ENCALHE

julho 15, 2008

"LEITURAS DE VEJA: A direita emburreceu de vez?", por Paulo Ghiraldelli Jr

Observatório da Imprensa, 15/7/2008
“Não é preciso ser burro para ser de esquerda.”
Esta frase de Fernando Henrique Cardoso, na condição de presidente da República, é uma das mais corretas e bem elaboradas que ele já cunhou para o mundo jornalístico. Começo a acreditar que a frase simétrica, contemplando a direita, não vale. Estou dizendo, então, que para ser de direita é necessário ser burro? Pode não ser assim no exterior, mas, no Brasil, a condição política conservadora está indo de mal a pior.
A situação da revista Veja tem estampado isso. Os articulistas que a revista apresenta estão cada vez menos preparados. O caso de Gustavo Ioschpe salta aos olhos. O que ele escreve deixa qualquer pessoa relativamente bem informada totalmente estarrecida. Pego aqui o rabisco dele chamado “Errar é humanas” (Veja, 30/06/08).
Eu vou citar as pérolas gustavianas e sigo depois com breves comentários. Segurem-se na cadeira.
“Eu só descobri que não entendia nada de matemática quando conversava com um colega russo, no mestrado, sobre o assunto. Aquilo que para mim exigia um grande esforço mental, de montagem de equações e de tentativa de operações algébricas, para ele era visivelmente algo automático, instintivo, como a construção de uma frase em sua língua natal. (…)”
O afastamento do empírico
Sim! Ele é economista, uma área em que sem a matemática é impossível sobreviver. Mas ele diz que não sabe matemática! Agora dá para entender por que produziu aquela estatística, já denunciada por mim e outros, querendo mostrar que a ampliação de salários de professores não melhora a educação. Pronto, é isso: ele errou na estatística, é claro. Não sabe matemática.
E ele continua:
“O problema é fundamentalmente filosófico, epistemológico: a maioria das pessoas entende a matemática como uma ferramenta que precisamos dominar para resolver alguns problemas do cotidiano. Mas a matemática não é isso. A matemática é uma linguagem que descreve o mundo. Todo o mundo físico é traduzível em números, com acuidade muito maior do que a descrição feita por palavras. Além disso, a matemática é a árvore da qual brotam os frutos das ciências exatas: física, química, biologia, estatística, engenharia, medicina – nada disso seria possível sem a matemática. (…)
Sem uma comprovação empírica, qualquer pensamento é apenas uma tese.”

Mas Gustavo, veja, meu caro, as matemáticas não se desenvolveram para então gerar as ciências, elas caminharam juntas. Além disso, sua frase “sem uma comprovação empírica, qualquer pensamento é apenas uma tese” é exatamente a frase que nega o poder da matemática. Ela é exatamente a disciplina que não suporta a empiria! Ela é o afastamento do empírico, par excellence.
A Caverna de Platão
Leitor, você agüenta mais um pouco? Sim? Então, tome:
“Eu só fui descobrir isso [que disse acima] quando já estava no mestrado. De tudo que estudei na vida – e acabei estudando, na faculdade, história, ciência política, psicologia, sociologia, economia, geologia, marketing, administração, contabilidade, crítica literária, filosofia e outras que nem me lembro mais, não apenas por desejo e curiosidade próprias, mas porque o sistema americano impõe essa multidisciplinaridade – hoje vejo que a matéria mais importante é estatística. Achava a matéria um porre quando a cursei, no primeiro ano. O que é natural, aliás: aos 18 anos, o cérebro humano está demasiadamente encharcado de hormônios para que os pensamentos possam nadar. Agora vejo que a estatística é a base de tudo, é o que possibilita a distinção entre a opinião e o fato, a aparência e a realidade (as ‘formas’ platônicas). Sem estatística não pode haver ciência exata nem ciência social.”
Viram? Eu tenho criticado o que chamei de PTE, o Pensamento Tecnocrático em Educação, que é capitaneado pelo “grupo da Veja”, “grupo do Paulo Renato” e, enfim, o que agora também está no MEC, com Fernando Haddad imitando a secretária de Educação de São Paulo em tudo que é conservador. O PTE é isso: a apologia da estatística. Mas não a estatística inteligente, e sim, a estatística tomada como panacéia. É uma espécie de “ideologia do cientificismo da estatística”. Isso é ignorância.
Gustavo é tão ignorante que ele quer resolver o problema filosófico “aparência versus realidade” com estatística! Os sistemas filosóficos não resolvem o problema. Eles não apareceram para fazer isso. Eles apareceram para equacionar o problema da relação entre ilusão e aparência (se é que esse problema existe).
Platão não quis renegar o mundo existente, o aparente, para impor a todos o mundo das formas; o que ele fez foi mostrar que, como homens, vivíamos em ambos: um é o mundo inteligível, o outro é o sensível. Um mundo, nós acessamos pelo intelecto, o outro, acessamos pelos sentidos. A Caverna de Platão não é um lugar, é uma condição – carregamos nas costas nossa Caverna quase como a tartaruga carrega a casca. A tartaruga carrega a casca e pode até imaginar que teria como eliminá-la. Pode imaginar que, uma vez sem a casca, viria a se apresentar como realmente é, na sua essência de tartaruga – a tartaruga real. Mas ao perder a casca, morreria, e morreria sem ser tartaruga, e sim, como uma tartaruga desfigurada.
“Otimismo despropositado”
Quando cometo um erro de cálculo ou de percepção e sou avisado, ou descubro o erro por mim mesmo, eu o corrijo. Assim, estou no âmbito do que a ciência faz, e também o senso comum. Agora, no âmbito da ilusão metafísica (ou no âmbito do que Marx chamava de ideologia), não posso fazer algo que se chame “correção”. Posso mostrar que o que é visto pelos olhos do corpo não é o correto, e este, o correto, seria visto pelos olhos da razão, mas isso não elimina a visão dada pelos olhos do corpo. Nesse sentido, não há como “corrigir” uma ilusão metafísica. Por isso mesmo, cada sistema filosófico elege como ilusão coisas completamente diferentes. E, para a filosofia metafísica, a ilusão faz parte da estrutura do mundo e por isso mesmo ela não pode ser eliminada, corrigida. Para Kant, a ilusão necessária era, por exemplo, Deus. Para Marx, a ilusão necessária – a ideologia – era o fetichismo da mercadoria em associação com a reificação. Essas “ilusões” não são eliminadas por “correção”. Muito menos por estatística!
Gustavo não entendeu nada de filosofia. E pior, não entendeu nada de estatística, pois a estatística é justamente a “não exatidão” da matemática. Estatística é o mundo da probabilidade e, portanto, a introdução da não exatidão no campo que se pensa rei da exatidão.
Acabou? Não, não! Ele não pára assim, não. O meninão é um poço inesgotável de frutos de quem nasceu de onze meses. Segue mais:
“Essas idéias me vêm à mente quando vejo que filosofia e sociologia foram incluídas como matérias obrigatórias no currículo do ensino médio. Veja só: nosso sistema educacional é um fracasso tão retumbante que, na última medição em que o desempenho dos alunos foi dividido em níveis, o SAEB de 2003 apontou que 55% dos alunos da quarta série estavam em situação crítica ou muito crítica em leitura, o que quer dizer que eram praticamente analfabetos. A maioria dos alunos que faz a prova de Matemática no SAEB acha que ‘3/4’ é 3,4, e não 0,75. Não entendem nem a notação de uma fração. Achar que esses professores, com essa qualidade, conseguirão ensinar filosofia e sociologia a esses alunos é o que os ingleses chamam de wishful thinking, um otimismo despropositado.”
A “leitura do mundo”
Bem, vejam que ele confunde as habilitações, ele acha que todo professor é despreparado. O professor de filosofia, que não ensina matemática, seria um despreparado. O aluno vai mal de matemática e ele culpa, de antemão, os professores de filosofia e sociologia que, aliás, nem bem começaram o serviço! Veja só como ele, em vez de se guiar por estatísticas, tem como guia o preconceito.
Só mais um pouco de gustavice, por favor. Agüente a última dose.
“No primeiro semestre da faculdade, li um texto muito bom de Paulo Freire, em que ele dizia que era preciso read the word to read the world (ler a palavra para ler o mundo). Não sei se ele o escreveu em inglês ou se a tradução foi especialmente fortuita, mas o enunciado é verdadeiro: é impossível entender a complexidade do mundo se você não sabe ler.”
O trecho acima é significativo. Mostra como nossas elites, não raro, erram na educação dos filhos. O menino Gustavinho é rico. Foi estudar nos Estados Unidos quando ainda não tinha maturidade para tal. Lá, no exterior, o professor deu para ele ler o Paulo Freire, um brasileiro. Poderia ter lido aqui mesmo, de modo correto. Mas quis ler errado, pagando caro para tal, lá nos Estados Unidos.
Por que ele, Gustavinho, está errado? Ora, o que Paulo Freire disse é o inverso do que ele escreveu (em inglês).
Paulo Freire escreveu, é claro: lemos o mundo para depois lermos a palavra. O que Paulo Freire queria com isso, baseado no historicismo de Hegel e no pragmatismo americano, era nos fazer notar que antes de qualquer aprendizado formal, escolar, temos uma concepção de mundo adquirida a partir de nossas vivências. Isso é o que já estava em John Dewey: antes de tudo, vem a experiência (que não deve ser tomada como experimento), que então é continuamente re-significada (Rorty diz: redescrita). Então, o aprendizado escolar se dá sobre o que já aprendemos na nossa “leitura do mundo”. Daí a idéia freireana de insistir na prática educativa que leva a sério o que já sabemos antes de aprendermos a leitura e a escrita.
A ladainha de sempre
Ora, a conclusão que Gustavo tira do Paulo Freire, que ele copiou errado, é que precisamos aprender a ler e a escrever. Mas isso é o óbvio, ninguém pensaria o contrário. E quem iria citar um filósofo da educação, como Paulo Freire (ou qualquer outro), para dizer o que é uma evidência e um consenso do senso comum? Só um tolo.
No final do artigo “Errar e humanas”, Gustavo então desanda a falar mal do marxismo que estaria impregnado em professores de filosofia, e se volta contra o ensino de filosofia e sociologia na escola média. A ladainha de sempre. Mas a essa altura já perdeu toda a moral. Então, alguém que é sadio pára a leitura, não há como continuar a ler seu texto. É isso! A direita está cada vez pior.

maio 1, 2008

Classe trabalhadora-operário-revolucionária brasileira celebra 1º. de Maio em concentração recorde nos bares do Brasil!

