Membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, o petista é vice-presidente do Parlamento do Mercosul. No segundo semestre deste ano, assumirá a presidência do órgão. Leia entrevista concedida à Arko América Latina:
Após a aprovação do estatuto autonomista do departamento de Santa Cruz, o senhor acredita que aumentará a radicalização política na Bolívia?
Dr. Rosinha - Ao longo dos últimos dois anos, estive, a trabalho, duas vezes em Santa Cruz, uma vez em Cochabamba e outra em La Paz. Nessas ocasiões, observei o que falavam as pessoas e também os muros das cidades. Nos muros de Santa Cruz, está presente o que parte da população pensa e quer em relação a Evo Morales. São frases que proclamam a luta armada (“Cruceños a las armas”), a independência (“Santa Cruz libre. Fuera Evo”) e o preconceito (“Autonomía sí y afuera los Collas cochinos”). Em Santa Cruz, participei de reuniões com a Fegasacruz (federação dos criadores de gado de Santa Cruz), com a Anapo (associação dos agropecuaristas de Santa Cruz) e também com autoridades da região. Nestas reuniões, observei o comportamento e as posições radicais políticas e preconceituosas de tais setores em relação ao governo Morales. O referendo teve um índice de abstenção próximo a 40% do total de eleitores. Somados ao eleitores que votaram pelo “não” ou anularam seu voto, o resultado demonstra que, dentro do próprio território de Santa Cruz, há controvérsias sobre o tema. Feitas essas três observações, penso que a radicalização política permanecerá mesmo que venha a existir algum diálogo. Persistirá porque interessa aos que dominam economicamente o território da “meia lua”, conformada pelos departamentos de Tarija, Chuquisaca, Santa Cruz, Beni e Pando. A relação conflituosa dentro da Bolívia também interessa aos Estados Unidos, que não desejam a consolidação de um bloco sul-americano.
Como o senhor avalia o posicionamento do governo brasileiro em relação à crise boliviana? Ela será capaz de interferir no processo de integração regional do continente sul americano e do Mercosul?
Dr. Rosinha - Brasil e Bolívia têm a mais extensa fronteira entre países na América do Sul. E parte dessa fronteira é com Santa Cruz de la Sierra. Portanto, interessa ao Brasil que não haja nenhum conflito armado ou político mais radical naquele país. Interessa também ao Brasil que o processo democrático boliviano seja mantido. A formação do grupo de países amigos (Argentina, Brasil e Colômbia) da Bolívia mostra que não só o governo brasileiro deseja a solução negociada, mas também e principalmente aqueles outros que também possuem fronteira com o território boliviano. Assim como entendem os governos desses países e a Organização dos Estados Americanos, penso que a solução, apesar de todas as dificuldades, deve ser negociada. Entendo também que é correta a posição do Brasil em defender a institucionalidade boliviana, e a não divisão de seu território. O Parlamento do Mercosul também já tomou posição semelhante sobre este tema. Todo processo conflituoso interno, em qualquer país, afeta ou dificulta as suas relações internacionais. Logo, interfere na integração da América do Sul e na formação do Mercosul. Lembro que a Bolívia é um país associado ao Mercosul e que já foi convidado a integrar o bloco.
No seu entendimento, ainda é possível chegar a um acordo humanitário na Colômbia para liberar os reféns das Farc ou essa é uma situação imprevisível?
Dr. Rosinha - Após a morte de Raúl Reyes, interlocutor das Farc pela liberação dos reféns, acredito que se perdeu não apenas o interlocutor, mas também a confiança, por parte das Farc, para iniciar novos e concretos diálogos com o governo colombiano. Para a retomada de um acordo para a liberação dos reféns, creio que será necessário um movimento externo e outro interno em relação à Colômbia. Externamente, é preciso, além de uma ação de pressão sobre os lados em conflito, que haja interlocutores com credibilidade para ambos os lados. Internamente, entendo que é necessário que o governo de Álvaro Uribe deixe de lado o belicismo de seus atos, que os Estados Unidos deixem de intervir militarmente na Colômbia e que a Farc recuem de suas ações e recuperem a confiança nos negociadores. É preciso que todos cessem em suas posições e reiniciem o diálogo. Sem esses fatores, a situação futura torna-se de fato imprevisível.






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