ENCALHE

março 10, 2008

Brasil dá mau exemplo e exporta "mordomias aéreas" para outros países. Não tem jeito, mesmo!!

Esta é a capa da ISTOÉ desta semana. Capaz de abalar a República…
Agora, proletas, vejam um problema rigidamente igualzinho, só que quem paga a conta é o cidadão americano. Antes que me esqueça, está em inglês – o que vocês constatariam por si próprios, sem a necessidade de eu tê-los avisado. Trata-se de uma agência federal ( pequena, diz o texto, com cerca de 300 funcionários ) estabelecida em 2004, com a missão de combater a pobreza global, promover o desenvolvimento sustentado, a boa governança, o investimento nas pessoas, todo esse blábláblá…
Watchdog finds highest rate of premium travel at small agency
Government Executive
06/ 03/ 08
The Millennium Challenge Corporation, a small federal agency, logged the highest rate of premium-class travel governmentwide between 2005 and 2006, according to a recent report from the Government Accountability Office.
Despite being limited to no more than 300 employees, the agency’s premium-class travel program was the sixth largest in dollars spent. Millennium Challenge’s mission is to reduce global poverty by promoting sustainable economic development necessitates a large amount of international travel, but its premium travel ranks high even among other agencies with international programs.

Between July 1, 2005, and Sept. 30, 2006, the agency spent about $6.2 million in airfare, approximately $4.8 million of which included at least one leg of premium travel. About 77 percent of the agency’s air travel was in a premium class, compared with the governmentwide premium average of 7 percent.
Employees booked premium-class tickets for 83 percent of flights to certain locations in Africa, the Middle East and Europe that lasted longer than 14 hours. The Agency for International Development used premium travel for 25 percent of flights and the State Department for 72 percent to the same location.
GAO found that flights of more than 14 hours were particularly susceptible to inappropriate premium-class booking. Before February 2006, Millennium Challenge used blanket authorizations to approve premium travel for flights exceeding 14 hours, but GAO noted that blanket authorizations violated the federal travel regulation.
“Premium-class flights are not something travelers are entitled to simply because certain conditions exist, and judicious approvals of premium class can reduce unnecessary expenses,” wrote Gregory Kutz, managing director of GAO forensic audits and special investigations, in the
management letter.
In February 2006, Millennium Challenge set a policy requiring authorization for travel on a trip-by-trip basis. But most of the flights GAO reviewed, even after the policy change, were not specifically authorized.
According to the federal travel regulation, premium travel authorization requires employees to report directly to work after flights longer than 14 hours without a rest period en route or upon arrival. GAO reported that a more stringent approval process for premium travel would prevent instances in which employees flew business class despite having a rest period during their trip or when they arrived.
In GAO’s audit of governmentwide travel practices, the watchdog agency found “that internal policy can contribute to an overall control environment that substantially restricts premium-class travel.” Kutz cited the Defense and Homeland Security departments as agencies that traveled premium class on only 3 percent of flights of more than 14 hours during the audit period, and he credited restrictions and scheduling policies with the relatively low spending on travel.
Millennium Challenge had several qualms with GAO’s assessment of its travel program. In responding to the report, agency officials criticized GAO for failing to mention policy changes already made to limit premium class travel. Kutz countered that GAO determined the changes to be “ineffective in addressing the MCC internal control weaknesses we found.”
The agency said despite “a number of factual errors … in the GAO draft management letter, MCC agrees with many of the reports conclusions.” Millennium Challenge specifically concurred with the need to justify and authorize each premium-class trip and the need to clarify agency policy to ensure premium class is used only when a rest stop is not feasible for business or medical reasons.


