ENCALHE

março 4, 2009

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

janeiro 13, 2009

CUBA: "Meio século de uma revolução bem-sucedida", por GABRIEL DE SALLES, editor da Gazeta Mercantil

Esse aqui eu não podia deixar passar: um artigo claro, simples, informativo e – para mim, pelo menos – equilibrado, longe do teor apocalíptico-paranóico que acostumamos a ler no imprensalão, e isento da paixão dos que defendem ardorosamente ( não questiono se estão ou não com a razão ) a revolução cubana. Aliás, este texto é claramente simpático aos resultados que viriam a seguir, com a tomada do poder por Fidel e seus companheiros. Só que sem proselitismos. Gostei muito.
Meio século de uma revolução bem-sucedida
Gabriel de Salles
Editor da Gazeta Mercantil
9 de Janeiro de 2009 - Convalescentes de graves traumatismos causados por “investimentos exóticos”, ainda chocados com alguns “circuit brakers”, tentando se equilibrar em meio a sufocos provocados por “ativos tóxicos”, idólatras do liberalismo econômico – os mesmos que renegam o Estado, mas veneram os cofres públicos – não perderam de todo a pose e se dedicaram neste fim de ano a criticar Cuba, aproveitando-se das comemorações dos 50 anos da vitoriosa revolução liderada por Fidel Castro.
Com poucas exceções, nos meios de comunicação, repetiu-se argumentação velha e enfadonha sobre as mazelas do socialismo, o sofrimento de um povo sem liberdade, falta de perspectivas dos jovens, e por aí afora. “Um país em frangalhos”, alguém escreveu. Foram poucos os comentários isentos, mostrando, por exemplo, aspectos positivos do dia-a-dia dos cubanos e suas conquistas neste meio século. Não se repetiu, na maioria das análises, a extrema dedicação de seus autores quando se trata de louvar práticas como as que levaram à crise do subprime. E até que não seria necessário muito esforço. Bastaria uma consulta a sites de organismos isentos como a Unesco, Organização Mundial da Saúde e a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), entre outros.
Num relatório preliminar sobre o desempenho das economias da América Latina e Caribe, divulgado pouco antes do Natal, a Cepal situa Cuba com um crescimento econômico de 4,3% em 2008, modesto se comparado com os líderes Uruguai, Peru e Panamá, cujo crescimento previsto é de 11,5%, 9,4% e 9,2%, respectivamente, mas superior, por exemplo, ao México, que crescerá apenas 1,8%. Assolada impiedosamente pelos furacões Gustav e Ike, Cuba arcou com perdas superiores a US$ 10 bilhões, em 2008, o que comprometeu os resultados da economia do país, que não repetiu os bons desempenhos de 2006, quando liderou o crescimento entre os latinos com 12,1%, e de 2007, ano em que, mesmo sem liderar, apresentou o bom índice de 7,3%. Apesar das catástrofes climáticas, o índice preliminar de 4,3% também está acima de países como o Chile (3,8%) e Colômbia (3,0%).
Nas projeções para 2009, quando os países da América Latina poderão ser fortemente atingidos pela retração das economias desenvolvidas, a Cepal anuncia índices bem mais modestos que em 2008, colocando o Peru como o líder, com 5%. Cuba volta a ocupar posição de destaque, com crescimento previsto de 4,0%, dividindo o terceiro lugar com o Uruguai e um pouco abaixo do Panamá, que é o segundo colocado com 4,5%. O Brasil, classificado com 5,3% em 2008, ficará com modestos 2,1%, sempre segundo a Cepal, que novamente não poupa o México, relegando-o à ultima colocação com 0,5%. O país que há pouco tempo era usado como exemplo das vantagens de se aderir ao Nafta, o bloco comercial comandado pelos Estados Unidos, deverá crescer menos que o Haiti (1,5%) e El Salvador (1%).
O pessimismo reinante nos países de economia “aberta”, como é o caso brasileiro, a julgar pelo que prevê a Cepal, não se aplica a Cuba. Ao completar meio século de processo revolucionário, a ilha caribenha registra o segundo mais baixo índice de mortalidade infantil das Américas, com 5,3 mortes por mil nascidos vivos, atrás apenas do Canadá. No plano econômico, o governo cubano anuncia uma política de estímulo a pequenos e médios empreendedores rurais, enquanto continua diversificando a pauta de exportações, que deixou de depender dos derivados da cana-de-açúcar. Abrange agora, além de matérias-primas como o níquel, produtos de ponta, onde se destacam os medicamentos, insumos e serviços de saúde. Os profissionais cubanos dessa área distribuem-se hoje por cerca de 40 países.
Avaliações recentes de autoridades do setor de turismo minimizam os efeitos da crise global, mantendo a projeção de novamente bater o recorde de turistas estrangeiros na ilha, que deverá se aproximar dos três milhões de pessoas, oriundas principalmente do Canadá e União Européia.
São números renegados pelos neoliberais, mas que testemunham que nem tudo é tragédia entre os cubanos.

