O Triste Fim da Gazeta Mercantil
Jasson de Oliveira Andrade
Antes de entrar no assunto deste artigo, recordo o meu início político na década de 50. No livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA, à página 15, relembro: “Meu pai, como acontecia com a maior parte dos fazendeiros sanjoanenses, era político e da UDN (União Democrática Nacional). Meninote, ajudava na campanha eleitoral desse partido. Ficava até tarde da noite na casa de meu tio-avô, Luiz Banho de Andrade, dobrando cédulas (como era a eleição daquela época) com o nome de candidatos udenistas, principalmente de Herbert Levy, político que recebia boa votação em São João da Boa Vista”. Foi assim que tomei conhecimento desse político. Depois houve rompimento com os udenistas, o que causou a perseguição depois do Golpe de 64, com a prisão de muita gente naquela cidade, incluindo o autor deste texto. Mas essa é outra história que pode ser lida no referido livro. Por que cito essa passagem política? É que o então deputado Herbert Levy foi o fundador da Gazeta Mercantil, em 1920, que teve uma enorme influência junto aos empresários. Agora, em 2009, melancolicamente, o jornal chegou a seu fim. É essa situação que veremos a seguir.
O jornalista Thales Guaracy, que trabalhou na Gazeta Mercantil, iniciando lá em 1986, escreveu um artigo, sob o título “O fim de um jornal melhor que os seus donos”, no qual, como diz Luiz Antonio Magalhães, faz “um interessante balanço sobre a Gazeta Mercantil”. É desse balanço que vamos transcrever trechos para conhecimento de nossos possíveis leitores.
Relata Thales Guaracy: “A imprensa anda de luto pela Gazeta Mercantil, o jornal que vem estertorando nas mãos da CBM, Companhia Brasileira de Multimídia, de Nelson Tanure. Seu fim não se dá pela crise da imprensa, que vai abalando grandes jornais do mundo, a começar pelo New York Times, nos Estados Unidos, com a prevalência crescente da internet sobre a mídia impressa. É apenas um caso de má administração e incompreensão da natureza de um negócio”. Adiante o jornalista revela o verdadeiro motivo do fim da Gazeta Mercantil, jornal econômico que tinha tudo para dar certo: “Parecia um negócio inexpugnável, e teria sido, não fossem os seus proprietários: a família Levy, cujo patrono, o deputado federal Herbert Levy, deixara a administração do jornal ao filho Luiz Fernando para cuidar de suas atividades políticas. A gestão fez da Gazeta Mercantil o único órgão de imprensa em que trabalhei a atrasar salário. Porto seguro para a publicidade de bancos e outras empresas que tinham no jornal um veículo perfeito, o mal uso dos recursos fazia com que volta e meia a empresa entrasse em dificuldades. (…) Por sorte, naquela época, havia um grupo de empresários que, nos momentos difíceis, socorriam o jornal. Sabiam que ele era melhor que os seus donos. (…) Assim, o jornal prosseguiu não por causa de seus criadores, mas apesar deles: pertencia não a uma família, mas à sociedade. Sempre foi muito respeitado graças ao espírito de corpo dos jornalistas que nele trabalhavam, enquanto seus proprietários eram tratados com reserva. (…) A empresa mergulhou em dívidas e mesmo os seus mais antigos defensores desistiram de salvá-la. Acossado pelos credores, Levy entregou o título a Nelson Tanure, empresário do ramo de transportes, que resolveu investir em comunicação e cobriu-lhe dívidas”. Em vista às dívidas, Tanure resolveu devolver a Gazeta Mercantil a Luiz Fernando Levy, que não a quer de volta. O jornalista diz então: “A Gazeta virará agora uma embrulhada jurídica para que se saiba quem pagará as contas, se Levy ou se Tanure – um tipo de disputa à qual ambos, por sinal, estão habituados”.