Filed under: esquerda brasileira, esquerda X direita, Foro de São Paulo, PCdo B, PCO, PSOL, PSTU — Humberto @ 3:07 pm
Na boa, esquerdistas e proletários do Brasil e do mundo…
Sejam sinceros. Alguém acha mesmo que esta data significa algo para a pessoa comum, o populacho, que não se encontra envolvido no mundo das teorias e congressos políticos, dos debates e deliberações?
Não sei como certas coisas caem em minhas mãos, mas eis que me encontro, subitamente, folheando um jornal chamado “Causa Operária”, vinculado em idéia e matéria ao PCO ( aquele partido que, quando participa das eleições burguesas, encarrega um recém-estudante de cinema e vídeo – e fã de Ed Wood – de fazer os spots de 5 segundos que o partido tem direito de exibir na Horário Eleitoral Gratuito.
Como sou o tipo de sujeito que lê revista de Testemunhas de Jeová – com certo gosto – não deixaria de averiguar o que o impresso dos ultra-esquerdistas teria a me dizer.
Num texto de página inteira, a história do candidato burguês-liberal-progressista-populista colombiano, Jorge Gaitán, assassinado por um ( suposto ) cidadão a serviço da CIA, em Abril de 1948. O pré-magnicídio ( pois Gaitán era o favorito na disputa pela presidência do país ) resultou numa onda de distúrbios que ficou imortalizada como “Bogotazo”. O assassino de Gaitán, Juan Roa Sierra foi linchado dela população e seu corpo arrastado pelas ruas. Mas não vou me estender no assunto.
Na ótica do jornal o PT, passando pelo PCdo B ( partido acusado de desejar privatizar a Petrobrás, vejam vocês ) , PSol, PSTU ( juro por Deus, leiam e confiram ) e outras legendas e centrais sindicais e estudantis, como a CUT, não passam de joguetes e pelegos-entreguistas, falsos socialistas, submissos e quinta-colunas, empenhados em atrapalhar a caminhada do campesinato e operariado revolucionário rumo à tomada do poder em nível mundial, e a derrubada e superação do capitalismo e da “democracia” representativa burguesa. Não estou ironizando.
Diante dessa carta de princípios, alguém conseguiria continuar levando a sério a berraria do imprensalão, quando este “acusa” o PT e outras legendas de serem os agentes da infiltração comunista e de tentarem instalar por aqui uma ditadura-stalinista-marxista-totalitária e coisa e tal? Só mesmo a classe-média sempre ignara paulistana.
Ao mesmo tempo, os ativistas envolvidos nestas questões acham mesmo que possa haver uma sublevação popular total e acachapante em nível mundial coordenada e integrada, e esta tomaria o poder, submeteria a burguesia, derrubaria o imperialismo, o sionismo e coisa e tal? E que esse proletariado, que mal sabe se comunicar, mal se alimenta, é mal-instruído, construiria um paraíso de paz e concórdia eternos, fundamentado na teoria marxista, leninista ou sei-lá-o-quê ? E esta teoria seria a melhor para ser posta em prática? Eu nunca li.
Tomar partido de um dos lados – e eu não sei quantos existem – nesta correlação de forças ou disputa pelo poder? Nem ferrando.
Meus pais querem querem conhecer os pretendentes antes de avalizar a nossa união. Mas os tais pretendentes são, ainda, completos estranhos para mim. Mas uma coisa é certeza: com o burguês eu não caso.

abril 3, 2008

Celso Lungaretti: ENTREVISTA AO JORNAL "A TRIBUNA", DE SANTOS (SP), SOBRE O "INFELIZ ANIVERSÁRIO"

31/03/2008
Entrevista: Celso Lungaretti
Jornalista, escritor, ex-militante da VPR e ex-preso político

Lídia Maria de Melo
Editora de Local
A família de Celso Lungaretti não era politizada em 1964, quando o golpe militar do dia 31 de março derrubou o governo do então presidente João Goulart. ‘‘Os acontecimentos políticos ainda pareciam distantes da minha realidade’’, lembra o jornalista, escritor e ex-preso político que tinha 13 anos na época.Três anos depois, seguindo ‘‘o sentimento difuso de contestação da autoridade’’ que havia na juventude brasileira e de outros países, Lungaretti ingressou no movimento estudantil. ‘‘O rito de passagem passou a ser a luta política’’.
Estava com 18 anos, quando o marechal Arthur da Costa e Silva assinou o Ato Institucional (AI) nº 5, em 13 de dezembro de 1968, e o País perdeu suas garantias constitucionais. O Congresso foi fechado e direitos civis e políticos ficaram suspensos.
O jovem Lungaretti, então, assumiu o codinome de Júlio e tornou-se o mais novo entre os dirigentes de uma organização de esquerda que defendia o combate à ditadura pela luta armada, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Ao lado de Carlos Lamarca, atuou em um campo de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira em 1970. Ex-capitão do Exército e exímio atirador, Lamarca havia desertado do 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna (SP), e se tornara um dos maiores inimigos do regime. Logo depois, Lungaretti foi preso. Permaneceu incomunicável e sob sessões constantes de torturas. Em consequência, teve um tímpano perfurado e abalo mental. Acabou revelando a localização da área de treinamento desativada no Vale do Ribeira. O Exército, no entanto, descobriu o campo ativo e cercou Lamarca, que conseguiu escapar ileso. A partir daí, Lungaretti foi classificado como delator pela VPR.
Soube disso porque seu nome não foi incluído na lista de presos políticos que deveriam ser libertados em troca do cônsul da Alemanha, Ludwig Von Holleben, sequestrado pela organização. No limite de suas forças, Lungaretti cedeu à pressão e renunciou a seus ideais. Uma carta e sua foto foram publicadas em jornais. Diante de câmeras de TV, foi forçado a se arrepender. Por 34 anos, se viu estigmatizado. Só em 2004, suas versões dos fatos foram aceitas pela Comissão Nacional de Anistia. No ano seguinte, publicou o livro Náufrago da Utopia — Vencer ou Morrer na Guerrilha. Aos 18 anos, pela Geração Editorial.Em entrevista a A Tribuna, Celso Lungaretti, hoje com 57 anos, fala sobre sua experiência na VPR, sobre tortura e as consequências da ditadura para o País. Também critica a posição do jornalista Elio Gaspari sobre o episódio da explosão de uma bomba no consulado dos Estados Unidos, em São Paulo, na noite de 20 de março de 1968.
O que o levou, aos 18 anos, a aderir à luta armada para combater a ditadura?
Comecei a fazer movimento estudantil em 1967. Em seu processo de afirmação, os jovens já não se chocavam mais com os pais repressores, e sim com o ‘‘sistema’’. Em 1968, tornei-me dirigente do movimento secundarista em toda a Zona Leste de São Paulo. Quando o acirramento da repressão tornou praticamente suicida o trabalho de massas, só os oito líderes estávamos dispostos a seguir em frente, correndo todos os riscos em nome dos ideais de liberdade e justiça social.
Nem todas as organizações de esquerda pegaram em armas. Como avalia essa opção?
Havia uma ditadura feroz, que respondeu à resistência desarmada com torturas e assassinatos, além de deixar os paramilitares de direita agirem à vontade. Depois da assinatura do AI-5, mergulhando o Brasil num terrorismo de estado que chegava a lembrar o nazi-fascismo, as opções passaram a ser: 1) não atuar politicamente, à espera de dias melhores; 2) atuar de forma anódina, sem incomodar realmente a ditadura; 3) atuar de forma consistente no seio das massas e ser logo preso e barbarizado; e 4) atuar na clandestinidade, pela via armada, o que permitia, pelo menos, permanecer algum tempo na luta e devolver golpes do inimigo, causando-lhe problemas. Então, a minha avaliação é de que agimos como verdadeiros cidadãos e pagamos um preço terrível por isso.
Seu livro aborda o treino de guerrilha junto com Lamarca no Vale do Ribeira. Por que o sr. foi acusado de delação?
Fiz parte da equipe precursora que foi implantar uma escola de guerrilha na região de Registro. O sítio que adquirimos tinha muitos inconvenientes. Passados dois meses, resolvemos abandonar essa área. Fui preso depois de quatro meses e, após ser torturado um dia inteiro, revelei a localização daquela área de treinamento abandonada, por saber que de nada serviria para a repressão. Realmente, os militares mandaram duas equipes para investigar e elas voltaram de mãos abanando. Aí houve novas prisões no Rio de Janeiro e a área ativa foi descoberta. Lamarca liderou a fuga de um pequeno grupo de guerrilheiros, que logrou escapar de militares treinados e melhor equipados. Logo em seguida, houve o sequestro do embaixador alemão e eu deixei de ser incluído na chamada lista de troca. Pelos critérios da organização, eu tinha direito de ser libertado. Adivinhei que estavam me atribuindo erroneamente a responsabilidade pela queda da área de treinamento. Demorei 34 anos para conseguir provar, a partir de relatórios secretos militares, que a delação da área ativa partiu de outra pessoa, cujo nome, por questão de princípio, prefiro omitir. Quando o historiador Jacob Gorender avalizou minha versão, admitindo em seu próprio livro Combate nas Trevas que estava errado a meu respeito, começou o processo da minha reabilitação.
O sr. foi obrigado a renunciar a seus ideais. Qual foi o teor da declaração?
Foram mais de dois meses de incomunicabilidade, embora mesmo as leis de exceção daquele tempo só permitissem um mês. Cheguei no limite das minhas forças. Depois de ter o tímpano do ouvido direito estourado e sob ameaça de morte, acabei participando de uma farsa de arrependimento, gravada no estúdio da TV Globo no Jardim Botânico (RJ) em plena madrugada e levada ao ar em cadeia nacional. O objetivo do Serviço de Inteligência do Exército foi reforçar o impacto obtido com a rendição do jovem Massafumi Yoshinaga, que renegou os ideais revolucionários (e depois se suicidou). Quanto às declarações que eu dei, só uma vinha do fundo da minha alma: o conselho a outros jovens para que não entrassem na luta naquele momento, pois já estava perdida e eles se sacrificariam à toa.
Seu livro é uma forma de esclarecer esses episódios históricos?
Quando escrevi, eles já estavam esclarecidos. O Gorender me inocentara no episódio de Registro e o relator do meu processo na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça ( Márcio Gontijo, ex-presidente da Seção Brasileira da Anistia Internacional ) me qualificara de um dos pleiteantes mais atingidos em seus direitos pelo arbítrio ditatorial. Então, pude fazer o livro com um foco mais nobre: mostrar os riscos a que estão sujeitos os jovens quando participam de uma guerra de adultos. Quis fazer justiça ao sacrifício dos companheiros e amigos que entraram comigo na guerrilha.
Que erros a esquerda cometeu no combate à ditadura?
Independentemente de erros, o desfecho acabou sendo o mesmo nos vários países latino-americanos em que se implantaram ditaduras militares durante as décadas de 1960 e 1970. Então, eu diria que eram lutas impossíveis de serem vencidas — e, ainda assim, teria sido indigno nem sequer havê-las travado. No caso específico do Brasil, os grupos guerrilheiros superestimaram a insatisfação popular perceptível em 1968 e 1969. Sendo o Brasil um país pobre, bastou os Estados Unidos aumentarem substancialmente seus investimentos para a economia decolar e o regime passar a ser apoiado, principalmente pela classe média.
Hoje, a população está ciente do que ocorreu no País de 1964 a 1985?
Não. Boa parte dos jovens não quer nem saber do passado, como se o mundo só tivesse começado a existir no dia em que eles nasceram. Há também aqueles cidadãos idosos para quem a ditadura está associada às lembranças de dias melhores. Como naquele tempo a imprensa era rigidamente censurada, têm a falsa impressão de que havia menos corrupção e criminalidade. Então, ajudam a espalhar uma visão deturpada dos anos de chumbo, que vem ao encontro da propaganda atordoante de uma extrema-direita golpista que, encastelada em sites neo-integralistas, sonha com um novo 1964.
No caso do atentado ao consulado dos Estados Unidos em 1968, no qual o santista Orlando Lovecchio perdeu parte de uma perna, que erros estão sendo divulgados atualmente?
Este é um ótimo exemplo da demagogia inspirada pela direita. A Comissão de Anistia recomendou o pagamento de uma pensão a Diógenes de Carvalho, por ter sido preso e torturado pela ditadura. Cabe ao ministro da Justiça decidir se aceita ou não tal recomendação. Aí o jornalista Elio Gaspari colocou em sua coluna dominical, publicada em vários jornais, que Diógenes receberia duas vezes mais do que a vítima de um atentado por ele cometido, Orlando Lovecchio. Gaspari omitiu: que a pensão de Lovecchio foi concedida pelo Congresso Nacional, cujos procedimentos são diferentes dos do Ministério da Justiça, daí a impropriedade de quaisquer comparações; e que não havia evidências para acusar-se Diógenes de ser autor do atentado, além dos inquéritos policiais-militares da ditadura, contaminados pela prática generalizada da tortura e que, juridicamente, não valem absolutamente nada hoje em dia. Daí minha indignação contra Gaspari, que abusou de seu espaço na mídia para condenar Diógenes e aplicar-lhe a pena de execração pública, fazendo as vezes de juiz e carrasco.
Quem realmente participou?
Gaspari disse que a ação foi da VPR e acusou Diógenes, Dulce Maia, Sérgio Ferro, Rodrigo Lefèvre ‘‘e uma pessoa que não foi identificada’’. Logo depois, a Folha (de S. Paulo) e o próprio Gaspari admitiram que Dulce Maia era inocente dessa acusação e lhe pediram desculpas públicas. Aí veio o Sérgio Ferro e esclareceu que o atentado havia sido cometido por outra organização (a ALN), tendo como autores ele próprio, Lefèvre e um tal de Marquinhos, que logo foi morto pela repressão e cujo nome ele não ficou sabendo. Ou seja, Gaspari deu cinco chutes e errou três, por confiar no entulho autoritário. Como a participação do Diógenes não foi provada, sua matéria inteira desabou.
Em um artigo, o sr. escreveu que o arquiteto Sérgio Ferro foi processado por Lovecchio, mas ganhou a ação, porque laudos médicos atestavam que o ferimento da perna dele se complicou por culpa dos agentes do Deops. Como se deu isso?
Lovecchio só perdeu a perna porque seu atendimento médico foi interrompido para que o Deops o interrogasse, provavelmente supondo tratar-se de um participante do atentado atingido pela própria bomba, o que acabou causando a gangrena. Então, o laudo inicial dá conta de que ele poderia restabelecer-se bem do atentado. Já o outro relatório atesta que, no tempo em que ele ficou sendo interrogado pelo Deops, sua perna gangrenou e não podia mais ser salva.
Se fosse possível escolher, o sr. se engajaria novamente na luta contra uma ditadura? Ou mudaria métodos de ação?
Pegar em armas deve ser sempre a última opção. Mas, numa situação como a que existia no Brasil em abril de 1969, quatro meses depois da assinatura do famigerado AI-5, eu pegaria em armas de novo, sim. Pois aquela passou a ser a única forma de resistência possível. E eu continuo fiel aos valores da minha geração, como o de que, diante das injustiças extremas, ser omisso é ser cúmplice.

