ENCALHE

maio 20, 2009

"Golpe de 64 em São João da Boa Vista", de Jasson de Oliveira Andrade, na Biblioteca Aureliano Leite ( Sapopemba )

Quem costuma visitar este humilde blog, sabe que costumamos receber a colaboração do articulista do Portal Mogi Guaçu, Jasson de Oliveira Andrade. E, devo informar que seus textos são alguns dos mais lidos, tanto no “Correio da Elite” quanto em seu irmão do WordPress, o “ENCALHE” ( sim, eu mantenho dois blogs, apesar de não possuir ainda um computador ).
Em 03 de Junho de 2008, eu iniciei o post “GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA”. Livro de Jasson de Oliveira Andrade. ( tinha acabado de ler o livro e tentado fazer algum comentário a seu respeito ) dizendo que o primeiro contato que tive com Jasson havia sido uma mensagem que ele me enviara, elogiando o teor de uma carta minha publicada no Estadão. Respondi que ele foi o primeiro a me contatar por isso sem me xingar ( ahahaha ).
Em 10 de Junho de 2008, eu escrevi o seguinte post: “GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA”, de Jasson de Oliveira Andrade. A Guerra Fria sem CIA e KGB.
Mas não vou me estender nisso, e sugiro que antes de prosseguirem com a leitura, visitem os posts para terem um conhecimento prévio da obra. Vão lá que eu espero.
Já de volta? Ótimo. Prossigamos:
Eu não exagerei ao dizer que aprendi com o livro. Por exemplo: jamais soubera que o dono do Estadão – um ds cabeças civis do golpe – ajudara os golpistas de 1964 a redigir um Ato Institucional tão fascista que até os generais tremeram, e a proposta do cidadão não foi acatada: ” ( … ) Tempos depois, [ comenta Jasson a partir do livro A Ditadura Envergonhada, de Élio Gaspari ] um ex-ministro do Estado Novo de Vargas, Vicente Ráo, ajudou o líder civil do golpe Mesquita Filho na redação de uma proposta a Ato Institucional; entre as sugestões, a dissolução de todas as câmaras legislativas nos três níveis, sem exclusão do Senado, suspensão do habeas-corpus, cassação de mandatos de prefeitos e governadores, entre outras medidas “saneadoras”( … )”.
Uma pequena amostra de como nossa imprensa ajudou a construir a Democracia neste País. A Folha não teve exclusividade nas relações carnais com o regime dos quartéis.
Pois bem: recentemente, contatei Jasson, com o objetivo de saber como comprar um exemplar, pois queria doar a obra à biblioteca de meu bairro.
Ele, generosamente, se prontificou a fazer a doação. Pedi a ele que, então, fizesse assinasse uma nota, um recado ou uma dedicatória. Dias depois, o livro chegou, e hoje eu fiz a entrega na biblioteca.
Um fato “cômico”: a moça havia dito que a biblioteca, devido à falta de espaço, não poderia receber mais livros, e me indicou uma ONG próximo dali, que ficaria com o livro. Menos mal. Comuniquei ao Jasson, e ele disse que tudo bem.
Hoje, ao fazer uma devolução de livros, meio que insisti: “e então, vocês não querem ficar MESMO… e coisa e tal?”.
A mulher relutou e perguntou do que se tratava. Eu lhe mostrei o livro, ela olhou e disse:
- Ah! Mas esse aqui a gente quer sim. Interessa, sim.
E ficou com ele. E vocês que, porventura, costumam freqüentar a biblioteca Aureliano Leite, no Parque São Lucas, e ficaram interessados no “Golpe de 64 em São João da Boa Vista” – ainda mais hoje em dia, em tempos da “Ditabranda Desavergonhada” da Folha, e de revisionismo -, agora já o têm à vossa disposição, cortesia do próprio autor, Jasson de Oliveira Andrade.
Biblioteca Aureliano Leite.
R. Otto Schubart, 196, Parque São Lucas.
Tel.: 2211-7716.
Atendimento: 2ª a 6ª, das 8h às 17h; sábado, das 9h às 16h.

