Supressão é a palavra. Conforme observado por PHA, em São Paulo – capital – não existe uma avenida com o nome de Getúlio Vargas.
O Estadão, zeloso e parcimonioso quando se trata de ocultar os ilícitos tucanos da melhor forma que puder, tascou na capa ( vejam bem: muita gente lê apenas a capa dos jornais, as manchetes e destaques, e só, e passa a considerar o que leu como “informação”; portanto, a capa de um jornal e suas manchetes têm um poder de convencimento e persuassão muito fortes; não é segredo nenhum ) um pequeno bloco noticioso com o título “Identificado esquema que pagou propinas da Alstom” e, abaixo, “Corrupção favoreceria políticos de SP”. Mmmm.
Políticos de São Paulo? Vanessa Damo, do PV, é política, e tem sua base no município paulista de Mauá. Serve ela? Claro que não, eu coloquei o nome dela, só para ilustrar.
Fernando Henrique Cardoso, que tal? É político e sua carreira desenvolveu-se aqui no estado.
Celso Daniel? Emerson Kapaz? Rui da Costa Pimenta? Orestes Quércia? Todos de São Paulo, e todos políticos.
É. O Estadão não ajudou muito nessa. Vejamos se o jornal dá mais detalhes: “(… ) repassou propinas a autoridades e políticos paulistas entre 1998 e 2001, em troca da assinatura de contratos em São Paulo (…)”.
De “repassou” a “2001″, na primeira sentença, fomos informados que “autoridades e políticos paulistas receberam propinas entre 1998 e 2001″. Quais autoridades? Não aparece. Pode ser qualquer autoridade? Algum coronel da polícia? Algum delegado da Polícia Civil? Uma autoridade de que tipo? Por exemplo, o Papa é a autoridade máxima da Igreja Católica. Meio vago, Estadão.
Que mais? Ah, lembrei: “(…) autoridades E políticos (…)”?
Então há autoridades envolvidas nesse esquema que não sejam políticos? Ah, entendi.
Entre 1998 e 2001, foi dito, ocorreram estes pagamentos. Covas faleceu em 2000 ou 2001. Um político – e paulista – que se dava bem com o ex-governador, é justamente o Paulinho da Força. Teria ele, Paulinho, recebido uma grana da Alstom, em troca de assinatura de contratos em São Paulo? Ou Covas? Ou ambos?
A segunda sentença também não esclarece nada: “(…) em troca de assinaturas de contratos em São Paulo (…)”.
Fala a verdade: essa frase não sugere que algo comprometedor tivesse acontecido, apenas que contratos foram assinados, e em São Paulo. Apenas mostra em que unidade da federação isso ocorreu, e só. Geografia.
Mas que tipo de contratos e com quem?
Digamos que eu seja a Alstom. Aí, eu quero uma coisa e, para conseguí-la, eu devo contatar as pessoas que poderiam me dar o que eu quero. Eu, “Alstom”, vou falar com quem? Como o meu ramo de negócios frequentemente envolve governos – e estes compram certas coisas que eu produzo e vendo, para colocar nos lugares em que governo é quem decide -, óbvio que vou falar com “o governo”. Pois quem não está no governo não tem poder para decidir nada.
Comedidamente, o Estadão evitou, delicadamente, dizer quem teria algo a negociar com a Alstom. Apresentado dessa forma, fica parecendo a sacada do filme “Sexto Sentido”: a empresa acha que está firmando um contrato, normalmente. Manda um representante para São Paulo, com plena legitimidade para assinar os papéis. Só que a outra parte, doravante denominada neste post “a contratante”, só existe em sua imaginação. Como lhe foi conferida uma missão ( que acabou frustrada, por ausência de parte interessada ) o representante, acometido de delírios, passa a distribuir dinheiro da empresa, a autoridades e políticos sem nome e face, e que só aparecem para ele. Só ele as vê.
Sem brincadeira: as que as únicas “autoridades e políticos”, “paulistas” com quem a Alstom poderia e desejaria conversar, entre 1998 e 2001, pertenceriam ao “Governo do Estado de São Paulo”!!
