ENCALHE

junho 12, 2009

A Surpreendente Concordata da General Motors, por Jasson de Oliveira Andrade

A crise econômica internacional causou a derrocada da General Mortors (GM), que pediu concordata e obrigou o presidente Barack Obama a estatizá-la, ficando com 60% . Para um país que é contra a estatização e defensor da privatização, a medida surpreendeu, mas era inevitável.
No artigo “GM é o espelho para os EUA”, o professor Robert Reich constatou: “Em 1953, a GM era o maior grupo industrial do mundo, um símbolo do poderio americano [ Nesta época, dizia-se: “O que é bom para a GM é bom para os Estados Unidos” ]. A empresa respondia por 3% do PIB do país. Ela era também a maior empregadora dos EUA e pagava aos seus operários sólidos salários de classe média, com benefícios generosos. (…) Hoje, a Wal-Mart é o maior empregador dos EUA. A Toyota é a maior montadora de automóveis, e a GM pediu concordata” (Folha, Dinheiro, 2/6/2009).
O Financial Times, jornal britânico, analisou o que aconteceu com a GM (1908-2009), em artigo sob o título “O fim de uma era nos EUA”. Eis o que disse o jornal: “Não é coincidência o Século Americano ter coincidido com a ascensão e queda da General Motors, que tinha se tornado a maior e a mais lucrativa empresa do mundo quando atingiu a meia-idade. (…) O choque da queda da GM foi amortecido por outros colapsos corporativos espetaculares e outros socorros multibilionários com dinheiro do contribuinte [esta medida era impensável nos Estados Unidos]. Mas, embora a frase “o fim de uma era” tenha ficado gasta ultimamente, ela certamente se aplica neste caso. (…) Se você dissesse a um americano 50 anos atrás que mais carros seriam vendidos na “China vermelha” do que nos EUA e que a GM quebraria e seria salva por dinheiro do governo [americano] em boa parte emprestado de Pequim, ele questionaria sua sanidade.” O jornal termina assim a sua análise: “Poderão existir fabricantes de carros com sede nos EUA daqui a algumas décadas, mas, infelizmente, as mudanças sendo impostas pela nova tutela do Estado são muito suaves, e os rivais asiáticos são mais avançados para permitir que a GM se torne mais do que uma sombra em relação à sua antiga dominação”. Realmente é o fim de uma era nos Estados Unidos!
A derrocada da General Motors me faz lembrar do passado, não muito distante. Naquela época, existiam no Brasil duas correntes. Uma era defensora da estatização. Outra preconizava a privatização. O então presidente Fernando Henrique Cardoso privatizou várias empresas. Aqueles que combatiam essa política eram considerados atrasados, ultrapassados. Era o novo contra o velho, diziam. Atualmente, com a política estatizante dos Estados Unidos, privatistas por excelência, o que esses críticos vão dizer? Que os americanos adotaram a política do atraso? O presidente Barack Obama é um dinossauro, como Roberto Campos designava os que defendiam a estatização? Acho que o fim de uma era dos Estados Unidos foi também o fim de um debate ideológico: privatistas contra estatizantes. E a estatização da General Motors contribuiu para isso, embora o governo Barack Obama tenha prometido devolver a empresa, depois de saneada, à iniciativa privada. Quem pode garantir que no futuro não teremos outras estatizações? Outro fato que merece análise. Nas eleições européias, encerradas em 7 de junho, os conservadores venceram. Entretanto, segundo Giles Lapouge, corresponde do Estadão em Paris, esse resultado é paradoxal. Segundo ele, os governos conservadores “sacudidos pela crise, aplicaram remédios dignos de intervencionistas [estatização] de esquerda”. Sem comentários.
Notícias dão conta que a General Motors do Brasil não será afetada. Tomara!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Junho de 2009

novembro 24, 2008

Moral da história: crise econômica americana acabou sendo melhor que a assinatura do Tratado de Kyoto

