ENCALHE

julho 8, 2008

Mensagens sobre GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO, por Jasson de Oliveira Andrade

Quando do lançamento do livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA, no dia 29 de março, na Livraria Papyrus, recebi uma carta do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), por intermédio de seu assessor José Carlos Colabardini, informando-me: “Impossibilitado de estar presente neste importante evento, quero manifestar minha admiração pela história de compromisso que você tem com o nosso país”. Adiante afirma: “Assim que receber o livro, vou devorá-lo em poucos dias, porque, além de retratar um importante período da história do Brasil, relata a participação de importantes personagens que tive o privilégio de conhecer de perto”.
O escritor de Itapira, Jácomo Mandato, autor de “Joaquim Firmino – O Mártir da Abolição”, que se tornou conhecido no Brasil graças a um artigo do historiador Elio Gaspari na Folha de S.Paulo (23/9/2001), sob o título “A noite brasileira da Ku Klux Klan”, no qual comenta, com destaque, essa consagrada obra, assim se manifestou, em carta, sobre o meu texto impresso: “Li com muito interesse sua obra e fiquei realmente admirado com a destacada participação que você teve nos “tristes anos de chumbo em São João da Boa Vista”! (…) A população da cidade de Guiomar Novaes deve orgulhar de ter em você o narrador daqueles momentos terríveis da vida brasileira!” Outro intelectual, Cícero Alvernaz, de Mogi Guaçu, poeta e cronista dos melhores, escreveu sobre outros depoimentos à respeito de GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO: “A repercussão, mais do que justa, do seu excelente livro é muito gratificante, tanto para o autor quanto para os leitores”. Humberto Capellari, do Blog O CATA-MILHO, testemunhou: “Gostei muito do livro. Parabéns, ficou muito bom. Sem exagero, servirá de referência”. Além dessa opinião, ele escreveu, em seu Blog, dois alentados artigos, analisando o livro. Lamentavelmente, não tenho espaço para transcrevê-los. Mereciam!
Padre Toninho Finotti ( era de Mogi Guaçu e agora se encontra em Santos ) foi o portador para entregar o meu livro a D.David Picão, que faz parte de meu texto ( D.DAVID PICÃO, O BISPO PROGRESSISTA, página 49 ) enviou-me essa mensagem sobre minha obra: “Realmente são memórias que ficarão gravadas para sempre, de um modo especial, por aqueles que ajudaram a construir este “momento de nossa História”. Graças à coragem e determinação de muitos que acreditavam e acreditam, ainda hoje, numa sociedade justa e solidária, que nosso País pode ao longo destes anos, sobreviver às cicatrizes deixadas por um autoritarismo que ultrapassou os limites da liberdade e da vida de tantos cidadãos. (…) Continuo apreciando com carinho a leitura do livro… e já me deparei com algumas surpresas, mas que não me abalam, pois, onde entra o cerceamento da liberdade de expressão, tudo se torna possível… at. Hoje (10/6/2008) entreguei ao Dom David [ Picão ] o exemplar a ele endereçado”.
Houve outras manifestações, que ficarão para outra oportunidade. Sou grato a esses depoimentos, que me emocionaram!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu e autor de “Golpe de 64 em São João da Boa Vista
Comentário do Humberto: Agradeço a gentileza, Jasson, mas ainda assim acho que os posts ficaram aquém da obra a que se pretendia comentar. E, como prova de que eu não exagerara, ao dizer que seu livro serviria de referência, já me servi de um texto seu, sobre o auxílio do proprietário do Estadão ao Golpe de 64, tendo até redigindo um Ato Institucional “rigoroso demais”. Mais uma vez, parabéns e sucesso!!

julho 7, 2008

Comemorando o 9 de Julho: Dono do "Estadão" propôs Ato Institucional que assustou até mesmo os generais da ditadura!!

O artigo a seguir foi extraído de “Golpe de 64 em São João da Boa Vista” ( pág 269 a 271 ) de Jasson de Oliveira Andrade, tendo sido publicado, anteriormente em “O Regional” em 24 de janeiro de 2003. Mais abaixo, Jasson comenta a “Moção de Aplausos” a seu livro, recebida junto à ALESP, por iniciativa do deputado Simão Pedro ( PT ). Pelo trecho a seguir, pode-se vislumbrar o valor da obra de Jasson.
A censura do “Estadão”
O “Estadão”, designação adotada pelo próprio O Estado de São Paulo, foi perseguido por Getúlio Vargas, então ditador ( Estado Novo ). Houve mesmo intervenção no jornal. Os Mesquita, seus proprietários, se exilaram. Muitos anos depois, Júlio Mesquita Filho tornou-se líder civil do Golpe de 64.
No início da ditadura militar, segundo Élio Gaspari no seu livro A Ditadura Envergonhada, “foram inúmeras as propostas de demolição das franquias constitucionais”. Entre elas – revela Gaspari – “uma vinha do jornalista Júlio Mesquita Filho, proprietário do O Estado de São Paulo. Redigida com a colaboração do advogado Vicente Ráo, catedrático de Direito Civil da Universidade de São Paulo e ministro da Justiça no Estado Novo ( Vargas ), foi a primeira a chamar-se Ato Institucional. Sugeria a dissolução do Senado, Câmara e assembléias legislativas, anulava o mandato dos governadores e prefeitos, suspendia o habeas-corpus e pressupunha que seria o primeiro de uma série” ( pág. 122 ). Uma contradição: o colaborador dele serviu ao governo do algoz ( Getúlio Vargas ) de sua família! O Ato não foi adotado: era muito autoritário!
O Ato Institucional sugerido pelo dono do “Estado” foi seguido pelo AI-5, em 13/12/1968, instituindo a censura no Brasil. Entre os censurados, os jornais dos Mesquita!
No dia 11/12/2002, na matéria “Júlio de Mesquita faria 80 anos hoje ( Memória )”, O Estado de São Paulo prestou uma homenagem póstuma ao ex-diretor, falecido a 05/06/1996. Nela há um relato que merece transcrição: “Submetido à censura prévia pelo Ato Institucional nº. 5, o ‘Estado’ publicava trechos de Os Lusíadas, de Luís de Camões, nos espaços reservados às informações e reportagens vetadas… No Jornal da Tarde, os leitores encontravam receitas de doces e bolos. Essa foi a saída que os dois jornais encontraram para escapar à autocensura que nunca aceitaram”.
Outra revelação do jornal: “Intimado a prestar depoimento num inquérito policial militar ( IPM ), Júlio Neto respondeu a um curto interrogatório que ficou antológico na história do governo Médici”.
- O senhor é diretor-responsável do jornal O Estado de S.Paulo?
- Não, respondeu o jornalista.
- Então, quem é?
- O ministro da Justiça, professor Alfredo Buzaid, que todas as noites tem um censor na tipografia do jornal.
Um Ato Institucional proposto pelo pai de Júlio Mesquita Neto – o de nº. 5 – atingiu também o “Estadão”, censurando-o. Era o feitiço contra o feiticeiro! Outros “revolucionários” também foram punidos. Mas essa é outra história.
Meu livro: Moção do deputado Simão Pedro
Jasson de Oliveira Andrade
O deputado Simão Pedro apresentou uma Moção de Aplausos ao livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA, sob o Nº 37, datado de 28 de maio de 2008 e que foi publicada em 6 de junho. A Moção tem o seguinte teor: “O Livro Golpe de 64 em São João da Boa Vista idealizado por Francisco de Assis Martins Bezerra – editor e por Jasson de Oliveira Andrade – autor relata momentos importantes da história política de São João da Boa Vista. Embasado em pesquisas e fatos vivenciados, o autor Jasson de Oliveira Andrade, ex-preso político, relata os acontecimentos que precederam o Golpe militar de 1964 e os efeitos do mesmo sob o enfoque local, permitindo que a população de São João da Boa Vista conheça sua história e os principais protagonistas que refletiam as forças políticas da época e os interesses representados em seu município.
Esta brilhante e corajosa obra literária permite que conheçamos melhor a história deste importante município paulista, para que possamos entender a atualidade e assim, buscar maior desenvolvimento cultural, social e até mesmo econômico.
A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO, aplaude os Senhores Jasson de Oliveira Andrade -autor e Francisco de Assis Martins Bezerra – editor pelo importante trabalho histórico-literário que resultou na publicação do livro Golpe de 64 em São João da Boa Vista que tornou acessível a todos, as circunstancias e fatos que envolveram este período sombrio da história de nosso país, sob um corajoso enfoque local que permite identificar as forças políticas e interesses da época, compará-los aos dias de hoje e estimular o surgimento de novas lideranças” .
A iniciativa do deputado petista reflete a repercussão que obteve o livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA, confirmando a boa venda dele em São João (PAPYRUS) e em Mogi Guaçu (LIVRARIA NOBEL). Recebi também mensagens de elogios ao livro. Entre outras, destaco duas. Uma da escritora sanjoanense Yola Oliveira Azevedo, autora de A RECONQUISTA. Outra do professor Messias Prado, que leciona em Mogi Guaçu.
Yola assim se manifestou: “Acabei de ler seu livro – com muita atenção”.
“É excelente – tanto pela redação como pelo cuidado ao mostrar documentos que comprovam abusos incríveis de supostas “autoridades” – armadas – na época. Há momentos chocantes, tristissimos, que muito me comoveram”.
Parodiando Drummond – temos de lembrar para nunca esquecer”.
O professor Messias, de Mogi Guaçu, escreveu: “Terminei de ler seu excelente livro. Realmente é um registro de eventos que não devem mais acontecer… Interessante que, à medida que vamos lendo, vamos nos identificando e adquirindo simpatia com alguns personagens, enquanto em relação a outros nossos sentimentos são de raiva e em alguns momentos passamos a detestá-los. Enfim, como já cantaram Plabo Milanês e Chico Buarque:
“E quem garante que a História
É carroça abandonada
Numa beira de estrada
Ou numa estação inglória?
A História é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue.”
(Cancion por la unidad de Latino América)
Obrigado por nos passar sua experiência e sua vivência através de importante registro em livro.”
Esses depoimentos, e outros que recebi, mostram que valeu a pena escrever GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA.
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é sanjoanense e jornalista em Mogi Guaçu.
Postado em: 01/07/2008
Portal Mogi Guaçu

junho 10, 2008

"GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA", de Jasson de Oliveira Andrade. A Guerra Fria sem CIA e KGB.

