Prejuízo para a educação
Daniela Arbex
Apesar de as aulas na rede estadual de ensino terem começado há pouco mais de um mês, alunos da terceira série do ensino fundamental da Escola Estadual Ali Halfeld, no Bairro de Lourdes, Zona Sudeste, foram obrigados a voltar para casa por falta de professor. Desde o dia 7 de março, a turma de estudantes, que tem entre 8 e 9 anos de idade, não pode mais ir ao colégio em função da escassez de docentes. O impasse se arrasta desde o começo do ano letivo, quando a bibliotecária, a supervisora e, segundo informação dos pais, até a cantineira da escola assumiram a sala na tentativa de manter os estudantes em atividade. A situação, no entanto, tornou-se insustentável, resultando na suspensão das aulas, após reunião com a comunidade. Longe de ser um caso isolado, a ausência de docentes é um problema que afeta outras instituições de ensino da rede estadual e atinge centenas de alunos da cidade.
Na tentativa de evitar que o tempo de aula fique ocioso, algumas escolas chegaram a juntar turmas de séries diferentes ou recrutaram professores para dar aulas simultâneas em duas salas. Há casos de colégios que estão com déficit de até seis professores, levando turmas inteiras a ainda não ter tido contato com o conteúdo de disciplinas essenciais, como português.
Até o final do mês passado, a Escola Estadual Cândido Motta Filho, no Bairro São Benedito, Zona Leste, estava sem professor de educação física e ciências. Atualmente, as vagas foram preenchidas, mas ainda falta docente para assumir uma aula de sociologia para o terceiro ano do ensino médio noturno e professor de inglês para lecionar duas aulas para Educação de Jovens e Adultos do ensino fundamental.
Já a Escola Estadual Hermenegildo Vilaça, em Grama, na região Nordeste da cidade, apresentava déficit de três professores do ensino médio, mas a diretora Ivete Pereira diz que a situação foi resolvida na semana passada. “Estávamos colocando supervisor na sala, para não ficar liberando o aluno. Nesse período, trabalhamos com dinâmica de grupo, socialização e as regras da escola, já que temos muitos novatos”, explicou.
Caderno em brancoAluno da sexta série do ensino fundamental da Escola Estadual Ali Halfeld, Josué faz questão de mostrar o caderno em branco. “Estou sem aula de português desde o início do ano. Hoje (terça-feira, dia 4 de março) saí da escola às 9h30, enquanto o horário normal seria 11h30. Acho ruim o que está acontecendo, pois haverá acúmulo de matéria, atraso nas provas, fazendo com que, depois, eles não tenham tempo de ensinar tudo”, reclama o menino, que caminha por cerca de 20 minutos para chegar à escola e alimenta o sonho de ser médico.
A irmã de Josué, Scarllet, 8, vive situação ainda pior. Ela faz parte da turma da terceira série do ensino fundamental que aguarda, em casa, a chegada de professor. Como ela está em compasso de espera, o uniforme virou peça sem utilidade. “É um absurdo o que está acontecendo. Um dia, meus filhos têm aula com a moça da cantina, no outro com a supervisora, e até com a bibliotecária que, apesar da boa vontade, não tem formação para isso. É muito ruim o que eles estão vivendo, pois o estudo é a única herança que posso deixar para eles. A gente batalha para comprar material escolar, uniforme, e as crianças estão esse tempo todo sem aula”, desabafa a mãe dos alunos, Janaína Mazzone Gentil de Oliveira, 31 anos.
Ela mostra o caderno de geografia da filha com apenas uma folha escrita da matéria em um mês de aula. A situação é semelhante em outras disciplinas, como história e ciências. Janaína, que também é aluna da sétima série do ensino fundamental da escola Ali Halfeld, onde estuda na Educação de Jovens e Adultos, sente na pele o problema da ausência de educadores. “Estou sem aula de sociologia desde o começo do ano”, revela.
Aumenta burocracia para contratação de docentesProcurada pela Tribuna, a diretora da Escola Estadual Ali Halfeld, Vanessa Maria Casali Meireles, confirmou a dificuldade vivida pela escola. Segundo Vanessa, uma professora do ensino fundamental está de licença-maternidade e três professoras de primeira a quarta série do ensino fundamental se aposentaram. Para nenhuma das quatro, houve substituição. Além disso, faltam docentes para lecionar sociologia e filosofia, disciplinas que tornaram-se obrigatórias a partir deste ano. “Os pedidos de substituição estão sendo feitos desde dezembro, mas, até hoje, estamos esperando Belo Horizonte autorizar.”
