ENCALHE

março 4, 2009

"Folha está desnorteada com a crise", diz Maria Victória Benevides

EM DEBATE: A Mídia e o interesse na desinformação
Radioagência NP
Integrantes da sociedade civil brasileira lançaram um abaixo assinado em solidariedade à socióloga Maria Victoria Benevides e ao jurista Fábio Konder Comparato. Os dois foram alvo de ataques do jornal Folha de S. Paulo. O documento já conta com assinaturas de mais 5,8 mil pessoas, entre eles intelectuais do Brasil e do mundo. A Folha de S. Paulo qualificou de “ditabranda” o regime militar que vigorou no Brasil entre as décadas de 60 a 80. O termo foi usado em um editorial publicado no dia 17 de fevereiro, em comparação ao governo de Hugo Chávez, na Venezuela, que também foi enquadrado pelo jornal como uma ditadura.
Em entrevista à Radioagência NP, Maria Victoria afirma que o jornal utilizou-se de uma revisão histórica fraudulenta e ainda comenta que a “direção editorial do jornal insulta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país”.
Radioagência NP – Por que a Folha de S. Paulo tenta amenizar o significado do que foi este período da história brasileira?
Maria Victória - Os grandes jornais, como é o caso da Folha de S. Paulo, são empresas e, como empresas, têm muitos interesses. A discussão sobre o que foi a ditadura no Brasil, e que hoje está sendo muito aprofundada por conta de um processo de responsabilização do Estado em relação aos abusos cometidos durante a repressão, como torturas e mortes, pode chamar a atenção para outros problemas ligados à ditadura, problemas que muitas pessoas não gostariam de mexer.
RNP – Isto está relacionado com as atuais tentativas de fazer com que o Estado brasileiro assuma de vez sua real responsabilidade sobre os crimes cometidos nesse período?
M.V. – Não se trata apenas de julgar o Estado brasileiro, mas de identificar nominalmente os responsáveis, e os seus superiores imediatos, por esse período de grandes violações de direitos humanos. Trata-se também de identificar aqueles que colaboraram nesse período de repressão, fornecendo recursos materiais, por exemplo, para a OBAN [Operação Bandeirantes], grande órgão da repressão que se dividiu nos Doi-Codi’s. Isso mexe, por exemplo, com a história da Folha de S. Paulo, e também com todos aqueles que de alguma maneira financiaram a repressão. Isso envolve banqueiros, grupos de imprensa e meios de comunicação. Por isso há não interesse. Eu me refiro a políticos, jornalistas e pessoas das classes dominantes, em geral, que vão ter exposta a sua colaboração com atrocidades.
RNP – Você enquadraria este editorial da Folha de S. Paulo como revisionista?
M.V. - Esse editorial da Folha de S. Paulo foi uma pedrinha em uma edifício grande que é o do revisionismo. Eu acho que isso vai ao encontro de uma corrente que está tentando se consolidar, no sentido de que a ditadura militar no Brasil não foi tão ruim assim, porque as que ocorreram nos países do Cone Sul foram piores [com destaque para as que ocorreram na Argentina e Chile], em termos de números de mortos, torturados e desaparecidos. Ora, se nós levarmos esse raciocínio até as últimas conseqüências, então depois do Holocausto e dos milhões de mortos no período Stalinista não se pode mais denunciar nenhuma violação de direitos humanos.
RNP – Você acredita que a não abertura dos arquivos da ditadura dá força para esta corrente revisionista?
M.V. – Não tenho a menor dúvida. E é por isso que eu sou radicalmente a favor da abertura destes arquivos, mesmo sabendo que isto vai incomodar muitas pessoas, inclusive pessoas que militaram contra a ditadura na época. Mas esse é o preço que se paga por mais democracia, além de direitos à verdade e à memória.
RNP – Pela repercussão dada ao fato, você acredita que a Folha de S. Paulo está arrependida de ter usado tal termo?
M.V. – Eu tenho certeza absoluta que a Folha está profundamente desnorteada com o tamanho da crise, mas as repostas que o jornal tem vinculado mostra que ele não está sabendo enfrentar esta crise. O melhor teria sido dizer que a expressão era completamente inadequada, infeliz e insultuosa para aqueles que foram vítimas da ditadura, e pedir desculpa para os insultos pessoais que vez, mas infelizmente a Folha de S. Paulo não consegue fazer isso. Na última declaração de um membro do conselho editorial do jornal feita num blog, essa pessoa diz que nós [Maria Victoria e Fábio Konder] que estamos atacando a Folha, na verdade queremos defender Hugo Chávez, Cuba e o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra].
De São Paulo, da Radiogência NP, Juliano Domingues.