Tá vendo? Já dei um nome ao monstro que assina contratos com a Alstom. Agora vamos esperar que o investigativo Estadão descubra se existiu alguma ilegalidade nesses negócios aí e, em caso positivo, nos diga ( detalhadamente ) quem recebeu, já que nós já sabemos – pelo Estadão – quem pagou.
MAS NÃO É SÓ O ESTADÃO…
Rabo preso com os tucanos
Chico Villela
NOVAE
O recente texto “O fim do ombudsman na Folha” é iniciado com esta afirmação: “A decadência do jornal Folha de S. Paulo é irreversível. Em texto anterior, ‘A III Word War e a mídia’, resenhei algumas das suas matérias sobre temas internacionais e destaquei procedimentos jornalísticos indignos por parte da Folha. O mais evidente, de uns anos para cá, tem sido a desproporcional cobertura dedicada aos erros e desmandos do governo Lula e aliados e a blindagem vergonhosa às ações ominosas e censuráveis de FHCs, Serras, Virgílios, Alckmins, Aécios e similares e seus aliados e partidos.”
Na edição de 25 de maio, o ombudsman da Folha publicou em sua coluna semanal de domingo ( que a partir da sua posse é a sua única manifestação pública ), sob o título “O Caso Alstom”: “Em 6 de maio, o ‘Valor’ revelou, com reportagem do ‘Wall Street Journal’, que a multinacional Alstom é investigada por denúncias de corrupção em negócios com o governo do Estado de São Paulo. Tenho cobrado na crítica interna e nesta coluna que a Folha melhore na cobertura do caso.
Além de poucas notas em colunas, o jornal publicou oito textos sobre o assunto. Em vários, não disse que as empresas envolvidas ( como Metrô ) são estatais. Em nenhum, ouviu ou disse ter tentado ouvir o governador José Serra ou os secretários de Estado a que estão subordinadas as empresas.
Em 16 de maio, mencionou que o PT fez uma pesquisa no site do Tribunal de Contas do Estado, segundo a qual há 139 contratos no valor de R$ 7,6 bilhões entre o governo estadual e a Alstom. Mas o próprio jornal não fez pesquisa nenhuma.
A Folha não se pronunciou em editorial sobre o tema e, exceto na coluna de Elio Gaspari ( 11 de maio ), não deu uma análise das conseqüências políticas do tema, coisa que até o ‘Wall Street Journal’ já fez.”
Conclusão: a blindagem é de tal forma vergonhosa que até mesmo o conservador sr. da Silva, ombudsman conveniente à direção do jornal, é forçado a reconhecer e manifestar-se.
Faltou dizer que a Alstom esta sendo investigada na Europa por múltiplas ações de corrupção em vários países, e que no Brasil foram detectados R$ 8,6 milhões em propinas que teriam ido, ao menos em parte, para o caixa de um partido político. Qual? A Folha pensa que é possível esconder o segredo. Como escondeu ao máximo o escândalo do propinoduto do PSDB, anterior ao do mensalão do PT, que, este sim, ficou meses sem conta nas manchetes. Imagine o leitor a enxurrada de matérias que estaria rolando se o partido subornado pela Alstom fosse o PT. Antigo slogan da Folha de S. Paulo: ‘um jornal de rabo preso com o leitor’. Visto de hoje, é apenas engraçado. As coberturas, com esse modelo desonesto de pesos e medidas, terminam distorcendo e omitindo fatos. Um exemplo recente é o caso do dossiê das despesas de FHC, vazado da Casa Civil de Dilma Roussef, potencial candidata à sucessão de Lula, que tem sua figura diariamente martelada no noticiário, com direito até a fotos em poses ridículas.
A risível oposição vem movendo montanhas para investigar o caso. Mas o jornal nunca destacou a intrigante outra ponta do fio, o envolvimento de membros do partido de FHC na obtenção e divulgação, na lata de lixo chamada Veja, de um dossiê que atinge o ex-presidente como um tapa na cara, além de respingar também em sua esposa. Há mais coisas entre o céu e a terra do que mostra a vã reportagem da Folha.
Chico Villela é editor e escritor