março 30, 2008

Leitor da vEJA tenta se equilibrar sobre 2 patas e cai na rua, atrapalhando o trânsito da Capital!!!

Eu não sabia que o capitalismo cria vacinas. Quem diz isso é uma das estrelas da famigerada revista vEJA. Que falta faz um Roberto Campos.
Quer dizer, é meio simplista dizer isso. Da mesma maneira e, no mesmo texto, se dizer católico, orgulhosamente, a pessoa pode estar suscetível a ter de ouvir que, se Galileu Galilei tivesse criado algum remédio ( ou vacina ) que contrariasse algum dogma da Igreja, ele teria sido mandado à fogueira. Quantos a Inquisição matou? A Cruzada Albigense.
Eu não defendo a “esquerda”. Nem sei o que é isso. Desconheço as teorias, socialismo, capitalismo.
Tenho motivos de sobra para suspeitar tanto de coletivização quando da individualização ( ou “individuação”, talvez? ). Feitas por seres humanos, não pode dar certo mesmo.
Mas é incrível como é comum algum desses direitistas começar algum texto dizendo que confrontaram algum estudante universitário, sendo que este é sempre um “esquerdista”. Naturalmente, sendo um estudante, o moleque ainda está verde. Está ainda formando seu arcabouço de teorias alheias, e ainda não está preparado para exibir erudição e fazer citações para impressionar. Se eu fosse um direitista, não acharia que um moleque estivesse preparado para defender a causa capitalista. Não teria capacidade ou amadurecimento intelectual nem mesmo para escolher e defender eficientemente o Capitalismo. Mas os colunistas de direita tupiniquins sempre se orgulham em bater um ainda-verde estudante num debate.
Colunistas de direita sempre têm um estudante esquerdista a confrontar e, óbvio, levar a melhor na batalha retórica. Mas é da idade. Eu também já conversei com estudantes universitários, capitalistas – e que desconheciam esta sua condição. Apenas o eram e pronto. E não encontrei nestes algum sinal de sólida superioridade intelectual. Conclui-se, então que, se no depender da formação teórica destes estudantes, o Capitalismo triunfará, então os marxistas podem preparar a festa.
Ainda sobre o misterioso estudante esquerdista da Faculdade de Direito da USP ( quem diria, hein? ), que sempre teima em aparecer em eventos para confrontar os direitinhas e ser humilhado por estes. O estudante seria favorável “ao bem” ( sem maiúscula mesmo, podem ver no original ). disse, ironicamente, o colunista sem, entretanto, dizer qual evento seria esse. Se é que ocorreu mesmo tal episódio.
Detestáveis estudantes socialistas
Eu só me deparo com seus antípodas. Ontem, no busão, uma lazarenta só calou a boca ao celular quando desceu no ponto do Shopping Santa Cruz. Falava a valer com algum de seus namorados de sucesso. Previa que, num de seus projetos, fazer tal coisa e por fim, “dar emprego”. A socialista já vinha com seu papo assistencialista ou paternalista. “Dar” emprego…
Coletivização
Diz o tal direitista que, no capitalismo democrata ( parece haver uma confusão conceitual aqui ) as liberdades individuais estão garantidas. Há um exagero aqui, não? Mas tudo bem, eu não entendo nada dessas coisas, tenho só o segundo grau.
Lula, este comunista, estaria promovendo a coletivização forçada? Sim, óbvio. Com a taxa de juros alcançando o Sputnik, estamos pagando coletivamente 11 e tantos porcento de taxa de juros para que alguns poucos indivíduos, individuais e livres, faturem os horrores que estão condenando o país à falência.
O comunismo estaria se incrustando dentro das empresas, que financiam ONGs e institutos culturais mundo afora? Isso não é comunismo. Chama-se “hipocrisia”, e pode ser descontada no Imposto de Renda.
Enfim: tenho horror ao coletivo. Detesto multidão, massa. Não tenho interesses em comum com ela. Mas esta massa não me parece preparada para fazer alguma Revolução, dessas que os direitas tanto dizem temer.
Enquanto isso, o leitor da vEJA segue se dirigindo às bancas, sobre suas quatro patas, a fim de comprar a revistinha que o faz sentir-se inteligente. A roupa nova do imperador, lembrem-se.

março 26, 2008

Celso Lungaretti confronta mais uma vez "entulho autoritário" de Elio Gaspari

COMPANHEIROS E AMIGOS:
A POLÊMICA QUE EU E OUTROS ARTICULISTAS ESTAMOS TRAVANDO COM ELIO GASPARI E A “FOLHA DE S. PAULO” TEM UM SIGNIFICADO MAIOR: EXTIRPAR DE VEZ ESSA ERVA DANINHA QUE É O USO DE INFORMAÇÕES CONTAMINADAS PELA TORTURA ( E, PORTANTO, SEM VALOR LEGAL NENHUM ) PARA ACUSAR PERSONAGENS HISTÓRICOS NA IMPRENSA E NA INTERNET.
A ÚLTIMA COLUNA DO GASPARI ESTÁ ABAIXO, PARA QUEM QUISER AVALIAR. E A MINHA RESPOSTA ( QUE LHES ESTOU REPASSANDO EM VERSÃO CONDENSADA ) EVIDENCIA QUE, MAIS DO QUE UM HISTORIADOR EM QUEM SÓ OS DESINFORMADOS CONFIAVAM, ESTÁ SENDO CONFRONTADA UMA PRÁTICA SISTEMÁTICA DE DESMORALIZAÇÃO DOS PARTICIPANTES DA RESISTÊNCIA À DITADURA MILITAR, MEDIANTE DIFAMAÇÕES E CALÚNIAS.
PEÇO A TODOS QUE REDOBREM SEUS ESFORÇOS PARA QUE AS POSIÇÕES CIVILIZADAS TAMBÉM CIRCULEM E CHEGUEM AOS LEITORES, JÁ QUE O ENTULHO AUTORITÁRIO TEM AMPLO E IRRESTRITO ACESSO À GRANDE IMPRENSA.
EM DEFESA DA DIGNIDADE, DA VERDADE E DA JUSTIÇA,
CELSO LUNGARETTI