Filed under: crise econômica americana, General Motors, Sérgio Augusto — Humberto @ 2:16 pm
Eu sou mau.
Que coisa…A GM à beira da falência. Bem, impérios deixaram de existir. A URSS desapareceu, asssim como o Império Otomano.
E por quê não, a GM? Talvez essa empresa pudesse se transformar, dedicando-se não mais à produção de transporte individual mas – com os governos tendo que investir mais e mais vultosos recursos em grandes obras para tentar minimizar a crise – ao transporte de massa, como trens e metrô.
E, aproveitando, reproduzo um artigo do ótimo Sérgio Augusto, publicado no Estadão de Domingo em que se mostra favorável à ajuda financeira à montadora americana. Um dos poucos caras que me fazem ler o Estado.
E por que não reinventar a roda?
Crise revela o equívoco de uma indústria que apostou em mastodontes motorizados, o must dos novos-ricos
Sérgio Augusto
Pouco antes da invasão do Iraque, o magnata dos tablóides Rupert Murdoch estufou o peito e, fazendo coro com os Strangeloves do governo Bush, anteviu que a guerra seria “a melhor coisa do mundo do ponto de vista econômico”, provocando uma estabilização do preço do petróleo em torno de US$ 20 o barril. “Melhor do que redução de impostos em qualquer país”, arrematou. Vocês viram o que de fato aconteceu nos cinco anos e meio de uma guerra prevista, pelas mesmas cassandras, para durar algumas semanas. Em julho passado, o barril chegou a quase US$ 150. E se há três dias custava menos de US$ 50, a US$ 20 jamais chegará. A tendência, aliás, é que volte a subir. Se não subir uns 60%, crise à vista. Sem condições financeiras de investir, adequadamente, na exploração de novas fontes de petróleo e na produção de outros 45 milhões de barris por dia (a demanda estimada para daqui a 20 anos), e pressionada para adequar-se a padrões mínimos de salubridade ambiental, a indústria de combustíveis não tem um futuro dos mais promissores. Petróleo barato não é só má notícia para a Opep, Irã e Rússia, mas também para o meio ambiente e o trânsito nas grandes cidades. Quando o barril passou dos US$ 80, anunciou-se o fim da moda dos jipões, Hummers e demais utilitários sedentos de combustível, devidamente celebrado por todos aqueles que vêem no carro um veículo de transporte, não um arrogante emblema de auto-afirmação e novo-riquismo. Com o barril abaixo dos US$ 50, eles voltam a ser uma ameaça, certo? Teoricamente, sim. Mas como a bonança da gasolina a preço de banana tem prazo limitado e os carangos schwarzeneggerianos não bebem etanol, melhor encomendar logo o epitáfio. De lambujem, a crise das montadoras americanas. Que, convém ressaltar, não começou com os terremotos que desde setembro aterrorizam o mundo financeiro. Faz tempo que as vendas de carros vêm caindo acentuadamente no país que os inventou. Simples: os consumidores já estavam com a grana curta antes de o barril de petróleo beirar os US$ 90. Faz tempo também que a indústria automobilística enfia os pés pelas mãos, num show contínuo de soberba e incompetência administrativa. As Três Grandes do setor (General Motors, Ford e Chrysler, na verdade, um oligopólio que domina 95% do mercado) passaram anos investindo em mastodontes, em vez de concentrar esforços na pesquisa e fabricação de veículos que consumam menos energia e até utilizem outros tipos de combustível, como, por exemplo, o Chevy Volt, movido a energia elétrica, mais econômico que uma geladeira, previsto pela GM para 2010, mas perigando gorar antes do prazo, caso o pior aconteça. O que de pior pode acontecer? Para uns, o governo injetar US$ 50 bilhões numa indústria automobilística incapaz, superada, que por isso mesmo, dizem, merece ir à breca. Para outros, o governo deixar as montadoras falirem, aumentando em 3 milhões o número de desempregados no país e provocando uma quebradeira da indústria de autopeças, revendedoras, etc. Embora haja liberais, conservadores e progressistas compartilhando as duas posições, indistintamente, os mais ortodoxos defensores do livre mercado tendem a condenar qualquer tipo de ajuda federal, ainda que relativamente pequena e provisória, à indústria automobilística.
“Agora US$ 50 bilhões, depois mais US$ 50 bilhões”, empombou o comentarista do Washington Post George F. Will, antevendo um poço sem fundo. E a fortuna investida no Iraque e desviada para os cofres da Halliburton, da Blackwater e afins, em nome da “segurança” e do “patriotismo”? Por que os bancos, que só produzem papel, foram salvos com uma ajuda de US$ 700 bilhões, e as montadoras, que produzem bens de consumo e geram milhões de empregos, não podem receber US$ 50 bilhões?, cobrou Paul Craig Roberts. Assistente da Secretaria do Tesouro do governo Reagan, Roberts não pode ser acusado de estatizante ou algo similar.
Que tal aproveitar a oportunidade para reinventar a indústria automotora americana?, sugeriu um blogueiro da revista The New Republic, sintetizando o anseio de diversos políticos e analistas, que, ideologias à parte, condicionam qualquer ajuda governamental a um comprometimento das montadoras com a fabricação de carros mais econômicos e ecologicamente corretos. Sem salvaguardas como esta, não faz o menor sentido salvar as Três Grandes da bancarrota. Se bem que nem carros como o Chevy Volt o sectário Will aceita como garantia; até porque o considera uma concessão malévola aos congressistas “obcecados” pelo ambientalismo. Com cabeças assim, fica mais difícil carregar o andor capitalista.
É voz corrente que subsidiar uma indústria cheia de vícios só iria perpetuar uma estrutura improdutiva. Uma indústria automobilística revigorada, vibrante e competitiva teria um papel essencial na solução dos três maiores problemas da atualidade: a debacle financeira, a crise energética e a catástrofe ambiental, escreveu Jeffrey D. Sachs, que considera “vital” uma parceria com o governo. Tão vital que deveria ter sido iniciada, segundo ele, na semana passada. Mas o Congresso só tomará a decisão final daqui a 15 dias. Depois de ver os três principais executivos da GM (Richard Wagoner), Chrysler (Robert Nardelli) e Ford (Alan Mulally) descerem em Washington para mendigar US$ 50 bilhões, a bordo de luxuosos jatinhos executivos, o usualmente moderado comentarista político Eugene Robinson, colega de página de Will, não se conteve e sugeriu que o Congresso aprovasse logo a ajuda às montadoras, condicionando-a à demissão sumária do desmoralizado trio. Boa idéia. O exemplo não deve vir sempre de cima?