Mensagem enviada a mim, por Jasson:

“Humberto: Em anexo, envio-lhe a Moção de Aplausos, apresentada pelo deputado Simão Pedro (PT) na Assembléia Legislativa de São Paulo. Se achar conveniente colocá-la no seu próximo texto sobre o livro, como introdução. Fica aí a sugestão. JASSON”
Gostei da sugestão e acatarei-a.
Antes de mais nada, a constatação reconfortante: ainda não estou à altura da obra! Até porque eu sou uma negação – entre outras coisas – em História do Brasil.
Mas vamos lá:
- O Golpe de 64 no Brasil teria a mão da CIA ou do embaixador americano Lincoln Gordon;
- Os EUA estavam empenhados em garantir que não aparecessem mais “Cubas” em sua área de influência;
- Talvez, até antes mesmo do anti-comunismo alegado e a suposta proteção à democracia e à liberdade, o que realmente movia os Estados Unidos para que combatessem a possível infiltração do império euroasiático, a URSS, na América Latina era a Doutrina Monroe.
- Para combater o inimigo, usou-se de todas as armas à disposição, exceto o confronto direto: espionagem, tortura, mortes, chantagens, golpes de Estado, financiamentos de grupos “pró” ou “contra”, propaganda, contra-propaganda.
Legal. Parece filme do James Bond.

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MOÇÃO Nº , DE 2008
O Livro Golpe de 64 em São João da Boa Vista idealizado por Francisco de Assis Martins Bezerra- editor e por Jasson de Oliveira Andrade-autor relata momentos importantes da história política de São João da Boa Vista.
Embasado em pesquisas e fatos vivenciados, o autor Jasson de Oliveira Andrade, ex-preso político, relata os acontecimentos que precederam o Golpe militar de 1964 e os efeitos do mesmo sob o enfoque local, permitindo que a população de São João da Boa Vista conheça sua história e os principais protagonistas que refletiam as forças políticas da época e os interesses representados em seu município.
Esta brilhante e corajosa obra literária permite que conheçamos melhor a história deste importante município paulista, para que possamos entender a atualidade e assim, buscar maior desenvolvimento cultural, social e até mesmo econômico.
A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO, aplaude os Senhores Jasson de Oliveira Andrade-autor e Francisco de Assis Martins Bezerra- editor pelo importante trabalho histórico-literário que resultou na publicação do livro Golpe de 64 em São João da Boa Vista que tornou acessível a todos, as circunstancias e fatos que envolveram este período sombrio da história de nosso país, sob um corajoso enfoque local que permite identificar as forças políticas e interesses da época, compará-los aos dias de hoje e estimular o surgimento de novas lideranças .
Por fim, requer sejam tomadas as providências necessárias para a expedição de ofício os Senhores Jasson de Oliveira Andrade e Francisco de Assis Martins Bezerra no endereço anexo, para dar ciência desta propositura
Sala das Sessões, em
Deputado Simão Pedro
SPL – Código de Originalidade: 802209 280508 1740
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Como falei anteriormente, o grande mérito e atrativo da obra do Jasson, é – basicamente – trazer para o leitor o ambiente político de uma cidade interiorana ( de São Paulo, especificamente ), nos idos da década de 60 ( mas não só ), quando eclodiu o Golpe.
Pois este período geralmente nos é apresentado em seu aspecto MACRO, com a briga de EUA e URSS pelo domínio político-ideológico mundial, com seus respectivos satélites, cada qual polo tentando manter suas posições e ganhar outras. De forma bem simples, foi isso mesmo.
E em São João da Boa Vista, qual o cenário? Havia espiões da KGB na cidade? Como a CIA os combateu?
De certa maneira, Jasson conseguiu um recorde: tratou da Revolução de 64 e um certo anticomunismo sem, contudo, mencionar Fidel Castro, Che Guevara, Lênin, Trotsky, Stalin, Roosevelt. Não há longas digressões teóricas e ideológicas ( as potências nem parecem tão influentes, já que são, também, pouco lembradas ).
Claro, apresenta uma certa simpatia pelo que convencionou-se chamar “esquerda”; mas a grande parte das pessoas aqui se mostra mais definível como “nacionalista”; apesar disso, foram cassadas, presas, perseguidas. Não há aqui, inclusive, relatos de torturas, ao contrário: nega-se ter passado por alguma. Menos mal. Mas, ainda assim, a ruína financeira de alguns lhes deve ter saído pior que pau-de-arara.
“Este livro não tem objetivo histórico”, diz Jasson, à página 10 da INTRODUÇÃO. Não sei porquê dizer isso. Há entrevistas e depoimentos, documentos, citações, reprodução de noticiários regionais, referências. Mas eu entendo o que você quer dizer.
É certo que não se perde naquele rigor e formalidade acadêmicos, cujo preço é a distância e a invisibilidade perante o público. A quem, por sinal, trabalhos desta natureza deveriam ser dedicados.
Mas transpira honestidade e leveza. E apresenta a visão de alguém que foi, ao mesmo tempo, observador e protagonista de eventos como aqueles que aconteceram aos milhares neste país, não apenas em cidades grandes de São Paulo e Guanabara. Eventos de interesse histórico que permanecem, de modo geral, esquecidos e/ ou ignorados pela maioria da população.
Não obstante tenham sido produzidas a respeito de alguns deles mini-séries de televisão, revistas com reportagens especiais e comemorativas, cadernos especiais de jornais de Domingo, filmes para cinema, sem esquecer, claro, de livros especializados, para consumo de minorias encasteladas e esclarecidas. Mas focavam o MACRO, o país, o geral ( sem demérito, claro ).
Pois quando se fala em Golpe de 64, geralmente lembramos de Lacerda, JK, Brizola, Jango, CIA, passeata por Deus e a Família ( sei lá se foi isso ), mas pouco sabemos sobre a discussão de lideranças políticas opostas e seus simpatizantes no armazém ou na farmácia situada no Largo da Matriz duma cidade interiorana qualquer. Em São João, a política e os destinos da cidade e do país eram discutidos no interior da farmácia Nossa Senhora Aparecida, de propriedade de Zé Lopes e Zé Traffani [este último, um ex-integralista foi depois acusado de comunismo e de ter causado incêndios criminosos ].
Pelo livro de Jasson, ficaremos sabendo de casos em que pessoas, mesmo não tendo quaisquer atividades políticas, acabaram sofrendo na carne os efeitos da paranóia anticomunista. Um exemplo: Orlando Maciel , o Escurinho, foi preso por engano, no lugar de seu irmão, Oswaldo, este filiado ao PTB e partidário do ex-prefeito Miguel Jorge Nicolau que, segundo consta, era amigo próximo de Jango. Também importante, é que Jasson nos conduz ( mesmo que passageiramente ) pela briga política regional anterior ao golpe ( “Antecedentes da ‘briga’ política em São João”, pág. 42 a 45 ), traçando uma linha que se origina no primeiro governo de Vargas, e desaguando no golpe propriamente dito.
Em São João da Boa Vista, o grupo considerado “esquerdista”, seria aquele vinculado ao PTB, partido de Getúlio Vargas e Jango.
O político petebista Miguel Jorge Nicolau recebe bastante destaque no livro ( talvez mais destaque do que qualquer outro ) e sua biografia é bem radiografada. Foi um dos principais alvos dos “revolucionários”. Em 1955 venceu a eleição municipal ( a primeira vencida por trabalhistas ali ), desligando-se posteriormente do cargo, para concorrer a deputado estadual ( foi eleito ). Reeleito em 1962, em 64 perdeu o mandato e os direitos políticos por 10 anos. Foi anistiado em 1979 ( sim, deu mais de 10 anos, já que o AI-5, de 1968 prolongou o Inverno! ), e lutou para tentar fazer ressurgir o PTB, junto a Ivete Vargas. Morreu em Maio de 1980.
Quando prefeito, contemporâneo à campanha “O Petróleo é Nosso”, instalou na praça denominada Joaquim José, uma simbólica reprodução de uma torre de petróleo. Deixou o cargo, no meio do mandato, para candidatar-se a deputado estadual. Assumiu o vice e este, do mesmo partido, DERRUBOU a torre. Nicolau, de acordo com Jasson, graças à sua amizade com JK e Jango, conseguiu, como prefeito e deputado trazer serviços à cidade como o SAMDU, e construiu obras como a Rodoviária, a Escola de Comércio e o Prédio do Mercado Municipal ( pag. 17 ).
“Para a UDN, todos eram comunistas…”
Fausto Ratol
Trechos de depoimento de um dos acusados que respondeu a um Inquérito Policial Militar, o jornalista e radialista Ito Amorim, traz elementos de comicidade que comprovam a paranóia ( págs. 157-8 ) :
” ( … )
MAJOR – Você acha que o Brasil deve reatar relações comerciais com a União Soviética?
ITO – Acho que sim (… ) Os Estados Unidos compram nosso café por 4.000 cruzeiros a saca e vende para a Rússia por 15.000. Se eles não têm medo do comunismo e estão ganhando, porque nós não vendemos diretamente para os russos e ganhamos mais divisas para o nosso Brasil? (…)
MAJOR – Como jornalista, há muito tempo em São João, pode me precisar o número de comunistas na cidade?
ITO – Posso. Nenhum ( … ) Agora, o que existe aqui, é uma “fábrica de fazer comunista”.
MAJOR – Explique essa fábrica.
( … )”
Vou pular e deixar para o final, que é muito boa, dado o quadro.
Bom, eu devo estar esquecendo um monte de coisas. Então aí vai um “brainstorming”:
- as elites locais organizaram milícias armadas; civis, por várias vezes tomaram o lugar de autoridades militares, prendendo “comunistas”; estes civis tinham recebido armas de militares para usar em suas rondas e prisões; há o depoimento ( o único, por sinal ), de um fazendeiro, Aécio Amaral, dado ao jornal Gazeta de São João, em setembro de 81, e reproduzido no livro, que mostra isso. Disse que os fazendeiros “ouviam boatos”. Um deles, era sobre o “Grupo dos Onze”: os comunistas estariam organizados em grupos de onze pessoas, dispostas a, se o lado vermelho ganhasse a parada, acabar com os fazendeiros; cada grupo teria uma lista de fazendeiros a despachar. Isso teria levado os fazendeiros a reagir, e formar os grupos de “Vigilantes”. Compraram armas, inclusive, de um traficante de armas;
- mais humor involuntário: no mesmo depoimento do fazendeiro, o temor de que os subversivos envenenassem a caixa d’água municipal, mesmo com as próprias famílias dos subversivos tendo que consumir esta água…;
- o humor involuntário não pára: um dos presos, acusados de vermelhismo, tinha medo de que os comunistas vencessem. Ele era fazendeiro, chamado José Bitar, ou Zé Turco ( pág. 19 ): “Vejam minha situação: se os comunistas vencessem eu iria para o paredão porque sou fazendeiro; como venceram aqueles ligados aos fazendeiros, fui preso como comunista (…)”;
- as prisões e processos, além de demissões ( Jasson ficou preso por 36 dias e, posteriormente demitido do SAMDU ) levaram os acusados à ruína moral e financeira. Acabaram com famílias e relações sociais. Lendo sobre os casos, em que são dados nomes e rostos aos personagens, torna mais fácil compreender a questão das indenizações, em voga hoje em dia, para horror dos neoudenistas;
- a prisão era o porão de um velho prédio do ginásio na frente da estação rodoviária;
- os inquéritos ( IPMs ) concluiram pela absolvição ou inocência dos acusados.
Devo ter esquecido um monte, e deve estar bem confuso mas tá ficando longo e eu só consigo pensar em sugerir e insistir para que leiam o livro.
Mas agora vou retomar o causo que ficou em aberto: no depoimento acima, o entrevistado Amorim Ito fala que havia em São João uma “fábrica de fazer comunista”.
Como a História se repete, etc, a cidade se viu aterrorizada por misteriosos incêndios terroristas. A culpa recairia sobre, claro, os comunistas. Mas teriam os comunistas feito isso? Ito, explique essa fábrica:
“Pois não, Humberto.”
Brincadeira. Agora, sim.
” ( … )
ITO – Essa fábrica funcionava da seguinte maneira: há aqui o sr. L.B.A [ Nota do Blog: Eu já conto... ] agente da Cia. Paulista de Seguros, correspondente do jornal O Estado de São Paulo, amigo particular dos Mesquitas e do dep. Herbert Levy e inimigo de morte de Miguel Jorge Nicolau. Então, todos os incêndios daquela época, que eram muitos e quase todos segurados naquela companhia eram debitados aos que ele chamava de comunistas, mandando notícias para o jornal de tanto prestígio de São Paulo. Lembro-me de um fato que caracteriza bem o funcionamento dessa fábrica de comunistas. Passava eu por volta de 22:30hs (…) Estavam reunidos no interior da sede [ do Rosário ] homens que tratavam da formação de sindicatos. Ali apareceram pessoas estranhas e adversárias, querendo interromper a reunião, gerando um início de tumulto. Serenados os ânimos, fui para casa. Qual não foi minha surpresa quando, no outro dia, li no Estadão, em manchete de sete colunas: ‘Nova agitação dos vermelhos em São João da Boa Vista’. É uma fábrica de comunistas, ou não? (…)”.
Noutra parte do livro, mais informações:
” ( … ) Não satisfeito com as prisões, L.B.A., em carta ao militares, pediu um IPM, alegando que ‘os comunistas’ haviam incendiado prédios em São João. No decorrer do inquérito ( … ) ficou provado que nenhum dos acusados era responsável pelos incêndios. Se havia alguém interessado neles, seria ele, LUIZ BANHO DE ANDRADE, agente de seguros, o qual no final, foi indiciado ( … )”.
Luiz Banho de Andrade, udenista, agente de seguros, piromaníaco. Tio-avô do próprio autor do livro, Jasson de Oliveira Andrade. Incendiava prédios, fazia negócios e acusava os “comunistas” de tê-los os causado.
Quem quiser adquirir o livro, que custa apenas R$ 10,00, de acordo com o informado por Jasson, pode conseguir aqui:
PAPYRUS LIVRARIA
R. Getúlio Vargas, 307 – Centro
São João da Boa Vista – SP
CEP 13870-000
Fone/ Fax: ( 0xx19 ) 3623.4203
papyrus@livrariapapyrus.com.br
Enfim espero que este comentário sobre o livro de Jasson ( ouviu, Jasson? ) tenha ficado apresentável, apesar de saber que partes importantes devem ter ficado de fora. Mas, para conhecer mais, vocês terão que ler o livro.

