Essa aqui merece ser emoldurada. Vejam que o ex-prefeito de Bogotá faz suas considerações sem deixar de fora outros aspectos do cotidiano dos moradores das cidades, como o “convívio” nos shopping centers, a ocupação dos espaços, ou a qualidade das calçadas. Didaticamente, ele mostra aquilo que é muito óbvio, e destaco uma idéia: ao construír novas vias, ou túneis e fazer reformas [ cosméticos, na verdade ] , o administrador apenas faz as coisas melhorarem por um tempo, mas depois aqueles locais “chamam” as pessoas, que passam a ocupar ali também, com seus carros. Quanto aos ricos daqui passarem a utilizar o transporte público, não vejo ser possível mas, da mesma forma com a escola pública, seria ótimo que a classe-média passasse a frequentá-lo voluntária e efetivamente, forçando os governos a investir e dedicar esforços de verdade e cada vez mais. Mas, a realidade sombria: enquanto nos EUA a venda de utilitários tipo SUV decaía, adivinhem quem estava adquirindo-os, orgulhosamente: “Caminhão é transporte coletivo” , Candido Malta [ ler até o final ].
Numa cidade avançada, ricos usam o transporte público”
Folha de S.Paulo
08/12/2008
08/12/2008
Para ex-prefeito de Bogotá, é preciso restringir o uso dos carros para melhorar trânsito
A única forma de reduzir os congestionamentos é restringir o uso do carro. Para Enrique Peñalosa, prefeito de Bogotá de 1998 a 2001 e responsável por iniciar a implantação do Transmilênio, sistema de ônibus rápido, nenhum transporte público resolve o problema do trânsito se os carros não forem retirados das ruas. Em São Paulo para o Urban Age, conferência internacional sobre urbanismo que acabou ontem, Penãlosa, que hoje atua como consultor, falou à Folha sobre a importância de uma boa calçada e de um transporte público eficiente e disse que a cadeira de rodas é a melhor máquina de planejamento urbano. (MARIANA BARROS)
FOLHA – O que faz uma boa cidade?
FOLHA – O que faz uma boa cidade?
ENRIQUE PEÑALOSA – Jan Gehl [urbanista dinamarquês que defende que as cidades priorizem ciclistas e pedestres] diz que é aquela em que os moradores têm vontade de sair de casa, estar nas ruas -não no shopping. Uma cidade tem de ser boa para as pessoas mais vulneráveis: crianças, cadeirantes, idosos, pobres, ciclistas. Transporte não faz ninguém feliz, é apenas necessário, como água potável. Mas se há um parque, isso faz as pessoas felizes. O desafio é criar a cidade para as pessoas, e não para os carros.
FOLHA – Que coisas melhoram a vida urbana?
FOLHA – Que coisas melhoram a vida urbana?
PEÑALOSA – Os parques são algo necessário ou um luxo? Acho que as pessoas precisam, sim, de um espaço desses, não para sobreviver, mas para serem mais felizes. Todos em São Paulo jogam bola. Por que não há campos ou quadras públicas?
FOLHA – O que caracteriza uma cidade avançada?
FOLHA – O que caracteriza uma cidade avançada?
PEÑALOSA – Temos uma idéia de que progresso é ter mais pessoas usando carros, mas nas cidades mais avançadas do mundo, como Zurique, na Suíça, ou Tóquio, no Japão, as pessoas quase não usam automóvel. Uma cidade verdadeiramente avançada é aquela em que os ricos usam transporte público, caminham e vão a parques. O contrário disso é quando os ricos usam helicópteros, vão a clubes fechados, a shoppings, moram em condomínios.
Avanço é o que acontece no Central Park, em NY, onde 50 bilionários andam ao lado de pessoas que nem sabem onde vão dormir naquela noite.
FOLHA – Como fazer isso?
FOLHA – Como fazer isso?
PEÑALOSA – Precisamos de segurança, diminuir a criminalidade. Agora, para fazer com que as pessoas usem transporte público é preciso restringir o uso de carros. Muita gente em SP tem carro, mas usa metrô. Não é porque adoram o metrô, mas porque é mais rápido, não precisa estacionar. De um lado, é preciso melhorar o transporte público; de outro, é preciso restringir o uso de automóveis. Há varias maneiras de se fazer isso. O rodízio é uma delas.
Nenhum transporte público do mundo acaba com os congestionamentos. A única maneira é restringir o uso de carros.
Tem de haver restrições a estacionamentos, sobretudo nas ruas. Outra forma é criar uma taxa, como em Londres, ou rodízio, como em SP e Bogotá.
FOLHA – Deve-se combater o carro?
FOLHA – Deve-se combater o carro?
PEÑALOSA – Não estou falando de restringir a compra, de colocar taxas na compra. É bom que as pessoas tenham carro, para poderem viajar, sair à noite.
Elas só não devem usá-lo nas horas de pico. Vamos cobrar pelo uso, não pela aquisição. Ou cobrar mais caro pelo combustível. Gasolina no Brasil deveria custar três vezes mais, e o dinheiro arrecadado deve ser investido em transporte.