Moral da história: crise econômica americana acabou sendo melhor que a assinatura do Tratado de Kyoto

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Eu sou mau.
Que coisa…A GM à beira da falência. Bem, impérios deixaram de existir. A URSS desapareceu, asssim como o Império Otomano.
E por quê não, a GM? Talvez essa empresa pudesse se transformar, dedicando-se não mais à produção de transporte individual mas – com os governos tendo que investir mais e mais vultosos recursos em grandes obras para tentar minimizar a crise – ao transporte de massa, como trens e metrô.
E, aproveitando, reproduzo um artigo do ótimo Sérgio Augusto, publicado no Estadão de Domingo em que se mostra favorável à ajuda financeira à montadora americana. Um dos poucos caras que me fazem ler o Estado.
E por que não reinventar a roda?
Crise revela o equívoco de uma indústria que apostou em mastodontes motorizados, o must dos novos-ricos
Sérgio Augusto
Pouco antes da invasão do Iraque, o magnata dos tablóides Rupert Murdoch estufou o peito e, fazendo coro com os Strangeloves do governo Bush, anteviu que a guerra seria “a melhor coisa do mundo do ponto de vista econômico”, provocando uma estabilização do preço do petróleo em torno de US$ 20 o barril. “Melhor do que redução de impostos em qualquer país”, arrematou. Vocês viram o que de fato aconteceu nos cinco anos e meio de uma guerra prevista, pelas mesmas cassandras, para durar algumas semanas. Em julho passado, o barril chegou a quase US$ 150. E se há três dias custava menos de US$ 50, a US$ 20 jamais chegará. A tendência, aliás, é que volte a subir. Se não subir uns 60%, crise à vista. Sem condições financeiras de investir, adequadamente, na exploração de novas fontes de petróleo e na produção de outros 45 milhões de barris por dia (a demanda estimada para daqui a 20 anos), e pressionada para adequar-se a padrões mínimos de salubridade ambiental, a indústria de combustíveis não tem um futuro dos mais promissores. Petróleo barato não é só má notícia para a Opep, Irã e Rússia, mas também para o meio ambiente e o trânsito nas grandes cidades. Quando o barril passou dos US$ 80, anunciou-se o fim da moda dos jipões, Hummers e demais utilitários sedentos de combustível, devidamente celebrado por todos aqueles que vêem no carro um veículo de transporte, não um arrogante emblema de auto-afirmação e novo-riquismo. Com o barril abaixo dos US$ 50, eles voltam a ser uma ameaça, certo? Teoricamente, sim. Mas como a bonança da gasolina a preço de banana tem prazo limitado e os carangos schwarzeneggerianos não bebem etanol, melhor encomendar logo o epitáfio. De lambujem, a crise das montadoras americanas. Que, convém ressaltar, não começou com os terremotos que desde setembro aterrorizam o mundo financeiro. Faz tempo que as vendas de carros vêm caindo acentuadamente no país que os inventou. Simples: os consumidores já estavam com a grana curta antes de o barril de petróleo beirar os US$ 90. Faz tempo também que a indústria automobilística enfia os pés pelas mãos, num show contínuo de soberba e incompetência administrativa. As Três Grandes do setor (General Motors, Ford e Chrysler, na verdade, um oligopólio que domina 95% do mercado) passaram anos investindo em mastodontes, em vez de concentrar esforços na pesquisa e fabricação de veículos que consumam menos energia e até utilizem outros tipos de combustível, como, por exemplo, o Chevy Volt, movido a energia elétrica, mais econômico que uma geladeira, previsto pela GM para 2010, mas perigando gorar antes do prazo, caso o pior aconteça. O que de pior pode acontecer? Para uns, o governo injetar US$ 50 bilhões numa indústria automobilística incapaz, superada, que por isso mesmo, dizem, merece ir à breca. Para outros, o governo deixar as montadoras falirem, aumentando em 3 milhões o número de desempregados no país e provocando uma quebradeira da indústria de autopeças, revendedoras, etc. Embora haja liberais, conservadores e progressistas compartilhando as duas posições, indistintamente, os mais ortodoxos defensores do livre mercado tendem a condenar qualquer tipo de ajuda federal, ainda que relativamente pequena e provisória, à indústria automobilística.
“Agora US$ 50 bilhões, depois mais US$ 50 bilhões”, empombou o comentarista do Washington Post George F. Will, antevendo um poço sem fundo. E a fortuna investida no Iraque e desviada para os cofres da Halliburton, da Blackwater e afins, em nome da “segurança” e do “patriotismo”? Por que os bancos, que só produzem papel, foram salvos com uma ajuda de US$ 700 bilhões, e as montadoras, que produzem bens de consumo e geram milhões de empregos, não podem receber US$ 50 bilhões?, cobrou Paul Craig Roberts. Assistente da Secretaria do Tesouro do governo Reagan, Roberts não pode ser acusado de estatizante ou algo similar.
Que tal aproveitar a oportunidade para reinventar a indústria automotora americana?, sugeriu um blogueiro da revista The New Republic, sintetizando o anseio de diversos políticos e analistas, que, ideologias à parte, condicionam qualquer ajuda governamental a um comprometimento das montadoras com a fabricação de carros mais econômicos e ecologicamente corretos. Sem salvaguardas como esta, não faz o menor sentido salvar as Três Grandes da bancarrota. Se bem que nem carros como o Chevy Volt o sectário Will aceita como garantia; até porque o considera uma concessão malévola aos congressistas “obcecados” pelo ambientalismo. Com cabeças assim, fica mais difícil carregar o andor capitalista.
É voz corrente que subsidiar uma indústria cheia de vícios só iria perpetuar uma estrutura improdutiva. Uma indústria automobilística revigorada, vibrante e competitiva teria um papel essencial na solução dos três maiores problemas da atualidade: a debacle financeira, a crise energética e a catástrofe ambiental, escreveu Jeffrey D. Sachs, que considera “vital” uma parceria com o governo. Tão vital que deveria ter sido iniciada, segundo ele, na semana passada. Mas o Congresso só tomará a decisão final daqui a 15 dias. Depois de ver os três principais executivos da GM (Richard Wagoner), Chrysler (Robert Nardelli) e Ford (Alan Mulally) descerem em Washington para mendigar US$ 50 bilhões, a bordo de luxuosos jatinhos executivos, o usualmente moderado comentarista político Eugene Robinson, colega de página de Will, não se conteve e sugeriu que o Congresso aprovasse logo a ajuda às montadoras, condicionando-a à demissão sumária do desmoralizado trio. Boa idéia. O exemplo não deve vir sempre de cima?