The Millennium Challenge Corporation (MCC) is a United States Government corporation designed to work with some of the poorest countries in the world. Established in January 2004, MCC is based on the principle that aid is most effective when it reinforces good governance, economic freedom and investments in people. MCC’s mission is to reduce global poverty through the promotion of sustainable economic growth.
Before a country can become eligible to receive assistance, MCC looks at their performance on independent and transparent policy
indicators. MCC selects eligible countries for Compact Assistance.
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Board of Directors
The MCC Board of Directors is composed of the Secretary of State, the Secretary of Treasury, the U.S. Trade Representative, the Administrator of USAID, the CEO of the MCC and four public members appointed by the President of the United States with the advice and consent of the U.S. Senate.
The Secretary of State is the Chair of the Board and the Secretary of Treasury is the Vice Chair.
E qual é a bronca?
Se consegui entender direito, outras agências, ou departamentos governamentais americanos não gastaram tanto em viagens de primeira classe para seus quadros. A pequena agência ( cujo papel é, relembremos, combater a pobreza nalguns países ), atualmente comandada por dona Condolezza, teve 83% das viagens feitas a certas localidades da África, Oriente Médio e Europa, na primeira classe. O Departamento de Estado – olha o grau de importância – quando dirigiu-se, a estes mesmos lugares, em 72% do total, na primeira classe.
Se é legítimo ou não, isso eu não sei e nem discuto. Mas não creio que vire capa da TIME ou da Newsweek e, se virar, não terá por intenção primeira, suprema e principal, derrubar o Bush. Acho eu, sei lá.
E olha que eu nem questionei o papel real dessa agência, tipo, um disfarce para espionar um país ou promover sabotagens para derrubar governos, acusações que pesam sobre a USAID, por exemplo.

fevereiro 28, 2008

Massacre no Império: revoltados com miséria e preconceito, dissidentes são tratados a bala pelo governo americano!!

1973: Revolta de Wounded Knee
No dia 27 de fevereiro de 1973, membros armados do Movimento Indígena Americano ocuparam a reserva de Wounded Knee, no estado de Dakota do Sul.
Eu não estava disposto a viver mais um dia sequer numa sociedade que destrói a cultura e espiritualidade de nosso povo”. Assim o lakota-sioux Dennis Banks, co-fundador do Movimento Indígena Americano (MIA), descreveu a situação dos índios dos Estados Unidos no começo dos anos 1970. Ele e muitos outros não queriam aceitar passivamente a destruição de sua cultura e identidade, o novo ataque de multinacionais à procura de recursos naturais e a condenação oficial a receptores de lixo tóxico e radiativo.
Wounded Knee é uma pequena localidade na reserva de Pine Ridge, em Dakota do Sul. Os sinais de uma nova consciência indígena já haviam se tornado evidentes em 1972, quando ativistas de todo o país realizaram um protesto diante da sede do Escritório de Assuntos Indígenas, em Washington, reivindicando o respeito a direitos garantidos por antigos acordos.
Tradicionalistas x progressistas
Pine Ridge era a mais pobre reserva de Dakota do Sul e passava por um conflito tribal entre “tradicionalistas” (de sangue puro) e “progressistas” (mestiços). Os tradicionalistas eram ligados ao MIA. Os progressistas apoiavam o governo, conheciam os meandros da burocracia estatal e embolsavam os recursos destinados à reserva.
A presença do MIA em Pine Ridge serviu de pretexto para o FBI instalar um mestiço alcagüete – o oglala (uma divisão dos sioux) Richard Wilson – no cargo de presidente do conselho tribal. Segundo o ex-procurador substituto de Dakota do Sul Ramon Roubideaux, o principal motivo da revolta, porém, foi a proibição de reuniões públicas, decretada pelos conselhos tribais e imposta com auxílio da polícia, após a fundação do MIA.
Em janeiro de 1973, quando um homem branco que matara um índio foi acusado apenas de homicídio doloso e não culposo, ocorreram os primeiros tumultos que, na noite de 27 de fevereiro, desembocaram na ocupação de Wounded Knee.
As reivindicações indígenas
Segundo o lakota (outra divisão da tribo sioux) Omacha Chanka, que participou da rebelião, os índios declararam a independência da nação oglala (do famoso chefe Touro Sentado) e reivindicaram a extinção dos conselhos tribais corruptos, a destituição de Richard Wilson e a devolução das montanhas Black Hills.
Armados com espingardas, os índios queriam denunciar o descaso da política indigenista do governo Nixon, mas foram cercados por centenas de agentes do FBI, munidos de armas modernas, helicópteros e carros blindados. O confronto teve saldo de dois índios mortos, 500 presos e feridos de ambos aos lados. No 71º dia do cerco, os índios se entregaram, acreditando na promessa de que o governo atenderia suas reivindicações. As autoridades, porém, nada fizeram além de reprimir com violência os nativos considerados politicamente suspeitos, o que causou a morte de mais 60 índios até 1975.
O cerco a Wounded Knee foi reconstituído no documentário Incidente em Oglala, dirigido por Michael Apted, com narração e produção executiva de Robert Redford. Há 175 anos, os índios dos EUA começaram a ser expulsos de suas terras e obrigados a viver em reservas. Junto com os nativos do Alasca, eles totalizam hoje uma população de mais de 2 milhões de habitantes.
Michael Kleff (gh)
DW
27/02/08