SOBRE HISTORIADORES E ARAPONGAS
Celso Lungaretti (*)
O episódio algoz e vítima, que vem provocando uma discussão tensa desde o dia 12, trouxe à tona acontecimentos dolorosos, mas serviu também para aclarar o papel hoje desempenhado pela grande imprensa e por um de seus expoentes mais destacados.
As máscaras foram arrancadas e os leitores, perplexos, vão se dando conta de que formam opinião a partir de informações distorcidas, altamente manipuladas, enquanto os defensores da verdade não encontram tribuna, não têm verdadeiro direito de resposta nem espaço para apresentar o outro lado.
Tudo começou quando o jornalista e historiador Elio Gaspari publicou em sua coluna na Folha de S. Paulo, O Globo e outros jornais uma diatribe contra a União (“Em 2008 remunera-se o terrorista de 1968”), por ter decidido pagar ao suposto algoz Diógenes Carvalho de Oliveira uma indenização duas vezes maior do que a outorgada à sua suposta vítima Orlando Lovecchio Filho.
Como o primeiro era um militante da Resistência à ditadura e o segundo, o cidadão que perdera a perna no atentado supostamente por ele cometido, o assunto logo transbordou do circuito habitual do Gaspari para outros jornais, revistas semanais, sites de extrema-direita e correntes de e-mails neo-integralistas.
Desde então, as refutações têm sido sempre ignoradas ou relegadas à seção de cartas (cortadas até se tornarem anódinas, publicadas com imenso atraso, etc.), enquanto os espaços nobres servem para repercutir o texto de Gaspari ou trazer-lhe acréscimos, na vã tentativa de respaldar suas afirmações indefensáveis.
Tanto a Folha quanto Gaspari chegaram a reconhecer que, dos quatro militantes apontados levianamente como autores do atentado ao consulado estadunidense em 1969, Dulce Maia era inocente e havia sido por eles caluniada.
Mas, nem mesmo o depoimento do único participante ainda vivo desse atentado obteve o merecido destaque, apesar de provocar uma verdadeira reviravolta no caso: Sérgio Ferro, admitiu sua culpa e seus remorsos, mas desmentiu a participação de Diógenes de Carvalho e Dulce Maia, além de esclarecer que se tratou de uma ação da ALN e não (como Gaspari afirmara) da VPR.
Outra informação importantíssima que a grande imprensa escamoteou de seus leitores: Ferro foi acionado na Justiça por Lovecchio e obteve ganho de causa graças aos relatórios médicos que apresentou como prova. O primeiro dá conta de que o ferimento de Lovecchio era grave, mas existia possibilidade de recuperação. Depois, o socorro a Lovecchio foi interrompido pelo Deops, que quis interrogá-lo, provavelmente para saber se ele era vítima do atentado ou um participante azarado. Quando os policiais afinal o liberaram, sua perna já havia gangrenado e teve de ser amputada (2º relatório).
Ora, se o algoz não era algoz, então o texto inteiro do Gaspari perdia o gancho e desabava, bem como as matérias caudatárias publicadas pela Veja e da Época. O que fizeram os veículos, face à evidência de haverem informado mal seus leitores, além de caluniarem dois cidadãos e acusarem falsamente a VPR? Deram desmentido com o mesmo destaque? Nem remotamente.
A consciência da vulnerabilidade de sua posição aos olhos dos (poucos) cidadãos bem informados fez Gaspari voltar ao assunto na sua coluna dominical de 25/03. E o fez recorrendo às informações que, desde o início, foram a viga-mestra de suas perorações fantasiosas: os famigerados inquéritos inquéritos policiais-militares da ditadura.
Como um mero araponga, ele se pôs a revolver o lixo ensanguentado da ditadura, dando grande importância ao fato de que havia congruência entre os depoimentos extorquidos dos torturados e omitindo que os torturadores forçavam todos os presos a coonestarem a versão oficial, a síntese elaborada pelos serviços de Inteligência das Forças Armadas, para que o resultado final tivesse alguma verossimilhança.
Se fosse, como pretende, um verdadeiro historiador, saberia que os militantes eram coagidos a admitir os maiores absurdos nas instalações militares e, depois, encaminhados a delegacias civis onde deveriam repetir, sem torturas, as mesmas afirmações. Os que, pelo contrário, desmentiam tudo, eram recambiados aos quartéis e novamente submetidos a sevícias brutais, até se conformarem em obedecer ao script.
Destrambelhado, Gaspari ousou até fazer novo ataque a Dulce Maia, a quem pedira humildes desculpas no domingo anterior. Que credibilidade espera ter, agindo com tanta incoerência?
A última intervenção de Gaspari no debate foi, de longe, a mais desastrosa. Colocou-o ao lado dos torturadores, defendendo o entulho autoritário. Se a inicial arranhou sua imagem de historiador, a derradeira disse muito sobre suas verdadeiras devoções.
O que, aliás, já se suspeitava: não é qualquer cidadão que desfruta de tal confiança de personagens como Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, a ponto de ser por eles escolhido para repassar ao distinto público suas desculpas esfarrapadas pelo papel histórico que desempenharam, como protagonistas do arbítrio.
O entulho autoritário - Se esse episódio deplorável serviu de algo, foi para comprovar, definitivamente, que o entulho autoritário deve ficar no lugar a que pertence: a lata de lixo da História.
Um regime de exceção utilizou práticas hediondas para investigar a ação dos resistentes que a ele se opunham e os inquéritos assim produzidos serviram para condenar patriotas, heróis e mártires em tribunais militares, com oficiais das Forças Armadas fazendo as vezes de jurados, o que atropelava flagrantemente o direito de defesa.
O quadro era tão kafkiano que, num julgamento em que fui réu, o advogado de ofício designado para um companheiro apresentou-se completamente embriagado e começou sua peroração não falando coisa com coisa. O juiz auditor o expulsou da sala e mandou que outro advogado de ofício improvisasse a defesa, imediatamente, mal tendo tempo para ler os autos. O julgamento prosseguiu.
A Lei da Anistia de 1979 sustou os efeitos concretos desses julgamentos e as ações seguintes do Estado brasileiro, como a constituição das comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos, evidenciaram que os antes tidos como criminosos passaram a ser considerados, oficialmente, vítimas.
Enfim, os IPMs foram, tão-somente, a versão que um inimigo apresentava do outro, para dar aparência de legalidade ao que não passava de arbitrariedade, sem compromisso nenhum com a verdade e a justiça.
Qual a credibilidade de um regime que fez afixarem-se em logradouros públicos do País inteiro, em meados de 1969, cartazes me acusando de “terrorista assassino” que teria “roubado e assassinado vários pais de família”, embora eu fosse um dirigente e nunca um homem de ação?
Mas, para aqueles militares, a verdade não existia em si. Só lhes interessava a verdade operacional, as versões mais adequadas a seus objetivos na guerra psicológica que travavam.
Passadas quatro décadas, essas versões unilaterais, fantasiosas e espúrias infestam a internet, chegando até a impregnar textos jornalísticos – por má fé dos seus autores ou por preguiça de profissionais que preferem colher subsídios nos sites de busca do que nos arquivos de seus próprios veículos, acabando por comer na mão dos Brilhantes Ustras da vida.
Então, é mais do que tempo da imprensa se compenetrar que, sem uma sentença lavrada por um tribunal na vigência plena do estado de direito, ninguém pode ser apontado taxativamente nos textos jornalísticos como “terrorista” ou autor de tais ou quais crimes com motivação política.
Os repórteres, comentaristas, articulistas e editorialistas que agirem de outra forma, estarão coonestando a prática de torturas e os julgamentos realizados por tribunais de exceção.
E, já que nada do que Gaspari contrapôs pode ser aceito pelos homens decentes que não aceitam mancomunar-se com práticas hediondas, subsiste o fato de que uma versão distorcida e panfletária do episódio teve enorme destaque editorial e, conseqüentemente, ampla repercussão, enquanto as informações que repuseram a verdade dos fatos ficaram, quando muito, jogadas na seção de cartas.
Que cada um tire suas conclusões acerca dessa praga que cada vez mais se alastra pela imprensa brasileira: a burla do direito de resposta e a tendenciosidade no tratamento editorial, não se expondo convenientemente o outro lado ou omitindo-o por completo.
Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