Moral da história: crise econômica americana acabou sendo melhor que a assinatura do Tratado de Kyoto

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Eu sou mau.
Que coisa…A GM à beira da falência. Bem, impérios deixaram de existir. A URSS desapareceu, asssim como o Império Otomano.
E por quê não, a GM? Talvez essa empresa pudesse se transformar, dedicando-se não mais à produção de transporte individual mas – com os governos tendo que investir mais e mais vultosos recursos em grandes obras para tentar minimizar a crise – ao transporte de massa, como trens e metrô.
E, aproveitando, reproduzo um artigo do ótimo Sérgio Augusto, publicado no Estadão de Domingo em que se mostra favorável à ajuda financeira à montadora americana. Um dos poucos caras que me fazem ler o Estado.
E por que não reinventar a roda?
Crise revela o equívoco de uma indústria que apostou em mastodontes motorizados, o must dos novos-ricos
Sérgio Augusto
Pouco antes da invasão do Iraque, o magnata dos tablóides Rupert Murdoch estufou o peito e, fazendo coro com os Strangeloves do governo Bush, anteviu que a guerra seria “a melhor coisa do mundo do ponto de vista econômico”, provocando uma estabilização do preço do petróleo em torno de US$ 20 o barril. “Melhor do que redução de impostos em qualquer país”, arrematou. Vocês viram o que de fato aconteceu nos cinco anos e meio de uma guerra prevista, pelas mesmas cassandras, para durar algumas semanas. Em julho passado, o barril chegou a quase US$ 150. E se há três dias custava menos de US$ 50, a US$ 20 jamais chegará. A tendência, aliás, é que volte a subir. Se não subir uns 60%, crise à vista. Sem condições financeiras de investir, adequadamente, na exploração de novas fontes de petróleo e na produção de outros 45 milhões de barris por dia (a demanda estimada para daqui a 20 anos), e pressionada para adequar-se a padrões mínimos de salubridade ambiental, a indústria de combustíveis não tem um futuro dos mais promissores. Petróleo barato não é só má notícia para a Opep, Irã e Rússia, mas também para o meio ambiente e o trânsito nas grandes cidades. Quando o barril passou dos US$ 80, anunciou-se o fim da moda dos jipões, Hummers e demais utilitários sedentos de combustível, devidamente celebrado por todos aqueles que vêem no carro um veículo de transporte, não um arrogante emblema de auto-afirmação e novo-riquismo. Com o barril abaixo dos US$ 50, eles voltam a ser uma ameaça, certo? Teoricamente, sim. Mas como a bonança da gasolina a preço de banana tem prazo limitado e os carangos schwarzeneggerianos não bebem etanol, melhor encomendar logo o epitáfio. De lambujem, a crise das montadoras americanas. Que, convém ressaltar, não começou com os terremotos que desde setembro aterrorizam o mundo financeiro. Faz tempo que as vendas de carros vêm caindo acentuadamente no país que os inventou. Simples: os consumidores já estavam com a grana curta antes de o barril de petróleo beirar os US$ 90. Faz tempo também que a indústria automobilística enfia os pés pelas mãos, num show contínuo de soberba e incompetência administrativa. As Três Grandes do setor (General Motors, Ford e Chrysler, na verdade, um oligopólio que domina 95% do mercado) passaram anos investindo em mastodontes, em vez de concentrar esforços na pesquisa e fabricação de veículos que consumam menos energia e até utilizem outros tipos de combustível, como, por exemplo, o Chevy Volt, movido a energia elétrica, mais econômico que uma geladeira, previsto pela GM para 2010, mas perigando gorar antes do prazo, caso o pior aconteça. O que de pior pode acontecer? Para uns, o governo injetar US$ 50 bilhões numa indústria automobilística incapaz, superada, que por isso mesmo, dizem, merece ir à breca. Para outros, o governo deixar as montadoras falirem, aumentando em 3 milhões o número de desempregados no país e provocando uma quebradeira da indústria de autopeças, revendedoras, etc. Embora haja liberais, conservadores e progressistas compartilhando as duas posições, indistintamente, os mais ortodoxos defensores do livre mercado tendem a condenar qualquer tipo de ajuda federal, ainda que relativamente pequena e provisória, à indústria automobilística.
“Agora US$ 50 bilhões, depois mais US$ 50 bilhões”, empombou o comentarista do Washington Post George F. Will, antevendo um poço sem fundo. E a fortuna investida no Iraque e desviada para os cofres da Halliburton, da Blackwater e afins, em nome da “segurança” e do “patriotismo”? Por que os bancos, que só produzem papel, foram salvos com uma ajuda de US$ 700 bilhões, e as montadoras, que produzem bens de consumo e geram milhões de empregos, não podem receber US$ 50 bilhões?, cobrou Paul Craig Roberts. Assistente da Secretaria do Tesouro do governo Reagan, Roberts não pode ser acusado de estatizante ou algo similar.
Que tal aproveitar a oportunidade para reinventar a indústria automotora americana?, sugeriu um blogueiro da revista The New Republic, sintetizando o anseio de diversos políticos e analistas, que, ideologias à parte, condicionam qualquer ajuda governamental a um comprometimento das montadoras com a fabricação de carros mais econômicos e ecologicamente corretos. Sem salvaguardas como esta, não faz o menor sentido salvar as Três Grandes da bancarrota. Se bem que nem carros como o Chevy Volt o sectário Will aceita como garantia; até porque o considera uma concessão malévola aos congressistas “obcecados” pelo ambientalismo. Com cabeças assim, fica mais difícil carregar o andor capitalista.
É voz corrente que subsidiar uma indústria cheia de vícios só iria perpetuar uma estrutura improdutiva. Uma indústria automobilística revigorada, vibrante e competitiva teria um papel essencial na solução dos três maiores problemas da atualidade: a debacle financeira, a crise energética e a catástrofe ambiental, escreveu Jeffrey D. Sachs, que considera “vital” uma parceria com o governo. Tão vital que deveria ter sido iniciada, segundo ele, na semana passada. Mas o Congresso só tomará a decisão final daqui a 15 dias. Depois de ver os três principais executivos da GM (Richard Wagoner), Chrysler (Robert Nardelli) e Ford (Alan Mulally) descerem em Washington para mendigar US$ 50 bilhões, a bordo de luxuosos jatinhos executivos, o usualmente moderado comentarista político Eugene Robinson, colega de página de Will, não se conteve e sugeriu que o Congresso aprovasse logo a ajuda às montadoras, condicionando-a à demissão sumária do desmoralizado trio. Boa idéia. O exemplo não deve vir sempre de cima?