abril 9, 2009

Jornalista acusa Folha de manipular entrevista para prejudicar Dilma Rousseff

Indignado com a reportagem “Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto”, publicada na Folha de S. Paulo de 05/04, o jornalista Antonio Roberto Espinosa, que concedeu entrevista para o jornal, acusa o diário, na Carta de Leitores da edição desta quarta-feira, de ter manipulado as informações que passou à repórter Fernanda Odilla. Ele também se queixa de ter a primeira carta enviada recusada – publicada na íntegra em blogs como o de Luís Nassif.
Segundo o jornalista, o jornal “transformou um não fato do passado (o sequestro que não houve) num factóide do presente (o início de uma sórdida campanha), que vai desacreditar ainda mais o jornal da ‘ditabranda’”.
Seu objetivo com a carta, segundo o próprio Espinosa, é “amenizar os danos à imagem e à honra da ministra Dilma Rousseff”. A entrevista, conta na primeira carta, tratava da história da VAR-Palmares, uma organização política de resistência ao regime militar e da qual Dilma fazia parte. Espinosa foi o responsável nacional pelo setor militar da organização e assume todas as iniciativas que dali partiram contra a ditadura.
Ele também questiona as investigações feitas por telefone pela repórter, chamando o trabalho de “fonoportagem”.
Ainda na primeira carta, publicada em blogs, o autor se diz chocado com “a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário”.
Em sua defesa, Fernanda diz que a reportagem “não afirmou que Dilma Rousseff planejou o sequestro de Delfim Netto. Trouxe, sim, declarações do ex-dirigente da VAR-Palmares, que, pela primeira vez, assumiu que o plano existia e que ele foi seu coordenador. À Folha, Espinosa disse que, no final de 1969, todas as tarefas ( as ‘políticas’ e o ‘foco guerrilheiro’ ) da VAR ‘eram do comando nacional’, citou três vezes Dilma Rousseff como um dos cinco integrantes desse colegiado e, indagado pela Folha em diferentes momentos, afirmou que ‘os cinco sabiam’ do plano de sequestro e que ‘não houve nenhum veto’”.
Ela afirma que todas as declarações estão gravadas, enquanto Espinosa desafia o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para comprovar que houve manipulação.
O jornal informou que a primeira carta do jornalista chegou às 21h58 de domingo (05/04), sendo que o “Painel do Leitor” fecha às 20h. ( Comunique-se, 08.04.09 )
NOTA DESTE BLOG: num post anterior, o “Revistas que você deve ler ( 1 )“, eu sugeri a leitura da História Viva edição 65. Um dos textos / ensaios, assinado por Renato Alencar Dotta aborda a rede de jornais e revistas de conteúdo Integralista. E a Folha aparece lá também, indiretamente, em breve passagem.
Confiram: “( … ) Dirigido durante toda sua existência por Reale [ Miguel Reale, ex-reitor da USP ], o jornal [ o "Acção" ] tinha conteúdo similar ao de A Offensiva [ segundo a HV, foi um jornal de circulação nacional fundado no Rio de Janeiro em 1934, e trazia textos de Gustavo Barroso, Câmara Cascudo e D. Helder Câmara. Durou quatro anos. ], com textos doutrinários, mas também notícias locais ( … ) ao publicar material não-doutrinário, os integralistas queriam atrair o leitor comum para suas idéias ( … ) Entre seus redatores estava Mário Mazzei Guimarães, que foi chefe integralista da cidade de Colina, no interior de São Paulo, e mais tarde fez longa carreira como redator-chefe da Folha da Manhã [ mais tarde, Folha de São Paulo ] ( … )” .
Sei lá. Acho que não é nenhum segredo mas pensei: “Por quê não copiar, né?”. Aí está.

