ENCALHE

outubro 9, 2008

Higuera, Bolívia: Bolivianos celebram 41 aniversário da execução de Che Guevara; cidade passará a contar, finalmente, com energia elétrica

Adital -
08.10.08
A pequena localidade boliviana da Higuera será cenário hoje (08) das comemorações centrais pelo 41 aniversário da execução do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ocorrido em 8 de outubro de 1967. O povoado onde caiu o lendário combatente receberá organizações bolivianas e representantes da colaboração cubana e venezuelana neste país andino.
Segundo notícia de Prensa Latina, a jornada servirá para que vários médicos da Ilha exponham teses de mestrados, enquanto representantes destacados nos projetos de cooperação na saúde, a alfabetização e a revolução energética serão estimuladas.
Contudo, a maior atenção se centrará no acontecimento que viverá os habitantes da Higuera com a chegada de energia elétrica pela primeira vez em sua historia.
Na véspera, o mausoléu de Che no município de Vallegrande serviu de sede para a cerimônia de declaração de Santa Cruz como segundo departamento boliviano livre do analfabetismo.
Os oradores, entre eles o presidente Evo Morales, ressaltaram que a entrega dessa distinção ao território de Santa Cruz constituía uma homenagem ao mítico lutador. Como conclusão do dia, Morales e o embaixador de Cuba em La Paz, Rafael Dausá, depositaram uma oferenda de flores em honra a Guevara, um símbolo mundial na batalha pelas causas justas.
Por outro lado, na cidade de El Alto, perto de La Paz, também se recordará a data com um ato diante a uma estátua monumental do conhecido internacionalmente como o Guerrilheiro Heróico. Organizadores da festa anunciaram que na mesma participarão senadores e deputados, além de agrupações populares e cooperadores cubanos.
A noticia e da ABI
E MAIS:
Sob o céu de La Higuera
Daniel Cassol, nov/07
Escorada pelo braço, na janela da casa de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me pagam 20 pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro, mês que traz o maior número de estrangeiros para La Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município de Pucará, departamento de Santa Cruz de la Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara morria para transformar a vida dos seus 76 habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia
2,5 mil metros de altitude, a vida é um esforço. Ao largo das estradas estreitas, as roças de milho se acomodam em meio aos penhascos, para o bem das poucas vacas, que ali se contentam em mascar a terra. O mítico homem morto nesta região, em 9 de outubro de 1967, teria dito à professora da escolinha que lhe dava comida que o objetivo da guerrilha era melhorar a vida daquela gente. De certo modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene pessoal de Che Guevara, em La Higuera, seu leito de morte, ele é mais do que um santo ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é uma necessidade de sobrevivência para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram Che. Hoje, é diretor do Museu de La Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos um Che presente e espiritual”, ele diz, a uma pequena platéia de militantes políticos brasileiros. Embora a presença de estrangeiros movimente a precária economia da cidade, que consiste em dois armazéns e algumas pessoas dispostas a contar histórias para turistas, René relativiza a tese: “O turismo não rende muito, porque é mais ideológico do que econômico. As pessoas sempre vêm sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade fala mais alto. Ela corre na porteira para convidar os que chegam a descer ao ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta uma história confusa, sobre uma cabra que teria vendido aos barbudos e de um conselho do Che: “Dizia para não termos medo deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada indica o nome do local onde vive: Quebrada del Churo. Com a ajuda que recebe dos visitantes, planeja erigir uma placa de madeira para que os turistas não passem reto por ali. De uma forma sincera, manifesta sua devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando não tenho nada, rezo para o Che e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais moradores da região, diz, dedicam-se a viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande apresenta também uma certa indiferença em relação ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento das camponesas, que carregam seus filhos em coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis dos turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”, resume José Peña, motorista, que mantém um comércio com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32 anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, depois enterrado em local desconhecido, até ser encontrado por pesquisadores cubanos numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997. Contam os moradores que a população formou filas por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças que perduram até hoje, para seu José, na cabeça de gente fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois de Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária de escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe gente boa, existe gente má”, resolve a questão. Ela contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito, com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça. Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com quem chega, sentada ao lado do marido em frente ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
Milagreiro e carrasco
De crença e fé vive o único brasileiro morador de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva, 36 anos, pernambucano de Recife, é missionário da Assembléia de Deus e há dez anos dedica a vida a ganhar almas para a igreja na Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de uma filha, Moisés não é exatamente um admirador de Che Guevara. “Não concordo com a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”, diz. Personagem sui generis desta história, Moisés mistura palavras em castelhano no seu sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido comentários de curas atribuídas a Che Guevara, ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui tem é uma indignação contra esse cara aí. Ele matou um punhado de bolivianos”.