Moral da história: crise econômica americana acabou sendo melhor que a assinatura do Tratado de Kyoto

Filed under: crise econômica americana, General Motors, Sérgio Augusto — Humberto @ 2:16 pm
Eu sou mau.
Que coisa…A GM à beira da falência. Bem, impérios deixaram de existir. A URSS desapareceu, asssim como o Império Otomano.
E por quê não, a GM? Talvez essa empresa pudesse se transformar, dedicando-se não mais à produção de transporte individual mas – com os governos tendo que investir mais e mais vultosos recursos em grandes obras para tentar minimizar a crise – ao transporte de massa, como trens e metrô.
E, aproveitando, reproduzo um artigo do ótimo Sérgio Augusto, publicado no Estadão de Domingo em que se mostra favorável à ajuda financeira à montadora americana. Um dos poucos caras que me fazem ler o Estado.
E por que não reinventar a roda?
Crise revela o equívoco de uma indústria que apostou em mastodontes motorizados, o must dos novos-ricos
Sérgio Augusto
Pouco antes da invasão do Iraque, o magnata dos tablóides Rupert Murdoch estufou o peito e, fazendo coro com os Strangeloves do governo Bush, anteviu que a guerra seria “a melhor coisa do mundo do ponto de vista econômico”, provocando uma estabilização do preço do petróleo em torno de US$ 20 o barril. “Melhor do que redução de impostos em qualquer país”, arrematou. Vocês viram o que de fato aconteceu nos cinco anos e meio de uma guerra prevista, pelas mesmas cassandras, para durar algumas semanas. Em julho passado, o barril chegou a quase US$ 150. E se há três dias custava menos de US$ 50, a US$ 20 jamais chegará. A tendência, aliás, é que volte a subir. Se não subir uns 60%, crise à vista. Sem condições financeiras de investir, adequadamente, na exploração de novas fontes de petróleo e na produção de outros 45 milhões de barris por dia (a demanda estimada para daqui a 20 anos), e pressionada para adequar-se a padrões mínimos de salubridade ambiental, a indústria de combustíveis não tem um futuro dos mais promissores. Petróleo barato não é só má notícia para a Opep, Irã e Rússia, mas também para o meio ambiente e o trânsito nas grandes cidades. Quando o barril passou dos US$ 80, anunciou-se o fim da moda dos jipões, Hummers e demais utilitários sedentos de combustível, devidamente celebrado por todos aqueles que vêem no carro um veículo de transporte, não um arrogante emblema de auto-afirmação e novo-riquismo. Com o barril abaixo dos US$ 50, eles voltam a ser uma ameaça, certo? Teoricamente, sim. Mas como a bonança da gasolina a preço de banana tem prazo limitado e os carangos schwarzeneggerianos não bebem etanol, melhor encomendar logo o epitáfio. De lambujem, a crise das montadoras americanas. Que, convém ressaltar, não começou com os terremotos que desde setembro aterrorizam o mundo financeiro. Faz tempo que as vendas de carros vêm caindo acentuadamente no país que os inventou. Simples: os consumidores já estavam com a grana curta antes de o barril de petróleo beirar os US$ 90. Faz tempo também que a indústria automobilística enfia os pés pelas mãos, num show contínuo de soberba e incompetência administrativa. As Três Grandes do setor (General Motors, Ford e Chrysler, na verdade, um oligopólio que domina 95% do mercado) passaram anos investindo em mastodontes, em