12/05/2008
O pouco número de empresas que produzem fertilizantes aumentou o preço do produto em mais de 50% só este ano, o que vem causando um repasse de custos inaceitável na produção de alimentos. O alerta foi feito nesta segunda-feira (12) pelo secretário da Agricultura e do Abastecimento, Valter Bianchini, durante audiência pública na Assembléia Legislativa, onde defendeu a necessidade de o Brasil discutir os 15 anos de privatização do setor e encontrar soluções alternativas para ampliar o fornecimento do insumo.
Para Bianchini, a agricultura brasileira está muito dependente de insumos importados derivados do petróleo e, segundo ele, em pouco tempo essa situação não será mais viável.
“Como solução, é preciso que o país crie mais empresas do setor de fertilizantes, sejam estatais ou privadas”, defendeu.
Segundo Bianchini, a Petrobrás deve retirar seus projetos da gaveta e retomar o mercado de insumos agrícolas em nome da soberania nacional.
“Se nada for feito, em breve a sociedade pagará essa conta quando o custo dos alimentos se tornarem ainda mais caros”, alertou.
O secretário sugeriu a ampliação de pesquisas sobre a utilização de insumos, o resgate de técnicas antigas que, com novas matrizes tecnológicas, podem aumentar a eficiência e a competitividade das lavouras como a integração lavoura-pecuária, manejo biológico de pragas, entre outras.
“São técnicas que podem ser repaginadas tecnologicamente e que levam ao cultivo de uma agricultura sustentável”, destacou.
“Para responder ao aumento da demanda mundial de alimentos e para se tornar uma potência na diversificação da matriz energética, o Brasil tem que enfrentar essa situação de extrema dependência da importação de fertilizantes cujo setor está oligopolizado”, ressaltou Bianchini. Atualmente, o Brasil importa cerca de 70% dos fertilizantes que consome, segundo o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Petroquímicas do Paraná.
“A preocupação com o oligopólio é que ele mostra a sua cara justamente em anos em que os preços das principais commodities estão em alta, como neste ano”, disse o secretário. As empresas, disse Bianchini, aumentam os preços dos fertilizantes acima das expectativas de inflação.
Para isso, apontou ainda o secretário, as indústrias alegam uma série de fatores como o impacto dos aumentos no preço do petróleo, o crescimento da demanda mundial e a entrada de países emergentes que estão consumindo mais.
“Mas é claro que numa situação onde há pouca concorrência, predominam os índices que elas decidem”, frisou Bianchini.
ALTA – Um levantamento feito pelo Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento mostra que no período de fevereiro de 2007 ao mesmo mês deste ano, os preços dos fertilizantes subiram 62%, em média no Paraná. Entre os 18 tipos de formulações NPK (Nitrogênio, Fósforo e Potássio) pesquisadas no Estado, há casos de aumento de 100%, passando de R$ 695,00 a tonelada para R$ 1.390,00 a tonelada.
A fórmula mais barata de NPK, a 4-14-8, fertilizante muito utilizado por pequenos produtores na olericultura, no cultivo de feijão e milho de baixa tecnologia, teve aumento de 50%, passando de R$ 532,00 a tonelada para R$ 798,00 a tonelada.
Esse aumento nos preços dos insumos está provocando impactos no aumento dos custos de produção do milho safrinha e do trigo. Com certeza, também irá impactar os custos de produção da safra de verão 2008/09, informa a engenheira agrônoma do Deral, Margorete Demarchi.
Apesar da queda do dólar de 2004 para cá, o custo da matéria-prima para a formulação do fertilizante subiu muito e passou a pressionar os custos de produção dos principais produtos agrícolas, aponta ainda o levantamento do Deral. Conforme o estudo, o peso dos fertilizantes no custo de produção passou a 12% no caso do feijão, para 25% na produção de milho e 16% na de soja.
“No acumulado de 2000 a 2007, os preços dos fertilizantes subiram mais do que os preços dos alimentos”, disse Bianchini. Ele destacou a disposição da Secretaria da Agricultura do Paraná em firmar parcerias com o governo federal e outras entidades para buscar alternativas para essa situação, desde a necessidade de ampliar a presença de mais misturadoras no País, até convencer a Petrobrás a voltar a investir no setor de fertilizantes.
O secretário destacou ainda a disponibilidade da Seab em discutir novos modelos de agricultura que leve em conta a diversificação e a incorporação de técnicas alternativas para que o País possa aproveitar as oportunidades com o aumento da demanda mundial por alimentos.
“O Brasil tem um papel preponderante na produção de alimentos e precisa ocupar esse espaço com inclusão social, com a preservação da Agricultura Familiar e com a preservação da Amazônia”, finalizou o secretário da Agricultura do Paraná.