ENCALHE

junho 7, 2009

"O jogo", por Luiz Fernando Veríssimo ( OBS: texto dele, mesmo! )

Filed under: escritores brasileiros, humor, Luiz Fernando Veríssimo — Humberto @ 5:17 am
― Nicou.
― Não nicou.
― Nicou!
― Não nicou!

Atracaram-se. Rolaram pelo chão. Eram vizinhos. Os dois com oito anos. Xingavam-se aos gritos.
― Filho disto!
― Filho daquilo!

As duas mães citadas correram para ver o que estava acontecendo. Separaram os dois, que choravam de dor e de raiva. As mães tiveram que segurar os dois com força e levá-los, cada um para a sua casa. Senão a briga recomeçava.
― Nicou!
― Não nicou!
Nunca mais jogaram bola de gude. Nunca mais brincaram juntos. Quando um deles mudou de casa, botou a cabeça para fora do carro e gritou para o que ficava.
― Nicou!
O outro não teve tempo de responder. Mas fez um gesto expressivo. Nicou aqui, ó!
Reencontraram-se anos depois, por coincidência, no ginásio. Encararam-se, meio sem jeito. Mas não se falaram. No fim do ano, um tinha tirado o primeiro lugar da turma e o outro, o segundo. No ano seguinte, foi o contrário. Disputaram a presidência do grêmio estudantil. Foi uma campanha violenta, com ataques pessoais. Entrou mãe no meio. Houve acusações mútuas de desonestidade no jogo, o que ninguém entendeu. O derrotado fundou um grêmio dissidente. Cada um entrou para um cursinho pré-vestibular. Os cursinhos brigaram, pela imprensa, sobre qual dos dois fizera o melhor vestibular na cidade. Entraram os dois para a Engenharia.
Um casou com a segunda fortuna do país. A notícia saiu em todas as colunas sociais. O outro casou com a terceira fortuna do país. Saiu matéria paga em todas as revistas nacionais. O primeiro edifício construído pelo primeiro se chamava Nico. O segundo construiu um edifício de cinco andares chamado Nonico. Um teve um filho. O outro teve gêmeos. Um foi morar num apartamento de cobertura. O outro comprou a cobertura do lado, um andar mais alto, e mandou colocar uma faixa no lado do prédio, virada para a cobertura do outro. Na faixa havia só uma palavra. Nicou. O outro comprou o edifício ao lado, despejou o vizinho da sua cobertura, destruiu o edifício, ergueu outro em seu lugar, com o gabarito máximo, e foi morar na cobertura. Nos mesmos jornais que anunciavam a inauguração do novo prédio apareceu um misterioso anúncio de página inteira que dizia o seguinte: “Está certo. Mas nicou”.
Quando um construiu um edifício de 36 andares, o outro construiu um de 40. Um anunciou o lançamento do maior empreendimento imobiliário do continente, o Brazilian Golden Palace Tower Suites, edifícios de 80 andares na Rio-Santos com vista para o mar. O outro criticou publicamente a construção de espigões na área e o uso absurdo de nomes em inglês e anunciou a construção, ao lado, de edifícios de 82 andares, Lês Jardins Plein Soleil sur la Mer.
Um construía um edifício, o outro construía dois. Um destruía um marco histórico ou uma casa antiga, o outro destruía um quarteirão. Lideravam grupos sociais rivais. Um organizou a Festa do Pavão Deslumbrado, no Iate. O outro organizou a Noite das Línguas Afiadas para comentar o fracasso da festa do primeiro, no Country. Um fechou o Regine’s com o seu grupo e foi notícia nacional. O outro fechou a Regine na Avenida Atlântica com o seu carro e foi notícia internacional. Um viu-se envolvido na falência fraudulenta do seu grupo imobiliário. Dias depois, o outro também era citado na concordata do seu grupo e fazia questão de dizer que a sua dívida era maior. Ambos foram socorridos pelo Governo. Um comprou um barco com piscina, cinema, sauna e adega climatizada. O outro comprou um avião a jato com cama redonda.
Um decidiu retirar-se da vida empresarial e dedicar-se à arte. O outro também anunciou que renunciava aos grandes negócios e se tornava um patrono da cultura. Para começar, fundou uma revista de crítica de arte.
Um inventou a arte monumental. Seu primeiro trabalho foi um gigantesco obelisco de isopor. (“Simbolizando”, disse a revista do outro, “o que o artista tem na cabeça: absolutamente nada”). A seguir, desapropriou e arrasou uma grande área urbana para erguer uma estranha escultura, grandes bolas pintadas como bolas de gude, sendo que duas das bolas se tocavam. Chamou a escultura de A Grande Nicada. Todo o número seguinte da revista do outro foi dedicado a essa obra insana de uma mente doentia que envergonha a inteligência nacional, além de ser mentirosa. “A Grande Nicada é um embuste!” Houve um grande debate em todo o país sobre a validade ou não e as implicações sociopolíticas da arte monumental a partir de A Grande Nicada, mas o artista recusou-se entrar no debate.
Não responderia aos seus críticos. Convidou autoridades e personalidades para um cruzeiro no seu iate, durante o qual seria inaugurada a sua obra mais recente. Tinha comprado uma ilha no Oceano Atlântico. Na praia colocara uma tabuleta, A Ilha. Com a sua assinatura embaixo.
Todos a bordo do iate comentavam a engenhosidade do artista quando tiveram sua atenção atraída para um avião que sobrevoava a ilha, soltando fumaça branca. Era o avião do outro, que escrevia no céu, de horizonte a horizonte: “Que bobagem!” Mas o outro estava preparado. A uma ordem sua, a cúpula do jardim de inverno do iate abriu-se, revelando a existência de um canhão antiaéreo. O avião do outro foi derrubado. Mas antes de mergulhar no mar, escreveu com fumaça no céu:
“Não nicou.”
O outro, desesperado, afundou o próprio iate. E naufragou junto com os convidados, que não entendiam mais nada, gritando:
“Nicou! Nicou!”