ELIO GASPARI

O terrorista de 1968 remunera-se em 2008
A família do soldado morto no atentado recebe R$ 1.140 mensais, já o rapaz da VPR fatura R$ 1.627
QUARENTA ANOS DEPOIS do atentado a bomba contra o Consulado Americano em São Paulo, Sérgio Ferro, intitulando-se “único sobrevivente” do grupo terrorista que fabricou, transportou e detonou o explosivo, informa:
1) Diógenes Oliveira e Dulce Maia não participaram dessa ação.
2) A ação foi iniciativa da ALN (Ação Libertadora Nacional), e não da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).Quem disse que Diógenes, o “Luís”, e Dulce de Souza, a “Judith”, participaram do atentado, organizado pela VPR, foi o doutor Sérgio Ferro em seu depoimento à polícia em 29 de março de 1971. Na ocasião, Ferro estava preso e a tortura era uma política de Estado para obtenção de confissões, verdadeiras ou falsas. Passados 37 anos, Ferro julgou oportuno corrigir seu testemunho. Em 1969, na prisão, Pedro Lobo de Oliveira e Diógenes, ambos da VPR, revelaram suas participações no atentado. Diógenes admitiu ter fabricado a bomba, com “um ou dois quilos de dinamite”.
Quando Ferro incriminou Dulce de Souza Maia, sabia que ela estava a salvo, no exílio. Além disso, uma bomba a mais, uma bomba a menos, não faria muita diferença na carga que a polícia imputava à dupla mencionada por Ferro.
Diógenes e Dulce foram associados a dois retumbantes atentados terroristas. No dia 26 de junho de 1968, a VPR lançou um caminhão-bomba com 15 quilos de dinamite contra o Quartel General do 2º Exército, em São Paulo. Na explosão, morreu o soldado Mário Kozel Filho, de 18 anos. Dulce Maia contou sua participação nesse episódio numa entrevista a Luiz Maklouf Carvalho. Ela foi publicada no livro “Mulheres que foram à luta armada”, em 1998. Diógenes nunca falou publicamente sobre o caso. Os documentos conhecidos, que devem ser vistos com reservas, são o depoimento dele e de camaradas seus, todos presos. Diógenes admitiu ter fabricado a bomba. Onofre Pinto, que participou do atentado, disse que Diógenes acendeu o estopim.
Diógenes e Dulce também foram acusados de terem participado do planejamento e do assassinato do capitão americano Charles Chandler, em outubro de 1968. Na mesma entrevista a Maklouf, Dulce narrou sua colaboração no levantamento dos hábitos do capitão. Diógenes nunca discutiu esse atentado em público. Contudo, Pedro Lobo de Oliveira, seu colega de VPR, contou aos organizadores do livro “Esquerda Armada no Brasil”, premiado em Cuba em 1973, que eram três as pessoas que estavam no carro do qual partiram os assassinos do capitão: ele, que ficou ao volante, e mais dois, um com um revólver e outro com uma metralhadora. Pedro Lobo não os nomeou. Informou que a dupla só foi identificada quando um militante da VPR que “sabia quais os companheiros que haviam participado” contou o caso à polícia, na prisão. Esse “delator”, Hermes Camargo, tornou-se um colaborador do regime. Anos mais tarde ele repetiu o dois nomes numa entrevista a “O Estado de S. Paulo”: os atiradores foram Diógenes Oliveira, o “Luís”, e Marco Antonio Brás de Carvalho, o “Marquito”, morto meses depois do atentado.Assim como deve-se dosar o crédito às confissões de Sérgio Ferro e deve-se duvidar dos depoimentos de pessoas presas, é necessário registrar que a narrativa de Diógenes, preso, é semelhante à de Pedro Lobo, solto. Diógenes reconheceu ter sido um dos autores dos disparos.Orlando Lovecchio, que teve a perna esquerda amputada abaixo do joelho por conta da explosão da bomba que Sérgio Ferro e seus camaradas puseram no Consulado Americano, recebe R$ 570 mensais da Viúva. Os pais do soldado Mário Kozel conquistaram em 2003 uma pensão de R$ 330, reajustada no ano seguinte para R$ 1.140 mensais. Desde o dia 24 de janeiro, Diógenes ficou em melhor situação. Ele ganhou uma Bolsa Ditadura de R$ 1.627 mensais (as vítimas, juntas, recebem R$ 1.710), com direito a R$ 400 mil de atrasados. Repetindo: há algo de errado na aritmética das indenizações e numa álgebra que acaba remunerando melhor o terrorista que participou de um atentado do que a família da sentinela assassinada ou o transeunte amputado.

março 18, 2008

O HISTORIADOR TRAPALHÃO E O XIS DA QUESTÃO, por Celso Lungaretti

No último dia 12, o jornalista e historiador Elio Gaspari publicou em sua coluna na Folha de S. Paulo e outros jornais uma diatribe contra a União, por ter decidido pagar a um suposto algoz uma indenização duas vezes maior do que a outorgada à sua suposta vítima.
Como o primeiro era um militante da Resistência à ditadura e o segundo, a vítima do atentado supostamente por ele cometido, o assunto logo transbordou do circuito habitual do Gaspari para outros jornais, revistas semanais, sites de extrema-direita e correntes de e-mails neo-integralistas.
Na madrugada do próprio dia 12, já enviei uma nota à seção de cartas da Folha, contestando Gaspari. E, no dia seguinte, coloquei no ar em meu blog e enviei aos sites que me publicam e à minha rede de amigos o artigo O Gaspari de 2008 também não é mais o de 1968, afirmando, basicamente, que:
1. tudo indicava que, em suas alegações sobre o atentado à embaixada dos EUA em 1968, Gaspari havia se baseado em versões militares;
2. os inquéritos policiais-militares da ditadura militar jamais poderiam respaldar acusações contra quem quer que seja, pois estavam contaminados pela prática generalizada da tortura;
3. além disto, como os torturados freqüentemente admitiam o que os torturadores pensavam ser verdade, as ações da Resistência quase sempre eram relatadas nos IPMs com um número de participantes superior ao real, evidenciando que, além de inaceitáveis para as pessoas civilizadas, essas versões militares eram altamente fantasiosas e inconfiáveis.
Enquanto o panfleto de Gaspari era alegremente encampado pela grande imprensa, meu alerta ficou confinado à internet. Nem mesmo a Folha respeitou meu direito de apresentar o outro lado da questão, só publicando uma versão expurgada e reescrita (sem meu consentimento) da minha carta no dia 17.
O desfecho do caso foi exemplar.
O historiador Gaspari afirmara: “O atentado foi conduzido por Diógenes Carvalho Oliveira e pelos arquitetos Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre, além de Dulce Maia e uma pessoa que não foi identificada”.
A primeira a protestar foi Dulce Maia, provando que não participara de atentado nenhum. A Folha e Gaspari tiveram de dar a mão à palmatória, admitindo o erro e se desculpando.
Depois, Sérgio Ferro esclareceu que, dos quatro apontados por Gaspari, só ele e Levèvre eram realmente autores do atentado: “O Sr. Diogenes Carvalho de Oliveira e a Sra. Dulce Maia não participaram desta ação, a qual foi executada por Rodrigo Lefèvre, por ‘Marquinhos’ (não conheço seu nome, foi assassinado pela repressão pouco depois) e por mim”.
Outra bobagem de Gaspari foi se referir a “um atentado contra o consulado americano, praticado por terroristas da Vanguarda Popular Revolucionária”. Sérgio Ferro colocou os pingos nos ii: “… a ação (…) me foi proposta pela direção da ALN. e não pela VPR”.
Ou seja, de cinco imputações de Gaspari, duas estavam corretas e três erradas, inclusive a principal delas, ao satanizar Diógenes de Carvalho. O algoz não era algoz, afinal.
Resta saber se foi apenas um momento infeliz ou se o índice habitual de acertos dos livros de Gaspari sobre os anos de chumbo é de 40%…
Uma omissão significativa – Quanto à vítima, o arquiteto Orlando Lovecchio Filho, que perdeu a perna e teve de colocar uma prótese em razão de haver sido involuntariamente atingido pela explosão da bomba, Ferro também levanta uma questão importante, ao se referir aos “dois laudos médicos que seus advogados anexaram ao processo que moveram contra mim (a justiça se pronunciou a meu favor em duas instancias)”. Leiam com atenção:
“No primeiro, feito quando o Sr Orlando Lovecchio Filho deu entrada no Hospital para tratar seus ferimentos, a cura parece possível. Entretanto ele não pôde receber então tratamentos, pois foi levado para o Deops. Não sei o que passou durante seu interrogatório. Quando pôde ser enfim tratado, o segundo laudo, feito então, declara que sua perna havia gangrenado, tornando a amputação inevitável. Sem que eu negue minha responsabilidade quanto a seu ferimento – o que pesa em mim ha 40 anos – penso que sua amputação o faz também vitima do poder de então”.
Ou seja, enquanto o Deops decidia se Lovecchio era um transeunte que passava pelo local ou um dos autores do atentado (atingido pela própria bomba), a sua perna gangrenou. É lamentável que ele jogue toda a culpa e dirija todo seu rancor contra o lado mais fraco e omita a responsabilidade dos responsáveis pelo estado de exceção que originava prisões, torturas, mortes e, também, iniciativas insensatas das vítimas do arbítrio.
Paulo Abrão Pires Jr., presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, também soltou nota sobre o caso, explicando que esse colegiado negou o benefício ao arquiteto por não haver “dispositivo normativo na Lei da Anistia que preveja a reparação para o Sr. Orlando Lovecchio”.
Mesmo assim, este conseguiu noutra instância o que buscava: “o Congresso brasileiro aprovou legislação específica e individual ao Sr. Orlando Lovecchio instituindo a sua atual aposentadoria (Lei 10.923/2004). Lei esta que beneficia unicamente a ele, criando regime jurídico exclusivo a ele e indisponível para esta Comissão. A produção de tal Lei constitui nova prova da ausência de omissão estatal em relação a sua situação concreta”.
Se Lovecchio, ao invés de se voltar contra Sérgio Ferro e os resistentes que enfrentavam um estado ditatorial em condições de extrema desigualdade de forças, tivesse argüido a responsabilidade das autoridades policiais que lhe recusaram tratamento médico imediato, talvez houvesse conquistado uma pensão mais vultosa. Ironias do destino.
O entulho autoritário – Enfim, esse episódio acabou servindo para comprovar, definitivamente, que o entulho autoritário deve ficar no lugar a que pertence: a lata de lixo da História.
Um regime de exceção utilizou práticas hediondas para investigar a ação dos resistentes que a ele se opunham e os inquéritos assim produzidos serviram para condenar patriotas, heróis e mártires em tribunais militares, com oficiais das Forças Armadas fazendo as vezes de jurados, o que atropelava flagrantemente o direito de defesa.
O quadro era tão kafkiano que, num julgamento em que fui réu, o advogado de ofício designado para um companheiro apresentou-se completamente embriagado e começou sua peroração não falando coisa com coisa. O juiz auditor o expulsou da sala e mandou que outro advogado de ofício improvisasse a defesa, imediatamente, mal tendo tempo para ler os autos. O julgamento prosseguiu.
A Lei da Anistia de 1979 sustou os efeitos concretos desses julgamentos e as ações seguintes do Estado brasileiro, como a constituição das comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos, evidenciaram que os antes tidos como criminosos passaram a ser considerados, oficialmente, vítimas.
Enfim, os IPMs foram, tão-somente, a versão que um inimigo apresentava do outro, para dar aparência de legalidade ao que não passava de arbitrariedade, sem compromisso nenhum com a verdade e a justiça.
Qual a credibilidade de um regime que fez afixarem-se em logradouros públicos do País inteiro, em meados de 1969, cartazes me acusando de “terrorista assassino” que teria “roubado e assassinado vários pais de família”, embora eu fosse um dirigente e nunca um homem de ação?
Mas, para aqueles militares, a verdade não existia em si. Só lhes interessava a verdade operacional, as versões mais adequadas a seus objetivos na guerra psicológica que travavam.
Passadas quatro décadas, essas versões unilaterais, fantasiosas e espúrias infestam a internet, chegando até a impregnar textos jornalísticos – por má fé dos seus autores ou por preguiça de profissionais que preferem colher subsídios nos sites de busca do que nos arquivos de seus próprios veículos, acabando por comer na mão dos Brilhantes Ustras da vida.
Então, é mais do que tempo da imprensa se compenetrar que, sem uma sentença lavrada por um tribunal na vigência plena do estado de direito, ninguém pode ser apontado taxativamente nos textos jornalísticos como “terrorista” ou autor de tais ou quais crimes com motivação política.
Os repórteres, comentaristas, articulistas e editorialistas que agirem de outra forma, estarão coonestando a prática de torturas e os julgamentos realizados por tribunais de exceção.
Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

março 14, 2008

Celso Lungaretti, jornalista e ex-preso político envia mensagem à Folha, em resposta a Elio Gaspari