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( … )
Contra-espionagem de Nixon
Em meados do século XIX, a nação dos índios Sioux, por exemplo, um dos povos mais poderosos da América do Norte, lutava para preservar seus territórios
Leonard Peltier aderiu ao movimento logo no início1. Como militante, participou da luta contra o alcoolismo, da distribuição de alimentação e de ajuda, da criação de programas de auto-suficiência, da restauração das atividades religiosas tradicionais e em apoio ao renascimento das línguas autóctones.
O AIM pretendia chamar a atenção para as condições de vida dramáticas dos índios com ações espetaculares, mas não-violentas. Peltier participou, em 1970, da ocupação do Forte Lawton, onde conheceu os principais dirigentes do movimento: Dennis Banks e Russel Means. Em 1972, organizou a Marcha dos Tratados Violados, que terminou com a ocupação da Secretaria de Assuntos Indígenas, em Washington, e uma espetacular repercussão na imprensa. A partir de então, o AIM seria considerado pelo FBI como uma organização “subversiva” e seus líderes, como “inimigos”.
O governo do presidente Richard Nixon criou então o programa de contra-espionagem interna Cointelpro, para infiltrar e desestabilizar as chamadas organizações “subversivas”, entre as quais, o AIM. Em novembro de 1972, acusado de agredir agentes do FBI, Leonard Peltier ficou preso durante cinco meses, antes de ser absolvido, já que o caso fora forjado para comprometê-lo. Foi o início.
O tiroteio de Oglala
Na década de 50, muitos índios, principalmente os jovens, inspiraram-se na contestação política da época e criaram o American Indian Movement (AIM)
Ao mesmo tempo, o FBI manipulou a eleição para a presidência do conselho tribal de Pine Ridge (a principal reserva dos Sioux) de Richard “Dick” Wilson, um “entreguista” que foi eleito com os votos de menos de 20% dos eleitores.. Este teria por missão restaurar a ordem na reserva, considerada o ninho dos “agitadores”. Com fundos secretos, Wilson criou uma milícia, os Goon Squads (Guardians Of Oglala Nation – GOON, ou Guardiães da Nação Oglala). Para protestar contra a brutalidade dos Goon Squads, os Sioux, com a ajuda de militantes do AIM, ocuparam, em fevereiro de 1973, a histórica aldeia de Wounded Knee. Leonard Peltier participou dessa ação. As autoridades sitiaram a aldeia durante três meses, hesitando em invadi-la, e acabaram por matar dois Sioux. Em maio de 1973, os sitiados se renderam após exigir a abertura de negociações sobre os tratados violados e sobre as condições de vida dos índios. Nos meses que se seguiram, “Dick” Wilson e seus Goons tiveram carta branca para atacar os adversários. Uma onda de terror abateu-se sobre Pine Ridge: 80 militantes foram assassinados entre novembro de 1973 e o final de 1975… Diante dos crimes das milícias, os anciãos da tribo pediram ajuda ao AIM. Os militantes – entre eles, Leonard Peltier – intervieram, conseguindo reduzir consideravelmente a repressão dos Goons. Instalaram-se na propriedade de uma família amiga, perto da aldeia de Oglala, na reserva de Pine Ridge. (…)
( Inicia e continua em “O Caso Leonard Peltier”, Le Monde Diplomatique, 2002 )