junho 5, 2008

"TRIBUTO A UM IMPRESCINDÍVEL: D. PAULO EVARISTO ARNS", por CELSO LUNGARETTI

“Há homens que lutam um dia, e são bons;há outros que lutam um ano, e são melhores;há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons.Porém há os que lutam toda a vida,esses são os imprescindíveis.”(Bertolt Brecht, “Os Que Lutam”)
A grande imprensa só destaca os personagens quando eles estão realizando coisas, completando décadas disso e daquilo ou morrendo. Vai daí que um homem como D. Paulo Evaristo Arns está há 10 anos longe dos holofotes e é quase desconhecido das novas gerações.
Pior: alguns jovens formam seu conceito sobre ele a partir do que lêem nos textos repulsivos da propaganda neo-integralista, apontando-o como principal inspirador da política de direitos humanos “que só protege os bandidos”…
Então, em vez de esperar que surja o que os jornalistas chamamos de gancho, uma justificativa qualquer para falar de D. Paulo, vou fazê-lo unicamente porque se trata de um daqueles imprescindíveis a que se referiu Brecht. Neste Brasil da ganância e da competição que o capitalismo globalizado está engendrando, é fundamental evocarmos exemplos como este, até como antídoto.
Cardeal e arcebispo emérito de São Paulo, D. Paulo está com 87 anos, é um homem combalido e tem problemas de audição – decorrentes, esclarece, de ferimentos sofridos quando de uma tentativa de seqüestro num país latino-americano (pretendiam obter, em troca, a liberdade de um chefão do narcotráfico).
A entrevista que fiz há algum tempo com D. Paulo permanece atual, daí eu estar reproduzindo aqui seus principais trechos Não quis privar os leitores da oportunidade de conhecer-lhe a história a partir de suas próprias palavras, que tive o privilégio de escutar numa ensolarada tarde de dia útil, no convento franciscano que fica ao lado da tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
No final, apesar de sua dificuldade de locomoção, fez questão de percorrer comigo o longo caminho até o corredor. E se despediu com uma frase marcante: “Precisamos contar essas histórias [do que aconteceu neste país durante a ditadura militar] às novas gerações. É importante que elas saibam de tudo isso!”
A missão do educador – Muitos programas pioneiros, na linha da inserção social, foram introduzidos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) entre novembro/1970 e maio/1998, período em que, como arcebispo metropolitano de São Paulo, D. Paulo foi Grão Chanceler da instituição.
Logo que se tornou o principal responsável pelos rumos dessa universidade, D. Paulo fez primeira visita ao Conselho da PUC. E disse: “Não quero uma escola de 2º grau melhorada. O que me interessa é que vocês façam uma pós que dê bons professores para todos os lugares do Brasil; e que todas as teses e tudo o que vocês discutirem além da escola se refira ao povo e ajude o povo. Que isso seja a norma daqui para a frente”.
Os resultados não tardaram, diz D. Paulo. “A Arquidiocese se organizou em pastorais diferentes – p. ex., a Operária, a da Terra, a do Trabalhador –, então eu consegui que a Faculdade de Direito se interessasse em ir, durante a semana ou no sábado, à periferia e ver como se poderia ajudar essa população e quais os problemas reais da periferia. A mesma coisa aconteceu com a assistência social, que, aliás, está trabalhando nessa linha até hoje, com métodos sempre novos e recebendo apoio da Europa e de outros lugares, com uma eficiência muito grande.”
Hoje, essas iniciativas pioneiras da PUC/SP encontraram muitos seguidores e há um sem-número de empresas e instituições esforçando-se para dar uma contribuição positiva à sociedade.
Ofícios para vítimas da ditadura – “Os estudantes da USP me procuraram em 1973 quando um colega [Alexandre Vannucchi Leme] foi assassinado pelos órgãos de segurança. Os estudantes se reuniram, uns 10 mil, e mandarem representantes à minha casa, à noite, para que eu fosse lá falar aos alunos. Eu disse que era melhor reunir os estudantes, mas não dava para fazer no campus da universidade, porque ele estava cercado por policiais e oficiais do Exército.
“Então, decidi fazer na catedral. Eu disse: ‘Na catedral, nós falamos o que queremos, e nós falaremos aos estudantes. Encham a catedral de estudantes e de povo, que nós diremos a verdade’. E foi o que eles fizeram. Às 15h, eu fui lá, fiz aquele ato solene em favor do estudante e celebrei a missa para o falecido. Fiz o sermão sobre o ‘não matarás!’, o mandamento central dos 10 mandamentos. Foi sobre isso que eu falei para eles, e eles participaram, vivamente, da missa e de toda manifestação religiosa posterior.
“Depois, em 75, foi a vez do Herzog; em 76, a do Manuel Fiel Filho; e em 79, a do Santo Dias, quando recebemos de 150 mil a 200 mil pessoas, que andaram desde a igreja de Nossa Sra. da Consolação. A multidão foi engrossando. Ao chegar na Catedral da Sé, não cabia nem na igreja nem na praça, então nós fizemos uma cerimônia mais curta, mas muito mais participada por todos os operários.”
Missa de 7º dia de Vladimir Herzog – Foi celebrada na Catedral da Sé, simultaneamente, por religiosos de três confissões: a católica (D. Paulo), a judaica (rabino Henry Sobel) e a protestante (reverendo James Wright).
“Quando o Herzog foi assassinado – lembra D. Paulo –, em 1975, os jornalistas me pediram que houvesse um ato ecumênico na catedral. Os judeus fazendo o ato deles em hebraico, portanto, não na língua que compreendêssemos. Foi impressionante e muito bonito.”
[Modesto, D. Paulo evitou comentar que sua decisão foi um ato de enorme coragem. Primeiramente, porque a alta hierarquia católica não viu com simpatia sua iniciativa de oficiar missa ao lado de um rabino e de um reverendo. Depois, por ser um desafio frontal à ditadura militar, que o presidente Geisel engoliu, pedindo apenas a D. Paulo que segurasse seus radicais, “enquanto eu seguro os meus”. Finalmente, por ter, em nome de ideal de justiça e solidariedade cristãs, corrido o risco da ocorrência de tumultos e mortes que teriam um peso devastador em sua consciência de religioso. Graças a ele, foi viabilizado o ato que acabou se tornando um divisor de águas: a partir dessa vitória sobre a intimidação, a ditadura começou sua lenta, mas irreversível, marcha para o fim.]
Invasão da PUC em 1977 – “Eu estava em Roma quando o Erasmo Dias, então secretário da Segurança do estado de São Paulo, invadiu a PUC sem dizer ou ter motivo nenhum. Os estudantes estavam em exame e os policiais destruíram mais de 2 mil cópias de documentos, estragaram o refeitório, danificaram os instrumentos musicais e até derrubaram um professor no chão.
“Eu fui chamado às pressas de Roma e, na manhã seguinte, já dei uma declaração ao desembarcar no aeroporto, dizendo que ‘na PUC só se entra prestando exame vestibular, e só se entra na PUC para ajudar o povo e não para destruir as coisas’. Depois, nós fizemos toda uma reação contra eles e toda uma manifestação junto aos estudantes.”
Eleição direta para reitor da PUC – “No início dos anos 80, nós queríamos nos opor ao regime totalitário que estava vigorando no Brasil e provar que funcionários, professores e alunos são igualmente capazes de escolher o diretor, o reitor ou o presidente da instituição.
“Antes eu reunia o conselho de cada classe, para ter uma certa democracia entre os professores, e pedia que me indicassem o nome. Achei que era pouca democracia. Então, pedi à reitora e aos três vice para haver uma escolha entre todos os alunos, que eu aceitaria o resultado e mandaria para a aprovação de Roma.
“E Roma aprovou imediatamente. Então, foi a primeira eleição dentro de uma universidade pontifícia católica e, também, foi a primeira vez que se escolheu um reitor entre todos os funcionários, alunos e professores.”
Contratação de professores perseguidos – “O minstro da Justiça ordenou a expulsão de vários professores da Universidade de São Paulo. Então a reitora da PUC me telefonou perguntando se podia admiti-los entre nós. Eu disse: ‘Não só pode como deve, porque são excelentes professores e patriotas’.
“O Florestan Fernandes até escreveu um artigo me agradecendo. Ele ficou satisfeito porque pôde dirigir os estudantes da pós-graduação na PUC da maneira mais livre possível.
“Quanto ao Paulo Freire, eu fui a Genebra para convencê-lo a voltar ao Brasil, depois de 10 anos de exílio. Garanti que eu iria cuidar da chegada dele aqui. E mandei toda a nossa Comissão de Justiça e Paz, que eram mais de 40 pessoas, junto com amigos, para recebê-lo em Campinas.
“De fato a polícia o prendeu, mas, depois de duas horas de interrogatório, eles viram que todos estavam contra eles e soltaram o Paulo Freire, que ficou conosco, com uma grande amizade comigo, até o momento da sua partida.”
Convicções e esperanças – Sobre o Governo Lula, antes mesmo da crise do mensalão, D. Paulo já mostrava uma ponta de apreensão, ao se dizer esperançoso de que “o Brasil não perca esta ocasião e não afunde o barco em vez de conduzi-lo a uma margem da terra onde haja outra terra e outro céu, como diria a Sagrada Escritura; onde haja outra possibilidade de sonhar e outra possibilidade de viver com dignidade, mas para todas as pessoas e não só para uma parte”.
E, inquirido sobre o menor engajamento atual da Igreja às causas sociais, ele finalizou com uma mensagem de esperança: “A Igreja é o povo. Se o povo se mobiliza bem, a Igreja também se mobiliza. Então, é preciso unir esses dois conceitos, o povo de Deus e o povo, simplesmente. Nós precisamos caminhar para a fraternidade, para uma possibilidade de todos serem respeitados como filhos de Deus e irmãos uns dos outros”.
Não há como retratar a grandeza de um D. Paulo Evaristo Arns numa única entrevista. Faltou dizer, p. ex., que ele criou a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo e foi o grande artífice do projeto Brasil: Nunca Mais ( livro-levantamento dos casos de violações de direitos humanos durante o regime militar ), integrando também o movimento Tortura Nunca Mais, dele decorrente.
O principal, no entanto, é que suas gestões junto às autoridades salvaram a vida e evitaram a tortura de resistentes, no pior momento da ditadura.
Fiel ao espírito da igreja das catacumbas, foi o pastor que tudo fez para que seu rebanho sobrevivesse a um tempo de lobos. Um imprescindível.
Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista e escritor. Mais artigos em
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