abril 2, 2009

"Milagre" pós-1964 concentrou renda em período de expansão econômica

Gilberto Costa
Repórter da Agência Brasil
Brasília – O período militar de 1964 a 1985 abrigou grandes contradições na sociedade brasileira, como a modernização da economia a custo do agravamento da desigualdade social. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os 20% dos brasileiros mais pobres tinham 3,9% do total da renda nacional em 1960. Vinte anos depois, em 1980, esse mesmo um quinto da população concentrava apenas 2,8% de toda a renda produzida no país.
Em 1974, após o chamado “milagre econômico”, o salário mínimo tinha a metade do poder de compra de 1960. Nos anos do milagre (1968 a 1973), a taxa de crescimento econômico ficou em torno de 10%, com picos de 14%, e a indústria de transformação expandiu quase 25%.
As contradições econômicas de um país que ficava mais rico e a população mais pobre têm explicações políticas, avalia o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann. “A ausência de democracia impossibilitou haver pressão de baixo. A política autoritária acabava consagrando os resultados econômicos.”
Para a economista Leda Paulani, da Universidade de São Paulo (USP), os momentos de maior crescimento econômico são propícios para expansão do emprego e da renda, “porque a demanda por trabalho é muito alta, não há risco de desemprego”. A ditadura, no entanto, impediu essa associação virtuosa ao reprimir a organização política e a luta sindical. “Os trabalhadores não podiam lutar por maiores fatias do bolo, os sindicatos estavam amordaçados”, lembra.
Leda assinala que “as condições econômicas para o milagre foram colocadas no período anterior à ditadura”, referindo-se à capacidade instalada da indústria e ao contexto da economia internacional. Em sua opinião, o milagre melhorou em termos absolutos a situação de setores que tiveram acesso ao crédito. “O crescimento por si só era bom. O crédito acabava melhorando a vida material. Mas ,em termos relativos ,as desigualdades se aprofundaram nos estratos mais pobres. Não se aproveitou aquele momento de crescimento para resolver a desigualdade distributiva.”
Segundo Pochmann, no golpe militar de 1964 [assim como na Revolução de 1930] predominou uma convergência política em torno do crescimento econômico, como mecanismo de postergar as soluções dos problemas sociais e de manter a concentração patrimonial e a desigualdade de renda. “O crescimento era uma convergência que impedia a oposição frente aos resultados sociais insatisfatórios e à própria ausência de democracia.”
“Os ministros da economia eram pessoas muito elitistas, pensaram o desenvolvimento econômico por meio da liderança de certas elites estratégicas. No caso do campo, virou agrobusiness, no caso da indústria, foi a consolidação [do mercado de bens de consumo] e a abertura para o exterior”, complementa Benício Schmidt, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB).
Conforme Schmidt, a escolha pelo crescimento sem distribuição de renda teve conseqüências econômicas e sociais bastante graves. “Hoje ,nossa economia está praticamente monopolizada, fruto dessa acumulação concentrada. É claro que isso aí não gerou os empregos que deveria, não ajudou a renda como deveria e trouxe muitos problemas. Não serviu para pressionar o sistema educacional para atender uma demanda que nunca existiu. Isso tudo foi acumulando e deu no que deu: uma das concentrações de renda mais altas do mundo”, lamenta.
Além da questão econômica e social, o cientista político faz a ligação entre o modelo econômico e a repressão durante a ditadura. “A elite militar estava sustentada no empresariado, com grandes conexões internacionais. Um número reduzido de empresários que financiaram a Operação Bandeirantes (Oban)”, diz, referindo-se à formação paramilitar dos órgãos de repressão em São Paulo, financiada por grandes empresas, inclusive multinacionais, para combater a resistência à ditadura.
“Os empresários financiaram o golpe de Estado e com ele expandiram muito seus negócios, tiveram nos militares uma grande segurança, um grande guarda-chuva de proteção”, avalia Schmidt.

março 27, 2009

Deputado Paulo Teixeira relembra o Golpe 64, por Jasson de Oliveira Andrade


Poucos dias antes de completar 45 anos do Golpe de 64, o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) pronunciou um histórico discurso na Câmara Federal, analisando a Ditadura Militar, citando ainda o que ocorreu em São João da Boa Vista, além de meu livro. Eis o que ele disse:
“Daqui a menos de uma semana, o Golpe de 64 completará 45 anos. Não é uma data para se comemorar. Muito menos uma data para ser esquecida. Nem diminuída como fez há pouco um grande jornal. O que se seguiu ao Golpe foi uma sucessão de arbitrariedades, injustiças, desmandos que as novas gerações precisam conhecer.
Muita gente foi perseguida, presa, torturada e morta. Muita gente teve a vida irremediavelmente atingida. Muita gente sofreu, muita gente se perdeu.
Vários já falaram sobre esses dias de Chumbo. Mas hoje, nessa tribuna, gostaria de lembrar de gente absolutamente inocente, gente que foi perseguida porque era adversária política dos grandes coronéis da época e que ousou deixar claras suas posições. Isso aconteceu tanto a homens conhecidos e lembrados até hoje, como Vladimir Herzog quanto com alguns colegas de profissão de Herzog que, mesmo em cidades pequenas, tiveram que enfrentar a fúria dos truculentos de plantão. Falo especificamente de um homem, um jornalista, um advogado, um pensador muito querido por mim: meu amigo Jasson de Oliveira Andrade.
Em 1964, Jasson era um exemplar funcionário do então Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (Samdu) em São João. Nas horas vagas, também era redator do jornal O Município, onde era encarregado, além de redigir as páginas de esportes, de cobrir as atividades da Câmara Municipal.
Jasson também era militante do PTB. Talvez isso tenha irritado o que se chamava de “direita de plantão” na época. O fato é que ele foi preso dois dias depois do Golpe. Passou mais de um mês na cadeia. Depois, foi exonerado.
Perdeu seu emprego no Samdu sem qualquer motivo. Tinha mulher e um bebê de nove meses para sustentar. Não houve qualquer explicação legal para o fato. Jasson não foi o único. Outros companheiros de São João da Boa Vista como Ito Amorim, Hélio Fonseca, Benedito Sérgio de Almeida Brandão, Wilson Lourenço Gomes foram presos e acusados.
Os “comunistas” foram inclusive acusados de serem os responsáveis por uma série de incêndios que haviam ocorrido na região na década anterior. Anos depois foi apurado que não só os acusados eram inocentes como também passou a haver a forte suspeita de que os mesmos dedos que acusavam haviam participado da “obra”.
Jasson conta a sua história no livro “Golpe de 64 em São João da Boa Vista”. Um relato histórico, mas emocionado, de como a ditadura foi capaz de alterar para sempre o destino e a história dele e de outros brasileiros, dos mais comuns aos mais ilustres.
Quem tenta reduzir a extensão dos danos que a ditadura causou a nosso país incorre não apenas num erro histórico detestável, mas numa enorme injustiça. O Golpe não foi nem um pouco brando com Jasson. Mas ele está vivo para contar sua história. Mas também não houve qualquer brandura com outros tantos como Vladimir Herzog, Edson Luiz, Manoel Fiel Filho ou Rubens Paiva – só para citar alguns.
Então, senhor presidente, senhoras e senhores deputados, minha homenagem a todos que se mantiveram firmes naqueles tempos duros. Meu profundo respeito aos que ousaram acreditar. E meu apelo para que não nos esqueçamos daqueles dias. Para que eles jamais se repitam”. (PEQUENO EXPEDIENTE, 25/3/2009)
Torcemos para que realmente aqueles dias jamais se repitam: DITADURA NUNCA MAIS!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
25 de Março de 2009