"O jogo", por Luiz Fernando Veríssimo ( OBS: texto dele, mesmo! )

Filed under: escritores brasileiros, humor, Luiz Fernando Veríssimo — Humberto @ 5:17 am
― Nicou.
― Não nicou.
― Nicou!
― Não nicou!

Atracaram-se. Rolaram pelo chão. Eram vizinhos. Os dois com oito anos. Xingavam-se aos gritos.
― Filho disto!
― Filho daquilo!

As duas mães citadas correram para ver o que estava acontecendo. Separaram os dois, que choravam de dor e de raiva. As mães tiveram que segurar os dois com força e levá-los, cada um para a sua casa. Senão a briga recomeçava.
― Nicou!
― Não nicou!
Nunca mais jogaram bola de gude. Nunca mais brincaram juntos. Quando um deles mudou de casa, botou a cabeça para fora do carro e gritou para o que ficava.
― Nicou!
O outro não teve tempo de responder. Mas fez um gesto expressivo. Nicou aqui, ó!
Reencontraram-se anos depois, por coincidência, no ginásio. Encararam-se, meio sem jeito. Mas não se falaram. No fim do ano, um tinha tirado o primeiro lugar da turma e o outro, o segundo. No ano seguinte, foi o contrário. Disputaram a presidência do grêmio estudantil. Foi uma campanha violenta, com ataques pessoais. Entrou mãe no meio. Houve acusações mútuas de desonestidade no jogo, o que ninguém entendeu. O derrotado fundou um grêmio dissidente. Cada um entrou para um cursinho pré-vestibular. Os cursinhos brigaram, pela imprensa, sobre qual dos dois fizera o melhor vestibular na cidade. Entraram os dois para a Engenharia.
Um casou com a segunda fortuna do país. A notícia saiu em todas as colunas sociais. O outro casou com a terceira fortuna do país. Saiu matéria paga em todas as revistas nacionais. O primeiro edifício construído pelo primeiro se chamava Nico. O segundo construiu um edifício de cinco andares chamado Nonico. Um teve um filho. O outro teve gêmeos. Um foi morar num apartamento de cobertura. O outro comprou a cobertura do lado, um andar mais alto, e mandou colocar uma faixa no lado do prédio, virada para a cobertura do outro. Na faixa havia só uma palavra. Nicou. O outro comprou o edifício ao lado, despejou o vizinho da sua cobertura, destruiu o edifício, ergueu outro em seu lugar, com o gabarito máximo, e foi morar na cobertura. Nos mesmos jornais que anunciavam a inauguração do novo prédio apareceu um misterioso anúncio de página inteira que dizia o seguinte: “Está certo. Mas nicou”.
Quando um construiu um edifício de 36 andares, o outro construiu um de 40. Um anunciou o lançamento do maior empreendimento imobiliário do continente, o Brazilian Golden Palace Tower Suites, edifícios de 80 andares na Rio-Santos com vista para o mar. O outro criticou publicamente a construção de espigões na área e o uso absurdo de nomes em inglês e anunciou a construção, ao lado, de edifícios de 82 andares, Lês Jardins Plein Soleil sur la Mer.
Um construía um edifício, o outro construía dois. Um destruía um marco histórico ou uma casa antiga, o outro destruía um quarteirão. Lideravam grupos sociais rivais. Um organizou a Festa do Pavão Deslumbrado, no Iate. O outro organizou a Noite das Línguas Afiadas para comentar o fracasso da festa do primeiro, no Country. Um fechou o Regine’s com o seu grupo e foi notícia nacional. O outro fechou a Regine na Avenida Atlântica com o seu carro e foi notícia internacional. Um viu-se envolvido na falência fraudulenta do seu grupo imobiliário. Dias depois, o outro também era citado na concordata do seu grupo e fazia questão de dizer que a sua dívida era maior. Ambos foram socorridos pelo Governo. Um comprou um barco com piscina, cinema, sauna e adega climatizada. O outro comprou um avião a jato com cama redonda.
