Folha Online, 09.04.08
“Os preços mais altos das matérias-primas, tanto alimentícias quanto energéticas, acentuados pela forte demanda dos países emergentes, tem provocado aumento da inflação no mundo.
Os preços dos cereais explodiram e o petróleo é vendido acima dos US$ 100 o barril –nesta quarta-feira, atingiu recorde aos US$ 112,21 –, afetando fortemente a maioria das economias do planeta e o poder aquisitivo das populações.
A grande responsável por estas altas dos preços é a demanda crescente dos países emergentes, com economias em crescimento que necessitam de matéria-prima para alimentar sua produção. A oferta mundial, limitada por recursos ou capacidade de produção, não consegue suprir essa demanda, o que gera tensões nos mercados internacionais e eleva os preços.
Seguindo os passos das matérias-primas, a inflação também começa a bater recordes no mundo, retirando o poder de compra da população. As tensões sobre os preços são particularmente sensíveis nos países em desenvolvimento, onde as famílias dedicam maior parte dos salários para a compra de comida e de combustível. (…)”
Difícil ler essas coisas, sem que surjam mais perguntas, que nos levarão a mais questionamentos. O trecho acima – e eu não vou me dar ao trabalho de ler o restante – , pelo menos uma idéia contida nela, me fez lembrar aquela ironia do Paulo Henrique Amorim: O PAC FAZ MAL À SAÚDE. Ou seja: os países emergentes estão levando o mundo à destruição, devido a seu excesso de consumismo. Onde já se viu? Já dizia o correto ditado: “Quem nunca comeu melado…”.
Quer ver uma coisa? Você acharia bom que o kilo de arroz no supermercado custasse R$ 0,50? Antes de responder, pense no que diria o produtor de arroz, sobre ele produzir o alimento a um custo tal que permitisse ao consumidor final no varejo pagar os cinquenta centavos. Talvez a história de “produzir comida cada vez mais e mais barato” seja um embuste que não considera as “Leis de Mercado” e os interesses dos agentes.
Que as pessoas ( provavelmente mais chineses e indianos, além de uns brazucas ) estejam consumindo mais alimentos, é uma informação a ser comemorada. Mas é justo dizer que isto seja a causa da aludida falta de alimentos e de seu consequente encarecimento, do jeito com está sendo exposto?
Não sei explicar direito o que me vem à cabeça, mas siga com a leitura:
AEN/ PR, 12.05.08
“O pouco número de empresas que produzem fertilizantes aumentou o preço do produto em mais de 50% só este ano, o que vem causando um repasse de custos inaceitável na produção de alimentos. O alerta foi feito nesta segunda-feira (12) pelo secretário da Agricultura e do Abastecimento, Valter Bianchini, durante audiência pública na Assembléia Legislativa, onde defendeu a necessidade de o Brasil discutir os 15 anos de privatização do setor e encontrar soluções alternativas para ampliar o fornecimento do insumo. (…)”
Ora, vejam. O secretário de Agricultura do Paraná traz um dado que merece nosso interesse: em 5 meses, houve um reajuste nos preços dos fertilizantes de cerca de 50%!!
Mas há outras informações excelentes: há, no mercado, um baixo ( “pouco” ) número de empresas que produzem fertilizantes. Um cartel, portanto. Aliás, me parece que o Brasil já foi, até os longínquos anos 90, um produtor de fertilizantes, sem precisar recorrer a importações massivas do produto. O ideal seria pesquisar a respeito. Sei – meio vagamente – que havia empresas estatais, ou subsidiárias das maiores, tipo Petrobrás, com esta função, e acabaram entrando na lista de degola das privatizações. Poderíamos, agora, refletir um pouco sobre a necessidade ou não de um país possuir uma empresa estatal estratégica, para a produção de defensivos, fertilizantes e outros, e que fosse um instrumento de equilíbrio na cadeia de produção agrícola.
Pois o artigo publicado na Folha Online não cogita a existência de um cartel de insumos a determinar os preços de elementos necessários para a produção dos alimentos, e que este seja também um responsável pela crise de abastecimento.
O artigo abaixo pode ser considerado altamente esclarecedor. Talvez haja um ou outro ponto de maior complexidade mas, de um modo geral penso eu, descreve bem a situação. Os grifos e destaques que surgirem são meus:
“Agrocombustíveis e produção de alimentos
ARIOVALDO UMBELINO DE OLIVEIRA
“E as conseqüências, para a produção de alimentos no Brasil, da expansão da cana-de-açúcar nos últimos 15 anos, quais são?
A RELAÇÃO entre a expansão dos agrocombustíveis e a produção de alimentos ganhou a agenda política internacional. A agricultura mundial continua passando por transformações profundas. O avanço da “comoditização” dos alimentos e do controle genético das sementes que sempre foram patrimônio da humanidade foi acelerado.