Pobres e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade de pequenos agricultores, beneficiados por uma reforma agrária realizada na década de 1950, um dos fatores que levaram a guerrilha do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha, porque aqui todos têm a sua parcela de terra, e não havia necessidade de reforma agrária”, explica com simplicidade o motorista José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém conservador, que repete como um mantra as pregações ideológicas vindas de Santa Cruz de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores admirações pelo personagem que colocou a cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é uma parte importante, mas não é tudo”, diz o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática Nacional (ADN), no seu quarto mandato, não consecutivo.
É domingo e ele recebe os camponeses em seu gabinete. Um casal está aflito porque o terreno em que vivem teria sido vendido, com autorização do prefeito. Ele puxa o telefone, fala com alguém e resolve a questão. O casal sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos para receber a minha gente que vem à cidade”, explica.
Reclamando mais recursos e autonomia para os estados e municípios bolivianos, Rojas retira importância do turismo gerado em torno do seu visitante mais famoso, aposta no fortalecimento da fruticultura, mas revela que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
Promessa cumprida
Quarenta anos depois de morrer, Ernesto Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à professora da escolinha de La Higuera. Para além de levar levas de estrangeiros todo ano a Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma tentativa de ocupação da região pela solidariedade entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco e se chamam embaixadores da Alternativa Bolivariana para as Américas. Só médicos cubanos são 1,8 mil na Bolívia, dois deles trabalhando em La Higuera, com a ajuda de um cavalo que os leva às moradas mais distantes do centro hospitalar inaugurado em 14 de junho do ano passado, data do aniversário do Che. Ali, funcionam também a escola e o programa de alfabetização para adultos, baseados no método de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que já formou a primeira turma. “Era um compromisso do Che trazer assistência médica e educação gratuitas”, diz a médica cubana Adis Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano ouve falar em revolução. A vida, porém, segue a mesma peleia cotidiana, só restando a fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter vivido sua hora definitiva sobre os céus de La Higuera.

Higuera, Bolívia: Bolivianos celebram 41 aniversário da execução de Che Guevara; cidade passará a contar, finalmente, com energia elétrica

Adital -
08.10.08
A pequena localidade boliviana da Higuera será cenário hoje (08) das comemorações centrais pelo 41 aniversário da execução do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ocorrido em 8 de outubro de 1967. O povoado onde caiu o lendário combatente receberá organizações bolivianas e representantes da colaboração cubana e venezuelana neste país andino.
Segundo notícia de Prensa Latina, a jornada servirá para que vários médicos da Ilha exponham teses de mestrados, enquanto representantes destacados nos projetos de cooperação na saúde, a alfabetização e a revolução energética serão estimuladas.
Contudo, a maior atenção se centrará no acontecimento que viverá os habitantes da Higuera com a chegada de energia elétrica pela primeira vez em sua historia.
Na véspera, o mausoléu de Che no município de Vallegrande serviu de sede para a cerimônia de declaração de Santa Cruz como segundo departamento boliviano livre do analfabetismo.
Os oradores, entre eles o presidente Evo Morales, ressaltaram que a entrega dessa distinção ao território de Santa Cruz constituía uma homenagem ao mítico lutador. Como conclusão do dia, Morales e o embaixador de Cuba em La Paz, Rafael Dausá, depositaram uma oferenda de flores em honra a Guevara, um símbolo mundial na batalha pelas causas justas.
Por outro lado, na cidade de El Alto, perto de La Paz, também se recordará a data com um ato diante a uma estátua monumental do conhecido internacionalmente como o Guerrilheiro Heróico. Organizadores da festa anunciaram que na mesma participarão senadores e deputados, além de agrupações populares e cooperadores cubanos.