setembro 19, 2008

Raúl Castro se reúne com vice-presidente russo de visita em Cuba

O presidente cubano Raúl Castro reuniu-se na segunda-feira (15) com o vice-presidente da Federação Russa, Igor Ivânovich Séchin, que esteve em Cuba para uma brevísima visita de trabalho, encabeçando uma delegação de ministros e empresários russos.
A reunião teve lugar em uma atmosfera fraterna e amigável e ambos os líderes políticos manifestaram a sua vontade de continuar a aumentar a cooperação bilateral.
Raúl Castro agradeceu o visitante em nome do povo cubano a ajuda humanitária enviada pela Rússia para ajudar a nação caribenha, na seqüência da devastação causada pelos furacões Gustav e Ike. Recordemos que a Rússia foi o primeiro país em mandar quatro aviões com artigos de primeira necessidade para os danificados.
Também estiveram presentes na reunião o VP cubano Carlos Lage Dávila e o ministro de governo Ricardo Cabrisas, assim como o ministro da energia russo, Serguei Ivanovich Shmatko, e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Serguéi Ryabkov.
Agência Cubana de Notícias
17.09.08

Raúl Castro se reúne com vice-presidente russo de visita em Cuba

O presidente cubano Raúl Castro reuniu-se na segunda-feira (15) com o vice-presidente da Federação Russa, Igor Ivânovich Séchin, que esteve em Cuba para uma brevísima visita de trabalho, encabeçando uma delegação de ministros e empresários russos.
A reunião teve lugar em uma atmosfera fraterna e amigável e ambos os líderes políticos manifestaram a sua vontade de continuar a aumentar a cooperação bilateral.
Raúl Castro agradeceu o visitante em nome do povo cubano a ajuda humanitária enviada pela Rússia para ajudar a nação caribenha, na seqüência da devastação causada pelos furacões Gustav e Ike. Recordemos que a Rússia foi o primeiro país em mandar quatro aviões com artigos de primeira necessidade para os danificados.
Também estiveram presentes na reunião o VP cubano Carlos Lage Dávila e o ministro de governo Ricardo Cabrisas, assim como o ministro da energia russo, Serguei Ivanovich Shmatko, e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Serguéi Ryabkov.
Agência Cubana de Notícias
17.09.08

Raúl Castro se reúne com vice-presidente russo de visita em Cuba

O presidente cubano Raúl Castro reuniu-se na segunda-feira (15) com o vice-presidente da Federação Russa, Igor Ivânovich Séchin, que esteve em Cuba para uma brevísima visita de trabalho, encabeçando uma delegação de ministros e empresários russos.
A reunião teve lugar em uma atmosfera fraterna e amigável e ambos os líderes políticos manifestaram a sua vontade de continuar a aumentar a cooperação bilateral.
Raúl Castro agradeceu o visitante em nome do povo cubano a ajuda humanitária enviada pela Rússia para ajudar a nação caribenha, na seqüência da devastação causada pelos furacões Gustav e Ike. Recordemos que a Rússia foi o primeiro país em mandar quatro aviões com artigos de primeira necessidade para os danificados.
Também estiveram presentes na reunião o VP cubano Carlos Lage Dávila e o ministro de governo Ricardo Cabrisas, assim como o ministro da energia russo, Serguei Ivanovich Shmatko, e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Serguéi Ryabkov.
Agência Cubana de Notícias
17.09.08