Vanessa refere-se ao fato de a designação de professores, antes realizada pela Superintendência Regional de Educação, em Juiz de Fora, estar sendo feita pela Secretaria de Estado da Educação, em Belo Horizonte, o que teria aumentado a burocracia na nomeação dos docentes, dificultando a rápida reposição de vagas. “Estou me sentindo um zero à esquerda, sem autonomia para resolver os problemas da escola que saltou de 880 alunos, em 2007, para 1.073 este ano. Crescemos sem, no entanto, ter material humano para o atendimento da demanda”, afirma a diretora.
A subsecretária de Gestão de Recursos Humanos da Secretaria de Estado da Educação, Eliana Novaes, admitiu que faltam professores na cidade e disse que a expectativa é que a situação seja regularizada na próxima semana. “Em Juiz de Fora, há um agravante, porque estamos tendo muito afastamento preliminar de professores para a aposentadoria e por licença de saúde, criando uma demanda adicional por designação. Mas o aluno não vai ficar prejudicado. A gente orienta as escolas para que os professores que lá estão possam fazer uma antecipação da carga horária até a normalização da situação. Para os alunos que estão efetivamente sem aula será feita uma adequação do calendário, garantindo o cumprimento da carga horária”, afirma.
Sindicato critica mudanças na rede A diretora estadual do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sindi-UTE), Lúcia Melino, afirma que tem recebido diversas denúncias sobre a falta de professores nas escolas e considera alguns casos “gritantes”, como o da escola Ali Halfeld. Ela diz que a mudança no processo de designação de professores, que hoje é feito por Belo Horizonte, trouxe morosidade ao sistema.
Para a professora de história da rede, a mestre em educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Lorene Figueiredo, a concentração do processo de designação em Belo Horizonte significa uma perda para a categoria. “É uma perda em relação à democratização, fazendo com que as instituições que fazem parte da educação escolar percam a capacidade de participar e de ter autonomia. Isso é um processo de controle do Estado em função de um tipo de reforma que está modificando as relações de trabalho e rebaixando a qualidade da educação.”
A subsecretária de Gestão de Recursos Humanos da Secretaria de Educação, Eliana Novaes, explica que a centralização é decorrente da Lei Complementar nº 100 e visa a garantir o pleno aproveitamento dos efetivados. “O decreto que a regulamenta dispõe que primeiro se aproveite os professores efetivados para, depois, abrir a designação. Além disso, com a mudança da vinculação do servidor designado, que agora está subordinado ao sistema previdenciário do INSS, as regras foram alteradas. Isso é um processo novo e mais longo, ao qual as escolas ainda estão se adaptando.”
Entre as mudanças, está a obrigatoriedade de o professor apresentar o Relatório de Inspeção Médica (RIM) no momento de sua contratação. A atual exigência é criticada pela diretora do Sind-UTE. “Antes, o professor designado tinha até 15 dias para providenciar essa documentação que, em muitos casos, não fica pronta em tempo hábil. É uma nova forma de designação, na qual a prioridade é o exame médico e não o tempo que o professor tem na rede estadual. Quando se coloca o exame médico como o primeiro critério para a contratação do docente, o que vemos é a perda de qualidade da educação”, sentencia.
A argumentação é rebatida pela subsecretária. “Essa afirmativa não é muito razoável, porque, se o professor trabalhou em 2007, ele tem o Relatório de Inspeção Médica (RIM). No entanto, caso tenha ficado 30 dias licenciado, terá que tirar um novo RIM.” Na tentativa de solucionar o impasse, a comissão de negociação do Sind-UTE se reuniu com representantes da Secretaria de Educação este mês, mas garantiu que não houve avanços.
O descontentamento da categoria com os rumos da educação foi manifestado ontem em paralisação nacional. A manifestação contou com o apoio dos alunos, pais e professores da Escola Estadual Ali Halfeld.
“Estou sem aula de português desde o início do ano. Hoje saí da escola às 9h30, enquanto o horário normal seria 11h30″Josué, 11 anos aluno da sexta série do ensino fundamental
“O estudo é a única herança que posso deixar para eles. A gente batalha para comprar material escolar, uniforme, e as crianças estão esse tempo todo sem aula”Janaína, 31 anos, mãe de Josué e Scarllet

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