ENCALHE

fevereiro 23, 2009

"E o petróleo, hein?", perguntou o Cidadão de Bem, indignado com a gasolina que não barateia.

Filed under: automóveis, cidadão de bem, commodities, gasolina, petróleo e derivados — Humberto @ 4:03 am
Tava filando um jornalizinho numa banca, quando o sujeito ( doravante conhecido pela sigla “C.B.”: “Cidadão de Bem” ou, segundo Vinícius Duarte, “Sangue Bom” ) adentrou o estabelecimento.
Pegou um jornal, deu uma bizoiada rápida e meio desinteressada no balcão das revistas semanais. Deteve-se mais demoradamente numa Newsweek, cuja capa traz um barrilzão de petróleo.Seja lá o que a revista esteja dizendo sobre o ouro negro, o caso é que CB tentou entabular uma conversa com o [ nem tanto assim ] agrurado jornaleiro:
- E o petróleo, heim?
“É, né?”, respondeu o melhor que pôde o vendedor de jornais, a boca torta pela força feita para parecer um “comerciante atencioso”. Ainda mais nessa época de crise…
CB, diante de uma resposta monossilábica evidente de má vontade, tinha duas opções. A primeira e mais acertada: se tocar de que o outro talvez não quisesse papo, pegar seu jornal, dizer qualquer coisinha e sair imediatamente.
Continuou a desenrolar seu raciocínio para o inconsolável jornaleiro:
-Então, né, o petróleo… – as reticências induzindo o interlocutor forçado a perguntar “que é que tem?”.
“Que é que tem?”, ruminou. A pergunta, visceralmente resmungada, terminou de entortar a boca do cara de vez.
- O petróleo tava a cento e poucos dólares, e a nossa gasolina num preço. Agora tá trinta e pouco o barril, e a gasolina não abaixa de preço. Não abaixa…, completou o ‘Adam Smith de subúrbio’. E, finalmente, foi embora.
Provavelmente ele deve imaginar que, tendo a cotação do barril de petróleo caído mais de 70% em alguns meses, o certo, o correto e justo seria o mesmo ocorrer com a gasolina. Assim ele poderia tirar o carro mais vezes da garagem e poluir mais do que nunca. Uma prova, portanto, de que o barril tem que ir a uns duzentinhos. E logo, por favor. Quase desejo uma nova guerra.
Eu, que não dirijo e detesto carros, sei que o Brasil ficou mais de dois anos sem reajustar o preço da gasolina, enquanto os preços do petróleo explodiam. Sem reajustar, é quase como se a gasolina tivesse sido subsidiada à população [ no meu entender, pelo menos ]. Só que disso, claro, o mequetrefe não se queixou. Deve ser a tal da “memória seletiva”.
Entrementes, conforme dito acima, não sei dirigir. Então, esse universo “petrolífero” é grego para mim. Deixo a “chutologia” pros jornalistas sérios e diplomados. Enquanto eles vão chutando, não perca tempo e leia, com bastante atenção, este texto do mestre Aloysio Biondi ( sem data ):
Para entender a alta da gasolina e do dólar
Para quem ficou surpreso com a alta da gasolina e de outros combustíveis, bem como com as novas altas do dólar, ou queda do real, vale a pena mastigar alguns dados:
Petróleo em queda – Nos últimos dois anos, os preços do petróleo no mercado mundial sofreram um recuo brutal, caindo de US$ 20 para até US$ 10 o barril (em janeiro deste ano).
No Brasil - O governo FHC, porém, decidiu não reduzir os preços da gasolina e de outros combustíveis, para o consumidor brasileiro. Isto é, o governo poderia ter reduzido os preços em até 50%, no ano passado, na mesma proporção da queda do custo do petróleo. Ao manter os preços altos, “confiscou” uma parte da renda dos consumidores, pessoas ou empresas. Com muita habilidade, o governo FHC criou um “confisco invisível”, evitando assim a necessidade de aprovação pelo Congresso – e a indignação do consumidor, que não se esqueceu até hoje do “empréstimo compulsório” sobre os combustíveis criado na época do Cruzado e nunca devolvido.
Petrobras, não - Ao cobrar 20 (simplificadamente) por combustíveis que poderiam custar 10, o governo criou uma margem de lucro extra de 100%, ou um “confisco” de 100%, na surdina. Esse lucro extra ficou para a Petrobras, como a imprensa dá a entender? Não. A equipe FHC realizou várias manobras, o que vale a pena entender: acontece que o governo devia uns R$ 8 bilhões à Petrobras, uma dívida acumulada ao longo de anos. Como? Principalmente porque a equipe econômica mandou a Petrobras usar dinheiro dela, Petrobras, para pagar compromissos (subsídios) que o governo tinha com os usineiros de álcool, com a promessa, obviamente, de o Tesouro devolver esse dinheiro à empresa.
Outro confisco - Quando o governo criou o “confisco” de 100%, decidiu que esse dinheiro iria para os cofres dele, governo, mas em seguida seria entregue à Petrobras, todos os meses, como uma espécie de prestação para pagamento da dívida acumulada. Entende-se bem a manobra: o preço extra não virou lucro da Petrobras: virou lucro do Tesouro, que o reservou para pagar uma dívida com a Petrobras.
Mesmo esse esquema, porém, foi cancelado, em outubro do ano passado, poucos meses após ter sido implementado. Nas negociações com o FMI, o governo assumiu o compromisso de abocanhar para ele próprio, governo, o tal “lucro extra”, que deixou de ser repassado para a Petrobras. A empresa, para piorar a situação, teve que aceitar o falso pagamento da dívida do Tesouro, aceitando sua quitação com o recebimento de títulos que somente vencem daqui a dez anos…