Lamentável essa situação: é o triste fim da Gazeta Mercantil, da família Levy. Apesar da divergência que tivemos no passado com o então deputado federal Herbert Levy, não desejava a extinção do jornal, principalmente pelos jornalistas e funcionários. Foi, como disse Thales Guaracy, o fim de um jornal melhor que os seus donos!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Junho de 2009
LEITURA COMPLMENTAR:
CBM desiste e Gazeta Mercantil deixa de circular
Jornal teve circulação interrompida; profissionais entraram em férias e podem ser realocados em outras empresas da CBM
MEIO & MENSAGEM
01/06/2009
Como os acontecimentos da semana passada já indicavam, o jornal Gazeta Mercantil deixou de circular a partir desta segunda-feira, 1º de junho. Além da edição impressa, a versão online do informativo de economia também está fora do ar. No lugar do antigo site, aparece apenas um comunicado da Companhia Brasileira de Mídia (CBM), afirmando que a empresa não é mais responsável pela representação das marcas Gazeta Mercantil e InvestNews. A confirmação veio depois de uma semana angustiante. Na quinta-feira, 28, o CEO da Companhia Brasileira de Multimídia (CBM), Eduardo Jácome, informou à equipe de funcionários do jornal que a Gazeta Mercantil – às vésperas de completar 90 anos e outrora o mais importante periódico econômico do Brasil – deixaria de ser publicada pelo grupo na sexta-feira, 29, e voltaria a ser de responsabilidade de Luiz Fernando Levy, seu antigo dono. Os funcionários entrariam em férias remuneradas de 30 dias. Depois desse prazo, eles devem retornar à empresa para que seja definida a realocação em outros projetos da CBM. Quem não for remanejado terá mais 30 dias de aviso prévio. As operações online com o nome da Gazeta e da Investnews também foram suspensas, mas a CBM manteve quatro pessoas para prestar o que definiu como um serviço paralelo na área. O que vai acontecer com a marca Gazeta ainda é uma incógnita. De acordo com informações extraoficiais, Levy teria pedido a Nelson Tanure, o proprietário da CBM, 90 dias para tomar uma decisão, mas a proposta foi negada. Durante as reuniões na sede do jornal, em São Paulo, chegou a ser aventada a hipótese de os próprios funcionários passarem a deter o direito de uso da marca; porém, a ideia também não seguiu adiante. Caso Levy não reative o periódico ou entre em acordo com Tanure, nem os funcionários levantem essa bandeira, há ainda a possibilidade de que a marca vá a leilão – o que já aconteceu no passado, em outros grupos de mídia, com seus títulos, como a revista Manchete, da Bloch.
Os últimos capítulos da história da Gazeta sob o comando da CBM começaram a ser escritos na segunda, 25, quando Tanure informou em um primeiro comunicado que estava devolvendo o título a Levy e, assim, rompendo o contrato de licenciamento de 60 anos para o uso da marca. O principal motivo seria o custo com o passivo da Gazeta. Inicialmente, pensou-se que o problema era basicamente as ações trabalhistas. Mas, segundo fontes ouvidas por Meio & Mensagem, na reunião Jácome citou também a cobrança de R$ 32 milhões em impostos relativos ao período anterior ao contrato com a empresa de Tanure. Conforme matéria da própria Gazeta, desde 2003 os recursos adiantados pela CBM para o jornal chegam perto de R$ 100 milhões.
Sem ilusão
Apesar de Tanure ter afirmado que estava disposto a contribuir com Levy para que o jornal não fosse descontinuado, o primeiro contato deste último com os funcionários não foi nada animador. “Não se iludam, acabou”, afirmou ao telefone aberto no viva-voz para que todos pudessem ouvir, ainda na segunda, 25. No dia seguinte, porém, Levy mostrou-se mais contido ao enviar um comunicado interno à equipe.Lançada em 1920, a Gazeta Mercantil foi por décadas a principal referência do jornalismo econômico do País. A sua circulação paga chegou a ser superior a 120 mil exemplares, e a equipe de jornalistas recebia alguns dos melhores salários do mercado. A qualidade de apuração, a profundidade na abordagem dos temas e os desenhos em bico-de-pena tornaram-se algumas das marcas do jornal. Na virada para os anos 2000, a má gestão da empresa começou a emperrar, e os salários, a atrasar. Também entrou em cena um concorrente na área em que até então a Gazeta reinava absoluta: o Valor Econômico. Em 2001, a crise tornou-se aguda com a greve dos funcionários do jornal, que exigiam o pagamento dos salários. Dois anos depois, em dezembro de 2003, Tanure fechou o acordo de licenciamento com Levy. O rompimento do contrato ocorre logo após a alta temporada de publicação de balanços financeiros, uma das principais fontes de receita da Gazeta e segmento em que o jornal é vice-líder de mercado (o Valor lidera o ranking). Mas o pagamento das agências à Gazeta já eram todos feitos em juízo para garantir o cumprimento de dívidas. A Justiça também penhorou ações da Intelig, controlada por Tanure, para garantir o pagamento de dívidas trabalhistas da Gazeta.
O empresário está em negociações para vender a operadora à TIM. Procurados pelo M&M, a diretoria da CBM e Levy não se pronunciaram. A Gazeta deixou de ser filiada ao Instituto Verificador de Circulação em setembro. Na ocasião, a sua circulação média por semana era de 70 mil exemplares.