agosto 30, 2007

Fresh Fraud for Rotting Swindlers

Há tempos eu deixei de me interessar muito por coisas que me eram bem caras. Falo de cultura. Ou, para que ninguém tenha uma idéia distorcida a meu respeito: cultura pop.
Falo de rock, seriados, filminhos, gibis. Nada de jazz, música erudita, literatura ou teatro. Essas coisas que certas pessoas enumeram só para fingirem ser inteligentes. Não tenho porquê negar que sempre consumi aquele tipo de coisa. O que não signifique que só consumisse a tal cultura pop, mas a verdade é que não fui muito longe no interesse em apreciar a “alta cultura” ou as obras “do bom gosto”. E não fui muito longe nos estudos. Não sei se existe alguma relação, mas eu também fico com o pé atrás quando a cultura pop entra na conversa ou em discussões. O que não significa que tenha sido sempre assim. Esse papo de “quem-lê-o-quê” ou “fulano-escuta-e-é-fã-de-rock-underground” já fez parte de minha vida, a ponto de eu gastar um bom dinheiro em vinis e CDs e aprender a tocar guitarra. Também não fui muito longe. A verdade é que eu não encontro meu lugar. Ponto.
Entre os meus preferidos, havia uma banda chamada Dead Kennedys ( não vou apresentar. Para isso existe o Google ) . O pouco que eu entendo de inglês, aprendi sozinho, para conseguir traduzir suas letras. E, gostem ou não, que letras!! Abaixo um exemplo:
Pull My Strings
I’m tired of self-respect
I can’t afford a car
I wanna be a prefab superstar
I wanna be a tool
Don’t need no soul
Wanna make big money
Playing rock and roll
I’ll make my music boring
I’ll play my music slow
I ain’t no artist I’m a businessman
No ideas of my own
I won’t offend
Or rock the boat
Just sex and drugs
And rock and roll
Drool, drool, drool, drool, drool (etc.)
My payola!
Drool, drool, drool, drool, drool (etc.) My payola!
You’ll pay ten bucks to see me
On a fifteen foot high stage
Fat-ass bouncers kick the shit
Out of kids who try to dance
If my friends say I”ve lost my guts”
I’ll laugh and say
That’s rock and roll
( But there’s just one problem… Is my cock big enough Is my brain small enough For you to make me a star )
Give me a toot,
I’ll sell you my soul
Pull my strings and I’ll go far
And when I’m rich
And meet Bob Hope
We’ll shoot some golf
And shoot some dope
Is my cock big enough
Is my brain small enough
For you to make me a star
Give me a toot,
I’ll sell you my soul
Pull my strings and I’ll go far
Pode não parecer nada, mas aqui tratava-se de uma paródia da canção My Sharona, da banda considerada new wave The Knack. A paródia foi apresentada durante uma premiação da indústria musical americana, e os Dead Kennedys foram também apresentados como “new wave”, o que significaria “a nova moda comercial em voga no rock”. É necessário dizer que os Kennedys – que tiveram problemas logo na formação da banda, devido ao nome alusivo ao ex-presidente – teriam que apresentar seu “sucesso das paradas”, California Über Alles e começaram a fazê-lo de forma bem esdrúxula. Pouco após os primeiros acordes de “California”, a banda parou de executá-la, ríspidamente, causando susto e curiosidade na platéia, que teve que ouvir quietinha o que viria a seguir: uma crítica à índústria da música e seus rockstars. Os anos 70 em seus estertores e todos os seus excessos. Os Rolling Stones viraram multimilionários, Elvis também. Elvis morreu. As grandes bandas alugavam aviões e tocavam em estádios. E cobravam caro. Mick Jagger frequentava o jet-set e as discotecas. O rock virou um negócio de grandes proporções. Se havia alguma auto-crítica, a heroína e a cocaína cuidavam disso. A cultura de massas tinha sua trilha sonora.
Num dia recente, eu descolei numa biblioteca, um livro da década de 70, de uns autores franceses – creio que marxistas ( não entendo muito disso ) – em que o tema era o rock da libertadora e rev olucionária década de 60. Tratavam de demontrar o caráter de mercadoria da música, da produção, essas coisas. Foi muito instrutivo.
Os autores desciam o cacete nos Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan ( esse então ficou cheio de hematomas ), Frank Zappa, MC5, Stooges. Se me lembro bem, só os Doors obtiveram alguma simpatia dos autores. Acho que é por causa da influência da Literatura e Teatro que a banda tinha, que não os fez correr atrás de alguma pretensão “revolucionária”, apenas artística. Sei lá, não saberia explicar.