Confisco e aumento
Ao assinar o acordo com o FMI, o governo FHC comprometeu-se a utilizar o dinheiro do “confisco invisível” para reduzir o célebre rombo do Tesouro, isto é, o dinheiro foi incluído no chamado “ajuste fiscal” na maior surdina – isto é, sem a necessidade de discussões no Congresso e sem repercussões negativas na opinião pública. Tudo muito hábil. Ou com muita esperteza.
Previsível - Mas o acordo com o FMI previu, também, que qualquer receita prevista para fechar o “rombo” tem de ser atingida, isto é, se qualquer imprevisto impedir que aquela meta seja alcançada, o governo deve tomar providências para compensar a diferença. No caso do “confisco invisível”, a arrecadação até superou as previsões nos primeiros meses do ano, porque os preços do petróleo continuavam a cair, aumentando o lucro extra “confiscado” pelo governo, que continuou negando reduções nos preços dos combustíveis.
Foi esse “confisco”, que rendeu até R$ 700 milhões por mês, sem que o consumidor se apercebesse, que permitiu ao governo cumprir metas de redução do “rombo”. Mas, como esta coluna apontou na época, mais cedo ou mais tarde a manobra silenciosa precisaria ser abandonada – e os preços dos combustíveis precisariam ser aumentados. Por quê?
Já a partir de fevereiro/março os países produtores de petróleo resolveram fazer um acordo para reduzir a produção e obter uma recuperação nos preços internacionais. O petróleo entrou em alta, passou para US$ 14, US$ 16 e até US$ 18 o barril, isto é, o “confisco invisível” desapareceu. Sem esse dinheiro, o governo foi forçado a aumentar os preços dos combustíveis, dentro das exigências do acordo com o FMI. E deverá fazer outros aumentos, já que a alta dos preços do petróleo chegou aos 60%, 80%.
Moral da história: o episódio mostra como a equipe FHC age. Um confisco de renda do consumidor na surdina. Um confisco de lucro da Petrobras na surdina. Novo calote na empresa, na surdina, ao mesmo tempo em que se faz a opinião pública acreditar que a Petrobras lucra com os preços altos. Dívidas bilionárias com a Petrobras, que a impedem de investir, abrindo-se caminho com novas mentiras para a “necessidade de investimentos das multinacionais para produzir petróleo”. Falseamento da verdade, com explicações mentirosas sobre o reajuste dos combustíveis, atribuindo-o à desvalorização do real.
Coroando tudo isso, as mentiras do sr. David Zylbersztajn, que ao longo dos últimos meses continuou dizendo que os preços internacionais do petróleo estavam em queda e por isso era preciso entregar os riquíssimos campos brasileiros de petróleo, a preço de banana, às multinacionais. Realmente, tudo com muita esperteza. Qualidade que nem sempre pode ser considerada dignificante para um governo e homens públicos.
O real - E a queda do real? Passageira, já que se diz que o Brasil recuperou a “credibilidade internacional”? Isso é balela. Segundo o próprio Banco Central, as empresas brasileiras estão pagando juros de até 16% no mercado internacional. O preço da desconfiança.
CONTINUE COM A LEITURA.
AGORA…
Petróleo mais barato, gasolina nem tanto
A dúvida do consumidor faz sentido: se a cotação do petróleo vem caindo no mercado internacional, por que o mesmo não acontece nas bombas?
O POVO, 14 Fev 2009
PARA FINALIZAR:
Um post ( de janeiro de 2008 ) no finado Cata-Milho dá o serviço. Foram mesmo dois anos sem reajustes no preço da gasolina.
Assim eu escrevi: ” ‘(…) Eulina [ Nunes dos Santos, coordenadora de índices de preços do IBGE ] listou como principais motivos para o bom comportamento do grupo [ os "não-alimentícios" que, segundo consta, "contribuíram para que a taxa { de inflação de 2007 } não fosse maior" ] a influência do dólar sobre preços de eletrodomésticos, vestuário e energia elétrica (…), e a ausência de reajuste nos preços da gasolina [ o último foi em janeiro de 2006 ] (…)’. PERALÁ! A gasolina não aumenta há quase 2 anos?? ( … )”
” ( … ) qualquer zé ruela sabe que, quando a gasosa aumenta de preço, é a maior chiadeira por aqui. Geralmente mais preocupados com o BBB, futebol, celular no ônibus ou com seus interesses mesquinhos, os consumidores – mais notadamente os paulistanos, de todas as classes – não querem saber se o petróleo está custando US$ 200 o dedal. Quer porque quer, a R$ 1,99 o navio tanque e pronto ( … )”.
” ( … ) Uma pesquisa rápida na Internet e pronto: fico sabendo que, em janeiro de 2006 o barril chegou a mais de US$ 69,00 ( … ) Mais uma pesquisa e tenho com o que comparar: um barril de um determinado tipo de petróleo está na casa de 86 dólares e uns trocados ; em Novembro de 2007, um outro tipo do produto chegou a mais de 95 dólares ( … )”.
“Os ‘Mercados’ podem se matar que não dou a mínima! Estadão admitiu que “economistas” erraram praticamente todos os chutes em 2007. 2008 será idem.” , O Cata-Milho, 23 de Janeiro de 2008

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.