Raúl Castro se reúne com vice-presidente russo de visita em Cuba

O presidente cubano Raúl Castro reuniu-se na segunda-feira (15) com o vice-presidente da Federação Russa, Igor Ivânovich Séchin, que esteve em Cuba para uma brevísima visita de trabalho, encabeçando uma delegação de ministros e empresários russos.
A reunião teve lugar em uma atmosfera fraterna e amigável e ambos os líderes políticos manifestaram a sua vontade de continuar a aumentar a cooperação bilateral.
Raúl Castro agradeceu o visitante em nome do povo cubano a ajuda humanitária enviada pela Rússia para ajudar a nação caribenha, na seqüência da devastação causada pelos furacões Gustav e Ike. Recordemos que a Rússia foi o primeiro país em mandar quatro aviões com artigos de primeira necessidade para os danificados.
Também estiveram presentes na reunião o VP cubano Carlos Lage Dávila e o ministro de governo Ricardo Cabrisas, assim como o ministro da energia russo, Serguei Ivanovich Shmatko, e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Serguéi Ryabkov.
Agência Cubana de Notícias
17.09.08

julho 27, 2008

Megacampo de petróleo descoberto em CUBA não é notícia relevante?

Filed under: campos de petróleo, Cuba, Fidel Castro, Petróleo, Petrobrás — Humberto @ 2:14 pm
A informação foi noticiada, claro. Mas foi suficientemente noticiada? Trata-se de PETRÓLEO, pô! Que, à época, custava em torno de U$ 140 o barril. E, para reforçar o interesse, o megacampo teria sido descoberto em CUBA!! País que sempre ( “sempre” é modo de falar ) dependeu de suas relações com a URSS e, ultimamente, quem vem dando u’a mão é Hugo Chávez. Vejam só. Pensando: CUBA utilizará todo o petróleo que extrair, ou poderá torná-lo ítem de exportação ( claro que, para isso, dependerá de revisão no boicote que vem sofrendo ) ? Ou, dado que está havendo, ao que parece, certa “abertura” por parte do novo comando do país, será permitida a participação de iniciativa privada no negócio? Ou, a partir dessa descoberta, uma “iniciativa privada” surgirá com força em Cuba, havendo então um afrouxamento na direção estatista do país? É uma série de questões tão importante, que uma notícia dessas não poderia ficar restrita a uma mera coluna em caderno de Economia dos nossos jornais. Ainda mais considerando que, para muitos de nossos jornais e revistas, a questão cubana sempre foi objeto de muito interesse. Ou, talvez, estes pensem que se trate de notícia falsa, tipo 1984.
Como se pode apurar, os americanos já faziam suas estimativas a respeito. Mas os EUA também podem tentar deixar de lado as animosidades e estabelecer uma abertura como a que fez com a China, ainda na década de 60. Vejam no que deu.
Bom, eu ia postar aqui logo no dia que saiu nos jornais, mas esqueci. De qualquer modo, fica o registro.
Cuba acha megacampo e abre a nações amigas
Jornal do Commercio, RJ, 02/07/08 – Jamil Chade – Enviado especial da Agência Estado a MADRI