"Folha está desnorteada com a crise", diz Maria Victória Benevides

EM DEBATE: A Mídia e o interesse na desinformação
Radioagência NP
Integrantes da sociedade civil brasileira lançaram um abaixo assinado em solidariedade à socióloga Maria Victoria Benevides e ao jurista Fábio Konder Comparato. Os dois foram alvo de ataques do jornal Folha de S. Paulo. O documento já conta com assinaturas de mais 5,8 mil pessoas, entre eles intelectuais do Brasil e do mundo. A Folha de S. Paulo qualificou de “ditabranda” o regime militar que vigorou no Brasil entre as décadas de 60 a 80. O termo foi usado em um editorial publicado no dia 17 de fevereiro, em comparação ao governo de Hugo Chávez, na Venezuela, que também foi enquadrado pelo jornal como uma ditadura.
Em entrevista à Radioagência NP, Maria Victoria afirma que o jornal utilizou-se de uma revisão histórica fraudulenta e ainda comenta que a “direção editorial do jornal insulta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país”.
Radioagência NP – Por que a Folha de S. Paulo tenta amenizar o significado do que foi este período da história brasileira?
Maria Victória - Os grandes jornais, como é o caso da Folha de S. Paulo, são empresas e, como empresas, têm muitos interesses. A discussão sobre o que foi a ditadura no Brasil, e que hoje está sendo muito aprofundada por conta de um processo de responsabilização do Estado em relação aos abusos cometidos durante a repressão, como torturas e mortes, pode chamar a atenção para outros problemas ligados à ditadura, problemas que muitas pessoas não gostariam de mexer.
RNP – Isto está relacionado com as atuais tentativas de fazer com que o Estado brasileiro assuma de vez sua real responsabilidade sobre os crimes cometidos nesse período?
M.V. – Não se trata apenas de julgar o Estado brasileiro, mas de identificar nominalmente os responsáveis, e os seus superiores imediatos, por esse período de grandes violações de direitos humanos. Trata-se também de identificar aqueles que colaboraram nesse período de repressão, fornecendo recursos materiais, por exemplo, para a OBAN [Operação Bandeirantes], grande órgão da repressão que se dividiu nos Doi-Codi’s. Isso mexe, por exemplo, com a história da Folha de S. Paulo, e também com todos aqueles que de alguma maneira financiaram a repressão. Isso envolve banqueiros, grupos de imprensa e meios de comunicação. Por isso há não interesse. Eu me refiro a políticos, jornalistas e pessoas das classes dominantes, em geral, que vão ter exposta a sua colaboração com atrocidades.
RNP – Você enquadraria este editorial da Folha de S. Paulo como revisionista?
M.V. - Esse editorial da Folha de S. Paulo foi uma pedrinha em uma edifício grande que é o do revisionismo. Eu acho que isso vai ao encontro de uma corrente que está tentando se consolidar, no sentido de que a ditadura militar no Brasil não foi tão ruim assim, porque as que ocorreram nos países do Cone Sul foram piores [com destaque para as que ocorreram na Argentina e Chile], em termos de números de mortos, torturados e desaparecidos. Ora, se nós levarmos esse raciocínio até as últimas conseqüências, então depois do Holocausto e dos milhões de mortos no período Stalinista não se pode mais denunciar nenhuma violação de direitos humanos.
RNP – Você acredita que a não abertura dos arquivos da ditadura dá força para esta corrente revisionista?
M.V. – Não tenho a menor dúvida. E é por isso que eu sou radicalmente a favor da abertura destes arquivos, mesmo sabendo que isto vai incomodar muitas pessoas, inclusive pessoas que militaram contra a ditadura na época. Mas esse é o preço que se paga por mais democracia, além de direitos à verdade e à memória.
RNP – Pela repercussão dada ao fato, você acredita que a Folha de S. Paulo está arrependida de ter usado tal termo?
M.V. – Eu tenho certeza absoluta que a Folha está profundamente desnorteada com o tamanho da crise, mas as repostas que o jornal tem vinculado mostra que ele não está sabendo enfrentar esta crise. O melhor teria sido dizer que a expressão era completamente inadequada, infeliz e insultuosa para aqueles que foram vítimas da ditadura, e pedir desculpa para os insultos pessoais que vez, mas infelizmente a Folha de S. Paulo não consegue fazer isso. Na última declaração de um membro do conselho editorial do jornal feita num blog, essa pessoa diz que nós [Maria Victoria e Fábio Konder] que estamos atacando a Folha, na verdade queremos defender Hugo Chávez, Cuba e o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra].
De São Paulo, da Radiogência NP, Juliano Domingues.

