Entenderam? Não?
Pois bem: vejam todos os comerciais possíveis de operadoras de celular. Prestem atenção. Vejam novamente.
Quanta felicidade!
Quanta promessa!
Vejam o velho na sacada de um prédio, agitando os braços, tal qual um maestro e sua batuta imaginária.
Se você visse uma cena assim, na vida real, não importa o que fosse, você acharia que o velho está louco. Não?
Ou o ( a ) jovem que passa, alheio ao que acontece em seu redor observando, compenetrado, seu aparelho; talvez tenha recebido uma mensagem. Ou, talvez, esteja fazendo isso o dia inteiro. Olhando o celular.
E o um bando de jovens, amontoados e posando para uma foto. Todos querem aparecer na foto. Dúvida: para quem é tal foto?
É aí que as as coisas se tornam mais complicadas: para quem?
Diga, você já assistiu a todos os filmes que gostaria de ver? E àqueles que PRECISA ver, mas que ainda não se empolgou em fazê-lo?
E os livros? Os clássicos? Contos? Crônicas? Obras importantes de pensadores, filósofos, não importa qual linha que sigam? Sabe, aquela coisa de “eu acho que Platão é legal, mas ainda não li Schopenhauer, sei lá, um dia, quem sabe, acho que é importante, nem que leia só uma vez…”?
Drummond? Machado de Assis? Oscar Wilde? Raymond Chandler? A Bíblia? O Alcorão?
E quanto à música? Eu sei, você tem seu gosto pessoal…mas lembra daquela vez que alguém comentou que gostava de um determinado tipo mas que, não sabia por quê, achava outro estilo importante de ser conhecido? Sabe, tipo “gosto de rock, mas gostaria de ouvir mais Frank Sinatra e, talvez, a discografia de Tonico e Tinoco…”?
E seu interesse em aprender outro idioma? Continua? Ah, falta tempo?
Pois bem: voltemos ao celular. Não, ainda não.
Veja toda a produção artística e cultural produzida pela humanidade. Nós, seres humanos, não temos uma vida que dure o suficiente para sequer arranhar o verniz que recobre o legado produzido pelo homem, o que significa que morremos sem saber de porra nenhuma. Não temos tempo para esgotar as possibilidades. Ler as obra de Marx e Adam Smith. Entre todas as outras que, dizem, são obrigatórias.
O mesmo vale para filmes, quadros, esculturas, Literatura, música, quadrinhos ( há clássicos, independente de gosto: Watchmen de Alan Moore e Carl Barks ), etc.
E volto aos celulares, e às figuras que aparecem nos comerciais, sugerindo que nós, também, podemos e temos o direito de sermos vistos pelo resto da Humanidade. Olhem como posam…para quem?
Se todos estivessem ocupados, posando para câmeras e celulares para, depois, mostrar aos outros, QUEM TERIA TEMPO PARA OLHAR O OUTRO em poses idiotas? E, o que teria o fotografado de tão importante ou legal para mostrar? Apenas a si próprio? Who cares? Lembram daquelas piadas tipo, o casal chega de viagem e já escala os vizinhos para um interminável e horrorosa seção de slides: “Vejam, este sou eu ( como se não soubessem disso ) em frente ao hotel francês onde esteve hospedada a empregada doméstica do Fernando Henrique…”!
Os tais 15 minutos de fama se tornaram 1,5 segundo, pois todos são famosos durante este naco de tempo. Sem que se necessite produzir absolutamente nada. É só olhar e clicar-se.
Eu achava que este tipo de mensagem publicitária não tivesse apelo algum. Até que, passando de ônibus pela Av. Paulista, notei um casalzinho adolescente, encostado num canteiro, e se fotografando, juntinhos, com o celular. Quem quer ver?

TRIVELA
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