Autoridades de Havana revelaram ontem que comprovaram a existência de uma reserva com bilhões de barris de petróleo no Golfo do México, em pleno boom do preço do petróleo, maior do que as estimativas americanas já apontavam sobre a área. “Vamos mudar a história da ilha”, afirmou Fidel Rivero, presidente da Cupet, a estatal cubana de petróleo. Por décadas, Cuba dependeu da energia soviética para conseguir manter sua economia. Nos últimos anos, porém, fez um acordo com a Venezuela para comprar petróleo mais barato. Agora, quer sua independência energética e até conquistar mercados. Com o barril a mais de US$ 140,00, as autoridades cubanas admitem que a confirmação das descobertas veio em um momento ideal para seus planos de financiar a economia e os planos do governo atual.
Segundo dados do governo americano, a reserva teria o equivalente a 10 bilhões de barris de petróleo. Mas Rivero garante que Havana tem informações de que a reserva em águas profundas poderia ser quase o dobro da projeção americana, transformando-se em uma das principais das Américas. Não por acaso, as autoridades cubanas passaram o dia ontem em Madri apresentando seus projetos às multinacionais de pelo menos dez países.
“Pelas nossas estimativas, o que produziremos será bem acima das necessidade de consumo de Cuba. Portanto, nosso objetivo é o de se transformar em um exportador nos próximos anos e possivelmente usar o dinheiro para financiar nossa economia”, afirmou Rivero.
Uma das primeiras estimativas aponta para a produção inicial de 500 mil barris por dia, enquanto o consumo cubano é de apenas 140 mil barris. Hoje, produzem apenas 70 mil barris e o restante vem da Venezuela.
O executivo aponta que até mesmo o embargo americano poderia estar ameaçado diante das descobertas. “O interesse é tanto que existe até mesmo uma pressão das empresas americanas para que o governo em Washington acabe com o embargo e permita que possam investir em uma reserva que fica tão perto de seus mercados”, explicou Rivera.
Embargo. O executivo ainda contou que os empresários americanos estão driblando o embargo e fazendo visitas oficiais à Cuba para saber mais sobre o petróleo. “Mas eles entram como turistas, pelas portas dos fundos”, admitiu.
O governo cubano afirma que negocia com a Petrobras um dos melhores blocos na região, próximos à costa. “Estamos na fase de conclusão de um acordo. Espero que possamos anunciar algo já nos próximos meses”, afirmou Rivero. Segundo ele, a negociação ainda está definindo as taxas de retorno da empresa brasileira e as condições de exploração.
Já a ministra de Indústrias Básicas, Yadira Garcia Vera, aponta que não quer que o acordo se limite à exploração dos campos. “Certamente assinaremos um contrato de exploração ainda neste ano com a Petrobras. Queremos uma cooperação com a Petrobras para a transferência de tecnologia, especialmente para as reservas que estão em águas profundas”, afirmou. Além disso, Cuba negocia a instalação de uma fábrica de lubrificantes da Petrobras na ilha para interromper com as importações dos produtos que hoje vem da Europa.

Megacampo de petróleo descoberto em CUBA não é notícia relevante?