A questão mais evidente: o rock fez com que os brancos ganhassem dinheiro com a música negra e os negros continuavam se ferrando na América. E as empresas ganhavam os tubos com a “revolução” dos ’60 e a guerra. Keith Richards, dos Rolling Stones definiu bem a relação entre as gravadoras e a Guerra do Vietnã: seu selo ( DECCA, se não me engano ) era subsidiária de uma companhia que vendia armas, ou ganhava dinheiro nisso de algum modo. Ou seja: O rock dos anos 60 ajudou a matar os vietnamitas.
Essa é a questão da qual não podemos fugir: os personagens que regem a economia e a produção mundiais estão interligados em uma rede, e não acho que possamos escapar disso.
De qualquer forma, isso é assunto para outra ocasião.
Voltemos aos Kennedys.
A banda – formada por volta de 78, nos EUA, quando os Sex Pistols já haviam sido fulminados e a piada havia perdido a graça – começou no cenário musical californiano, no movimento que ficou conhecido no mundo como “hardcore”, uma vertente mais rápida e pesada do punk rock. Mas os Kennedys saíam um pouco da fórmula. “Holiday in Cambodia”, sobre as guerras na Indochina e crítica aos yuppies e ao racismo, não faria feio em um disco de space-rock; já”The problem is bigger now” – na qual lamentam a eleição de Ronald Reagan em 1980 e prevêem que o Senhor da Guerra governaria com a Ku-Klux-Klan e a Maioria Moral, e El Salvador estaria fudido e sangrando – é apresentada na forma “jazzística happy-hour style”.
O governo e a sociedade americana sempre foram os temas dominantes. A guerra e o yuppismo, a ganância e o racismo, a televisão, a violência policial, a direita religiosa, o sistema educacional ( com seus jocks e quarter-backs ) para formação de gestores com foco em lucratividade, tudo isso foi abordado em suas canções. Se esse comportamento é “anticapitalista”, eu não posso dizer, já que também é difícil imaginar um “comunismo” americano ( é que o rótulo “comunismo” é muito abrangente, em termos de Guerra Fria ou caça ao terror ).
A predileção por tais temas não os fazia, digamos, panfletários ingênuos e proselitistas. O sarcasmo e o humor negro davam o tom. As maiores contradições e tragédias da humanidade eram apresentadas como gags. Havia também, percebe-se, uma teatralização da coisa, tipo Alice Cooper. Ou, como quando Edgard Alan Poe descrevia a sensação de horror de “ter sido” enterrado vivo, a história era contada pela visão de uma persona, o ponto de vista do autor da letra devia ser entendido nas entrelinhas.
Bom, tanto comportamento confrontador causou-lhes problemas com a censura, ou dificuldades em se apresentar nos lugares. Claro que, para muitos, ser censurado significa aumentar as vendas. A rebeldia tatuada estudada se compra no Wal-Mart.
Ocorre que nem todos cuidam da carreira e de sua própria segurança. O vocalista, Jello Biafra era – e continua sendo, mesmo após o final da banda em 1986 – o que chamamos de “ativista”. A banda se desfez, após um enfrentamento com a Justiça americana, sofrendo um processo por “distribuição de material impróprio a menores”. No disco Bedtime for Democracy, de 1985, foi encartado um pôster de um trabalho do artista H.R.Giger, chamado “Penis Landiscape”. Uma adolescente comprou um exemplar para presentear o irmão e, segundo consta, foi surpreendido pela mãe enquanto analisava o encarte. A mãe denunciou à Justiça.
Deixa eu encurtar: Jello Biafra, que em 1979 ficou em quarto lugar na eleição para prefeito de São Francisco, era o verdadeiro mentor intelectual “ideológico” da banda. Os outros não levavam isso tão a sério. Logo no início da carreira, seu guitarrista ficou puto com Jello quando este jogou o conteúdo de um copo de cerveja num manager de uma gravadora “major”, durante um show. O sujeito estava ali para tentar assinar com a banda e Jello ( proprietário do selo “independente” Alternative Tentacles, que lançava as obras da banda e, depois, de outros artistas que não encontravam lugar na indústria ) estragou o negócio; houve também um assédio da Levi’s ( acho que é recente, quando não existia mais a banda ) para que “Holiday in Cambodia” virasse tema de campanha da marca. A Ivete Sangalo ou o Chorão não titubeariam. Mas Jello, coerente, frustrou os planos da empresa e de seus ( ex-? ) companheiros de banda. O radical Clash fechou com a Levi’s.