DIÓGENES
O colunista Elio Gaspari foi extremamente infeliz ao pinçar um caso isolado e atípico para desqualificar o programa de anistia do Ministério da Justiça ( que tem erros, mas é um passo na direção certa ). Desconheço se Diógenes Carvalho Oliveira cometeu mesmo os atentados que lhe estão sendo atribuídos ou essa informação provém dos IPMs não só inaceitáveis, como também inconfiáveis da ditadura militar, já que as informações eram arrancadas mediante torturas brutais e, para se safarem, muitas vezes os supliciados diziam coisas mirabolantes.
P. ex., o Projeto Orvil, o chamado ‘livro negro da repressão’, cita-me como um dos três juízes no julgamento de um companheiro que estaria ameaçado de justiçamento; no entanto, além de não haver participado, nem mesmo soube desse tribunal, se é que ele realmente existiu. Enfim, os IPMs, em termos jurídicos, não passam de lixo, não respaldando afirmação nenhuma contra ninguém.
Em segundo lugar, Gaspari parece colocar em planos diferentes os atos cometidos pela vanguarda armada antes e depois da promulgação do AI-5, como se o País não estivesse sob ditadura. O exercício do direito de resistência à tirania independe da intensidade da tirania. Não existe meia virgem: ou era democracia, ou era ditadura. O Brasil estava desde 1964 submetido ao arbítrio de usurpadores do poder que já haviam praticado um sem-número de barbaridades, como a humilhação, tortura e quase enforcamento, em público, do lendário Gregório Bezerra. CELSO LUNGARETTI, jornalista, escritor e ex-preso político (São Paulo, SP)
ABAIXO, O ARTIGO DE ELIO GASPARI ( 12/03/08 ) QUE EXIGIU A RESPOSTA DE LUNGARETTI:
Em 2008 remunera-se o terrorista de 1968
A vítima, que ficou sem a perna, recebe R$ 571; Diógenes, da turma da bomba, fica com R$ 1.627
DAQUI A OITO dias completam-se 40 anos de um episódio pouco lembrado e injustamente inconcluso. À primeira hora de 20 de março de 1968, o jovem Orlando Lovecchio Filho, de 22 anos, deixou seu carro numa garagem da avenida Paulista e tomou o caminho de casa. Uma explosão arrebentou-lhe a perna esquerda. Pegara a sobra de um atentado contra o consulado americano, praticado por terroristas da Vanguarda Popular Revolucionária. ( Nem todos os militantes da VPR podem ser chamados de terroristas, mas quem punha bomba em lugar público, terrorista era.)
Lovecchio teve a perna amputada abaixo do joelho e a carreira de piloto comercial destruída. O atentado foi conduzido por Diógenes Carvalho Oliveira e pelos arquitetos Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre, além de Dulce Maia e uma pessoa que não foi identificada.
A bomba do consulado americano explodiu oito dias antes do assassinato de Edson Luís de Lima Souto no restaurante do Calabouço, no Rio de Janeiro, e nove meses antes da imposição ao país do Ato Institucional nº 5. Essas referências cronológicas desamparam a teoria segundo a qual o AI-5 provocou o surgimento da esquerda armada. Até onde é possível fazer afirmações desse tipo, pode-se dizer que sem o AI-5 certamente continuaria a haver terrorismo e sem terrorismo certamente teria havido o AI-5.
O caso de Lovecchio tem outra dimensão. Passados 40 anos, ele recebe da Viúva uma pensão especial de R$ 571 mensais. Nada a ver com o Bolsa Ditadura. Para não estimular o gênero coitadinho, é bom registrar que ele reorganizou sua vida, caminha com uma prótese, é corretor e imóveis e mora em Santos com a mãe e um filho.
A vítima da bomba não teve direito ao Bolsa Ditadura, mas o bombista Diógenes teve. No dia 24 de janeiro passado, o governo concedeu-lhe uma aposentadoria de R$ 1.627 mensais, reconhecendo ainda uma dívida de R$ 400 mil de pagamentos atrasados.
Em 1968, com mestrado cubano em explosivos, Diógenes atacou dois quartéis, participou de quatro assaltos, três atentados a bomba e uma execução. Em menos de um ano, esteve na cena de três mortes, entre as quais a do capitão americano Charles Chandler, abatido quando saía de casa. Tudo isso antes do AI-5.
Diógenes foi preso em março de 1969 e um ano depois foi trocado pelo cônsul japonês, seqüestrado em São Paulo. Durante o tempo em que esteve preso, ele foi torturado pelos militares que comandavam a repressão política. Por isso foi uma vítima da ditadura, com direito a ser indenizado pelo que sofreu. Daí a atribuir suas malfeitorias a uma luta pela democracia iria enorme distância. O que ele queria era outra ditadura. Andou por Cuba, Chile, China e Coréia do Norte. Voltou ao Brasil com a anistia e tornou-se o “Diógenes do PT”. Apanhado num contubérnio do grão-petismo gaúcho com o jogo do bicho, deixou o partido em 2002.
Lovecchio, que ficou sem a perna, recebe um terço do que é pago ao cidadão que organizou a explosão que o mutilou. (Um projeto que revê o valor de sua pensão, de iniciativa da ex-deputada petista Mariângela Duarte, está adormecido na Câmara.)
Em 1968, antes do AI-5, morreram sete pessoas pela mão do terrorismo de esquerda. Há algo de errado na aritmética das indenizações e na álgebra que faz de Diógenes uma vítima e de Lovecchio um estorvo. Afinal, os terroristas também sonham.

março 10, 2008

“Fascista sem máscara” na Internet

Escrito por Altamiro Borges
Correio da Cidadania
05-Mar-2008

A disputa deste ano do Prêmio iBest – baseado no voto direto dos internautas e considerado por muitos como “o Oscar da internet brasileira” – revela que a sociedade também está dividida entre a esquerda e a direita no ciberespaço. Nos primeiros lugares na categoria de “cidadania-política” encontram-se três sites identificados com as idéias progressistas: Conversa Afiada, Vermelho e PT. Mas já na quarta colocação, com estreita diferença, está a página de ultradireita “Mídia Sem Máscara”. Isto não significa que o site seja “cachorro morto”, até porque a votação vai até maio e ele já levou o prêmio no ano passado, quando os critérios do iBest eram bem mais restritivos.