março 1, 2009

Respostas do Murdoch / Respostas dos escroques

“Como presidente do New York Post, sou o principal responsável pelo que publicamos. Na semana passada cometemos um erro com uma charge que ofendeu muitos. Hoje quero pedir desculpas pessoalmente a todos os leitores que se sentiram incomodados e até mesmo insultados ( … )”.
Rupert Murdoch, magnata de Comunicações, desculpando-se por uma charge criticada como racista que aludiria a Obama, publicada no jornal New York Post, pertencente a seu conglomerado.
“A Folha respeita a opinião de leitores que discordamda qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.”
Nota da “Redação da Folha de São Paulo” ( ou seja: sabe-se-lá-quem é o responsável por isso ) às críticas sofridas pelo jornal feitas pelos professores FÁBIO KONDER COMPARATO e MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES, que repudiaram o neologismo “ditabranda” cunhado pela Folha. O termo aparece em editorial do jornal em que critica-se a possibilidade infindável de reeleições sucessivas para Hugo Chávez o que, em tese, significaria o caminho pavimentado para estabelecimento de um ditadura. “Ditabranda”, o tal neologismo, viria substituir “ditadura” que, no entendimento surpreendente do jornal, não houve no Brasil a partir de 1964. A nota acima causou comoção e gerou até a criação de uma petição eletrônica em apoio aos dois professores ofendidos:
REPUDIO E SOLIDARIEDADE
Ante a viva lembrança da dura e permanente violencia desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repudio a arbitraria e inveridica revisao historica contida no editorial da Folha de S. Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009. Ao denominar ditabranda o regime politico vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direcao editorial do jornal insulta e avilta a memoria dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratizacao do pais. Perseguicoes, prisoes iniquas, torturas, assassinatos, suicidios forjados e execucoes sumarias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no periodo mais longo e sombrio da historia polí­tica brasileira. O estelionato semantico manifesto pelo neologismo ditabranda e, a rigor, uma fraudulenta revisao historica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensao das liberdades e direitos democraticos no pos-1964. Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota de redacao, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta as cartas enviadas a Painel do Leitor pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fabio Konder Comparato. Sem razoes ou argumentos, a Folha de S. Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrarios e irresponsaveis a atuacao desses dois combativos academicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insolitas criticas pessoais e politicas contidas na infamante nota da direcao editorial do jornal. Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fabio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.
.
‘Ditabranda’ para quem?
Maria Victoria de Mesquita Benevides
Quase ninguém lê editorial de jornais, mas quase todos leem a seção de cartas. E foi assim que tudo começou. Os fatos: a Folha de S.Paulo, em editorial de 17/2, aplica a expressão “ditabranda” ao regime militar que prendeu, torturou, estuprou e assassinou. O primeiro leitor que escreve protestando recebe uma resposta pífia; a partir daí, multiplicam-se as cartas: as dos indignados e as dos que ainda defendem a ditadura. Normal. Mas eis que chegam a carta do professor Fábio Konder Comparato e a minha: “Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de ‘ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar ‘importâncias’ e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi ‘doce’ se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!” (esta escriba). “O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17/2, bem como o diretor que o aprovou, deveria ser condenado a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana” ( Prof. Fábio ).
As cartas são publicadas acompanhadas da seguinte Nota da Redação – “A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente ‘cínica e mentirosa’.” Pronto. Como disseram vários comentaristas, a Folha mostrou a sua cara e acabou dando um tiro no pé. Choveram cartas para o ombudsman do jornal – que se limitou a escrever, quase clandestino, que a resposta pecara por falta de “cordialidade”. Um manifesto de repúdio ao jornal e de solidariedade, organizado pelo professor Caio Navarro de Toledo, da Unicamp – com a primeira adesão de Antonio Candido, Margarida Genevois e Goffredo da Silva Telles – passa imediatamente a circular na internet e, apesar do carnaval, conta com mais de 3 mil assinaturas. Neste, depoimentos veementes de acadêmicos, jornalistas ( inclusive nota do sindicato paulista ), artistas, estudantes, professores do ensino fundamental e médio, além de blogs. Vítimas da repressão escrevem relatos de suas experiências e até enviam fotos terríveis. A maioria lembra, também, o papel da empresa Folha da Manhã na colaboração com a famigerada Oban. O que explica essa inacreditável estupidez da Folha?
A meu ver, três pontos devem ser levantados:
1. A combativa atuação do advogado Comparato para impedir que os torturadores permaneçam “anistiados” (atenção: o caso será julgado em breve no STF!).
2. O insidioso revisionismo histórico, com certos acadêmicos, políticos e jornalistas, a quem não interessa a campanha pelo “Direito à Memória e à Verdade”.
3. A possível derrota eleitoral do esquema PSDB-DEM, em 2010. ( Um quarto ponto fica para “divã de analista”: os termos da nota – não assinada – revelam raiva e rancor, extrapolando a mais elementar ética jornalística.) Dessa experiência, para mim inédita, ficou uma reflexão dolorosa, provocada pela jornalista Elaine Tavares, do blog cearense Bodega Cultural, que reclama: “Sempre me causou espécie ver a intelectualidade de esquerda render-se ao feitiço da Folha, que insistia em dizer que era o ‘mais democrático’ ou que ‘pelo menos abria um espaço para a diferença’. Ora, o jornal dos Frias pode ser comparado à velha historinha do lobo que estudou na França e voltou querendo ser amigo das ovelhas. Tanto insistiu que elas foram visitá-lo. Então, já dentro da casa do lobo ele as comeu. Uma delas, moribunda, lamentou: ‘Mas você disse que tinha mudado’… E ele, sincero: ‘Eu mudei, mas não há como mudar os hábitos alimentares’. E assim é com a Folha (…). São os hábitos alimentares”.
O que fazer? Muito. Há a imprensa independente, como esta CartaCapital. Há a internet. Há todo um movimento pela democratização da informação e da comunicação. Há a luta – que sabemos constante – pela justiça, pela verdade, pela república, pela democracia. Onde quer que estejamos.
Maria Victoria Benevides é socióloga com especialização em Ciências Políticas e professora titular da Faculdade de Educação da USP
Publicado em Carta Capital, 27.02.09