Durante aquele processo judicial, a banda acabou. Do mundo musical e artístico, poucos apoiaram Jello, pois ele e um, acho que gerente de seu selo, é que foram para o banco dos réus. Se bem estou certo, somente Frank Zappa, Iggy Pop e Steve Van Zandt apoiaram e testemunharam a favor do vocalista dos Kennedys. As lojas que, no início, foram acusadas também, pararam de vender os discos da banda. Os EUA viviam uma espécie de caça às bruxas. Havia um grupo de pais que fundara o PMRC ( Parents Music Resource Center ) tendo à frente, a esposa do Senador Albert Gore ( sabem quem é, não sabem? ), a senhora Tipper Gore. Foram acusados por diversas vezes, de difundir o abuso de drogas, a violência, a prostituição, e de corromper a juventude americana, artistas como Michael Jackson, Madonna, Prince, WASP, Bruce Springsteen.
Até onde eu sei, desse período, apenas os Dead Kennedys – ou, mais precisamente, Jello Biafra – foram realmente processados. A banda acabou, o selo Alternative Tentacles faliu e, para ajudar nas despesas e custas processuais, Jello Biafra fundou o No More Censorship Fund. No final, Jello foi inocentado ( viram como processo é uma coisa e condenação é outra, golpistas? ) por um placar apertado: coisa do tipo 5 a 4 ou 4 a 3. Um dos jurados chegou a pedir que Jello autografasse uma cópia do poster proibido. Jello passou a percorrer pelos Estados Unidos, em sindicatos, escolas e universidades, fazendo palestras sobre temas como censura e o processo que sofrera, as guerras, o governo americano, a situação do meio ambiente, o lixo tóxico e nuclear, etc.
Veio a década de 90, Bush pai invade o Iraque, e Jello – que, ao que parece, é filiado ao Partido Verde de Ralph Nader – lança o single “Die for Oil sucker”.
Sua gravadora passa a lançar spoken-albuns, contendo discursos de Jello. Hoje em dia, além de música, você encontra à disposição livros e spoken-albuns de Noam Chomsky, Mumia Abu-Jamal ( Pantera Negra no corredor da morte há mais de 20 anos ) , Howard Zinn, Greg Palast, e outros.
Os ex-integrantes da banda processaram Jello e ganharam os direitos da banda. Alegavam que ele não dava os devidos créditos e não pagava o justo. Hoje em dia, após terem embarcado em carreiras irregulares, retomaram a banda, com um nome parecido ( The DK’s ) e passaram a se apresentar por aí, em shows de nostalgia, chegando até a tocar no Brasil ( em 1986 teriam vindo ao Brasil, mas a extinção do grupo tornou isso um pouquinho difícil ) .
Só que com um detalhe: o vocalista que chamaram não conhece as letras.
Os novos Kennedys também passaram a comercializar gravações ao vivo, bootlegs que, de acordo com algumas matérias que li, são de péssima qualidade.
Em suma: de uma banda que confrontou a era Reagan, os DK ( ou The DK’s ) se tornaram uma paródia caça-níqueis, uns Rolling Stones do punk mais fraudulentos que os Sex Pistols que, com seu karaokê nostálgico, enterram de vez a dignidade que um dia possuíram e que, justamente, os tornou tão interessantes e motivou as pessoas a vê-los e ouví-los na América dos anos 80.
Quando houve aquele quebra-quebra em Seattle, os protestos anti-globalização, e aquilo tudo que horroriza e apavora a Veja e o Estadão, Jello estava lá, se apresentando em um curto show, numa banda que tinha o ex-Nirvana Kirst Novoselic no contrabaixo, formada para essa apresentação.
Porquê eu comecei a falar disso tudo?
É que hoje me bateu uma nostalgia, e eu fui dar uma olhada no site da Alternative Tentacles.
Alguém mandou uma mensagem [ ver abaixo, só que em inglês, apedeutas ] dizendo que, em 2003, os The New Adventures of old Cretins, os The DK’s, ou seja lá o nome que for, se apresentavam num lugar e manifestaram seu apoio à invasão americana no Afeganistão. Há também uma nota do próprio Jello ( 03/15/07 : Greedy ex-DKs okay song for rape scene in new Tarantino Movie ), lamentando que os farsantes tenham participado de um filme de Tarantino, fazendo a trilha de uma cena de estupro. A canção executada na cena,”Too drunk to fuck” ( que já havia sido censurada no final da década de 70 ) , apesar do nome forte, satiriza o abuso de álcool. Eu não sei qual filme que é.