Dois processos monopolistas comandam a produção agrícola mundial. De um lado, está a territorialização dos monopólios, que atuam simultaneamente no controle da propriedade privada da terra, do processo produtivo no campo e do processamento industrial da produção agropecuária. O principal exemplo é o setor sucroalcooleiro.
De outro lado, está a monopolização do território pelas empresas de comercialização e processamento industrial da produção agropecuária, que, sem produzir absolutamente nada no campo, controlam, por meio de mecanismos de sujeição, camponeses e capitalistas produtores do campo.
As empresas monopolistas do setor de grãos atuam como “players” no mercado futuro das Bolsas de mercadorias do mundo e, muitas vezes, têm também o controle igualmente monopolista da produção dos agrotóxicos e dos fertilizantes.
A crise, portanto, tem dois fundamentos. O primeiro, de reflexo mais limitado, refere-se à alta dos preços internacionais do petróleo e, conseqüentemente, à elevação dos custos dos fertilizantes e agrotóxicos.
O segundo é conseqüência do aumento do consumo, mas não do consumo direto como alimento, como quer fazer crer o governo brasileiro, mas, isto sim, daquele decorrente da opção dos Estados Unidos pela produção do etanol a partir do milho.
Esse caminho levou à redução dos estoques internacionais desse cereal e à elevação de seus preços e dos preços de outros grãos – trigo, arroz, soja.
Assim, a “solução” norte-americana contra o aquecimento global se tornou o paraíso dos ganhos fáceis dos “players” dos monopólios internacionais que nada produzem, mas que sujeitam produtores e consumidores à sua lógica de acumulação.
Certamente, não há caminho de volta para a crise, pois, no caso norte-americano, os solos disponíveis para o cultivo são disputados entre trigo, milho e soja. O avanço de um se reflete inevitavelmente no recuo dos outros. Daí a crítica radical de Jean Ziegler, da ONU (Organização das Nações Unidas), que classificou o etanol como “crime contra a humanidade”.
É no interior dessa crise que o agronegócio do agrocombustível brasileiro quer pegar carona no futuro fundado na reprodução do passado. O governo está pavimentando o caminho.
Por isso, a questão dos agrocombustíveis e a produção de alimentos rebatem diretamente no campo brasileiro. A área plantada de cana-de-açúcar na última safra chegou perto de 7 milhões de hectares e, em São Paulo, onde se concentra mais de 50% do total, já ocupa a quase totalidade dos solos mais férteis existentes.
Em meio à expansão dos agrocombustíveis, uma pergunta se faz necessária: quais foram as conseqüências, para a produção de alimentos no Brasil, da expansão da cultura da cana nos últimos 15 anos?
Os dados do IBGE, entre 1990 e 2006, revelam a redução da produção dos alimentos imposta pela expansão da área plantada de cana-de-açúcar, que cresceu, nesse período, mais de 2,7 milhões de hectares. Tomando-se os municípios que tiveram a expansão de mais de 500 hectares de cana no período, verifica-se que, neles, ocorreu a redução de 261 mil hectares de feijão e 340 mil hectares de arroz.
Essa área reduzida poderia produzir 400 mil toneladas de feijão, ou seja, 12% da produção nacional, e 1 milhão de toneladas de arroz, o que equivale a 9% do total do país. Além disso, reduziram-se nesses municípios a produção de 460 milhões de litros de leite e mais de 4,5 milhões de cabeças de gado bovino.
Embora a expansão esteja mais concentrada em São Paulo, já o está também no Paraná, em Mato Grosso do Sul, no Triângulo Mineiro, em Goiás e em Mato Grosso. Nesses Estados, reduziu-se a área de produção de alimentos agrícolas e se deslocou a pecuária na direção da Amazônia Isso deu, conseqüentemente, em desmatamento. Por isso, a expansão dos agrocombustíveis continuará a gerar a redução da produção de alimentos.
A produção dos três alimentos básicos no país -arroz, feijão e mandioca- também não cresce desde os anos 90, e o Brasil se tornou o maior país importador de trigo do mundo. Portanto, o caminho para a saída da crise e da construção de uma política de soberania alimentar continua sendo a realização de uma reforma agrária ampla, geral e massiva.
ARIOVALDO UMBELINO DE OLIVEIRA, 60, é professor titular de geografia agrária da USP e diretor da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária). Integrou a equipe que elaborou a proposta do Segundo Plano Nacional de Reforma Agrária para o governo Lula (2003).
Vejam só, eu não estou afirmando coisa alguma ( quem sou eu? ); talvez um simples alerta de que, quando se percebe a vEJA falando sobre inflação, e você sabe ( sem nem mesmo precisar ler a matéria ) que, nas entrelinhas, ela tenta enfiar em nossa goela a impressão de que uma truculenta alta de juros promovida pelo Gabinete do dr. Meirelles seria boa para o Brasil, devemos redobrar a atenção. Pois se, de um limão se fará uma limonada, uma alta de juros – com a desculpa de brecar a inflação “causada pelos alimentos” – poderá não sutir efeito sobre os preços da comida, mas faria a alegria de muito especulador por aí.