A noticia e da ABI
E MAIS:
Sob o céu de La Higuera
Daniel Cassol, nov/07
Escorada pelo braço, na janela da casa de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me pagam 20 pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro, mês que traz o maior número de estrangeiros para La Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município de Pucará, departamento de Santa Cruz de la Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara morria para transformar a vida dos seus 76 habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia
2,5 mil metros de altitude, a vida é um esforço. Ao largo das estradas estreitas, as roças de milho se acomodam em meio aos penhascos, para o bem das poucas vacas, que ali se contentam em mascar a terra. O mítico homem morto nesta região, em 9 de outubro de 1967, teria dito à professora da escolinha que lhe dava comida que o objetivo da guerrilha era melhorar a vida daquela gente. De certo modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene pessoal de Che Guevara, em La Higuera, seu leito de morte, ele é mais do que um santo ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é uma necessidade de sobrevivência para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram Che. Hoje, é diretor do Museu de La Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos um Che presente e espiritual”, ele diz, a uma pequena platéia de militantes políticos brasileiros. Embora a presença de estrangeiros movimente a precária economia da cidade, que consiste em dois armazéns e algumas pessoas dispostas a contar histórias para turistas, René relativiza a tese: “O turismo não rende muito, porque é mais ideológico do que econômico. As pessoas sempre vêm sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade fala mais alto. Ela corre na porteira para convidar os que chegam a descer ao ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta uma história confusa, sobre uma cabra que teria vendido aos barbudos e de um conselho do Che: “Dizia para não termos medo deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada indica o nome do local onde vive: Quebrada del Churo. Com a ajuda que recebe dos visitantes, planeja erigir uma placa de madeira para que os turistas não passem reto por ali. De uma forma sincera, manifesta sua devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando não tenho nada, rezo para o Che e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais moradores da região, diz, dedicam-se a viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande apresenta também uma certa indiferença em relação ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento das camponesas, que carregam seus filhos em coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis dos turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”, resume José Peña, motorista, que mantém um comércio com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32 anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, depois enterrado em local desconhecido, até ser encontrado por pesquisadores cubanos numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997. Contam os moradores que a população formou filas por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças que perduram até hoje, para seu José, na cabeça de gente fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois de Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária de escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe gente boa, existe gente má”, resolve a questão. Ela contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito, com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça. Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com quem chega, sentada ao lado do marido em frente ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
Milagreiro e carrasco
De crença e fé vive o único brasileiro morador de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva, 36 anos, pernambucano de Recife, é missionário da Assembléia de Deus e há dez anos dedica a vida a ganhar almas para a igreja na Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de uma filha, Moisés não é exatamente um admirador de Che Guevara. “Não concordo com a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”, diz. Personagem sui generis desta história, Moisés mistura palavras em castelhano no seu sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido comentários de curas atribuídas a Che Guevara, ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui tem é uma indignação contra esse cara aí. Ele matou um punhado de bolivianos”.
Pobres e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade de pequenos agricultores, beneficiados por uma reforma agrária realizada na década de 1950, um dos fatores que levaram a guerrilha do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha, porque aqui todos têm a sua parcela de terra, e não havia necessidade de reforma agrária”, explica com simplicidade o motorista José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém conservador, que repete como um mantra as pregações ideológicas vindas de Santa Cruz de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores admirações pelo personagem que colocou a cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é uma parte importante, mas não é tudo”, diz o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática Nacional (ADN), no seu quarto mandato, não consecutivo.
É domingo e ele recebe os camponeses em seu gabinete. Um casal está aflito porque o terreno em que vivem teria sido vendido, com autorização do prefeito. Ele puxa o telefone, fala com alguém e resolve a questão. O casal sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos para receber a minha gente que vem à cidade”, explica.