junho 3, 2008

"GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA". Livro de Jasson de Oliveira Andrade.

Falo sobre o livro em questão a seguir. Antes disso, porém, quero mostrar a seguinte mensagem, que chegou à minha conta de email, em 23 de Novembro de 2005:
“Humberto: Subscrevo sua opinião exposta hoje no Estado, sob o título “A decência de FHC”. Aproveito a oportunidade para lhe enviar, em anexo, o meu artigo “Palocci e a Convenção tucana”. Abraços, JASSON”
Abaixo, um trecho de minha resposta à mensagem, em 5 de Dezembro:
“Olá, Sr. Como vai?
Desculpe a demora em responder.
Agradeço sua atenção e, lamento, ainda não consegui abrir o anexo que Vsa. enviou-me.A verdade é que não sei mexer direito em computador.E, também, não possuo um próprio.
Sabe, acho que pela primeira vez, aqueles que me escrevem por causa de uma carta minha publicada em algum jornal, não foi para me xingar ( rs ).Ah, houve um, esqueci dele. me xingar ( rs ).Ah, houve um, esqueci dele (…).”
Assim se deu o início das conversas entre eu e Jasson de Oliveira Andrade. Ele viu uma carta minha, publicada no Estadão, e comunicou-se comigo. Foi o único que não me xingou. Podem crer que vários desses caras que têem suas cartas publicadas quase todos os dias, também me contataram. À época eu, metido a sabichão, enviava cartas quase diariamente para a seção dos leitores de jornais e revistas.
Posteriormente, abandonei aos poucos este hábito e passei a escrever um blog. E pedi a Jasson que continuasse me enviando seus artigos, permitindo-me a publicação deles no blog ( foi assim mesmo? ). O que, decididamente, enriqueceu um espaço que, a depender de mim, não prometia muito. Prova disso é que o primeiro artigo de Jasson que postei no Cata-Milho, data apenas de 09 de Junho de 2006: http://ohomemfebril.blogspot.com/2006/06/pefelizao-do-psdb.html#links
A partir deste são dezenas de ( sempre elegantes ) artigos tratando, principalmente, de questões políticas do país. Escritos, primordialmente, para veículos regionais de imprensa, foram cedidos gentilmente por Jasson a este blog, e constituem importante fonte para reflexões acerca de momentos significantes pelos quais o Brasil passou nos últimos 3 anos.
O AUTOR
Filho e neto de fazendeiros ( seu pai, udenista simpatizante, gerente da Cooperativa Agrícola de Cotia, posteriormente se filiou ao partido de Adhemar de Barros, o PSP, e foi candidato a vereador por este partido ), Jasson cresceu, estudou e formou-se em São João da Boa Vista ( SP ).
Lecionou por pouco tempo e ingressou no Samdu ( o Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência, foi conquistado à região pelo deputado petebista [ Varguista e Janguista ] Miguel Jorge Nicolau, importante ex-prefeito do município de São João da Boa Vista, ), onde trabalhava quando da eclosão do golpe de 64, e de onde foi demitido por sua ligação política ( então suplente de vereador pelo PTB, assumiria o cargo com a cassação dos mandatos dos titulares, mas renunciou sem tomar posse ). Paralelamente ao trabalho no Samdu, exercia a função de redator no jornal O Município, de propriedade de Miguel Nicolau. Foi um dos vários cidadãos presos em meio ao período de caça às bruxas comunistas que se seguiu à deposição de Jango. Formou-se em advocacia e colabora, conforme já foi dito, com diversos jornais regionais do interior de São Paulo.

O LIVRO
Da mesma forma que Jasson de Oliveira Andrade minimiza o papel de seu trabalho, afirmando que este “não tem objetivo histórico” ( que não tenha sido concebido com este objetivo, tudo bem, mas qualidades para isso possui, Jasson ), eu também não pretendo fazer uma resenha. Nem gabarito para isso eu tenho. E, tendo recém terminado a primeira leitura da obra, com uma infinidade de informações saídas de suas 298 páginas ( descontando registros fotográficos e documentos anexos ),e ainda não digeridas por completo, temo não estar a altura do serviço exigido.
Pois uma resenha profissional é o que “Golpe de 64…” merece.
“(…) Este livro não tem objetivo histórico (…) Pretendemos com ele apresentar textos e documentos que estavam perdidos nas páginas de heróicos jornais da região, publicados aqui sem uma ordem cronológica e apenas levando em conta os temas enfocados, favorecendo uma pesquisa mais aprofundada no futuro por verdadeiros historiadores (…) “.