Um decidiu retirar-se da vida empresarial e dedicar-se à arte. O outro também anunciou que renunciava aos grandes negócios e se tornava um patrono da cultura. Para começar, fundou uma revista de crítica de arte.
Um inventou a arte monumental. Seu primeiro trabalho foi um gigantesco obelisco de isopor. (“Simbolizando”, disse a revista do outro, “o que o artista tem na cabeça: absolutamente nada”). A seguir, desapropriou e arrasou uma grande área urbana para erguer uma estranha escultura, grandes bolas pintadas como bolas de gude, sendo que duas das bolas se tocavam. Chamou a escultura de A Grande Nicada. Todo o número seguinte da revista do outro foi dedicado a essa obra insana de uma mente doentia que envergonha a inteligência nacional, além de ser mentirosa. “A Grande Nicada é um embuste!” Houve um grande debate em todo o país sobre a validade ou não e as implicações sociopolíticas da arte monumental a partir de A Grande Nicada, mas o artista recusou-se entrar no debate.
Não responderia aos seus críticos. Convidou autoridades e personalidades para um cruzeiro no seu iate, durante o qual seria inaugurada a sua obra mais recente. Tinha comprado uma ilha no Oceano Atlântico. Na praia colocara uma tabuleta, A Ilha. Com a sua assinatura embaixo.
Todos a bordo do iate comentavam a engenhosidade do artista quando tiveram sua atenção atraída para um avião que sobrevoava a ilha, soltando fumaça branca. Era o avião do outro, que escrevia no céu, de horizonte a horizonte: “Que bobagem!” Mas o outro estava preparado. A uma ordem sua, a cúpula do jardim de inverno do iate abriu-se, revelando a existência de um canhão antiaéreo. O avião do outro foi derrubado. Mas antes de mergulhar no mar, escreveu com fumaça no céu:
“Não nicou.”
O outro, desesperado, afundou o próprio iate. E naufragou junto com os convidados, que não entendiam mais nada, gritando:
“Nicou! Nicou!”

outubro 1, 2008

HERÓI. MORTO. NÓS. [ Homenagem a Lourenço Diaféria ]

Filed under: crônicas, escritores brasileiros, Lourenço Diaféria — Humberto @ 12:50 am
HERÓI. MORTO. NÓS.
Crônica publicada em 1º de setembro de 1977
( Neste texto foi mantida a grafia original da época )

Lourenço Diaféria

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.
Que nome devo dar a esse homem?
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói – como o santo – é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.
O herói redime a humanidade à deriva.
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.
Está morto.
Um belíssimo sargento morto.
E todavia.
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.
O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel – onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer – oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.
No instante em que o sargento – apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher – salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.
Esse sargento não é do grupo do cambalacho.
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.
É apenas um homem que – como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem – não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis – tarde demais.
Lourenço Carlos Diaferia
São Paulo, 28 de agosto de 1933 — São Paulo, 16 de setembro de 2008
MAIS:
Lourenço Diaféria, cronista e jornalista, morre aos 75 anos em São Paulo