vez de concentrar esforços na pesquisa e fabricação de veículos que consumam menos energia e até utilizem outros tipos de combustível, como, por exemplo, o Chevy Volt, movido a energia elétrica, mais econômico que uma geladeira, previsto pela GM para 2010, mas perigando gorar antes do prazo, caso o pior aconteça. O que de pior pode acontecer? Para uns, o governo injetar US$ 50 bilhões numa indústria automobilística incapaz, superada, que por isso mesmo, dizem, merece ir à breca. Para outros, o governo deixar as montadoras falirem, aumentando em 3 milhões o número de desempregados no país e provocando uma quebradeira da indústria de autopeças, revendedoras, etc. Embora haja liberais, conservadores e progressistas compartilhando as duas posições, indistintamente, os mais ortodoxos defensores do livre mercado tendem a condenar qualquer tipo de ajuda federal, ainda que relativamente pequena e provisória, à indústria automobilística.
“Agora US$ 50 bilhões, depois mais US$ 50 bilhões”, empombou o comentarista do Washington Post George F. Will, antevendo um poço sem fundo. E a fortuna investida no Iraque e desviada para os cofres da Halliburton, da Blackwater e afins, em nome da “segurança” e do “patriotismo”? Por que os bancos, que só produzem papel, foram salvos com uma ajuda de US$ 700 bilhões, e as montadoras, que produzem bens de consumo e geram milhões de empregos, não podem receber US$ 50 bilhões?, cobrou Paul Craig Roberts. Assistente da Secretaria do Tesouro do governo Reagan, Roberts não pode ser acusado de estatizante ou algo similar.
Que tal aproveitar a oportunidade para reinventar a indústria automotora americana?, sugeriu um blogueiro da revista The New Republic, sintetizando o anseio de diversos políticos e analistas, que, ideologias à parte, condicionam qualquer ajuda governamental a um comprometimento das montadoras com a fabricação de carros mais econômicos e ecologicamente corretos. Sem salvaguardas como esta, não faz o menor sentido salvar as Três Grandes da bancarrota. Se bem que nem carros como o Chevy Volt o sectário Will aceita como garantia; até porque o considera uma concessão malévola aos congressistas “obcecados” pelo ambientalismo. Com cabeças assim, fica mais difícil carregar o andor capitalista.
É voz corrente que subsidiar uma indústria cheia de vícios só iria perpetuar uma estrutura improdutiva. Uma indústria automobilística revigorada, vibrante e competitiva teria um papel essencial na solução dos três maiores problemas da atualidade: a debacle financeira, a crise energética e a catástrofe ambiental, escreveu Jeffrey D. Sachs, que considera “vital” uma parceria com o governo. Tão vital que deveria ter sido iniciada, segundo ele, na semana passada. Mas o Congresso só tomará a decisão final daqui a 15 dias. Depois de ver os três principais executivos da GM (Richard Wagoner), Chrysler (Robert Nardelli) e Ford (Alan Mulally) descerem em Washington para mendigar US$ 50 bilhões, a bordo de luxuosos jatinhos executivos, o usualmente moderado comentarista político Eugene Robinson, colega de página de Will, não se conteve e sugeriu que o Congresso aprovasse logo a ajuda às montadoras, condicionando-a à demissão sumária do desmoralizado trio. Boa idéia. O exemplo não deve vir sempre de cima?

