ENCALHE

julho 6, 2008

"Etnólogo destrói imagem heróica de ex-refém", por Gilles Lapouge

Filed under: Colombia Plan, Farcs, Gilles Lapouge, Ingrid Betancourt, Sarkozy — Humberto @ 3:04 pm
Já vou adiantando: a parte que interessa aqui eu deixei em vermelho.
A França, mais do que qualquer outro país, empenhou-se em livrar Ingrid Betancourt do calvário. Essa era uma causa sagrada. A “surpresa divina” de quarta-feira foi recebida com entusiasmo. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, ficou radiante. Felicitou o colombiano Álvaro Uribe. “Ao presidente Uribe, eu digo bravo do fundo do coração.” No entanto, os dois países jamais seguiram a mesma estratégia: a França privilegiava a diplomacia, enquanto Uribe preferia o recurso militar. Para Uribe, o próprio princípio de conversações com as Farc já era uma renúncia. Por isso, as famílias dos reféns, especialmente a de Ingrid, suplicavam para ele não tentar um resgate militar, temendo que as Farc pudessem se vingar com um banho de sangue. Uribe era malvisto em Paris, considerado um político cínico, cruel, indiferente, a soldo dos americanos. Hoje, o caminho defendido por ele triunfou, graças à coragem dos soldados colombianos e à sorte. A outra via, privilegiada pela França, não conseguiu se opor à façanha do presidente colombiano. Paris, no entanto, não poupou esforços. E isso bem antes de Sarkozy, que fez estardalhaço, mas seguiu a orientação da diplomacia francesa. O ex-presidente Jacques Chirac tinha aberto o caminho, assim como um político próximo dele, Dominique de Villepin. Villepin era um diplomata e foi nessa condição que conheceu Ingrid. Essa amizade ocasionou um episódio burlesco: em julho de 2003, Villepin, então chanceler, teve uma idéia: um avião militar francês repleto de soldados, diplomatas e médicos pousaria em Manaus. O plano era retirar Ingrid da selva e trazê-la triunfalmente a Paris. Esse plano foi arquitetado sem consultas a Brasília e Bogotá. Claro que fracassou. O avião retornou sem Ingrid. Em seguida, Sarkozy assumiu a presidência e a libertação de Ingrid tornou-se uma de suas principais preocupações. Agora, na euforia da libertação, os atritos e as tensões entre Uribe e a França, Uribe e as famílias dos reféns e Uribe e Sarkozy silenciaram. O líder francês não tenta atrair para si os louros do resgate. Tanto melhor. Mas essa sensatez vai durar? No momento, Ingrid, aos olhos de toda a França, que não conhecia nem seu nome antes de ela ser capturada pelas Farc, é uma heroína. Sua coragem, vitalidade, o amor que desperta, fazem dela um ícone. Já há quem deseje que ela se torne presidente da Colômbia.
VISÃO DISCORDANTE
Em meio a essa explosão de amor, uma voz discordante. Na semana passada, portanto antes da libertação, um conhecido etnólogo, o professor André-Marcel d’Ans, fez um retrato bizarro de Ingrid na revista La Quinzaine Littéraire. Resumindo, disse que ela é uma mulher bem nascida numa dessas famílias colombianas em que se respira dinheiro e política. Seu pai foi diretor-adjunto da Unesco em Paris, o que valeu a Ingrid “longos anos de opulência em residências suntuosas e, para os filhos, estudos em francês nos estabelecimentos freqüentados pelo jet set”. “Era só a boa vida”, prossegue D’Ans. De repente, Ingrid larga tudo, marido e filhos, e parte em socorro de sua pátria mártir. “Ela mergulha na política, na forma de uma esquerdista dândi, disposta a bater no peito, num gesto de mea culpa, desde que o peito não fosse o dela.” Segundo D’Ans, Ingrid se torna “uma perfeita chata, acabando com as reservas de paciência de alguns e de condescendência de outros”. O etnólogo evoca outro momento da vida de Ingrid. “Em dezembro de 2001, a seis meses das eleições, Ingrid decide de repente deixar Bogotá e voltar a Paris, para junto dos filhos e do primeiro marido. Na verdade, a razão dessa viagem a Paris foi o lançamento da autobiografia La Rage au Coeur (A Raiva no Coração), que um romancista francês conhecido, Lionel Duroy, escreveu para ela. Foi uma operação de marketing que a manteve distante da Colômbia durante um mês e meio.” D’Ans conclui: “Quando um assunto como esse começa a tornar-se central no campo diplomático, de modo completamente insólito e desproporcional, não deve causar espanto se derrapa facilmente para o grotesco.” O imbróglio que há seis anos mantinha o mundo em estado de incerteza, envolvendo as Farc, as milícias colombianas de ultradireita, Hugo Chávez, Sarkozy e intermediários leais ou traidores, visíveis ou ocultos, que se agitaram como larvas em torno da refém na selva, acaba de ser resolvido. Talvez fosse necessário, passada a emoção, rever toda essa aventura, às vezes heróica, às vezes miserável, compreender seu mecanismo e desmontar suas engrenagens. No momento, é só a alegria que triunfa.

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