TRECHO DA INTRODUÇÃO, pág. 10
“(…) Valter Peres Franco, jornalista, professor e ex-vereador, em carta a mim ( OBS: ao autor ) dirigida, datada de 20 de novembro de 1984, sugeriu-me:
‘Acredito que cabe a todos nós, você, eu e outros companheiros, elaborarmos um estudo aprofundado deste período através dos documentos existentes ( relatórios, inquéritos, processos, etc. ) para relatarmos às gerações que nos sucederem a verdadeira história do golpe de 1964 em São João da Boa Vista’.
“Agora, vinte e três anos após o pedido, estamos entregando o presente livro, o qual, acredito, cumpre o que nos sugeriu o filho do também jornalista e ex-vereador José Peres Castelhano, que faz parte de nossa história política, principalmente daquele período (… )”.
TRECHO DA INTRODUÇÃO, pág. 09
O livro possui duas partes distintas. Três, se considerarmos os anexos ( inclui-se aí, a peça de defesa de Jasson frente ao processo que respondia por “subversão” ) e registros fotográficos diversos, não só do período do regime militar. Vou tentar comentar em dois posts. O primeiro, hoje.
A segunda parte, é composta de uma série não-cronológica ( há, por exemplo, textos datados de 1986 e mais recentes, de 2007 ) de artigos sob o tema “Política Nacional”, que nos dão a medida exata do que foi o período compreendido entre 64 e 1985 para o Brasil.
Todos os episódios, dramáticos, trágicos e relevantes para o Brasil, a partir de 1930 são tratados, por meio de artigos curtos, neste capítulo. Mostra-se o papel desempenhado por personagens como Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Tancredo Neves, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, Costa e Silva, Castello Branco, Leonel Brizola, João Goulart e outras personagens do poder e de que modo contribuíram para que fossem eternizados na historiografia política brasileira.
Passagens como o papel do “complexo” IPES-IBAD na preparação ao golpe, a participação da CIA, as diatribes do corvo Lacerda e sua posterior queda em desgraça, a despeito de sua participação como um dos cabeças civis do levante militar que depôs Jango. Não foi o único: Jasson mostra que quase todos os mais importantes líderes e apoiadores do levante de 64, fossem eles civis ( como o próprio governador da Guanabara, Carlos Lacerda, o Governador de São Paulo, Adhemar de Barros, Pedro Aleixo, vice de Costa e Silva, o dono do Estadão, Júlio de Mesquita Filho [ também perseguido por Getúlio Vargas ] etc ) ou mesmo militares ( general Olímpio Mourão Filho, p. ex. ) acabaram sendo postos para escanteio no decorrer do tempo.
Como destaques, a seqüência de artigos que examina as mortes suspeitas de políticos de oposição ao regime ( dez meses foram o suficiente para que os 3 mentores da Frente Ampla, a saber, JK, Jango e Lacerda deixassem de ser preocupação para o governo militar ); outra sequência, desta vez revendo as mortes ( “trágicas” ) de ex-presidentes brasileiros, como Vargas, JK, Costa e Silva e Jânio Quadros; a promulgação do AI-5.
Breves e interessantes, textos que abordam o importante período de Vargas na Presidência, desde a revolução de 30, com a sequënte deposição de Washington Luís e a posse do gaúcho, até o Golpe que culminou na criação o Estado Novo, com influência do fascismo europeu.
Com a “descoberta” do chamado Plano Cohen ( a meu ver, uma aparente versão tupiniquim do Protocolo dos Sábios do Sião – foi redigido por um integralista [ que, mais tarde, tornou-se um dos pontas-de-lança da revolução de 64, o então capitão Olímpio Mourão Filho ] e simulava um aparente plano judeu-comunista de derrubada do governo e tomada do poder ), o perigo comunista passa a justificar a repressão a que Vargas lançou o país, tendo o governo, inclusive, flertado com o Integralismo para, depois, acabar banindo o movimento encabeçado por Plínio Salgado. Tempos depois, [ comenta Jasson a partir do livro A Ditadura Envergonhada, de Élio Gaspari ] um ex-ministro do Estado Novo de Vargas, Vicente Ráo, ajudou o líder civil do golpe Mesquita Filho na redação de uma proposta a Ato Institucional; entre as sugestões, a dissolução de todas as câmaras legislativas nos três níveis, sem exclusão do Senado, suspensão do habeas-corpus, cassação de mandatos de prefeitos e governadores, entre outras medidas “saneadoras”.
Num próximo post, o maior atrativo e mérito do livro de Jasson: o golpe de 64 em nível local. Creiam: apesar da seriedade que o assunto merece, há “causos”…
Em breve!

"Golpe de 64 em São João da Boa Vista". Livro de Jasson de Oliveira Andrade.

Falo sobre o livro em questão a seguir. Antes disso, porém, quero mostrar a seguinte mensagem, que chegou à minha conta de email, em 23 de Novembro de 2005:
“Humberto: Subscrevo sua opinião exposta hoje no Estado, sob o título “A decência de FHC”. Aproveito a oportunidade para lhe enviar, em anexo, o meu artigo “Palocci e a Convenção tucana”. Abraços, JASSON”
Abaixo, um trecho de minha resposta à mensagem, em 5 de Dezembro:
“Olá, Sr. Como vai?
Desculpe a demora em responder.
Agradeço sua atenção e, lamento, ainda não consegui abrir o anexo que Vsa. enviou-me.A verdade é que não sei mexer direito em computador.E, também, não possuo um próprio.
Sabe, acho que pela primeira vez, aqueles que me escrevem por causa de uma carta minha publicada em algum jornal, não foi para me xingar ( rs ).Ah, houve um, esqueci dele. me xingar ( rs ).Ah, houve um, esqueci dele (…).”
Assim se deu o início das conversas entre eu e Jasson de Oliveira Andrade. Ele viu uma carta minha, publicada no Estadão, e comunicou-se comigo. Foi o único que não me xingou. Podem crer que vários desses caras que têem suas cartas publicadas quase todos os dias, também me contataram. À época eu, metido a sabichão, enviava cartas quase diariamente para a seção dos leitores de jornais e revistas.
Posteriormente, abandonei aos poucos este hábito e passei a escrever um blog. E pedi a Jasson que continuasse me enviando seus artigos, permitindo-me a publicação deles no blog ( foi assim mesmo? ). O que, decididamente, enriqueceu um espaço que, a depender de mim, não prometia muito. Prova disso é que o primeiro artigo de Jasson que postei no Cata-Milho, data apenas de 09 de Junho de 2006: http://ohomemfebril.blogspot.com/2006/06/pefelizao-do-psdb.html#links
A partir deste são dezenas de ( sempre elegantes ) artigos tratando, principalmente, de questões políticas do país. Escritos, primordialmente, para veículos regionais de imprensa, foram cedidos gentilmente por Jasson a este blog, e constituem importante fonte para reflexões acerca de momentos significantes pelos quais o Brasil passou nos últimos 3 anos.
O AUTOR
Filho e neto de fazendeiros ( seu pai, udenista simpatizante, gerente da Cooperativa Agrícola de Cotia, posteriormente se filiou ao partido de Adhemar de Barros, o PSP, e foi candidato a vereador por este partido ), Jasson cresceu, estudou e formou-se em São João da Boa Vista ( SP ).
Lecionou por pouco tempo e ingressou no Samdu ( o Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência, foi conquistado à região pelo deputado petebista [ Varguista e Janguista ] Miguel Jorge Nicolau, importante ex-vereador e prefeito do município de São João da Boa Vista, ), onde trabalhava quando da eclosão do golpe de 64, e de onde foi demitido por sua ligação política ( então suplente de vereador pelo PTB, assumiria o cargo com a cassação dos mandatos dos titulares, mas renunciou sem tomar posse ). Paralelamente ao trabalho no Samdu, exercia a função de redator no jornal O Município, de propriedade de Miguel Nicolau. Foi um dos vários cidadãos presos em meio ao período de caça às bruxas comunistas que se seguiu à deposição de Jango. Formou-se em advocacia e colabora, conforme já foi dito, com diversos jornais regionais do interior de São Paulo.

O LIVRO
Da mesma forma que Jasson de Oliveira Andrade minimiza o papel de seu trabalho, afirmando que este “não tem objetivo histórico” ( que não tenha sido concebido com este objetivo, tudo bem, mas qualidades para isso possui, Jasson ), eu também não pretendo fazer uma resenha. Nem gabarito para isso eu tenho. E, tendo recém terminado a primeira leitura da obra, com uma infinidade de informações saídas de suas 298 páginas ( descontando registros fotográficos e documentos anexos ),e ainda não digeridas por completo, temo não estar a altura do serviço exigido.
Pois uma resenha profissional é o que “Golpe de 64…” merece.
“(…) Este livro não tem objetivo histórico (…) Pretendemos com ele apresentar textos e documentos que estavam perdidos nas páginas de heróicos jornais da região, publicados aqui sem uma ordem cronológica e apenas levando em conta os temas enfocados, favorecendo uma pesquisa mais aprofundada no futuro por verdadeiros historiadores (…) “.

TRECHO DA INTRODUÇÃO, pág. 10
“(…) Valter Peres Franco, jornalista, professor e ex-vereador, em carta a mim ( OBS: ao autor ) dirigida, datada de 20 de novembro de 1984, sugeriu-me:
‘Acredito que cabe a todos nós, você, eu e outros companheiros, elaborarmos um estudo aprofundado deste período através dos documentos existentes ( relatórios, inquéritos, processos, etc. ) para relatarmos às gerações que nos sucederem a verdadeira história do golpe de 1964 em São João da Boa Vista’.
“Agora, vinte e três anos após o pedido, estamos entregando o presente livro, o qual, acredito, cumpre o que nos sugeriu o filho do também jornalista e ex-vereador José Peres Castelhano, que faz parte de nossa história política, principalmente daquele período (… )”.
TRECHO DA INTRODUÇÃO, pág. 09
O livro possui duas partes distintas. Três, se considerarmos os anexos ( inclui-se aí, a peça de defesa de Jasson frente ao processo que respondia por “subversão” ) e registros fotográficos diversos, não só do período do regime militar. Vou tentar comentar em dois posts. O primeiro, hoje.
A segunda parte, é composta de uma série não-cronológica ( há, por exemplo, textos datados de 1986 e mais recentes, de 2007 ) de artigos sob o tema “Política Nacional”, que nos dão a medida exata do que foi o período compreendido entre 64 e 1985 para o Brasil.
Todos os episódios, dramáticos, trágicos e relevantes para o Brasil, a partir de 1930 são tratados, por meio de artigos curtos, neste capítulo. Mostra-se o papel desempenhado por personagens como Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Tancredo Neves, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, Costa e Silva, Castello Branco, Leonel Brizola, João Goulart e outras personagens do poder e de que modo contribuíram para que fossem eternizados na historiografia política brasileira.
Passagens como o papel do “complexo” IPES-IBAD na preparação ao golpe, a participação da CIA, as diatribes do corvo Lacerda e sua posterior queda em desgraça, a despeito de sua participação como um dos cabeças civis do levante militar que depôs Jango. Não foi o único: Jasson mostra que quase todos os mais importantes líderes e apoiadores do levante de 64, fossem eles civis ( como o próprio governador da Guanabara, Carlos Lacerda, o Governador de São Paulo, Adhemar de Barros, Pedro Aleixo, vice de Costa e Silva, o dono do Estadão, Júlio de Mesquita Filho [ também perseguido por Getúlio Vargas ] etc ) ou mesmo militares ( general Olímpio Mourão Filho, p. ex. ) acabaram sendo postos para escanteio no decorrer do tempo.
Como destaques, a seqüência de artigos que examina as mortes suspeitas de políticos de oposição ao regime ( dez meses foram o suficiente para que os 3 mentores da Frente Ampla, a saber, JK, Jango e Lacerda deixassem de ser preocupação para o governo militar ); outra sequência, desta vez revendo as mortes ( “trágicas” ) de ex-presidentes brasileiros, como Vargas, JK, Costa e Silva e Jânio Quadros; a promulgação do AI-5.
Breves e interessantes, textos que abordam o importante período de Vargas na Presidência, desde a revolução de 30, com a sequënte deposição de Washington Luís e a posse do gaúcho, até o Golpe que culminou na criação o Estado Novo, com influência do fascismo europeu.
Com a “descoberta” do chamado Plano Cohen ( a meu ver, uma aparente versão tupiniquim do Protocolo dos Sábios do Sião – foi redigido por um integralista [ que, mais tarde, tornou-se um dos pontas-de-lança da revolução de 64, o então capitão Olímpio Mourão Filho ] e simulava um aparente plano judeu-comunista de derrubada do governo e tomada do poder ), o perigo comunista passa a justificar a repressão a que Vargas lançou o país, tendo o governo, inclusive, flertado com o Integralismo para, depois, acabar banindo o movimento encabeçado por Plínio Salgado. Tempos depois, [ comenta Jasson a partir do livro A Ditadura Envergonhada, de Élio Gaspari ] um ex-ministro do Estado Novo de Vargas, Vicente Ráo, ajudou o líder civil do golpe Mesquita Filho na redação de uma proposta a Ato Institucional; entre as sugestões, a dissolução de todas as câmaras legislativas nos três níveis, sem exclusão do Senado, suspensão do habeas-corpus, cassação de mandatos de prefeitos e governadores, entre outras medidas “saneadoras”.
Num próximo post, o maior atrativo e mérito do livro de Jasson: o golpe de 64 em nível local. Creiam: apesar da seriedade que o assunto merece, há “causos”…
Em breve!