Deputado Paulo Teixeira relembra o Golpe 64, por Jasson de Oliveira Andrade


Poucos dias antes de completar 45 anos do Golpe de 64, o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) pronunciou um histórico discurso na Câmara Federal, analisando a Ditadura Militar, citando ainda o que ocorreu em São João da Boa Vista, além de meu livro. Eis o que ele disse:
“Daqui a menos de uma semana, o Golpe de 64 completará 45 anos. Não é uma data para se comemorar. Muito menos uma data para ser esquecida. Nem diminuída como fez há pouco um grande jornal. O que se seguiu ao Golpe foi uma sucessão de arbitrariedades, injustiças, desmandos que as novas gerações precisam conhecer.
Muita gente foi perseguida, presa, torturada e morta. Muita gente teve a vida irremediavelmente atingida. Muita gente sofreu, muita gente se perdeu.
Vários já falaram sobre esses dias de Chumbo. Mas hoje, nessa tribuna, gostaria de lembrar de gente absolutamente inocente, gente que foi perseguida porque era adversária política dos grandes coronéis da época e que ousou deixar claras suas posições. Isso aconteceu tanto a homens conhecidos e lembrados até hoje, como Vladimir Herzog quanto com alguns colegas de profissão de Herzog que, mesmo em cidades pequenas, tiveram que enfrentar a fúria dos truculentos de plantão. Falo especificamente de um homem, um jornalista, um advogado, um pensador muito querido por mim: meu amigo Jasson de Oliveira Andrade.
Em 1964, Jasson era um exemplar funcionário do então Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (Samdu) em São João. Nas horas vagas, também era redator do jornal O Município, onde era encarregado, além de redigir as páginas de esportes, de cobrir as atividades da Câmara Municipal.
Jasson também era militante do PTB. Talvez isso tenha irritado o que se chamava de “direita de plantão” na época. O fato é que ele foi preso dois dias depois do Golpe. Passou mais de um mês na cadeia. Depois, foi exonerado.
Perdeu seu emprego no Samdu sem qualquer motivo. Tinha mulher e um bebê de nove meses para sustentar. Não houve qualquer explicação legal para o fato. Jasson não foi o único. Outros companheiros de São João da Boa Vista como Ito Amorim, Hélio Fonseca, Benedito Sérgio de Almeida Brandão, Wilson Lourenço Gomes foram presos e acusados.
Os “comunistas” foram inclusive acusados de serem os responsáveis por uma série de incêndios que haviam ocorrido na região na década anterior. Anos depois foi apurado que não só os acusados eram inocentes como também passou a haver a forte suspeita de que os mesmos dedos que acusavam haviam participado da “obra”.
Jasson conta a sua história no livro “Golpe de 64 em São João da Boa Vista”. Um relato histórico, mas emocionado, de como a ditadura foi capaz de alterar para sempre o destino e a história dele e de outros brasileiros, dos mais comuns aos mais ilustres.
Quem tenta reduzir a extensão dos danos que a ditadura causou a nosso país incorre não apenas num erro histórico detestável, mas numa enorme injustiça. O Golpe não foi nem um pouco brando com Jasson. Mas ele está vivo para contar sua história. Mas também não houve qualquer brandura com outros tantos como Vladimir Herzog, Edson Luiz, Manoel Fiel Filho ou Rubens Paiva – só para citar alguns.
Então, senhor presidente, senhoras e senhores deputados, minha homenagem a todos que se mantiveram firmes naqueles tempos duros. Meu profundo respeito aos que ousaram acreditar. E meu apelo para que não nos esqueçamos daqueles dias. Para que eles jamais se repitam”. (PEQUENO EXPEDIENTE, 25/3/2009)
Torcemos para que realmente aqueles dias jamais se repitam: DITADURA NUNCA MAIS!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
25 de Março de 2009

março 10, 2009

Manifestação contra a "Ditabranda Desavergonhada" da Folha. Saiba como foi.