Respostas do Murdoch / Respostas dos escroques

“Como presidente do New York Post, sou o principal responsável pelo que publicamos. Na semana passada cometemos um erro com uma charge que ofendeu muitos. Hoje quero pedir desculpas pessoalmente a todos os leitores que se sentiram incomodados e até mesmo insultados ( … )”.
Rupert Murdoch, magnata de Comunicações, desculpando-se por uma charge criticada como racista que aludiria a Obama, publicada no jornal New York Post, pertencente a seu conglomerado.
 
“A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.”
Nota da “Redação da Folha de São Paulo” ( ou seja: sabe-se-lá-quem é o responsável por isso ) às críticas sofridas pelo jornal feitas pelos professores FÁBIO KONDER COMPARATO e MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES, que repudiaram o neologismo “Ditabranda” cunhado pela Folha. O termo aparece em editorial do jornal em que critica-se a possibilidade infindável de reeleições sucessivas para Hugo Chávez o que, em tese, significaria o caminho pavimentado para estabelecimento de um ditadura. “Ditabranda”, o tal neologismo, viria substituir “ditadura” que, no entendimento surpreendente do jornal, não houve no Brasil a partir de 1964. A nota acima causou comoção e gerou até a criação de uma petição eletrônica em apoio aos dois professores ofendidos:
REPUDIO E SOLIDARIEDADE
Ante a viva lembrança da dura e permanente violencia desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repudio a arbitraria e inveridica revisao historica contida no editorial da Folha de S. Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009. Ao denominar ditabranda o regime politico vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direcao editorial do jornal insulta e avilta a memoria dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratizacao do pais. Perseguicoes, prisoes iniquas, torturas, assassinatos, suicidios forjados e execucoes sumarias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no periodo mais longo e sombrio da historia polí­tica brasileira. O estelionato semantico manifesto pelo neologismo ditabranda e, a rigor, uma fraudulenta revisao historica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensao das liberdades e direitos democraticos no pos-1964. Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota de redacao, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta as cartas enviadas a Painel do Leitor pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fabio Konder Comparato. Sem razoes ou argumentos, a Folha de S. Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrarios e irresponsaveis a atuacao desses dois combativos academicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insolitas criticas pessoais e politicas contidas na infamante nota da direcao editorial do jornal. Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fabio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.
 