Filed under: campos de petróleo, Cuba, Fidel Castro, Petróleo, Petrobrás — Humberto @ 2:14 pm
A informação foi noticiada, claro. Mas foi suficientemente noticiada? Trata-se de PETRÓLEO, pô! Que, à época, custava em torno de U$ 140 o barril. E, para reforçar o interesse, o megacampo teria sido descoberto em CUBA!! País que sempre ( “sempre” é modo de falar ) dependeu de suas relações com a URSS e, ultimamente, quem vem dando u’a mão é Hugo Chávez. Vejam só. Pensando: CUBA utilizará todo o petróleo que extrair, ou poderá torná-lo ítem de exportação ( claro que, para isso, dependerá de revisão no boicote que vem sofrendo ) ? Ou, dado que está havendo, ao que parece, certa “abertura” por parte do novo comando do país, será permitida a participação de iniciativa privada no negócio? Ou, a partir dessa descoberta, uma “iniciativa privada” surgirá com força em Cuba, havendo então um afrouxamento na direção estatista do país? É uma série de questões tão importante, que uma notícia dessas não poderia ficar restrita a uma mera coluna em caderno de Economia dos nossos jornais. Ainda mais considerando que, para muitos de nossos jornais e revistas, a questão cubana sempre foi objeto de muito interesse. Ou, talvez, estes pensem que se trate de notícia falsa, tipo 1984.
Como se pode apurar, os americanos já faziam suas estimativas a respeito. Mas os EUA também podem tentar deixar de lado as animosidades e estabelecer uma abertura como a que fez com a China, ainda na década de 60. Vejam no que deu.
Bom, eu ia postar aqui logo no dia que saiu nos jornais, mas esqueci. De qualquer modo, fica o registro.
Cuba acha megacampo e abre a nações amigas
Jornal do Commercio, RJ, 02/07/08 – Jamil Chade – Enviado especial da Agência Estado a MADRI
Autoridades de Havana revelaram ontem que comprovaram a existência de uma reserva com bilhões de barris de petróleo no Golfo do México, em pleno boom do preço do petróleo, maior do que as estimativas americanas já apontavam sobre a área. “Vamos mudar a história da ilha”, afirmou Fidel Rivero, presidente da Cupet, a estatal cubana de petróleo. Por décadas, Cuba dependeu da energia soviética para conseguir manter sua economia. Nos últimos anos, porém, fez um acordo com a Venezuela para comprar petróleo mais barato. Agora, quer sua independência energética e até conquistar mercados. Com o barril a mais de US$ 140,00, as autoridades cubanas admitem que a confirmação das descobertas veio em um momento ideal para seus planos de financiar a economia e os planos do governo atual.
Segundo dados do governo americano, a reserva teria o equivalente a 10 bilhões de barris de petróleo. Mas Rivero garante que Havana tem informações de que a reserva em águas profundas poderia ser quase o dobro da projeção americana, transformando-se em uma das principais das Américas. Não por acaso, as autoridades cubanas passaram o dia ontem em Madri apresentando seus projetos às multinacionais de pelo menos dez países.
“Pelas nossas estimativas, o que produziremos será bem acima das necessidade de consumo de Cuba. Portanto, nosso objetivo é o de se transformar em um exportador nos próximos anos e possivelmente usar o dinheiro para financiar nossa economia”, afirmou Rivero.
Uma das primeiras estimativas aponta para a produção inicial de 500 mil barris por dia, enquanto o consumo cubano é de apenas 140 mil barris. Hoje, produzem apenas 70 mil barris e o restante vem da Venezuela.
O executivo aponta que até mesmo o embargo americano poderia estar ameaçado diante das descobertas. “O interesse é tanto que existe até mesmo uma pressão das empresas americanas para que o governo em Washington acabe com o embargo e permita que possam investir em uma reserva que fica tão perto de seus mercados”, explicou Rivera.
Embargo. O executivo ainda contou que os empresários americanos estão driblando o embargo e fazendo visitas oficiais à Cuba para saber mais sobre o petróleo. “Mas eles entram como turistas, pelas portas dos fundos”, admitiu.
O governo cubano afirma que negocia com a Petrobras um dos melhores blocos na região, próximos à costa. “Estamos na fase de conclusão de um acordo. Espero que possamos anunciar algo já nos próximos meses”, afirmou Rivero. Segundo ele, a negociação ainda está definindo as taxas de retorno da empresa brasileira e as condições de exploração.
Já a ministra de Indústrias Básicas, Yadira Garcia Vera, aponta que não quer que o acordo se limite à exploração dos campos. “Certamente assinaremos um contrato de exploração ainda neste ano com a Petrobras. Queremos uma cooperação com a Petrobras para a transferência de tecnologia, especialmente para as reservas que estão em águas profundas”, afirmou. Além disso, Cuba negocia a instalação de uma fábrica de lubrificantes da Petrobras na ilha para interromper com as importações dos produtos que hoje vem da Europa.

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