Eu não pude ir ( houve até surpresas, como a presença não-aguardada do padre Júlio Lancelotti, santo homem e protetor dos moradores de rua e crianças portadoras do HIV, também vítima de uma série de denúncias sensacionalistas e espúrias que, tenho a impressão, foram bem do agrado do sr. Andrea Matarazzo, se é que não foram feitas sob sua encomenda ), e ainda não consegui trazer até este blog as notícias fresquinhas, diretamente daquele que foi atrás, organizou, se comprometeu e não fraquejou, o Eduardo Guimarães. Torço muito por ele. Não sei se eu teria o mesmo desprendimento, e espero que ele sempre encontre forças para prosseguir, contanto que assim deseje. E que não queira levar o mundo nas costas ( não sei se isso é um bom conselho, ou se é conformismo e acomodação de minha parte ).
Enfim, se desejarem saber o que e como, sigam os links, a começar primeira e obrigatoriamente pelo blog CIDADANIA, do Eduardo Guimarães:
- “AOS QUE NÃO SE CALARAM“, e posts diversos ( Blog CIDADANIA )
- Manifestação põe ‘Folha’ e ‘ditabranda’ no devido lugar ( Vermelho, 07.03.09 )
- “Folha, de rabo preso com o feitor” ( CUT, 07.03.09 )

março 8, 2009

Vinícius Duarte: "Nome do fundador da ‘Folha da Ditabranda’ batiza Instituto do Câncer de SP, cuja obra ficou parada por 15 anos!!"

Ditaduras, ditamoles, ditabrandas…
Vinícius Duarte, do glorioso blog Com Fel e Limão

Realmente muito apropriado o instituto do Câncer de SP ser atribuido ao Frias da Folha de SP.
Tá mais que passado esse assunto, mas estou sem tempo de postar.
Você conhece o
Instituto do Câncer de São Paulo “Octávio Frias de Oliveira”? É aquele prédio na Av. Dr. Arnaldo, pertinho do Hospital das Clínicas, que foi um esqueleto por mais de quinze anos, agora finalmente concluído.
Talvez seja o único hospital do mundo com nome de “jornalista”. Mas, lendo a placa na porta e a especialidade, acho que tem tudo a ver.

Vinícius Duarte: "Nome do fundador da ‘Folha da Ditabranda’ batiza Instituto do Câncer de SP, cuja obra ficou parada por 15 anos!!"

Ditaduras, ditamoles, ditabrandas…
Vinícius Duarte, do glorioso blog Com Fel e Limão

Realmente muito apropriado o instituto do Câncer de SP ser atribuido ao Frias da Folha de SP.
Tá mais que passado esse assunto, mas estou sem tempo de postar.
Você conhece o
Instituto do Câncer de São Paulo “Octávio Frias de Oliveira”? É aquele prédio na Av. Dr. Arnaldo, pertinho do Hospital das Clínicas, que foi um esqueleto por mais de quinze anos, agora finalmente concluído.
Talvez seja o único hospital do mundo com nome de “jornalista”. Mas, lendo a placa na porta e a especialidade, acho que tem tudo a ver.

Vinícius Duarte: "Nome do fundador da ‘Folha da Ditabranda’ batiza Instituto do Câncer de SP, cuja obra ficou parada por 15 anos!!"

Ditaduras, ditamoles, ditabrandas…
Vinícius Duarte, do glorioso blog Com Fel e Limão

Realmente muito apropriado o instituto do Câncer de SP ser atribuido ao Frias da Folha de SP.
Tá mais que passado esse assunto, mas estou sem tempo de postar.
Você conhece o
Instituto do Câncer de São Paulo “Octávio Frias de Oliveira”? É aquele prédio na Av. Dr. Arnaldo, pertinho do Hospital das Clínicas, que foi um esqueleto por mais de quinze anos, agora finalmente concluído.
Talvez seja o único hospital do mundo com nome de “jornalista”. Mas, lendo a placa na porta e a especialidade, acho que tem tudo a ver.

