EM DEBATE: A Mídia e o interesse na desinformação
Integrantes da sociedade civil brasileira lançaram um abaixo assinado em solidariedade à socióloga Maria Victoria Benevides e ao jurista Fábio Konder Comparato. Os dois foram alvo de ataques do jornal Folha de S. Paulo. O documento já conta com assinaturas de mais 5,8 mil pessoas, entre eles intelectuais do Brasil e do mundo. A Folha de S. Paulo qualificou de “ditabranda” o regime militar que vigorou no Brasil entre as décadas de 60 a 80. O termo foi usado em um editorial publicado no dia 17 de fevereiro, em comparação ao governo de Hugo Chávez, na Venezuela, que também foi enquadrado pelo jornal como uma ditadura.
Em entrevista à Radioagência NP, Maria Victoria afirma que o jornal utilizou-se de uma revisão histórica fraudulenta e ainda comenta que a “direção editorial do jornal insulta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país”.
Radioagência NP – Por que a Folha de S. Paulo tenta amenizar o significado do que foi este período da história brasileira?
Maria Victória - Os grandes jornais, como é o caso da Folha de S. Paulo, são empresas e, como empresas, têm muitos interesses. A discussão sobre o que foi a ditadura no Brasil, e que hoje está sendo muito aprofundada por conta de um processo de responsabilização do Estado em relação aos abusos cometidos durante a repressão, como torturas e mortes, pode chamar a atenção para outros problemas ligados à ditadura, problemas que muitas pessoas não gostariam de mexer.
RNP – Isto está relacionado com as atuais tentativas de fazer com que o Estado brasileiro assuma de vez sua real responsabilidade sobre os crimes cometidos nesse período?
M.V. – Não se trata apenas de julgar o Estado brasileiro, mas de identificar nominalmente os responsáveis, e os seus superiores imediatos, por esse período de grandes violações de direitos humanos. Trata-se também de identificar aqueles que colaboraram nesse período de repressão, fornecendo recursos materiais, por exemplo, para a OBAN [Operação Bandeirantes], grande órgão da repressão que se dividiu nos Doi-Codi’s. Isso mexe, por exemplo, com a história da Folha de S. Paulo, e também com todos aqueles que de alguma maneira financiaram a repressão. Isso envolve banqueiros, grupos de imprensa e meios de comunicação. Por isso há não interesse. Eu me refiro a políticos, jornalistas e pessoas das classes dominantes, em geral, que vão ter exposta a sua colaboração com atrocidades.
RNP – Você enquadraria este editorial da Folha de S. Paulo como revisionista?
M.V. - Esse editorial da Folha de S. Paulo foi uma pedrinha em uma edifício grande que é o do revisionismo. Eu acho que isso vai ao encontro de uma corrente que está tentando se consolidar, no sentido de que a ditadura militar no Brasil não foi tão ruim assim, porque as que ocorreram nos países do Cone Sul foram piores [com destaque para as que ocorreram na Argentina e Chile], em termos de números de mortos, torturados e desaparecidos. Ora, se nós levarmos esse raciocínio até as últimas conseqüências, então depois do Holocausto e dos milhões de mortos no período Stalinista não se pode mais denunciar nenhuma violação de direitos humanos.
RNP – Você acredita que a não abertura dos arquivos da ditadura dá força para esta corrente revisionista?
M.V. – Não tenho a menor dúvida. E é por isso que eu sou radicalmente a favor da abertura destes arquivos, mesmo sabendo que isto vai incomodar muitas pessoas, inclusive pessoas que militaram contra a ditadura na época. Mas esse é o preço que se paga por mais democracia, além de direitos à verdade e à memória.
RNP – Pela repercussão dada ao fato, você acredita que a Folha de S. Paulo está arrependida de ter usado tal termo?
M.V. – Eu tenho certeza absoluta que a Folha está profundamente desnorteada com o tamanho da crise, mas as repostas que o jornal tem vinculado mostra que ele não está sabendo enfrentar esta crise. O melhor teria sido dizer que a expressão era completamente inadequada, infeliz e insultuosa para aqueles que foram vítimas da ditadura, e pedir desculpa para os insultos pessoais que vez, mas infelizmente a Folha de S. Paulo não consegue fazer isso. Na última declaração de um membro do conselho editorial do jornal feita num blog, essa pessoa diz que nós [Maria Victoria e Fábio Konder] que estamos atacando a Folha, na verdade queremos defender Hugo Chávez, Cuba e o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra].
De São Paulo, da Radiogência NP, Juliano Domingues.

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