maio 17, 2008

Dilma mente para Ditadura Militar

Jasson de Oliveira Andrade
Convocada a depor, a ministra Dilma Roussef esteve no Senado. Uma intervenção desastrosa do senador José Agripino (DEM-RN), que pensava em deixá-la em situação difícil, ao contrário, tornou-a uma heroína. É o que vamos ver a seguir.
A participação do senador do DEM mereceu críticas gerais. Dora Kramer, em artigo ao Estadão (9/5/2008), afirmou que “a oposição foi irretocavelmente incompetente”, dizendo ainda que “os senadores aliados sim, deram um show. De categoria e habilidade política.”

A Folha, em editorial sob o título “Revés da oposição”, comentou: “Na tarde de ontem [7/5], tudo começou com uma péssima idéia do senador José Agripino (DEM-RN): julgou pertinente trazer à baila uma entrevista em que a ministra contou ter mentido muito às forças da repressão. (…) “Eu fui barbaramente torturada, senador”, respondeu Dilma Rousseff. “Qualquer pessoa que ousar falar a verdade para os torturadores, entrega os seus iguais. Eu me orgulho muito de ter mentido na ditadura, senador”. (…)
A força emocional e política de uma resposta desse tipo só poderia marcar NEGATIVAMENTE (destaque meu) as acirradas disposições de ânimo com que a oposição iniciava seus questionamentos”.
O jornalista Luiz Antonio Magalhães, no seu Blog Entrelinhas, constatou: “PT vibrou com a atuação de Agripino Maia”. É verdade. Como a ministra foi convocada para falar do PAC, embora a oposição preferisse questionar sobre o Dossiê sobre os gastos do governo de Fernando Henrique Cardoso, o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) ironizou: “Já que o assunto é PAC, podemos dizer que o senador José Agripino pavimentou a estrada para a ministra Dilma brilhar”.
Eliana Cantanhêde, em artigo à Folha, opinou: “Quem disparou primeiro contra ela [Dilma] e errou feio foi o
senador José Agripino Maia, do DEM, que tentou ser esperto ao dizer que a ministra “mentiu muito” na ditadura militar. (…) Disse que tinha orgulho de ter mentido, porque mentir significou suportar tortura para salvar a vida de companheiros. De quebra, foi ferina, apesar de elegante, ao fazer o confronto entre ela, que combatia a ditadura, e Agripino, ex-Arena e ex-PDS, que a defendia. “Estávamos em campo opostos.” Havia algum espaço para a tréplica?” Realmente, Agripino iniciou na política, segundo a Folha, com a nomeação dele pelo governo militar para a Prefeitura de Natal em 1979. Começou mal, como prefeito “biônico”!
Noblat, em seu Blog, comenta: “Ela [Dilma] entrou na sala da Comissão [do Senado] como suspeita de ter encomendado um dossiê sobre despesas sigilosas do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Saiu como a heroína que aos 19 anos de idade foi presa e torturada por agentes de ditadura militar de 1964, e mesmo assim NÃO DEDUROU NINGUÉM (destaque meu).” Noblat ainda revelou: “Outro dia, o governador de São Paulo José Serra (PSDB), aspirante à vaga de Lula, alertou seus companheiros de partido: “Se continuarem tratando Dilma dessa forma ela acabará emplacando como candidata. E com chances de vencer”. (…) Advertência de Serra, hoje, ganhou mais robustez”. Com razão. O próprio deputado Vic Pires Franco (DEM-PA), atuante parlamentar, reconheceu: “A expectativa era que a ministra seria detonada, mas ela é que nos detonou”.
Quanto aos Dossiês sigilosos, em minha opinião, deveriam ser realmente divulgados, sejam de Fernando Henrique ou de Lula!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu e autor do livro “
O GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA
Maio de 2008

abril 6, 2008

Ziraldo e Jaguar, entre outros, receberão indenização por perseguições do regime militar

Jaguar e Ziraldo receberão mais de R$ 1 milhão como indenização
Comunique-se
Ziraldo Alves Pinto e Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, foram contemplados com as maiores indenizações na Sessão Especial da Comissão da Anistia do Ministério da Justiça, promovida na sexta-feira (04/04) na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio, que julgou o processo de 20 jornalistas. Jaguar receberá uma pensão mensal de 4.375,88 e um retroativo de R$ 1.027.383,29. Ziraldo terá direito ao mesmo valor, e retroativo de R$ 1.000.253,24. Ambos podem recorrer da decisão.
Os dois, fundadores do Pasquim e colaboradores de diversos veículos da imprensa brasileira nos últimos 40 anos, foram indenizados por serem vítimas da opressão do Estado na ditadura militar. Jaguar não esteve presente. Já Ziraldo fez questão de abraçar o conselheiro Egmar José de Oliveira, e depois afirmou que recebe uma aposentadoria de R$ 1 mil.
Todos os 20 jornalistas foram anistiados. O valor da indenização é relativo ao cargo máximo que ocuparam durante o regime em equivalência com os salários atuais, de acordo com as tabelas da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Os valores retroativos contam a partir da entrada do requerimento na Comissão da Anistia, adicionada de uma “retroatividade qüinqüenal”, ou seja, incluindo os cinco anos anteriores na conta.
Jaguar e Ziraldo receberam um valor acima dos demais por já terem processo encaminhado no Ministério do Trabalho.
Tarso Genro terá que autorizar as indenizações
Outros jornalistas de renome estão entre os anistiados. Reynaldo Jardim, ex-diretor de jornalismo da Rede Globo, ex-diretor do Jornal do Brasil e fundador do jornal O Sol, receberá também a pensão mensal de R$ 4.375,88 e retroativo de R$ 373.040,77. Rosa Gomes Malta receberá a indenização post morten de seu marido, Otávio Malta, editor-geral e colunista do Última Hora, no valor de R$ 360.134,42, além de pensão de R$ 4.375,88.
Ricardo de Moraes Monteiro, ex-editor regional da Gazeta Mercantil e atual assessor especial de comunicação do Ministério do Planejamento, receberá a pensão de R$ 4.375,88 e indenização retroativa de R$ 590.014,59. Sinval Leão, diretor da Revista Imprensa, foi contemplado também com R$ 4.375,88 mensais e um retroativo de R$ 572.438,04.
Cabe recurso a todos os processos. As indenizações serão pagas a partir de portaria assinada pelo ministro da Justiça e publicada no Diário Oficial.
Conheça abaixo os demais anistiados
Joana D’arc Bizzoto Lopes – pensão de R$ 4.592,70 e indenização de 860.748,53.
Julieta Rocha Moreira Cabral – pensão de R$ 4.375,88 e indenização de 944.679,56.
Maria Regina Pedrosa de Senna Fiqueiredo – pensão de R$ 3.281,90 e indenização de 468.983,50.
Carlos Guilherme de Mendonça Penafiel – pensão de R$ 4.375,88 e indenização de 609.487,15.
Maria Ignes da Costa Duque Estrada Bastos – pensão de R$ 4.375,88 e indenização de 571.652,86.
Nilson Nobre de Almeida – pensão de R$ 4.375,88 e indenização de 911.204,08.
Pery de Araújo Cotta – pensão de R$ 4.375,88 e indenização de 534.951,33.
Maria José Rios Peixoto da Silveira Lindoso – pensão de R$ 4.375,88 e indenização de 530.940,11.
Tamar de Castro Oliveira – pensão de R$ 4.375,88 e indenização de 487.837,69.
Jorge Saldanha de Araújo – pensão de R$ 3.281,91 e indenização de 325.564,48.
Orlando Maretti Sobrino – pensão de R$ 4.375,88 e indenização de 423.220,53.
Ari Candido Fernandes – pensão de R$ 4.375,88 e indenização de 416.729,64.
Amaro Alexandrino da Rocha – pensão de R$ 4.581,97 e indenização de 404.893,42.
Josail Gabriel de Sales – pensão de R$ 4.375,88 e indenização de 378.349,78.

abril 3, 2008

Celso Lungaretti: ENTREVISTA AO JORNAL "A TRIBUNA", DE SANTOS (SP), SOBRE O "INFELIZ ANIVERSÁRIO"

31/03/2008
Entrevista: Celso Lungaretti
Jornalista, escritor, ex-militante da VPR e ex-preso político