março 4, 2009

"Folha está desnorteada com a crise", diz Maria Victória Benevides

EM DEBATE: A Mídia e o interesse na desinformação
Radioagência NP
Integrantes da sociedade civil brasileira lançaram um abaixo assinado em solidariedade à socióloga Maria Victoria Benevides e ao jurista Fábio Konder Comparato. Os dois foram alvo de ataques do jornal Folha de S. Paulo. O documento já conta com assinaturas de mais 5,8 mil pessoas, entre eles intelectuais do Brasil e do mundo. A Folha de S. Paulo qualificou de “ditabranda” o regime militar que vigorou no Brasil entre as décadas de 60 a 80. O termo foi usado em um editorial publicado no dia 17 de fevereiro, em comparação ao governo de Hugo Chávez, na Venezuela, que também foi enquadrado pelo jornal como uma ditadura.
Em entrevista à Radioagência NP, Maria Victoria afirma que o jornal utilizou-se de uma revisão histórica fraudulenta e ainda comenta que a “direção editorial do jornal insulta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país”.
Radioagência NP – Por que a Folha de S. Paulo tenta amenizar o significado do que foi este período da história brasileira?
Maria Victória - Os grandes jornais, como é o caso da Folha de S. Paulo, são empresas e, como empresas, têm muitos interesses. A discussão sobre o que foi a ditadura no Brasil, e que hoje está sendo muito aprofundada por conta de um processo de responsabilização do Estado em relação aos abusos cometidos durante a repressão, como torturas e mortes, pode chamar a atenção para outros problemas ligados à ditadura, problemas que muitas pessoas não gostariam de mexer.
RNP – Isto está relacionado com as atuais tentativas de fazer com que o Estado brasileiro assuma de vez sua real responsabilidade sobre os crimes cometidos nesse período?
M.V. – Não se trata apenas de julgar o Estado brasileiro, mas de identificar nominalmente os responsáveis, e os seus superiores imediatos, por esse período de grandes violações de direitos humanos. Trata-se também de identificar aqueles que colaboraram nesse período de repressão, fornecendo recursos materiais, por exemplo, para a OBAN [Operação Bandeirantes], grande órgão da repressão que se dividiu nos Doi-Codi’s. Isso mexe, por exemplo, com a história da Folha de S. Paulo, e também com todos aqueles que de alguma maneira financiaram a repressão. Isso envolve banqueiros, grupos de imprensa e meios de comunicação. Por isso há não interesse. Eu me refiro a políticos, jornalistas e pessoas das classes dominantes, em geral, que vão ter exposta a sua colaboração com atrocidades.
RNP – Você enquadraria este editorial da Folha de S. Paulo como revisionista?
M.V. - Esse editorial da Folha de S. Paulo foi uma pedrinha em uma edifício grande que é o do revisionismo. Eu acho que isso vai ao encontro de uma corrente que está tentando se consolidar, no sentido de que a ditadura militar no Brasil não foi tão ruim assim, porque as que ocorreram nos países do Cone Sul foram piores [com destaque para as que ocorreram na Argentina e Chile], em termos de números de mortos, torturados e desaparecidos. Ora, se nós levarmos esse raciocínio até as últimas conseqüências, então depois do Holocausto e dos milhões de mortos no período Stalinista não se pode mais denunciar nenhuma violação de direitos humanos.
RNP – Você acredita que a não abertura dos arquivos da ditadura dá força para esta corrente revisionista?
M.V. – Não tenho a menor dúvida. E é por isso que eu sou radicalmente a favor da abertura destes arquivos, mesmo sabendo que isto vai incomodar muitas pessoas, inclusive pessoas que militaram contra a ditadura na época. Mas esse é o preço que se paga por mais democracia, além de direitos à verdade e à memória.
RNP – Pela repercussão dada ao fato, você acredita que a Folha de S. Paulo está arrependida de ter usado tal termo?
M.V. – Eu tenho certeza absoluta que a Folha está profundamente desnorteada com o tamanho da crise, mas as repostas que o jornal tem vinculado mostra que ele não está sabendo enfrentar esta crise. O melhor teria sido dizer que a expressão era completamente inadequada, infeliz e insultuosa para aqueles que foram vítimas da ditadura, e pedir desculpa para os insultos pessoais que vez, mas infelizmente a Folha de S. Paulo não consegue fazer isso. Na última declaração de um membro do conselho editorial do jornal feita num blog, essa pessoa diz que nós [Maria Victoria e Fábio Konder] que estamos atacando a Folha, na verdade queremos defender Hugo Chávez, Cuba e o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra].
De São Paulo, da Radiogência NP, Juliano Domingues.