Reclamando mais recursos e autonomia para os estados e municípios bolivianos, Rojas retira importância do turismo gerado em torno do seu visitante mais famoso, aposta no fortalecimento da fruticultura, mas revela que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
Promessa cumprida
Quarenta anos depois de morrer, Ernesto Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à professora da escolinha de La Higuera. Para além de levar levas de estrangeiros todo ano a Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma tentativa de ocupação da região pela solidariedade entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco e se chamam embaixadores da Alternativa Bolivariana para as Américas. Só médicos cubanos são 1,8 mil na Bolívia, dois deles trabalhando em La Higuera, com a ajuda de um cavalo que os leva às moradas mais distantes do centro hospitalar inaugurado em 14 de junho do ano passado, data do aniversário do Che. Ali, funcionam também a escola e o programa de alfabetização para adultos, baseados no método de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que já formou a primeira turma. “Era um compromisso do Che trazer assistência médica e educação gratuitas”, diz a médica cubana Adis Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano ouve falar em revolução. A vida, porém, segue a mesma peleia cotidiana, só restando a fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter vivido sua hora definitiva sobre os céus de La Higuera.

Higuera, Bolívia: Bolivianos celebram 41 aniversário da execução de Che Guevara; cidade passará a contar, finalmente, com energia elétrica

Adital -
08.10.08
A pequena localidade boliviana da Higuera será cenário hoje (08) das comemorações centrais pelo 41 aniversário da execução do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ocorrido em 8 de outubro de 1967. O povoado onde caiu o lendário combatente receberá organizações bolivianas e representantes da colaboração cubana e venezuelana neste país andino.
Segundo notícia de Prensa Latina, a jornada servirá para que vários médicos da Ilha exponham teses de mestrados, enquanto representantes destacados nos projetos de cooperação na saúde, a alfabetização e a revolução energética serão estimuladas.
Contudo, a maior atenção se centrará no acontecimento que viverá os habitantes da Higuera com a chegada de energia elétrica pela primeira vez em sua historia.
Na véspera, o mausoléu de Che no município de Vallegrande serviu de sede para a cerimônia de declaração de Santa Cruz como segundo departamento boliviano livre do analfabetismo.
Os oradores, entre eles o presidente Evo Morales, ressaltaram que a entrega dessa distinção ao território de Santa Cruz constituía uma homenagem ao mítico lutador. Como conclusão do dia, Morales e o embaixador de Cuba em La Paz, Rafael Dausá, depositaram uma oferenda de flores em honra a Guevara, um símbolo mundial na batalha pelas causas justas.
Por outro lado, na cidade de El Alto, perto de La Paz, também se recordará a data com um ato diante a uma estátua monumental do conhecido internacionalmente como o Guerrilheiro Heróico. Organizadores da festa anunciaram que na mesma participarão senadores e deputados, além de agrupações populares e cooperadores cubanos.
A noticia e da ABI
E MAIS:
Sob o céu de La Higuera
Daniel Cassol, nov/07
Escorada pelo braço, na janela da casa de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me pagam 20 pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro, mês que traz o maior número de estrangeiros para La Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município de Pucará, departamento de Santa Cruz de la Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara morria para transformar a vida dos seus 76 habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia
2,5 mil metros de altitude, a vida é um esforço. Ao largo das estradas estreitas, as roças de milho se acomodam em meio aos penhascos, para o bem das poucas vacas, que ali se contentam em mascar a terra. O mítico homem morto nesta região, em 9 de outubro de 1967, teria dito à professora da escolinha que lhe dava comida que o objetivo da guerrilha era melhorar a vida daquela gente. De certo modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene pessoal de Che Guevara, em La Higuera, seu leito de morte, ele é mais do que um santo ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é uma necessidade de sobrevivência para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram Che. Hoje, é diretor do Museu de La Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos um Che presente e espiritual”, ele diz, a uma pequena platéia de militantes políticos brasileiros. Embora a presença de estrangeiros movimente a precária economia da cidade, que consiste em dois armazéns e algumas pessoas dispostas a contar histórias para turistas, René relativiza a tese: “O turismo não rende muito, porque é mais ideológico do que econômico. As pessoas sempre vêm sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade fala mais alto. Ela corre na porteira para convidar os que chegam a descer ao ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta uma história confusa, sobre uma cabra que teria vendido aos barbudos e de um conselho do Che: “Dizia para não termos medo deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada indica o nome do local onde vive: Quebrada del Churo. Com a ajuda que recebe dos visitantes, planeja erigir uma placa de madeira para que os turistas não passem reto por ali. De uma forma sincera, manifesta sua devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando não tenho nada, rezo para o Che e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais moradores