March 14, 2003 :
Fake DK’s Support Bush’s War???
We recently received this letter addressed to “Mr. Biafra” :
“[..]I don’t mean to get off on a rant, but I write to you also concerning the DK Kennedy’s recent (and, in fact, currently running) tour. I attended the concert myself, along with a few of my friends who, like myself, believe in you and hold great contempt for the falsities and blatant corruption that the DK Kennedys have forced upon fans of the Dead Kennedys. We attended the show at the Norva, in Norfolk, Virginia. We were, to say the least, completely appalled with the entire performance by the DK Kennedys. The opening bands, Project 208 and the Unabombers, were worth the money paid for the tickets (which were $17.50 apiece) but the DK Kennedys sucked a big, rubbery one. The claims of Brandon Cruz seeming to not even know the songs he was singing, and the band being in sore shape, were proven in the first minute of stage time that the corporate sell-outs got.
[..]Cruz made a comment about you that you may not be aware of, roughly that you were a terrorist because you didn’t love your country and that you were no better than Osama Bin Laden (at which point my small, ragtag group of friends began chanting “JELLO! JELLO! JELLO! JELLO! JELLO!” so that the band left the stage for a period of five minutes) then came back out and, before continuing with their less-than-sad performance, said quietly “But he has the right to his own opinion”. I do honestly believe he was just trying to shut us up, and it didn’t work.
[...]Then just before launching into “Holiday In Cambodia”, D.H. says “this song goes out to all the U.S. troops overseas in Afghanistan. We support President Bush’s actions in Afghanistan.”This is about the time when we all looked at each other and said “What? This, from a person who once performed with a band who played a song called “Stars and Stripes of Corruption”?.
[...]
With No Further Ado, Greyson Edwards”
A witness at a more recent concert reported Brandon Cruz giving a “patriotic” speech about “love of country” as an intro to “Kill The Poor”.