"Folha está desnorteada com a crise", diz Maria Victória Benevides

EM DEBATE: A Mídia e o interesse na desinformação
Radioagência NP
Integrantes da sociedade civil brasileira lançaram um abaixo assinado em solidariedade à socióloga Maria Victoria Benevides e ao jurista Fábio Konder Comparato. Os dois foram alvo de ataques do jornal Folha de S. Paulo. O documento já conta com assinaturas de mais 5,8 mil pessoas, entre eles intelectuais do Brasil e do mundo. A Folha de S. Paulo qualificou de “ditabranda” o regime militar que vigorou no Brasil entre as décadas de 60 a 80. O termo foi usado em um editorial publicado no dia 17 de fevereiro, em comparação ao governo de Hugo Chávez, na Venezuela, que também foi enquadrado pelo jornal como uma ditadura.
Em entrevista à Radioagência NP, Maria Victoria afirma que o jornal utilizou-se de uma revisão histórica fraudulenta e ainda comenta que a “direção editorial do jornal insulta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país”.
Radioagência NP – Por que a Folha de S. Paulo tenta amenizar o significado do que foi este período da história brasileira?
Maria Victória - Os grandes jornais, como é o caso da Folha de S. Paulo, são empresas e, como empresas, têm muitos interesses. A discussão sobre o que foi a ditadura no Brasil, e que hoje está sendo muito aprofundada por conta de um processo de responsabilização do Estado em relação aos abusos cometidos durante a repressão, como torturas e mortes, pode chamar a atenção para outros problemas ligados à ditadura, problemas que muitas pessoas não gostariam de mexer.
RNP – Isto está relacionado com as atuais tentativas de fazer com que o Estado brasileiro assuma de vez sua real responsabilidade sobre os crimes cometidos nesse período?
M.V. – Não se trata apenas de julgar o Estado brasileiro, mas de identificar nominalmente os responsáveis, e os seus superiores imediatos, por esse período de grandes violações de direitos humanos. Trata-se também de identificar aqueles que colaboraram nesse período de repressão, fornecendo recursos materiais, por exemplo, para a OBAN [Operação Bandeirantes], grande órgão da repressão que se dividiu nos Doi-Codi’s. Isso mexe, por exemplo, com a história da Folha de S. Paulo, e também com todos aqueles que de alguma maneira financiaram a repressão. Isso envolve banqueiros, grupos de imprensa e meios de comunicação. Por isso há não interesse. Eu me refiro a políticos, jornalistas e pessoas das classes dominantes, em geral, que vão ter exposta a sua colaboração com atrocidades.
RNP – Você enquadraria este editorial da Folha de S. Paulo como revisionista?
M.V. - Esse editorial da Folha de S. Paulo foi uma pedrinha em uma edifício grande que é o do revisionismo. Eu acho que isso vai ao encontro de uma corrente que está tentando se consolidar, no sentido de que a ditadura militar no Brasil não foi tão ruim assim, porque as que ocorreram nos países do Cone Sul foram piores [com destaque para as que ocorreram na Argentina e Chile], em termos de números de mortos, torturados e desaparecidos. Ora, se nós levarmos esse raciocínio até as últimas conseqüências, então depois do Holocausto e dos milhões de mortos no período Stalinista não se pode mais denunciar nenhuma violação de direitos humanos.
RNP – Você acredita que a não abertura dos arquivos da ditadura dá força para esta corrente revisionista?
M.V. – Não tenho a menor dúvida. E é por isso que eu sou radicalmente a favor da abertura destes arquivos, mesmo sabendo que isto vai incomodar muitas pessoas, inclusive pessoas que militaram contra a ditadura na época. Mas esse é o preço que se paga por mais democracia, além de direitos à verdade e à memória.
RNP – Pela repercussão dada ao fato, você acredita que a Folha de S. Paulo está arrependida de ter usado tal termo?
M.V. – Eu tenho certeza absoluta que a Folha está profundamente desnorteada com o tamanho da crise, mas as repostas que o jornal tem vinculado mostra que ele não está sabendo enfrentar esta crise. O melhor teria sido dizer que a expressão era completamente inadequada, infeliz e insultuosa para aqueles que foram vítimas da ditadura, e pedir desculpa para os insultos pessoais que vez, mas infelizmente a Folha de S. Paulo não consegue fazer isso. Na última declaração de um membro do conselho editorial do jornal feita num blog, essa pessoa diz que nós [Maria Victoria e Fábio Konder] que estamos atacando a Folha, na verdade queremos defender Hugo Chávez, Cuba e o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra].
De São Paulo, da Radiogência NP, Juliano Domingues.

março 1, 2009

Respostas do Murdoch / Respostas dos escroques

“Como presidente do New York Post, sou o principal responsável pelo que publicamos. Na semana passada cometemos um erro com uma charge que ofendeu muitos. Hoje quero pedir desculpas pessoalmente a todos os leitores que se sentiram incomodados e até mesmo insultados ( … )”.
Rupert Murdoch, magnata de Comunicações, desculpando-se por uma charge criticada como racista que aludiria a Obama, publicada no jornal New York Post, pertencente a seu conglomerado.
 