da região, diz, dedicam-se a viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande apresenta também uma certa indiferença em relação ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento das camponesas, que carregam seus filhos em coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis dos turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”, resume José Peña, motorista, que mantém um comércio com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32 anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, depois enterrado em local desconhecido, até ser encontrado por pesquisadores cubanos numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997. Contam os moradores que a população formou filas por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças que perduram até hoje, para seu José, na cabeça de gente fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois de Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária de escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe gente boa, existe gente má”, resolve a questão. Ela contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito, com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça. Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com quem chega, sentada ao lado do marido em frente ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
Milagreiro e carrasco
De crença e fé vive o único brasileiro morador de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva, 36 anos, pernambucano de Recife, é missionário da Assembléia de Deus e há dez anos dedica a vida a ganhar almas para a igreja na Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de uma filha, Moisés não é exatamente um admirador de Che Guevara. “Não concordo com a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”, diz. Personagem sui generis desta história, Moisés mistura palavras em castelhano no seu sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido comentários de curas atribuídas a Che Guevara, ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui tem é uma indignação contra esse cara aí. Ele matou um punhado de bolivianos”.
Pobres e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade de pequenos agricultores, beneficiados por uma reforma agrária realizada na década de 1950, um dos fatores que levaram a guerrilha do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha, porque aqui todos têm a sua parcela de terra, e não havia necessidade de reforma agrária”, explica com simplicidade o motorista José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém conservador, que repete como um mantra as pregações ideológicas vindas de Santa Cruz de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores admirações pelo personagem que colocou a cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é uma parte importante, mas não é tudo”, diz o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática Nacional (ADN), no seu quarto mandato, não consecutivo.
É domingo e ele recebe os camponeses em seu gabinete. Um casal está aflito porque o terreno em que vivem teria sido vendido, com autorização do prefeito. Ele puxa o telefone, fala com alguém e resolve a questão. O casal sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos para receber a minha gente que vem à cidade”, explica.
Reclamando mais recursos e autonomia para os estados e municípios bolivianos, Rojas retira importância do turismo gerado em torno do seu visitante mais famoso, aposta no fortalecimento da fruticultura, mas revela que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
Promessa cumprida
Quarenta anos depois de morrer, Ernesto Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à professora da escolinha de La Higuera. Para além de levar levas de estrangeiros todo ano a Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma tentativa de ocupação da região pela solidariedade entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco e se chamam embaixadores da Alternativa Bolivariana para as Américas. Só médicos cubanos são 1,8 mil na Bolívia, dois deles trabalhando em La Higuera, com a ajuda de um cavalo que os leva às moradas mais distantes do centro hospitalar inaugurado em 14 de junho do ano passado, data do aniversário do Che. Ali, funcionam também a escola e o programa de alfabetização para adultos, baseados no método de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que já formou a primeira turma. “Era um compromisso do Che trazer assistência médica e educação gratuitas”, diz a médica cubana Adis Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano ouve falar em revolução. A vida, porém, segue a mesma peleia cotidiana, só restando a fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter vivido sua hora definitiva sobre os céus de La Higuera.

Higuera, Bolívia: Bolivianos celebram 41 aniversário da execução de Che Guevara; cidade passará a contar, finalmente, com energia elétrica

Adital -
08.10.08
A pequena localidade boliviana da Higuera será cenário hoje (08) das comemorações centrais pelo 41 aniversário da execução do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ocorrido em 8 de outubro de 1967. O povoado onde caiu o lendário combatente receberá organizações bolivianas e representantes da colaboração cubana e venezuelana neste país andino.
Segundo notícia de Prensa Latina, a jornada servirá para que vários médicos da Ilha exponham teses de mestrados, enquanto representantes destacados nos projetos de cooperação na saúde, a alfabetização e a revolução energética serão estimuladas.
Contudo, a maior atenção se centrará no acontecimento que viverá os habitantes da Higuera com a chegada de energia elétrica pela primeira vez em sua historia.