FOLHA – É preciso optar entre carros ou pessoa? [OBS: essa pergunta foi didática ou completamente estúpida, como eu acho que foi? ]
FOLHA – É preciso optar entre carros ou pessoa? [OBS: essa pergunta foi didática ou completamente estúpida, como eu acho que foi? ]
PEÑALOSA – É possível medir a democracia analisando como o espaço público é distribuído entre pedestres, ciclistas, ônibus e carros. Quanto mais tender para os primeiros, mais democrática será. É uma questão política, não há nada técnico nisso. Se houver mais espaço para carros, haverá mais carros; menos espaço, menos carros.
As cidades ricas, há 15 anos, decidiram não fazer mais vias para melhorar o trânsito.
FOLHA – A piora é porque a população está crescendo? [ OBS: repito a pergunta feita acima ]
FOLHA – A piora é porque a população está crescendo? [ OBS: repito a pergunta feita acima ]
PEÑALOSA – Não. Pode parecer que fazer mais estradas melhora o trânsito, mas isso não é verdade. Você conhece uma única cidade do mundo que tenha resolvido o problema do trânsito fazendo vias maiores? Não há.
Nos EUA, apesar das estradas gigantescas, o trânsito piora a cada ano. O que gera o trânsito é o número de viagens que cada automóvel faz e as distâncias que percorrem. Construir túneis e viadutos só faz com que os carros vão mais longe e façam mais viagens [ OBS: ou seja, "convida" as pessoas - que tenham a tendência a fazer isso - a aproveitarem as novas vias e passar a incluí-las em seu percurso automobilístico; em resumo, o efeito oposto daquele desejado ].
Nos primeiros anos, isso alivia o trânsito, como já ocorreu em SP. Depois piora de novo.
FOLHA – É uma questão cultural?
FOLHA – É uma questão cultural?
PEÑALOSA – Sim. A classe média, que tem carro, só quer mais espaço para os carros. Vão do estacionamento do prédio ao estacionamento do escritório, ao estacionamento do shopping, ao estacionamento do clube e podem passar meses sem andar em um quarteirão. A única coisa que querem do governo é polícia e rodovias. Querem metrô não para usar, mas porque querem que os ônibus vão para o subsolo. Não querem que o ônibus tire o espaço dos carros [ OBS: "NA MOSCA!!" ].
FOLHA – É melhor investir em ônibus ou em metrô?
FOLHA – É melhor investir em ônibus ou em metrô?
PEÑALOSA – Em SP, há três vezes mais gente usando ônibus do que metrô; é muito mais prático e barato. Londres, para 10 milhões de habitantes, tem 1.850 km de metrô. Proporcionalmente, SP, que tem 20 milhões, teria de ter 3.700 km de metrô [Grande SP tem hoje 322 km de transporte urbano sobre trilhos]. Ainda assim, Londres desloca 1 milhão a mais de pessoas em ônibus do que em metrô. Mesmo com metrô, é preciso um bom sistema de ônibus.
A linha amarela que está sendo construída custa mais de US$ 150 milhões por km. Cada passageiro custa US$ 1,50. O Transmilênio custa US$ 10 milhões por km e cada passageiro, US$ 0,50. Leva 45 mil passageiros por hora por direção. Não estou dizendo que é melhor ou pior, mas é bom o suficiente.
FOLHA – E as calçadas?
FOLHA – E as calçadas?
PEÑALOSA – Calçadas são parte do sistema de transporte, porque a jornada começa quando saímos de casa. Uma calçada boa é símbolo de que o cidadão que caminha tem o mesmo valor de outro que tem um carro de US$ 30 mil. É símbolo de democracia. O que diferencia uma cidade boa de uma ruim é a qualidade das calçadas.
As de SP estão muito melhores agora do que há dez anos, principalmente nas áreas mais centrais. Se eu pudesse, amarrava o secretário de Planejamento numa cadeira de rodas e diria: vá andar pela sua cidade.
Uma cadeira de rodas é a máquina do planejamento urbano.
FOLHA – Como o sr. avalia o programa Cidade Limpa? [ OBS: o que isso tem a ver com o trânsito? Só faltou a reportagem dar um jeito de perguntar ao ex-prefeito se o crescimento econômico, ao permitir que a população possa comprar mais carros, pode ser apontado como um dos vilões e, com isso, mostrar a implicação do crescimento do País sob Lula, na questão dos congestionamentos. Assim, sobraria elogios a Kassab/ Serra e críticas a Lula ]
FOLHA – Como o sr. avalia o programa Cidade Limpa? [ OBS: o que isso tem a ver com o trânsito? Só faltou a reportagem dar um jeito de perguntar ao ex-prefeito se o crescimento econômico, ao permitir que a população possa comprar mais carros, pode ser apontado como um dos vilões e, com isso, mostrar a implicação do crescimento do País sob Lula, na questão dos congestionamentos. Assim, sobraria elogios a Kassab/ Serra e críticas a Lula ]
PEÑALOSA – É um exemplo para o mundo. É o que de mais importante se passou em SP nos últimos dez anos.

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