Moral da história: crise econômica americana acabou sendo melhor que a assinatura do Tratado de Kyoto

Filed under: crise econômica americana, General Motors, Sérgio Augusto — Humberto @ 2:16 pm
Eu sou mau.
Que coisa…A GM à beira da falência. Bem, impérios deixaram de existir. A URSS desapareceu, asssim como o Império Otomano.
E por quê não, a GM? Talvez essa empresa pudesse se transformar, dedicando-se não mais à produção de transporte individual mas – com os governos tendo que investir mais e mais vultosos recursos em grandes obras para tentar minimizar a crise – ao transporte de massa, como trens e metrô.
E, aproveitando, reproduzo um artigo do ótimo Sérgio Augusto, publicado no Estadão de Domingo em que se mostra favorável à ajuda financeira à montadora americana. Um dos poucos caras que me fazem ler o Estado.
E por que não reinventar a roda?
Crise revela o equívoco de uma indústria que apostou em mastodontes motorizados, o must dos novos-ricos
Sérgio Augusto
Pouco antes da invasão do Iraque, o magnata dos tablóides Rupert Murdoch estufou o peito e, fazendo coro com os Strangeloves do governo Bush, anteviu que a guerra seria “a melhor coisa do mundo do ponto de vista econômico”, provocando uma estabilização do preço do petróleo em torno de US$ 20 o barril. “Melhor do que redução de impostos em qualquer país”, arrematou. Vocês viram o que de fato aconteceu nos cinco anos e meio de uma guerra prevista, pelas mesmas cassandras, para durar algumas semanas. Em julho passado, o barril chegou a quase US$ 150. E se há três dias custava menos de US$ 50, a US$ 20 jamais chegará. A tendência, aliás, é que volte a subir. Se não subir uns 60%, crise à vista. Sem condições financeiras de investir, adequadamente, na exploração de novas fontes de petróleo e na produção de outros 45 milhões de barris por dia (a demanda estimada para daqui a 20 anos), e pressionada para adequar-se a padrões mínimos de salubridade ambiental, a indústria de combustíveis não tem um futuro dos mais promissores. Petróleo barato não é só má notícia para a Opep, Irã e Rússia, mas também para o meio ambiente e o trânsito nas grandes cidades. Quando o barril passou dos US$ 80, anunciou-se o fim da moda dos jipões, Hummers e demais utilitários sedentos de combustível, devidamente celebrado por todos aqueles que vêem no carro um veículo de transporte, não um arrogante emblema de auto-afirmação e novo-riquismo. Com o barril abaixo dos US$ 50, eles voltam a ser uma ameaça, certo? Teoricamente, sim. Mas como a bonança da gasolina a preço de banana tem prazo limitado e os carangos schwarzeneggerianos não bebem etanol, melhor encomendar logo o epitáfio. De lambujem, a crise das montadoras americanas. Que, convém ressaltar, não começou com os terremotos que desde setembro aterrorizam o mundo financeiro. Faz tempo que as vendas de carros vêm caindo acentuadamente no país que os inventou. Simples: os consumidores já estavam com a grana curta antes de o barril de petróleo beirar os US$ 90. Faz tempo também que a indústria automobilística enfia os pés pelas mãos, num show contínuo de soberba e incompetência administrativa. As Três Grandes do setor (General Motors, Ford e Chrysler, na verdade, um oligopólio que domina 95% do mercado) passaram anos investindo em mastodontes, em vez de concentrar