Alucinações do “filósofo”
Para quem tiver estômago, vale a pena conhecer as teses ultra-reacionárias do site, que é editado pelo “filósofo” Olavo de Carvalho. Já na apresentação da página, o fascistóide escancara a sua esquizofrenia. “Mídia Sem Máscara é um website destinado a publicar idéias e notícias que são sistematicamente escondidas, desprezadas e distorcidas em virtude do viés esquerdista da grande mídia brasileira”. Para este lunático, que teme o perigo comunista até na sombra, a revista Veja, os jornais Folha e Estadão e a TV Globo dão espaço em demasia para a “manipulação esquerdista”. Olavo de Carvalho gostaria que estes veículos, que já são direitistas, pregassem abertamente um novo golpe militar, novas prisões e torturas e o retorno à ditadura, e bradassem “Heil, Hitler!”.
Ridicularizado até por setores conservadores mais hábeis e sutis, ele se ressente do isolamento. “No Brasil, os poucos que tentam enfrentar essa situação são vítimas do ódio, da covardia e da mesquinhez de expedientes a que homens poderosos têm recorrido para nos calar. A má vontade surda e cega – quando não a ironia e a chacota – que os indiferentes e alienados opõem são indescritíveis. O que torna as coisas ainda mais difíceis é que nos últimos anos o estímulo geral à expressão de crenças esquerdistas encorajou todos os analfabetos do país”, resmunga num linguajar preconceituoso. Mas o fundamentalista é bem persistente: “Pouco nos importa a desproporção de forças. Quando os grandes se acovardam, os pequenos têm de dar o exemplo”.
“Minha defesa no Juízo Final”
Olavo de Carvalho, que hoje reside em Richmond (EUA), é mesmo um egocêntrico e se acha um enviado de Deus no combate às idéias “diabólicas” da esquerda. Em entrevista recente à Revista Atlântico, ele se jacta de ser um estudioso da “mente revolucionária”. Atormentado, alerta: “A esquerda assume cada vez mais orgulhosamente a sua identidade, ao mesmo tempo em que sua influência política se torna cada vez mais dominante. A direita, por seu lado, se encolhe numa timidez abjeta, negando a sua própria existência… Se eu conseguir lançar toda a claridade que pretendo, creio que terei feito alguma coisa de útil, pelo menos para dar a Nosso Senhor Jesus Cristo um pretexto que ele possa alegar em minha defesa no Juízo Final”.
Na mesma entrevista, ele elogia a sangrenta ditadura salazarista em Portugal. “O salazarismo foi uma estranha mistura de conservadorismo cristão com elementos extraídos do fascismo… Não tenho a menor dúvida de que Antonio de Oliveira Salazar foi um homem honesto e um grande administrador”. Também critica a democracia liberal e prega abertamente a ditadura fascista. “O liberalismo acredita que a liberdade é um princípio fundante da política, mas a liberdade é apenas uma regra formal que, elevada à condição de princípio, resulta no esvaziamento relativista de todos os valores, fomentando a mutação revolucionária e a extinção da própria liberdade”. Típico neocon do falido governo George Bush, Olavo de Carvalho defende os conservadores dos EUA.
“Mandei seu jornal à merda”
“Mídia Sem Máscara” expressa de forma grotesca este pensamento reacionário e doentio. Olavo de Carvalho e seus fiéis seguidores têm ódio do governo Lula. O site afirma, de maneira risível, que o atual presidente é um dos líderes do movimento comunista internacional. A prova seria a presença no Fóro São Paulo, que reúne partidos progressistas da América Latina. O tratamento dado ao governo é dos mais desqualificados, com acusações rastaqüeras contra os familiares do presidente, tentativas de ligá-lo ao terrorismo e ao narcotráfico e outras baixarias do gênero. O site não poupa nem os partidos do bloco liberal-conservador, que seriam frouxos na oposição.
“O PFL adaptou-se às circunstâncias, aceitou a condição de mero coadjuvante da esquerda light e mudou de nome para ficar parecido com o Partido Democrata americano, partido preferido de Hugo Chávez e Fidel Castro”. Indignado, Olavo de Carvalho acusa a direita de ter adotado “o programa esquerdista em todos os pontos, como o gayzismo, o abortismo, as cotas raciais e o anti-cristianismo militante”. As maluquices já lhe custaram o emprego no jornal gaúcho Zero Hora. Encerrada a eleição de 2006, este veículo de direita se livrou do seu pitbull. Magoado, Olavo de Carvalho esbanjou a sua filosofia após receber a carta de dispensa. “Ilustre editor, já mandei seu jornal à merda. Sua cartinha é desnecessária, assim como seu dinheiro”.
“Mídia Sem Máscara” ataca tudo o que há de progressista no país. Sua ira contra os movimentos sociais chega a ser ilegal, um atentado à democracia. Um artigo recente afirma que “o MST está mais para organização terrorista do que propriamente para o que se convencionou chamar de ‘movimento social’; ou um é sinônimo do outro… Para quem desconhece, é bom ressaltar que o MST e agregados (Via Campesina, MLST e outros) não são organizações comunistas nacionais. Estão vinculados e recebem dinheiro de organismos e associações internacionais, em especial da Venezuela, China… Para não falar nos bilhões de reais repassados ao ‘movimento’ pelo próprio governo que, a pretexto de assentar os ‘sem terra’, os abastece de afagos, comida e salário”.
“Chávez é um artefato de Lula e Fidel”
O reacionarismo também é patente nas análises internacionais, inclusive na tradução de notórios fascistas do mundo todo. Nos últimos dias, o site postou o “Réquiem para um assassino”, fazendo coro com os gusanos (vermes) contrários a Fidel Castro. Num artigo mentiroso e infame, Graça Salgueiro atacou todos os que apóiam a revolução cubana. “O anúncio do ditador Fidel Castro de que estaria se afastando do poder da ilha-cárcere provocou enorme comoção nos que defendem com unhas, dentes, lágrimas nos olhos e voz embargada a maior miséria humana do século XX, embora não se tenha notícia de que nenhum dos defensores do genocídio castrista tenham fugido do seu país para viver no ‘paraíso caribenho’. Que o digam os comunas que vivem como burgueses: Chico Buarque em Paris e o caquético Niemayer numa cobertura em Copacabana”.
Outro alvo constante dos ataques histéricos do site é Hugo Chávez, a encarnação do satanás na Terra. Ipojuca Pontes, ex-secretário de cultura de Collor de Mello, garante que o presidente da Venezuela é “uma crescente ameaça à estabilidade democrática no continente; um vendaval de poeira tóxica que convém a todo custo neutralizar… Chávez interfere na vida política dos países vizinhos, apóia o terrorismo narcotraficante das FARC, insulta líderes políticos que não rezam pela sua cartilha, abastece com dólares e petróleo a ditadura de Fidel Castro, contrabandeia armas…”. Ipojuca prega indiretamente a intervenção militar dos EUA na região e revela toda sua paranóia. “Se a CIA dedicasse o mínimo de atenção aos encontros periódicos em que o Foro de São Paulo trama a implantação do comunismo no Cone Sul, veria que Hugo Chávez não passa de artefato nas mãos de Lula e Fidel Castro para desempenhar o papel de ‘aríete da revolução socialista’”.
“Não Existe”
Como se observa, “Mídia Sem Máscara” é a expressão caricatural do que há de mais reacionário na sociedade brasileira. O sociólogo Emir Sader, outro que é sempre atacado nas páginas do site, ironiza ao dizer que “Olavo de Carvalho não existe”. Seria fruto de uma invenção. Segundo boatos, “esse infamante personagem trabalha financiado por uma rica empresa que explora o polpudo mercado do ensino privado… Os espaços que ele tem em jornais e revistas são comprados, fazendo parte dos custosos contratos de publicidade que a ‘universidade’ faz nos meios de comunicação”.
Sader conclui: “Todo país tem um pensador de extrema direita. Mas no Brasil inventaram este grotesco personagem, deram-lhe um tom improvável, ridículo, ignorante e o expõe à execração pública, personagem que a esquerda goza ou, pior, desconhece, diante dos patéticos apelos para polemizar, que ninguém aceita e o deixa na sua solidão exposto ao escárnio”. Os comentários de Emir Sader, como sempre, são consistentes. Mas, diante da boa colocação do site “Mídia Sem Máscara”, que revela que suas idéias ainda têm público, não custa alertar aos internautas sobre a importância da votação no prêmio iBest. É preciso derrotar os “fascistas sem máscaras” no país.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” ( Editora Anita Garibaldi )

fevereiro 28, 2008

Vai dessa para melhor famoso jornalista conservador. Comunismo esquerdista em festa…

WILLIAM F. BUCKLEY JR.: 1925-2008
Architect of American conservatism

William F. Buckley Jr., who marshaled polysyllabic exuberance, famously arched eyebrows and a refined, perspicacious mind to elevate conservatism to the center of American political discourse, died Wednesday at his home in Stamford, Conn.
Buckley, 82, suffered from diabetes and emphysema, his son, Christopher, said, although the exact cause of death was not immediately known. He was found at his desk in the study of his home, his son said. “He might have been working on a column,” Christopher Buckley said.
William F. Buckley Jr.’s winningly capricious personality, replete with $10 words and a darting tongue that writers loved to compare with an anteater’s, hosted one of television’s longest-running programs, “Firing Line,” and founded and shepherded the influential conservative magazine National Review.
He also found time to write at least 55 books, ranging from sailing odysseys to spy novels to celebrations of his own dashing daily life, and to edit five more. Last year, he published a political novel, “The Rake,” and a book looking back at National Review’s history. His memoirs about Barry Goldwater and Ronald Reagan are due later this year.
The more than 4.5 million words of his 5,600 biweekly newspaper columns, “On the Right,” would fill 45 more medium-size books.
Buckley’s greatest achievement was making conservatism – not just electoral Republicanism, but conservatism as a system of ideas – respectable in liberal postwar America. He mobilized the young enthusiasts who helped Barry Goldwater win the Republican presidential nomination in 1964, and saw his dreams fulfilled when Reagan and the Bushes won the presidency.
To Buckley’s enormous delight, the historian Arthur Schlesinger termed him “the scourge of liberalism.”
Buckley declared war on the postwar liberal order, beginning with his blistering assault on Yale as a traitorous den of atheistic collectivism immediately after his graduation.
Buckley weaved the tapestry of what became the new American conservatism from libertarian writers like Max Eastman, free market economists like Milton Friedman, traditionalist scholars like Russell Kirk and anti-communist writers like Whittaker Chambers. But the persuasiveness of his argument hinged not on these perhaps arcane sources, but on his own tightly argued case for a conservatism based on the national interest and a higher morality.
His most receptive audience became young conservatives, some of whom met in 1960 at Buckley’s Connecticut estate to form Young Americans for Freedom. Their numbers – and influence – grew.
William Francis Buckley Jr. was born in Manhattan on Nov. 24, 1925, the sixth of the 10 children of Aloise Steiner Buckley and William Frank Buckley Jr. The elder Buckley made a fortune in the oil fields of Mexico, and educated his children with personal tutors at Great Elm, the family estate in Sharon, Conn. They also attended exclusive Catholic schools in England and France.
He served in the Army from 1944 to 1946, and then entered Yale, where he studied political science, economics and history, and established himself as a fearsome debater.
After a year in the CIA in Mexico City ( his case officer was E. Howard Hunt, who went on to win notoriety for his part in the Watergate break-in ), Buckley went to work for the American Mercury magazine, but resigned after spotting anti-Semitic tendencies in the magazine.
Over the next few years, Buckley worked as a freelance writer and lecturer. In 1955, he started National Review as voice for “the disciples of truth, who defend the organic moral order” with a $100,000 gift from his father.
Circulation increased from 16,000 in 1957 to 125,000 at the time of Goldwater’s candidacy in 1964, and leveled off to about 100,000 in 1980. It is now 155,000. The magazine has always had to be subsidized by readers’ donations.
Buckley’s personal visibility was magnified by his “Firing Line” program, which ran from 1966 to 1999. It became the longest-running show hosted by a single host – beating out Johnny Carson by three years. Buckley led the conservative team in 1,504 debates on topics like “Resolved: The women’s movement has been disastrous.”
At age 50, Buckley became novelist. Some 10 of the novels are spy tales starring Blackford Oakes, who fights for the American way.
Buckley’s spirit of fun was apparent in his 1965 campaign for mayor of New York on the ticket of the Conservative Party. When asked what he would do if he won, he answered, “Demand a recount.” He got 13.4 percent of the vote.
This article appeared on page A – 2 of the San Francisco Chronicle

CASA BRANCA lamenta o passamento do amigo de longa data da família Bush:

Press Briefing by Dana Perino James S. Brady Press Briefing Room

MS. PERINO: Two statements for you. Today we learned that William F. Buckley has passed away and that has saddened everyone here at the White House. Mr. Buckley was a longtime friend of the Bush family. I informed the President of Mr. Buckley’s death at 11:45 a.m., while the President was in the Oval Office.
In 2005, when President Bush hosted an event in honor of the 50th Anniversary of National Review, he praised Mr. Buckley’s life, saying that “he helps contribute to the realm of ideas for America and helped turn dreams into reality. His work impacted millions of Americans who shared his strong belief in the power of freedom.” And the Buckley family will be in our thoughts and prayers ( … )”

fevereiro 27, 2008

Saída de Fidel é derrota para os EUA, diz vice-presidente do Parlamento do Mercosul