HERÓI. MORTO. NÓS. [ Homenagem a Lourenço Diaféria ]

Filed under: crônicas, escritores brasileiros, Lourenço Diaféria — Humberto @ 12:50 am
HERÓI. MORTO. NÓS.
Crônica publicada em 1º de setembro de 1977
( Neste texto foi mantida a grafia original da época )

Lourenço Diaféria

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.
Que nome devo dar a esse homem?
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói – como o santo – é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.
O herói redime a humanidade à deriva.
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.
Está morto.
Um belíssimo sargento morto.
E todavia.
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.
O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel – onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer – oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.
No instante em que o sargento – apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher – salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.
Esse sargento não é do grupo do cambalacho.
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.
É apenas um homem que – como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem – não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis – tarde demais.
Lourenço Carlos Diaferia
São Paulo, 28 de agosto de 1933 — São Paulo, 16 de setembro de 2008
MAIS:
Lourenço Diaféria, cronista e jornalista, morre aos 75 anos em São Paulo

HERÓI. MORTO. NÓS. [ Homenagem a Lourenço Diaféria ]

Filed under: crônicas, escritores brasileiros, Lourenço Diaféria — Humberto @ 12:50 am
HERÓI. MORTO. NÓS.
Crônica publicada em 1º de setembro de 1977
( Neste texto foi mantida a grafia original da época )

Lourenço Diaféria

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.
Que nome devo dar a esse homem?
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói – como o santo – é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.
O herói redime a humanidade à deriva.
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.
Está morto.
Um belíssimo sargento morto.
E todavia.
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.
O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel – onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer – oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.
No instante em que o sargento – apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher – salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.
Esse sargento não é do grupo do cambalacho.
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.
É apenas um homem que – como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem – não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis – tarde demais.
Lourenço Carlos Diaferia
São Paulo, 28 de agosto de 1933 — São Paulo, 16 de setembro de 2008
MAIS:
Lourenço Diaféria, cronista e jornalista, morre aos 75 anos em São Paulo

HERÓI. MORTO. NÓS. [ Homenagem a Lourenço Diaféria ]

Filed under: crônicas, escritores brasileiros, Lourenço Diaféria — Humberto @ 12:50 am
HERÓI. MORTO. NÓS.
Crônica publicada em 1º de setembro de 1977
( Neste texto foi mantida a grafia original da época )

Lourenço Diaféria

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.
Que nome devo dar a esse homem?
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói – como o santo – é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.
O herói redime a humanidade à deriva.
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.
Está morto.
Um belíssimo sargento morto.
E todavia.
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.
O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel – onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer – oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.
No instante em que o sargento – apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher – salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.
Esse sargento não é do grupo do cambalacho.
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.
É apenas um homem que – como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem – não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis – tarde demais.
Lourenço Carlos Diaferia
São Paulo, 28 de agosto de 1933 — São Paulo, 16 de setembro de 2008
MAIS:
Lourenço Diaféria, cronista e jornalista, morre aos 75 anos em São Paulo

HERÓI. MORTO. NÓS. [ Homenagem a Lourenço Diaféria ]

Filed under: crônicas, escritores brasileiros, Lourenço Diaféria — Humberto @ 12:50 am
HERÓI. MORTO. NÓS.
Crônica publicada em 1º de setembro de 1977
( Neste texto foi mantida a grafia original da época )

Lourenço Diaféria

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.
Que nome devo dar a esse homem?
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói – como o santo – é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.
O herói redime a humanidade à deriva.
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.
Está morto.
Um belíssimo sargento morto.
E todavia.
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.
O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel – onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer – oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.
No instante em que o sargento – apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher – salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.
Esse sargento não é do grupo do cambalacho.
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.
É apenas um homem que – como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem – não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis – tarde demais.
Lourenço Carlos Diaferia
São Paulo, 28 de agosto de 1933 — São Paulo, 16 de setembro de 2008
MAIS:
Lourenço Diaféria, cronista e jornalista, morre aos 75 anos em São Paulo

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