 
‘Ditabranda’ para quem?
Maria Victoria de Mesquita Benevides
Quase ninguém lê editorial de jornais, mas quase todos leem a seção de cartas. E foi assim que tudo começou. Os fatos: a Folha de S.Paulo, em editorial de 17/2, aplica a expressão “ditabranda” ao regime militar que prendeu, torturou, estuprou e assassinou. O primeiro leitor que escreve protestando recebe uma resposta pífia; a partir daí, multiplicam-se as cartas: as dos indignados e as dos que ainda defendem a ditadura. Normal. Mas eis que chegam a carta do professor Fábio Konder Comparato e a minha: “Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de ‘ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar ‘importâncias’ e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi ‘doce’ se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!” (esta escriba). “O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17/2, bem como o diretor que o aprovou, deveria ser condenado a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana” ( Prof. Fábio ).
As cartas são publicadas acompanhadas da seguinte Nota da Redação – “A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente ‘cínica e mentirosa’.” Pronto. Como disseram vários comentaristas, a Folha mostrou a sua cara e acabou dando um tiro no pé. Choveram cartas para o ombudsman do jornal – que se limitou a escrever, quase clandestino, que a resposta pecara por falta de “cordialidade”. Um manifesto de repúdio ao jornal e de solidariedade, organizado pelo professor Caio Navarro de Toledo, da Unicamp – com a primeira adesão de Antonio Candido, Margarida Genevois e Goffredo da Silva Telles – passa imediatamente a circular na internet e, apesar do carnaval, conta com mais de 3 mil assinaturas. Neste, depoimentos veementes de acadêmicos, jornalistas ( inclusive nota do sindicato paulista ), artistas, estudantes, professores do ensino fundamental e médio, além de blogs. Vítimas da repressão escrevem relatos de suas experiências e até enviam fotos terríveis. A maioria lembra, também, o papel da empresa Folha da Manhã na colaboração com a famigerada Oban. O que explica essa inacreditável estupidez da Folha?
A meu ver, três pontos devem ser levantados:
1. A combativa atuação do advogado Comparato para impedir que os torturadores permaneçam “anistiados” (atenção: o caso será julgado em breve no STF!).
2. O insidioso revisionismo histórico, com certos acadêmicos, políticos e jornalistas, a quem não interessa a campanha pelo “Direito à Memória e à Verdade”.
3. A possível derrota eleitoral do esquema PSDB-DEM, em 2010. ( Um quarto ponto fica para “divã de analista”: os termos da nota – não assinada – revelam raiva e rancor, extrapolando a mais elementar ética jornalística.) Dessa experiência, para mim inédita, ficou uma reflexão dolorosa, provocada pela jornalista Elaine Tavares, do blog cearense Bodega Cultural, que reclama: “Sempre me causou espécie ver a intelectualidade de esquerda render-se ao feitiço da Folha, que insistia em dizer que era o ‘mais democrático’ ou que ‘pelo menos abria um espaço para a diferença’. Ora, o jornal dos Frias pode ser comparado à velha historinha do lobo que estudou na França e voltou querendo ser amigo das ovelhas. Tanto insistiu que elas foram visitá-lo. Então, já dentro da casa do lobo ele as comeu. Uma delas, moribunda, lamentou: ‘Mas você disse que tinha mudado’… E ele, sincero: ‘Eu mudei, mas não há como mudar os hábitos alimentares’. E assim é com a Folha (…). São os hábitos alimentares”.
O que fazer? Muito. Há a imprensa independente, como esta CartaCapital. Há a internet. Há todo um movimento pela democratização da informação e da comunicação. Há a luta – que sabemos constante – pela justiça, pela verdade, pela república, pela democracia. Onde quer que estejamos.
Maria Victoria Benevides é socióloga com especialização em Ciências Políticas e professora titular da Faculdade de Educação da USP
Publicado em Carta Capital, 27.02.09

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