Lídia Maria de Melo
Editora de Local
A família de Celso Lungaretti não era politizada em 1964, quando o golpe militar do dia 31 de março derrubou o governo do então presidente João Goulart. ‘‘Os acontecimentos políticos ainda pareciam distantes da minha realidade’’, lembra o jornalista, escritor e ex-preso político que tinha 13 anos na época.Três anos depois, seguindo ‘‘o sentimento difuso de contestação da autoridade’’ que havia na juventude brasileira e de outros países, Lungaretti ingressou no movimento estudantil. ‘‘O rito de passagem passou a ser a luta política’’.
Estava com 18 anos, quando o marechal Arthur da Costa e Silva assinou o Ato Institucional (AI) nº 5, em 13 de dezembro de 1968, e o País perdeu suas garantias constitucionais. O Congresso foi fechado e direitos civis e políticos ficaram suspensos.
O jovem Lungaretti, então, assumiu o codinome de Júlio e tornou-se o mais novo entre os dirigentes de uma organização de esquerda que defendia o combate à ditadura pela luta armada, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Ao lado de Carlos Lamarca, atuou em um campo de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira em 1970. Ex-capitão do Exército e exímio atirador, Lamarca havia desertado do 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna (SP), e se tornara um dos maiores inimigos do regime. Logo depois, Lungaretti foi preso. Permaneceu incomunicável e sob sessões constantes de torturas. Em consequência, teve um tímpano perfurado e abalo mental. Acabou revelando a localização da área de treinamento desativada no Vale do Ribeira. O Exército, no entanto, descobriu o campo ativo e cercou Lamarca, que conseguiu escapar ileso. A partir daí, Lungaretti foi classificado como delator pela VPR.
Soube disso porque seu nome não foi incluído na lista de presos políticos que deveriam ser libertados em troca do cônsul da Alemanha, Ludwig Von Holleben, sequestrado pela organização. No limite de suas forças, Lungaretti cedeu à pressão e renunciou a seus ideais. Uma carta e sua foto foram publicadas em jornais. Diante de câmeras de TV, foi forçado a se arrepender. Por 34 anos, se viu estigmatizado. Só em 2004, suas versões dos fatos foram aceitas pela Comissão Nacional de Anistia. No ano seguinte, publicou o livro Náufrago da Utopia — Vencer ou Morrer na Guerrilha. Aos 18 anos, pela Geração Editorial.Em entrevista a A Tribuna, Celso Lungaretti, hoje com 57 anos, fala sobre sua experiência na VPR, sobre tortura e as consequências da ditadura para o País. Também critica a posição do jornalista Elio Gaspari sobre o episódio da explosão de uma bomba no consulado dos Estados Unidos, em São Paulo, na noite de 20 de março de 1968.
O que o levou, aos 18 anos, a aderir à luta armada para combater a ditadura?
Comecei a fazer movimento estudantil em 1967. Em seu processo de afirmação, os jovens já não se chocavam mais com os pais repressores, e sim com o ‘‘sistema’’. Em 1968, tornei-me dirigente do movimento secundarista em toda a Zona Leste de São Paulo. Quando o acirramento da repressão tornou praticamente suicida o trabalho de massas, só os oito líderes estávamos dispostos a seguir em frente, correndo todos os riscos em nome dos ideais de liberdade e justiça social.
Nem todas as organizações de esquerda pegaram em armas. Como avalia essa opção?
Havia uma ditadura feroz, que respondeu à resistência desarmada com torturas e assassinatos, além de deixar os paramilitares de direita agirem à vontade. Depois da assinatura do AI-5, mergulhando o Brasil num terrorismo de estado que chegava a lembrar o nazi-fascismo, as opções passaram a ser: 1) não atuar politicamente, à espera de dias melhores; 2) atuar de forma anódina, sem incomodar realmente a ditadura; 3) atuar de forma consistente no seio das massas e ser logo preso e barbarizado; e 4) atuar na clandestinidade, pela via armada, o que permitia, pelo menos, permanecer algum tempo na luta e devolver golpes do inimigo, causando-lhe problemas. Então, a minha avaliação é de que agimos como verdadeiros cidadãos e pagamos um preço terrível por isso.
Seu livro aborda o treino de guerrilha junto com Lamarca no Vale do Ribeira. Por que o sr. foi acusado de delação?
Fiz parte da equipe precursora que foi implantar uma escola de guerrilha na região de Registro. O sítio que adquirimos tinha muitos inconvenientes. Passados dois meses, resolvemos abandonar essa área. Fui preso depois de quatro meses e, após ser torturado um dia inteiro, revelei a localização daquela área de treinamento abandonada, por saber que de nada serviria para a repressão. Realmente, os militares mandaram duas equipes para investigar e elas voltaram de mãos abanando. Aí houve novas prisões no Rio de Janeiro e a área ativa foi descoberta. Lamarca liderou a fuga de um pequeno grupo de guerrilheiros, que logrou escapar de militares treinados e melhor equipados. Logo em seguida, houve o sequestro do embaixador alemão e eu deixei de ser incluído na chamada lista de troca. Pelos critérios da organização, eu tinha direito de ser libertado. Adivinhei que estavam me atribuindo erroneamente a responsabilidade pela queda da área de treinamento. Demorei 34 anos para conseguir provar, a partir de relatórios secretos militares, que a delação da área ativa partiu de outra pessoa, cujo nome, por questão de princípio, prefiro omitir. Quando o historiador Jacob Gorender avalizou minha versão, admitindo em seu próprio livro Combate nas Trevas que estava errado a meu respeito, começou o processo da minha reabilitação.
O sr. foi obrigado a renunciar a seus ideais. Qual foi o teor da declaração?
Foram mais de dois meses de incomunicabilidade, embora mesmo as leis de exceção daquele tempo só permitissem um mês. Cheguei no limite das minhas forças. Depois de ter o tímpano do ouvido direito estourado e sob ameaça de morte, acabei participando de uma farsa de arrependimento, gravada no estúdio da TV Globo no Jardim Botânico (RJ) em plena madrugada e levada ao ar em cadeia nacional. O objetivo do Serviço de Inteligência do Exército foi reforçar o impacto obtido com a rendição do jovem Massafumi Yoshinaga, que renegou os ideais revolucionários (e depois se suicidou). Quanto às declarações que eu dei, só uma vinha do fundo da minha alma: o conselho a outros jovens para que não entrassem na luta naquele momento, pois já estava perdida e eles se sacrificariam à toa.
Seu livro é uma forma de esclarecer esses episódios históricos?
Quando escrevi, eles já estavam esclarecidos. O Gorender me inocentara no episódio de Registro e o relator do meu processo na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça ( Márcio Gontijo, ex-presidente da Seção Brasileira da Anistia Internacional ) me qualificara de um dos pleiteantes mais atingidos em seus direitos pelo arbítrio ditatorial. Então, pude fazer o livro com um foco mais nobre: mostrar os riscos a que estão sujeitos os jovens quando participam de uma guerra de adultos. Quis fazer justiça ao sacrifício dos companheiros e amigos que entraram comigo na guerrilha.
Que erros a esquerda cometeu no combate à ditadura?
Independentemente de erros, o desfecho acabou sendo o mesmo nos vários países latino-americanos em que se implantaram ditaduras militares durante as décadas de 1960 e 1970. Então, eu diria que eram lutas impossíveis de serem vencidas — e, ainda assim, teria sido indigno nem sequer havê-las travado. No caso específico do Brasil, os grupos guerrilheiros superestimaram a insatisfação popular perceptível em 1968 e 1969. Sendo o Brasil um país pobre, bastou os Estados Unidos aumentarem substancialmente seus investimentos para a economia decolar e o regime passar a ser apoiado, principalmente pela classe média.
Hoje, a população está ciente do que ocorreu no País de 1964 a 1985?
Não. Boa parte dos jovens não quer nem saber do passado, como se o mundo só tivesse começado a existir no dia em que eles nasceram. Há também aqueles cidadãos idosos para quem a ditadura está associada às lembranças de dias melhores. Como naquele tempo a imprensa era rigidamente censurada, têm a falsa impressão de que havia menos corrupção e criminalidade. Então, ajudam a espalhar uma visão deturpada dos anos de chumbo, que vem ao encontro da propaganda atordoante de uma extrema-direita golpista que, encastelada em sites neo-integralistas, sonha com um novo 1964.
No caso do atentado ao consulado dos Estados Unidos em 1968, no qual o santista Orlando Lovecchio perdeu parte de uma perna, que erros estão sendo divulgados atualmente?
Este é um ótimo exemplo da demagogia inspirada pela direita. A Comissão de Anistia recomendou o pagamento de uma pensão a Diógenes de Carvalho, por ter sido preso e torturado pela ditadura. Cabe ao ministro da Justiça decidir se aceita ou não tal recomendação. Aí o jornalista Elio Gaspari colocou em sua coluna dominical, publicada em vários jornais, que Diógenes receberia duas vezes mais do que a vítima de um atentado por ele cometido, Orlando Lovecchio. Gaspari omitiu: que a pensão de Lovecchio foi concedida pelo Congresso Nacional, cujos procedimentos são diferentes dos do Ministério da Justiça, daí a impropriedade de quaisquer comparações; e que não havia evidências para acusar-se Diógenes de ser autor do atentado, além dos inquéritos policiais-militares da ditadura, contaminados pela prática generalizada da tortura e que, juridicamente, não valem absolutamente nada hoje em dia. Daí minha indignação contra Gaspari, que abusou de seu espaço na mídia para condenar Diógenes e aplicar-lhe a pena de execração pública, fazendo as vezes de juiz e carrasco.
Quem realmente participou?
Gaspari disse que a ação foi da VPR e acusou Diógenes, Dulce Maia, Sérgio Ferro, Rodrigo Lefèvre ‘‘e uma pessoa que não foi identificada’’. Logo depois, a Folha (de S. Paulo) e o próprio Gaspari admitiram que Dulce Maia era inocente dessa acusação e lhe pediram desculpas públicas. Aí veio o Sérgio Ferro e esclareceu que o atentado havia sido cometido por outra organização (a ALN), tendo como autores ele próprio, Lefèvre e um tal de Marquinhos, que logo foi morto pela repressão e cujo nome ele não ficou sabendo. Ou seja, Gaspari deu cinco chutes e errou três, por confiar no entulho autoritário. Como a participação do Diógenes não foi provada, sua matéria inteira desabou.
Em um artigo, o sr. escreveu que o arquiteto Sérgio Ferro foi processado por Lovecchio, mas ganhou a ação, porque laudos médicos atestavam que o ferimento da perna dele se complicou por culpa dos agentes do Deops. Como se deu isso?
Lovecchio só perdeu a perna porque seu atendimento médico foi interrompido para que o Deops o interrogasse, provavelmente supondo tratar-se de um participante do atentado atingido pela própria bomba, o que acabou causando a gangrena. Então, o laudo inicial dá conta de que ele poderia restabelecer-se bem do atentado. Já o outro relatório atesta que, no tempo em que ele ficou sendo interrogado pelo Deops, sua perna gangrenou e não podia mais ser salva.
Se fosse possível escolher, o sr. se engajaria novamente na luta contra uma ditadura? Ou mudaria métodos de ação?
Pegar em armas deve ser sempre a última opção. Mas, numa situação como a que existia no Brasil em abril de 1969, quatro meses depois da assinatura do famigerado AI-5, eu pegaria em armas de novo, sim. Pois aquela passou a ser a única forma de resistência possível. E eu continuo fiel aos valores da minha geração, como o de que, diante das injustiças extremas, ser omisso é ser cúmplice.