Na véspera, o mausoléu de Che no município de Vallegrande serviu de sede para a cerimônia de declaração de Santa Cruz como segundo departamento boliviano livre do analfabetismo.
Os oradores, entre eles o presidente Evo Morales, ressaltaram que a entrega dessa distinção ao território de Santa Cruz constituía uma homenagem ao mítico lutador. Como conclusão do dia, Morales e o embaixador de Cuba em La Paz, Rafael Dausá, depositaram uma oferenda de flores em honra a Guevara, um símbolo mundial na batalha pelas causas justas.
Por outro lado, na cidade de El Alto, perto de La Paz, também se recordará a data com um ato diante a uma estátua monumental do conhecido internacionalmente como o Guerrilheiro Heróico. Organizadores da festa anunciaram que na mesma participarão senadores e deputados, além de agrupações populares e cooperadores cubanos.
A noticia e da ABI
E MAIS:
Sob o céu de La Higuera
Daniel Cassol, nov/07
Escorada pelo braço, na janela da casa de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me pagam 20 pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro, mês que traz o maior número de estrangeiros para La Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município de Pucará, departamento de Santa Cruz de la Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara morria para transformar a vida dos seus 76 habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia
2,5 mil metros de altitude, a vida é um esforço. Ao largo das estradas estreitas, as roças de milho se acomodam em meio aos penhascos, para o bem das poucas vacas, que ali se contentam em mascar a terra. O mítico homem morto nesta região, em 9 de outubro de 1967, teria dito à professora da escolinha que lhe dava comida que o objetivo da guerrilha era melhorar a vida daquela gente. De certo modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene pessoal de Che Guevara, em La Higuera, seu leito de morte, ele é mais do que um santo ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é uma necessidade de sobrevivência para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram Che. Hoje, é diretor do Museu de La Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos um Che presente e espiritual”, ele diz, a uma pequena platéia de militantes políticos brasileiros. Embora a presença de estrangeiros movimente a precária economia da cidade, que consiste em dois armazéns e algumas pessoas dispostas a contar histórias para turistas, René relativiza a tese: “O turismo não rende muito, porque é mais ideológico do que econômico. As pessoas sempre vêm sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade fala mais alto. Ela corre na porteira para convidar os que chegam a descer ao ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta uma história confusa, sobre uma cabra que teria vendido aos barbudos e de um conselho do Che: “Dizia para não termos medo deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada indica o nome do local onde vive: Quebrada del Churo. Com a ajuda que recebe dos visitantes, planeja erigir uma placa de madeira para que os turistas não passem reto por ali. De uma forma sincera, manifesta sua devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando não tenho nada, rezo para o Che e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais moradores da região, diz, dedicam-se a viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande apresenta também uma certa indiferença em relação ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento das camponesas, que carregam seus filhos em coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis dos turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”, resume José Peña, motorista, que mantém um comércio com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32 anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, depois enterrado em local desconhecido, até ser encontrado por pesquisadores cubanos numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997. Contam os moradores que a população formou filas por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças que perduram até hoje, para seu José, na cabeça de gente fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois de Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária de escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe gente boa, existe gente má”, resolve a questão. Ela contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito, com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça. Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com quem chega, sentada ao lado do marido em frente ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
Milagreiro e carrasco
De crença e fé vive o único brasileiro morador de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva, 36 anos, pernambucano de Recife, é missionário da Assembléia de Deus e há dez anos dedica a vida a ganhar almas para a igreja na Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de uma filha, Moisés não é exatamente um admirador de Che Guevara. “Não concordo com a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”, diz. Personagem sui generis desta história, Moisés mistura palavras em castelhano no seu sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido comentários de curas atribuídas a Che Guevara, ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui tem é uma indignação contra esse cara aí. Ele matou um punhado de bolivianos”.
Pobres e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade de pequenos agricultores, beneficiados por uma reforma agrária realizada na década de 1950, um dos fatores que levaram a guerrilha do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha, porque aqui todos têm a sua parcela de terra, e não havia necessidade de reforma agrária”, explica com simplicidade o motorista José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém conservador, que repete como um mantra as pregações ideológicas vindas de Santa Cruz de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores admirações pelo personagem que colocou a cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é uma parte importante, mas não é tudo”, diz o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática Nacional (ADN), no seu quarto mandato, não consecutivo.