Abaixo, a letra de “Stars and Stripes of Corruption”, de 1985. Veio no álbum em que estava o famoso poster. Eu tenho a impressão de que, o que realmente quiseram censurar ou punir, era essa letra. O poster foi a desculpa para isso.

Stars And Stripes Of Corruption

Dead Kennedys
Finally got to Washington in the middle of the night
I couldn’t wait
I headed straight for the Capitol Mall
My heart began to pound
Yahoo! It really exists
The American International Pictures logo
I looked up at that Capitol Building
Couldn’t help but wonder whyI felt
like saying “Hello, old friend”
Walked up the hill to touch it
Then I unzipped my pants
And pissed on it when nobody was looking
Like a great eternal Klansman
With his two flashing red eyes
Turn around he’s always watching
The Washington monument pricks the sky
With flags like pubic hair ringed ’round the bottom
The symbols of our heritage
Lit up proudly in the night
Somehow fits to see the homeless people
Passed out on the lawn
So this is where it happens
The power games and bribes
All lobbying for a piece of ass
Of the stars and stripes of corruption
Makes me feel so ashamed
To be an American
When we’re too stuck up to learn from our mistakes
Trying to start another Viet Nam
Whilke fiddling while Rome burns at home
The Boss says, “You’re laid off. Blame the Japanese”
“America’s back,” alright
At the game it plays the worst
Strip mining the world like a slave plantation
No wonder others hate us
And the Hitlers we handpick
To bleed their people dry
For our evil empire
The drug we’re fed
To make us like itIs God and country with a band ( N.do blog: “a bang”? )
People we know who should know better
Howl, “America rules. Let’s go to war!”
Business scams are what’s worth dying for
Are the Soviets our worst enemy?
We’re destroying ourselves instead
Who cares about our civil rights
As long as I get paid?
The blind Me-Generation
Doesn’t care if life’s a lie
so easily used, so proud to enforce
The stars and stripes of corruption
Let’s bring it all down!
Tell me who’s the real patriots
The Archie Bunker slobs waving flags?
Or the people with the guts to work
For some real change
Rednecks and bombs don’t make us strong
We loot the world, yet we can’t even feed ourselves
Our real test of strength is caring
Not the toys of war we sell the world
Just carry on, thankful to be farmed like worms
Old glory for a blanket
As you suck on your thumbs
Real freedom scares you’Cos it means responsibility
So you chicken out and threaten me
Saying, “Love it or leave it”
I’ll get beat up if I criticize it
You say you’ll fight to the death
To save your useless flag
If you want a banana republic that bad
Why don’t you go move to one
But what can just one of us do?
Against all that money and power
Trying to crush us into roaches?
We don’t destroy society in a day
Until we change ourselves first
From the inside out
We can start by not lying so much
And treating other people like dirt
It’s so easy not to base our lives
On how much we can scam
And you knowIt feels good to lift that monkey off our backs
I’m thankful I live in a place
Where I can say the things I do
Without being taken out and shot
So I’m on guard against the goons
Trying to take my rights away
We’ve got to rise above the need for cops and laws
Let kids learn communication
Instead of schools pushing competition
How about more art and theater instead of sports?
People will always do drugs
Let’s legalize them
Crime drops when the mob can’t price them
Budget’s in the red?
Let’s tax religion
No one will do it for us
We’ll just have to fix ourselves
Honesty ain’t all that hard
Just put Rambo back inside your pants
Causing trouble for the system is much more fun
Thank you for the toilet paper
But your flag is meaningless to me
Look around, we’re all people
Who needs countries anyway?
Our land, I love it too
I think I love it more than you
I care enough to fight
The stars and stripes of corruption
Let’s bring it all down!
If we don’t try
If we just lie
If we can’t find
A way to do it better than this
Who will?
Taí. Jello Biafra, um anacrônico ativista americano dos anos 60, só que em 2007.
Alternative Tentacles

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