esforços na pesquisa e fabricação de veículos que consumam menos energia e até utilizem outros tipos de combustível, como, por exemplo, o Chevy Volt, movido a energia elétrica, mais econômico que uma geladeira, previsto pela GM para 2010, mas perigando gorar antes do prazo, caso o pior aconteça. O que de pior pode acontecer? Para uns, o governo injetar US$ 50 bilhões numa indústria automobilística incapaz, superada, que por isso mesmo, dizem, merece ir à breca. Para outros, o governo deixar as montadoras falirem, aumentando em 3 milhões o número de desempregados no país e provocando uma quebradeira da indústria de autopeças, revendedoras, etc. Embora haja liberais, conservadores e progressistas compartilhando as duas posições, indistintamente, os mais ortodoxos defensores do livre mercado tendem a condenar qualquer tipo de ajuda federal, ainda que relativamente pequena e provisória, à indústria automobilística.
“Agora US$ 50 bilhões, depois mais US$ 50 bilhões”, empombou o comentarista do Washington Post George F. Will, antevendo um poço sem fundo. E a fortuna investida no Iraque e desviada para os cofres da Halliburton, da Blackwater e afins, em nome da “segurança” e do “patriotismo”? Por que os bancos, que só produzem papel, foram salvos com uma ajuda de US$ 700 bilhões, e as montadoras, que produzem bens de consumo e geram milhões de empregos, não podem receber US$ 50 bilhões?, cobrou Paul Craig Roberts. Assistente da Secretaria do Tesouro do governo Reagan, Roberts não pode ser acusado de estatizante ou algo similar.
Que tal aproveitar a oportunidade para reinventar a indústria automotora americana?, sugeriu um blogueiro da revista The New Republic, sintetizando o anseio de diversos políticos e analistas, que, ideologias à parte, condicionam qualquer ajuda governamental a um comprometimento das montadoras com a fabricação de carros mais econômicos e ecologicamente corretos. Sem salvaguardas como esta, não faz o menor sentido salvar as Três Grandes da bancarrota. Se bem que nem carros como o Chevy Volt o sectário Will aceita como garantia; até porque o considera uma concessão malévola aos congressistas “obcecados” pelo ambientalismo. Com cabeças assim, fica mais difícil carregar o andor capitalista.
É voz corrente que subsidiar uma indústria cheia de vícios só iria perpetuar uma estrutura improdutiva. Uma indústria automobilística revigorada, vibrante e competitiva teria um papel essencial na solução dos três maiores problemas da atualidade: a debacle financeira, a crise energética e a catástrofe ambiental, escreveu Jeffrey D. Sachs, que considera “vital” uma parceria com o governo. Tão vital que deveria ter sido iniciada, segundo ele, na semana passada. Mas o Congresso só tomará a decisão final daqui a 15 dias. Depois de ver os três principais executivos da GM (Richard Wagoner), Chrysler (Robert Nardelli) e Ford (Alan Mulally) descerem em Washington para mendigar US$ 50 bilhões, a bordo de luxuosos jatinhos executivos, o usualmente moderado comentarista político Eugene Robinson, colega de página de Will, não se conteve e sugeriu que o Congresso aprovasse logo a ajuda às montadoras, condicionando-a à demissão sumária do desmoralizado trio. Boa idéia. O exemplo não deve vir sempre de cima?

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