É domingo e ele recebe os camponeses em seu gabinete. Um casal está aflito porque o terreno em que vivem teria sido vendido, com autorização do prefeito. Ele puxa o telefone, fala com alguém e resolve a questão. O casal sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos para receber a minha gente que vem à cidade”, explica.
Reclamando mais recursos e autonomia para os estados e municípios bolivianos, Rojas retira importância do turismo gerado em torno do seu visitante mais famoso, aposta no fortalecimento da fruticultura, mas revela que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
Promessa cumprida
Quarenta anos depois de morrer, Ernesto Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à professora da escolinha de La Higuera. Para além de levar levas de estrangeiros todo ano a Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma tentativa de ocupação da região pela solidariedade entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco e se chamam embaixadores da Alternativa Bolivariana para as Américas. Só médicos cubanos são 1,8 mil na Bolívia, dois deles trabalhando em La Higuera, com a ajuda de um cavalo que os leva às moradas mais distantes do centro hospitalar inaugurado em 14 de junho do ano passado, data do aniversário do Che. Ali, funcionam também a escola e o programa de alfabetização para adultos, baseados no método de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que já formou a primeira turma. “Era um compromisso do Che trazer assistência médica e educação gratuitas”, diz a médica cubana Adis Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano ouve falar em revolução. A vida, porém, segue a mesma peleia cotidiana, só restando a fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter vivido sua hora definitiva sobre os céus de La Higuera.

Higuera, Bolívia: Bolivianos celebram 41 aniversário da execução de Che Guevara; cidade passará a contar, finalmente, com energia elétrica

Adital -
08.10.08
A pequena localidade boliviana da Higuera será cenário hoje (08) das comemorações centrais pelo 41 aniversário da execução do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ocorrido em 8 de outubro de 1967. O povoado onde caiu o lendário combatente receberá organizações bolivianas e representantes da colaboração cubana e venezuelana neste país andino.
Segundo notícia de Prensa Latina, a jornada servirá para que vários médicos da Ilha exponham teses de mestrados, enquanto representantes destacados nos projetos de cooperação na saúde, a alfabetização e a revolução energética serão estimuladas.
Contudo, a maior atenção se centrará no acontecimento que viverá os habitantes da Higuera com a chegada de energia elétrica pela primeira vez em sua historia.
Na véspera, o mausoléu de Che no município de Vallegrande serviu de sede para a cerimônia de declaração de Santa Cruz como segundo departamento boliviano livre do analfabetismo.
Os oradores, entre eles o presidente Evo Morales, ressaltaram que a entrega dessa distinção ao território de Santa Cruz constituía uma homenagem ao mítico lutador. Como conclusão do dia, Morales e o embaixador de Cuba em La Paz, Rafael Dausá, depositaram uma oferenda de flores em honra a Guevara, um símbolo mundial na batalha pelas causas justas.
Por outro lado, na cidade de El Alto, perto de La Paz, também se recordará a data com um ato diante a uma estátua monumental do conhecido internacionalmente como o Guerrilheiro Heróico. Organizadores da festa anunciaram que na mesma participarão senadores e deputados, além de agrupações populares e cooperadores cubanos.
