apresentaram os argumentos pela suspensão da multa em consulta formal ao advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli.
Entenda o caso
A multa mensal de R$ 10 milhões imposta pela STN é uma punição pelo não-pagamento de títulos públicos dos estados de Alagoas, Pernambuco e Santa Catarina e dos municípios paulistas de Guarulhos e Osasco, assumidos pelo Estado durante a privatização do Banestado. À época, os papéis já haviam sido declarados nulos por decisões judiciais e pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Títulos Públicos.A sanção custa R$ 10 milhões por mês desde novembro de 2004. Desde sua posse, em 2003, Requião trabalha para que o Estado não precise honrar títulos públicos que já foram decretados nulos pela Justiça. O presidente Lula e Mantega já asseguraram a Requião que o problema seria resolvido.
Conheça os principais pontos do caso
Durante a privatização do Banestado, em 2000, o Banco Central obrigou o Estado do Paraná a assumir títulos públicos que estavam em poder do banco, emitidos por Alagoas, Santa Catarina e Pernambuco e pelos municípios de Osasco e Guarulhos. O valor acertado na época era de R$ 456 milhões.· Além dos estados e municípios não honrarem os papéis, várias ações judiciais contestaram estas operações.· Em 2003, quando Requião assumiu o Governo do Paraná, a Procuradoria Geral do Estado entrou com recurso judicial para que o Estado não bancasse o pagamento de títulos sem nenhum valor de mercado, conhecidos como “títulos podres”.· Os títulos tiveram nulidade decretada pelo Senado e por uma série de judiciários estaduais. No Paraná, o pagamento dos títulos foi suspenso por decisão do Tribunal de Justiça, que entendeu que o Estado não pode pagar por papéis sem valor de mercado. O Banco Itaú também foi aos tribunais, exigir que o Paraná pagasse pelos papéis, provocando a intervenção da Secretaria do Tesouro Nacional.· Em novembro de 2004, mesmo com ação tramitando na Justiça, o Paraná foi punido pela STN. Na época, já havia decisão da Justiça que impedia o Paraná de pagar pelos títulos podres. A decisão judicial suspendeu a exigibilidade da cobrança do pagamento de títulos públicos pelo governo paranaense do Banco Itaú, credor do Estado, no processo de pagamento.· A punição imposta pela STN alterou os índices de correção, que passou de 9,8% para 16,07% ao ano e gerou a multa mensal de R$ 10 milhões. A disposição invocada como fundamento para penalizar o Paraná se aplica apenas às obrigações do Estado junto ao governo federal, o que não era o caso.· Independente do pagamento dos títulos podres, o Estado do Paraná já paga, rigorosamente em dia, a dívida da privatização do Banestado. São R$ 57 milhões que saem dos cofres do Estado todo mês. Este valor será pago por mais 25 anos.· No final de 2005, o Estado quase perdeu o controle acionário da Copel, por conta do compromisso de compra e venda dos títulos públicos. A garantia de pagamento da dívida eram ações da Copel. O Paraná solicitou a nulidade da compra dos papéis, por se tratar de títulos ilegais. Em novembro de 2005, a Justiça Federal do Paraná assegurou ao Governo o controle sobre a Copel. A Justiça suspendeu a eficácia do contrato que, se fosse executado, colocaria 48,29 % das ações da Copel à venda na Bolsa de Valores.· No despacho, o juiz federal destacou que “se os títulos públicos, emitidos pelos Estados de Alagoas, Santa Catarina e Pernambuco e pelos municípios paulistas de Osasco e Guarulhos, adquiridos pelo Banco do Estado do Paraná S/A, que hoje se encontra sob o domínio privado, são realmente produtos de fraudes, sem qualquer liquidez e sem a expressão monetária que se dizia neles existir, não pode o Estado do Paraná suportar os valores que lhe estariam sendo exigidos como pagamento pela aquisição de tais ‘títulos podres’.”· Em maio de 2006, o governador Roberto Requião se reuniu em Brasília com os ministros da Fazenda, Guido Mantega, do Planejamento, Paulo Bernardo, e com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, para questionar a cobrança de multa aplicada pela União contra o Paraná. No encontro, o governador informou aos ministros que o Estado está pagando multas sobre um contrato que a própria Justiça o impedia de cumprir, e entregou uma cópia da decisão judicial que suspendeu a exigibilidade do pagamento dos títulos.· Em janeiro de 2007, Dilma Roussef visitou o Paraná e acertou com Requião que o Governo do Paraná deve buscar na Justiça a nulidade dos títulos. Hoje, o valor da dívida está avaliado em R$ 1 bilhão. A ministra garantiu ainda que, se houvesse algum parecer jurídico, a STN suspenderia a multa aplicada ao Paraná. Na ocasião, a STN já havia bloqueado R$ 165 milhões como multa pelo não pagamento dos títulos.· No dia 19 de março, o ministro Guido Mantega comunicou a Requião que a STN iria suspender a cobrança da multa mensal de R$ 10 milhões, e que a União iria devolver ao Paraná R$ 100 milhões bloqueados por conta da sanção. O governador Roberto Requião já anunciou que parte dos recursos irá para o fundo de construção do Centro Judiciário de Curitiba.· No início de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu o governador Roberto Requião em Brasília e comunicou que a cobrança de multa pela Secretaria do Tesouro Nacional é “questão resolvida”.· No início de junho, Requião anunciou que iria a Brasília pedir apoio às bancadas do Paraná na Câmara e no Senado para suspender a cobrança da multa. “Estamos preparando a mobilização da classe política, independente de partido, porque é o Paraná que está sendo sangrado. Esta sangria atrapalha esse governo, e vai atrapalhar os próximos governos também”, disse.· Requião lidera um grupo de três senadores e 37 deputados federais e estaduais em Brasília em reuniões com os ministros Dilma Roussef, Paulo Bernardo e Guido Mantega. O presidente Lula reafirma sua intenção de atender à reivindicação dos paranaenses e resolver a questão.· Requião e a procuradora-geral do Estado, Josélia Broliani, reúnem-se no final de junho, em Brasília, com o advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli, e entregam consulta formal sobre o fim da cobrança da multa. No início de julho, o procurador-geral da Fazenda Nacional, Luiz Inácio Lucena Adams, comunica que a STN decidiu suspender a multa. A decisão será sacramentada pelo Senado.