“A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.”
Nota da “Redação da Folha de São Paulo” ( ou seja: sabe-se-lá-quem é o responsável por isso ) às críticas sofridas pelo jornal feitas pelos professores FÁBIO KONDER COMPARATO e MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES, que repudiaram o neologismo “Ditabranda” cunhado pela Folha. O termo aparece em editorial do jornal em que critica-se a possibilidade infindável de reeleições sucessivas para Hugo Chávez o que, em tese, significaria o caminho pavimentado para estabelecimento de um ditadura. “Ditabranda”, o tal neologismo, viria substituir “ditadura” que, no entendimento surpreendente do jornal, não houve no Brasil a partir de 1964. A nota acima causou comoção e gerou até a criação de uma petição eletrônica em apoio aos dois professores ofendidos:
REPUDIO E SOLIDARIEDADE
Ante a viva lembrança da dura e permanente violencia desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repudio a arbitraria e inveridica revisao historica contida no editorial da Folha de S. Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009. Ao denominar ditabranda o regime politico vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direcao editorial do jornal insulta e avilta a memoria dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratizacao do pais. Perseguicoes, prisoes iniquas, torturas, assassinatos, suicidios forjados e execucoes sumarias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no periodo mais longo e sombrio da historia polí­tica brasileira. O estelionato semantico manifesto pelo neologismo ditabranda e, a rigor, uma fraudulenta revisao historica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensao das liberdades e direitos democraticos no pos-1964. Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota de redacao, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta as cartas enviadas a Painel do Leitor pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fabio Konder Comparato. Sem razoes ou argumentos, a Folha de S. Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrarios e irresponsaveis a atuacao desses dois combativos academicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insolitas criticas pessoais e politicas contidas na infamante nota da direcao editorial do jornal. Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fabio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.
 
 
‘Ditabranda’ para quem?
Maria Victoria de Mesquita Benevides
Quase ninguém lê editorial de jornais, mas quase todos leem a seção de cartas. E foi assim que tudo começou. Os fatos: a Folha de S.Paulo, em editorial de 17/2, aplica a expressão “ditabranda” ao regime militar que prendeu, torturou, estuprou e assassinou. O primeiro leitor que escreve protestando recebe uma resposta pífia; a partir daí, multiplicam-se as cartas: as dos indignados e as dos que ainda defendem a ditadura. Normal. Mas eis que chegam a carta do professor Fábio Konder Comparato e a minha: “Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de ‘ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar ‘importâncias’ e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi ‘doce’ se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!” (esta escriba). “O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17/2, bem como o diretor que o aprovou, deveria ser condenado a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana” ( Prof. Fábio ).
As cartas são publicadas acompanhadas da seguinte Nota da Redação – “A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente ‘cínica e mentirosa’.” Pronto. Como disseram vários comentaristas, a Folha mostrou a sua cara e acabou dando um tiro no pé. Choveram cartas para o ombudsman do jornal – que se limitou a escrever, quase clandestino, que a resposta pecara por falta de “cordialidade”. Um manifesto de repúdio ao jornal e de solidariedade, organizado pelo professor Caio Navarro de Toledo, da Unicamp – com a primeira adesão de Antonio Candido, Margarida Genevois e Goffredo da Silva Telles – passa imediatamente a circular na internet e, apesar do carnaval, conta com mais de 3 mil assinaturas. Neste, depoimentos veementes de acadêmicos, jornalistas ( inclusive nota do sindicato paulista ), artistas, estudantes, professores do ensino fundamental e médio, além de blogs. Vítimas da repressão escrevem relatos de suas experiências e até enviam fotos terríveis. A maioria lembra, também, o papel da empresa Folha da Manhã na colaboração com a famigerada Oban. O que explica essa inacreditável estupidez da Folha?
A meu ver, três pontos devem ser levantados:
1. A combativa atuação do advogado Comparato para impedir que os torturadores permaneçam “anistiados” (atenção: o caso será julgado em breve no STF!).
2. O insidioso revisionismo histórico, com certos acadêmicos, políticos e jornalistas, a quem não interessa a campanha pelo “Direito à Memória e à Verdade”.
3. A possível derrota eleitoral do esquema PSDB-DEM, em 2010. ( Um quarto ponto fica para “divã de analista”: os termos da nota – não assinada – revelam raiva e rancor, extrapolando a mais elementar ética jornalística.) Dessa experiência, para mim inédita, ficou uma reflexão dolorosa, provocada pela jornalista Elaine Tavares, do blog cearense Bodega Cultural, que reclama: “Sempre me causou espécie ver a intelectualidade de esquerda render-se ao feitiço da Folha, que insistia em dizer que era o ‘mais democrático’ ou que ‘pelo menos abria um espaço para a diferença’. Ora, o jornal dos Frias pode ser comparado à velha historinha do lobo que estudou na França e voltou querendo ser amigo das ovelhas. Tanto insistiu que elas foram visitá-lo. Então, já dentro da casa do lobo ele as comeu. Uma delas, moribunda, lamentou: ‘Mas você disse que tinha mudado’… E ele, sincero: ‘Eu mudei, mas não há como mudar os hábitos alimentares’. E assim é com a Folha (…). São os hábitos alimentares”.
O que fazer? Muito. Há a imprensa independente, como esta CartaCapital. Há a internet. Há todo um movimento pela democratização da informação e da comunicação. Há a luta – que sabemos constante – pela justiça, pela verdade, pela república, pela democracia. Onde quer que estejamos.
Maria Victoria Benevides é socióloga com especialização em Ciências Políticas e professora titular da Faculdade de Educação da USP
Publicado em Carta Capital, 27.02.09
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