A noticia e da ABI
E MAIS:
Sob o céu de La Higuera
Daniel Cassol, nov/07
Escorada pelo braço, na janela da casa de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me pagam 20 pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro, mês que traz o maior número de estrangeiros para La Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município de Pucará, departamento de Santa Cruz de la Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara morria para transformar a vida dos seus 76 habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia
2,5 mil metros de altitude, a vida é um esforço. Ao largo das estradas estreitas, as roças de milho se acomodam em meio aos penhascos, para o bem das poucas vacas, que ali se contentam em mascar a terra. O mítico homem morto nesta região, em 9 de outubro de 1967, teria dito à professora da escolinha que lhe dava comida que o objetivo da guerrilha era melhorar a vida daquela gente. De certo modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene pessoal de Che Guevara, em La Higuera, seu leito de morte, ele é mais do que um santo ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é uma necessidade de sobrevivência para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram Che. Hoje, é diretor do Museu de La Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos um Che presente e espiritual”, ele diz, a uma pequena platéia de militantes políticos brasileiros. Embora a presença de estrangeiros movimente a precária economia da cidade, que consiste em dois armazéns e algumas pessoas dispostas a contar histórias para turistas, René relativiza a tese: “O turismo não rende muito, porque é mais ideológico do que econômico. As pessoas sempre vêm sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade fala mais alto. Ela corre na porteira para convidar os que chegam a descer ao ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta uma história confusa, sobre uma cabra que teria vendido aos barbudos e de um conselho do Che: “Dizia para não termos medo deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada indica o nome do local onde vive: Quebrada del Churo. Com a ajuda que recebe dos visitantes, planeja erigir uma placa de madeira para que os turistas não passem reto por ali. De uma forma sincera, manifesta sua devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando não tenho nada, rezo para o Che e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais moradores da região, diz, dedicam-se a viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande apresenta também uma certa indiferença em relação ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento das camponesas, que carregam seus filhos em coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis dos turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”, resume José Peña, motorista, que mantém um comércio com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32 anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, depois enterrado em local desconhecido, até ser encontrado por pesquisadores cubanos numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997. Contam os moradores que a população formou filas por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças que perduram até hoje, para seu José, na cabeça de gente fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois de Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária de escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe gente boa, existe gente má”, resolve a questão. Ela contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito, com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça. Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com quem chega, sentada ao lado do marido em frente ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
Milagreiro e carrasco
De crença e fé vive o único brasileiro morador de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva, 36 anos, pernambucano de Recife, é missionário da Assembléia de Deus e há dez anos dedica a vida a ganhar almas para a igreja na Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de uma filha, Moisés não é exatamente um admirador de Che Guevara. “Não concordo com a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”, diz. Personagem sui generis desta história, Moisés mistura palavras em castelhano no seu sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido comentários de curas atribuídas a Che Guevara, ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui tem é uma indignação contra esse cara aí. Ele matou um punhado de bolivianos”.
Pobres e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade de pequenos agricultores, beneficiados por uma reforma agrária realizada na década de 1950, um dos fatores que levaram a guerrilha do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha, porque aqui todos têm a sua parcela de terra, e não havia necessidade de reforma agrária”, explica com simplicidade o motorista José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém conservador, que repete como um mantra as pregações ideológicas vindas de Santa Cruz de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores admirações pelo personagem que colocou a cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é uma parte importante, mas não é tudo”, diz o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática Nacional (ADN), no seu quarto mandato, não consecutivo.
É domingo e ele recebe os camponeses em seu gabinete. Um casal está aflito porque o terreno em que vivem teria sido vendido, com autorização do prefeito. Ele puxa o telefone, fala com alguém e resolve a questão. O casal sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos para receber a minha gente que vem à cidade”, explica.
Reclamando mais recursos e autonomia para os estados e municípios bolivianos, Rojas retira importância do turismo gerado em torno do seu visitante mais famoso, aposta no fortalecimento da fruticultura, mas revela que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
Promessa cumprida
Quarenta anos depois de morrer, Ernesto Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à professora da escolinha de La Higuera. Para além de levar levas de estrangeiros todo ano a Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma tentativa de ocupação da região pela solidariedade entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco e se chamam embaixadores da Alternativa Bolivariana para as Américas. Só médicos cubanos são 1,8 mil na Bolívia, dois deles trabalhando em La Higuera, com a ajuda de um cavalo que os leva às moradas mais distantes do centro hospitalar inaugurado em 14 de junho do ano passado, data do aniversário do Che. Ali, funcionam também a escola e o programa de alfabetização para adultos, baseados no método de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que já formou a primeira turma. “Era um compromisso do Che trazer assistência médica e educação gratuitas”, diz a médica cubana Adis Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano ouve falar em revolução. A vida, porém, segue a mesma peleia cotidiana, só restando a fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter vivido sua hora definitiva sobre os céus de La Higuera.

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