O deputado federal brasileiro Dr. Rosinha (PT), vice-presidente do Parlamento do Mercosul, afirmou nesta quarta-feira (20/2) que a renúncia de Fidel Castro à presidência de Cuba significa uma derrota política para o governo dos Estados Unidos.”Os únicos derrotados [com a saída voluntária de Fidel] são os Estados Unidos, que pretendiam tirá-lo do governo através de golpes ou da sua própria morte” [ N. do Blog: VER ítem 11 do docum. PDF ], afirmou Dr. Rosinha. “No seu tempo, Fidel sai do governo e continua influenciando a história.
“Num texto escrito ontem (19/2), o vice-presidente do Parlamento do Mercosul relata um rápido encontro que teve com Fidel Castro em janeiro de 2003, durante a posse do presidente Lula, em Brasília.
“Para mim, ficou a imagem de um homem simpático e atencioso. Mas Fidel vai além da simpatia pessoal. É um homem carismático, com grande liderança, e que contribuiu para a alteração do curso da história, não só cubana, mas do mundo.”
Fidel foi alvo de uma série de atentados nas últimas cinco décadas, alguns deles comprovadamente preparados por agentes da CIA (Agência Central de Inteligência norte-americana).
O governo dos Estados Unidos mantém livre em seu território, por exemplo, o terrorista Luis Posada Carriles, apontado como um dos responsáveis, entre outros atentados, pela explosão de um avião comercial cubano, em 1976, que causou a morte de 73 pessoas. Carriles vive em liberdade nos EUA apesar de haver um pedido de extradição formulado pela Justiça venezuelana.
Para o deputado Dr. Rosinha, Fidel deixa o governo cubano num momento em que o neoliberalismo é questionado, com a eleição de presidentes comprometidos com mudanças.
“As mudanças implementadas nos últimos anos por tais governos vêm gerando maior capacidade de integração da América Latina”, observa o parlamentar.
“Esse avanço integracionista, tarefa também de Fidel, dá a Cuba melhores condições de inserção no continente.”
Avanços sociais - Desde janeiro de 1959, quando a Revolução Cubana interrompeu os quase sete anos de uma ditadura corrupta e repressiva do então presidente Fulgencio Batista, aliado dos EUA, os indicadores sociais do país deram um salto. De acordo com a ONU, o índice de pobreza de Cuba era, em 2004, o sexto menor entre os nada menos que 102 países em desenvolvimento pesquisados pela entidade. Também conforme a ONU, a mortalidade infantil de Cuba, em 2003, era de 6,2 habitantes a cada 1000 nascimentos. No Brasil, o índice era de 28,6.
Cerca de 98% das residências cubanas têm instalações sanitárias adequadas. Apenas 0,02% da população é analfabeta. A expectativa de vida ao nascer na ilha é de 77,41 anos. No Brasil, a média é de 71,9 anos.
SITE do Dr. Rosinha
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janeiro 27, 2008

The Latin American Evil Axe News – Imprensalão em polvorosa: Censurado no PR, Requião fará palestra em Conferência Internacional realizada em CUBA!!!

Requião faz palestra em Cuba durante reunião com 32 países
AEN/ PR
25/01/2008
O governador Roberto Requião participa em Havana (Cuba) da II Conferencia Internacional “Por el Equilibrio del Mundo”, que será realizada entre segunda-feira (28) e quarta-feira (30) em homenagem aos 155 anos do nascimento do mártir da independência do país José Julián Martí (1853-1895). Estarão presentes intelectuais, cientistas, professores, estudantes, políticos e representantes de 32 países de várias partes do mundo. O tema central da conferência vai girar em torno dos novos desafios da humanidade e, em especial, da América Latina.
“Requião é um amigo de Cuba há muitos anos. Além disso, é uma pessoa de muita experiência em atividades políticas”, justifica o cônsul-geral de Cuba no Brasil, Carlos Trejo Sosa. “Estamos falando de um homem que tem idéias de trabalhos na área público-adminitrativa que envolvem questões fundamentais para o desenvolvimento da América Latina. Por isso, a presença dele é muito importante”, afirmou.
A conferência será presidida por Armando Hart Dávalos, um dos dirigentes históricos da revolução cubana, companheiro de Fidel e Raúl Castro e grande amigo de Che Guevara. Foi Hart quem convidou o governador Requião para participar e ministrar palestra na conferência internacional. O convite foi transmitido pelo cônsul-geral de Cuba no Brasil em setembro do ano passado durante visita oficial ao Estado.
MÁRTIR – O homenageado José Martí foi o grande mártir da Independência de Cuba em relação à Espanha. Além de poeta e pensador fecundo, desde sua mocidade demonstrou sua inquietude cívica e sua simpatia pelas idéias revolucionárias que gestavam entre os cubanos.
Participam do evento entidades e organizações como Unesco; Oganização de Estado Iberoamericanos (OEI) para Educação, Ciência e Cultura; Fundo Cultural de Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba); Sociedade Geral de Autores e Editores da Espanha; Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso); e Conselho Mundial José Martí.
Mais informações sobre a conferência no site www.porelequilibriodelmundo.com.

dezembro 9, 2007

Chávez afirma que deixará o poder ao fim do mandato

Após declarar que aceitou a derrota no referendo, o presidente venezuelano Hugo Chávez deu mais um passo na tentativa de calar os críticos que o chamam de ditador. Chávez declarou que, como a reforma constitucional não foi aprovada pelo povo, ele vai deixar o governo em 2013, quando termina seu atual mandato. O pronunciamento aconteceu nesta quinta-feira (06), em um ato público na cidade de Caracas. Chávez também criticou seus aliados que não votaram no referendo. Muitos integrantes da base de apoio do presidente se abstiveram do processo porque não apoiavam todas as propostas. A mais polêmica propunha que não houvesse mais limite para reeleições. Para Chávez, os abstencionistas colocaram em risco a possibilidade de aprofundar o projeto que ele vem implementando no país, na chamada revolução bolivariana.
O índice de abstenção chegou a 44%. A derrota da reforma constitucional aconteceu por uma pequena diferença de votos. Foram aproximadamente 51% dos votantes contrários a reforma, enquanto 49% foram a favor. Na avaliação de Chávez, a oposição cresceu 800 mil votos neste referendo, enquanto a situação perdeu três milhões de votos com as abstenções.
Radioagência NP
07/12/07
EM DEBATE: Venezuela pós-referendo
Na última segunda-feira (3), o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela anunciou a derrota da reforma constitucional proposta pelo presidente Hugo Chávez. No referendo, cerca de 51% votaram “não”, enquanto 49% optaram pelo ‘sim”.
A reforma propunha a diminuição da jornada de trabalho para seis horas, o fim do latifúndio, do monopólio e da autonomia do Banco Central, a garantia de segurança social a todos os trabalhadores do setor informal, a admissão aberta e universal ao ensino universitário. Também estava previsto a possibilidade de reeleições indefinidas, entre outras.
Desde de 1992, esta foi a primeira derrota que Hugo Chávez sofreu, desde que assumiu o governo do país. O que muda na Venezuela de agora em diante? Para refletir sobre assunto, a Radioagência NP conversou com o professor de economia e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Nildo Ouriques. Radioagência NP: Quais razões o senhor enxerga para a derrota de Chávez?
Nildo Ouriques: Primeiro, o conjunto de modificações que estão sendo propostas na Venezuela configuram uma economia do tipo socialista e o presidente Chávez perdeu 120 mil votos. Uma eleição ultra polarizada. E que não está propondo uma extinção de CPMF. É algo efetivamente sério. Envolve o regime de propriedade, a constituição do estado, o que vai se fazer com o monopólio, com latifúndio, a jornada de trabalho, o estatuto da reeleição, enfim, são medidas que configuram uma radical transformação da sociedade. E portanto vai encontrar os opositores de sempre.
Radioagência NP: O que mais?
NO: Em segundo lugar, ele perde para a abstenção. O abstencionismo foi alto porque as fileiras bolivarianas estavam divididas. Um conjunto de militantes importantes, figuras destacadas, decidiram ou se opor abertamente a reforma ou, simplesmente, para não se opor ao presidente Chávez, se abstiveram. Terceiro, porque o presidente Chávez não aceitou a idéia de votar ponto por ponto da reforma em questão. Certamente 80% destas propostas seriam aprovadas e o entusiasmo nas fileiras bolivarianas seria muito maior.
Radioagência NP: Que mudanças a derrota deve causar no cenário político da Venezuela?NO: Muita gente que votou contra o plebiscito segue apoiando o presidente Chávez, ele tem um grande mandato pela frente. E eu acho também que esta derrota serve para que todos revissem sua tese. O que eu observo é que figuras que gozavam do prestígio e do apoio do presidente Chávez vão perder prestígio. E claro vai ter que recompor as forças, buscar maior grau de consciência, maior coesão social, maior organização na base, maior definição dos interesses estratégicos do governo. A oposição que até esse momento, até esse referendo, era uma oposição disposta ao assassinato do presidente Chávez e ao golpismo, como a história recente demonstra, parece que entendeu que tem que disputar.
Radioagência NP: Qual valor o senhor enxerga no processo venezuelano?
NO: O que está ocorrendo na Venezuela são uma lição de democracia para todos os países latino-americanos. Que ensina para todos nós, como se constrói maiorias convocando o povo, fazendo as transformações e, sobretudo, colocando aquilo que é essencial para a organização do Estado, da economia e das classes sociais sobre o escrutínio popular. E caem por terra completamente a idéia de que está se constituindo na Venezuela uma tirania e que nós estamos diante de o trabalho de um ditador. E daí o constrangimento dos setores das classes dominantes brasileiras, especialmente da grande mídia.
Radioagência NP: E como o senhor avalia a mídia neste processo?
NO: Vejo que é constrangedor ler a imprensa nos últimos dois dias e observar que parece que a democracia está sendo construída na Venezuela agora que o presidente Chávez perdeu o referendo. Mas observem que o referendo, que é uma arma fundamental de qualquer processo que se possa reivindicar democrático, continua sendo feito a exaustão na Venezuela. Observem que estas reformas constitucionais, não só são votadas por um Congresso em que o presidente tem maioria – ele podia tranqüilamente aprová-las – como ele submete estas reformas a um processo de referendo.
Radioagência NP: Mas o processo revolucionário não está muito centrado na figura do Chávez?
NO:O protagonismo do presidente Chávez está apoiado numa gama de movimentos sociais impressionantes, tanto em Caracas, quanto no interior. Estes movimentos sociais não deixaram de crescer, ganhar em complexidade e em presença na vida política, que vão desde os círculos bolivarianos, que são mais visíveis, até as missiones [grupos de agentes populares], mais organizações de sem terra, de sem teto, de estudantes, de professores, de camponeses, de pequenos empresários, há uma ampla organização. Senão, não se explicaria como é que tanto o governo, quanto a oposição, fazem passeatas de 200, 300, 400, 500, um milhão de pessoas com muita freqüência, três, quatro vezes ao ano. Ninguém consegue fazer isso sem organização social.
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