março 26, 2008

Celso Lungaretti confronta mais uma vez "entulho autoritário" de Elio Gaspari

COMPANHEIROS E AMIGOS:
A POLÊMICA QUE EU E OUTROS ARTICULISTAS ESTAMOS TRAVANDO COM ELIO GASPARI E A “FOLHA DE S. PAULO” TEM UM SIGNIFICADO MAIOR: EXTIRPAR DE VEZ ESSA ERVA DANINHA QUE É O USO DE INFORMAÇÕES CONTAMINADAS PELA TORTURA ( E, PORTANTO, SEM VALOR LEGAL NENHUM ) PARA ACUSAR PERSONAGENS HISTÓRICOS NA IMPRENSA E NA INTERNET.
A ÚLTIMA COLUNA DO GASPARI ESTÁ ABAIXO, PARA QUEM QUISER AVALIAR. E A MINHA RESPOSTA ( QUE LHES ESTOU REPASSANDO EM VERSÃO CONDENSADA ) EVIDENCIA QUE, MAIS DO QUE UM HISTORIADOR EM QUEM SÓ OS DESINFORMADOS CONFIAVAM, ESTÁ SENDO CONFRONTADA UMA PRÁTICA SISTEMÁTICA DE DESMORALIZAÇÃO DOS PARTICIPANTES DA RESISTÊNCIA À DITADURA MILITAR, MEDIANTE DIFAMAÇÕES E CALÚNIAS.
PEÇO A TODOS QUE REDOBREM SEUS ESFORÇOS PARA QUE AS POSIÇÕES CIVILIZADAS TAMBÉM CIRCULEM E CHEGUEM AOS LEITORES, JÁ QUE O ENTULHO AUTORITÁRIO TEM AMPLO E IRRESTRITO ACESSO À GRANDE IMPRENSA.
EM DEFESA DA DIGNIDADE, DA VERDADE E DA JUSTIÇA,
CELSO LUNGARETTI

SOBRE HISTORIADORES E ARAPONGAS
Celso Lungaretti (*)
O episódio algoz e vítima, que vem provocando uma discussão tensa desde o dia 12, trouxe à tona acontecimentos dolorosos, mas serviu também para aclarar o papel hoje desempenhado pela grande imprensa e por um de seus expoentes mais destacados.
As máscaras foram arrancadas e os leitores, perplexos, vão se dando conta de que formam opinião a partir de informações distorcidas, altamente manipuladas, enquanto os defensores da verdade não encontram tribuna, não têm verdadeiro direito de resposta nem espaço para apresentar o outro lado.
Tudo começou quando o jornalista e historiador Elio Gaspari publicou em sua coluna na Folha de S. Paulo, O Globo e outros jornais uma diatribe contra a União (“Em 2008 remunera-se o terrorista de 1968”), por ter decidido pagar ao suposto algoz Diógenes Carvalho de Oliveira uma indenização duas vezes maior do que a outorgada à sua suposta vítima Orlando Lovecchio Filho.
Como o primeiro era um militante da Resistência à ditadura e o segundo, o cidadão que perdera a perna no atentado supostamente por ele cometido, o assunto logo transbordou do circuito habitual do Gaspari para outros jornais, revistas semanais, sites de extrema-direita e correntes de e-mails neo-integralistas.
Desde então, as refutações têm sido sempre ignoradas ou relegadas à seção de cartas (cortadas até se tornarem anódinas, publicadas com imenso atraso, etc.), enquanto os espaços nobres servem para repercutir o texto de Gaspari ou trazer-lhe acréscimos, na vã tentativa de respaldar suas afirmações indefensáveis.
Tanto a Folha quanto Gaspari chegaram a reconhecer que, dos quatro militantes apontados levianamente como autores do atentado ao consulado estadunidense em 1969, Dulce Maia era inocente e havia sido por eles caluniada.
Mas, nem mesmo o depoimento do único participante ainda vivo desse atentado obteve o merecido destaque, apesar de provocar uma verdadeira reviravolta no caso: Sérgio Ferro, admitiu sua culpa e seus remorsos, mas desmentiu a participação de Diógenes de Carvalho e Dulce Maia, além de esclarecer que se tratou de uma ação da ALN e não (como Gaspari afirmara) da VPR.
Outra informação importantíssima que a grande imprensa escamoteou de seus leitores: Ferro foi acionado na Justiça por Lovecchio e obteve ganho de causa graças aos relatórios médicos que apresentou como prova. O primeiro dá conta de que o ferimento de Lovecchio era grave, mas existia possibilidade de recuperação. Depois, o socorro a Lovecchio foi interrompido pelo Deops, que quis interrogá-lo, provavelmente para saber se ele era vítima do atentado ou um participante azarado. Quando os policiais afinal o liberaram, sua perna já havia gangrenado e teve de ser amputada (2º relatório).
Ora, se o algoz não era algoz, então o texto inteiro do Gaspari perdia o gancho e desabava, bem como as matérias caudatárias publicadas pela Veja e da Época. O que fizeram os veículos, face à evidência de haverem informado mal seus leitores, além de caluniarem dois cidadãos e acusarem falsamente a VPR? Deram desmentido com o mesmo destaque? Nem remotamente.
A consciência da vulnerabilidade de sua posição aos olhos dos (poucos) cidadãos bem informados fez Gaspari voltar ao assunto na sua coluna dominical de 25/03. E o fez recorrendo às informações que, desde o início, foram a viga-mestra de suas perorações fantasiosas: os famigerados inquéritos inquéritos policiais-militares da ditadura.
Como um mero araponga, ele se pôs a revolver o lixo ensanguentado da ditadura, dando grande importância ao fato de que havia congruência entre os depoimentos extorquidos dos torturados e omitindo que os torturadores forçavam todos os presos a coonestarem a versão oficial, a síntese elaborada pelos serviços de Inteligência das Forças Armadas, para que o resultado final tivesse alguma verossimilhança.
Se fosse, como pretende, um verdadeiro historiador, saberia que os militantes eram coagidos a admitir os maiores absurdos nas instalações militares e, depois, encaminhados a delegacias civis onde deveriam repetir, sem torturas, as mesmas afirmações. Os que, pelo contrário, desmentiam tudo, eram recambiados aos quartéis e novamente submetidos a sevícias brutais, até se conformarem em obedecer ao script.
Destrambelhado, Gaspari ousou até fazer novo ataque a Dulce Maia, a quem pedira humildes desculpas no domingo anterior. Que credibilidade espera ter, agindo com tanta incoerência?
A última intervenção de Gaspari no debate foi, de longe, a mais desastrosa. Colocou-o ao lado dos torturadores, defendendo o entulho autoritário. Se a inicial arranhou sua imagem de historiador, a derradeira disse muito sobre suas verdadeiras devoções.
O que, aliás, já se suspeitava: não é qualquer cidadão que desfruta de tal confiança de personagens como Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, a ponto de ser por eles escolhido para repassar ao distinto público suas desculpas esfarrapadas pelo papel histórico que desempenharam, como protagonistas do arbítrio.
O entulho autoritário - Se esse episódio deplorável serviu de algo, foi para comprovar, definitivamente, que o entulho autoritário deve ficar no lugar a que pertence: a lata de lixo da História.
Um regime de exceção utilizou práticas hediondas para investigar a ação dos resistentes que a ele se opunham e os inquéritos assim produzidos serviram para condenar patriotas, heróis e mártires em tribunais militares, com oficiais das Forças Armadas fazendo as vezes de jurados, o que atropelava flagrantemente o direito de defesa.
O quadro era tão kafkiano que, num julgamento em que fui réu, o advogado de ofício designado para um companheiro apresentou-se completamente embriagado e começou sua peroração não falando coisa com coisa. O juiz auditor o expulsou da sala e mandou que outro advogado de ofício improvisasse a defesa, imediatamente, mal tendo tempo para ler os autos. O julgamento prosseguiu.
A Lei da Anistia de 1979 sustou os efeitos concretos desses julgamentos e as ações seguintes do Estado brasileiro, como a constituição das comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos, evidenciaram que os antes tidos como criminosos passaram a ser considerados, oficialmente, vítimas.
Enfim, os IPMs foram, tão-somente, a versão que um inimigo apresentava do outro, para dar aparência de legalidade ao que não passava de arbitrariedade, sem compromisso nenhum com a verdade e a justiça.
Qual a credibilidade de um regime que fez afixarem-se em logradouros públicos do País inteiro, em meados de 1969, cartazes me acusando de “terrorista assassino” que teria “roubado e assassinado vários pais de família”, embora eu fosse um dirigente e nunca um homem de ação?
Mas, para aqueles militares, a verdade não existia em si. Só lhes interessava a verdade operacional, as versões mais adequadas a seus objetivos na guerra psicológica que travavam.
Passadas quatro décadas, essas versões unilaterais, fantasiosas e espúrias infestam a internet, chegando até a impregnar textos jornalísticos – por má fé dos seus autores ou por preguiça de profissionais que preferem colher subsídios nos sites de busca do que nos arquivos de seus próprios veículos, acabando por comer na mão dos Brilhantes Ustras da vida.
Então, é mais do que tempo da imprensa se compenetrar que, sem uma sentença lavrada por um tribunal na vigência plena do estado de direito, ninguém pode ser apontado taxativamente nos textos jornalísticos como “terrorista” ou autor de tais ou quais crimes com motivação política.
Os repórteres, comentaristas, articulistas e editorialistas que agirem de outra forma, estarão coonestando a prática de torturas e os julgamentos realizados por tribunais de exceção.
E, já que nada do que Gaspari contrapôs pode ser aceito pelos homens decentes que não aceitam mancomunar-se com práticas hediondas, subsiste o fato de que uma versão distorcida e panfletária do episódio teve enorme destaque editorial e, conseqüentemente, ampla repercussão, enquanto as informações que repuseram a verdade dos fatos ficaram, quando muito, jogadas na seção de cartas.
Que cada um tire suas conclusões acerca dessa praga que cada vez mais se alastra pela imprensa brasileira: a burla do direito de resposta e a tendenciosidade no tratamento editorial, não se expondo convenientemente o outro lado ou omitindo-o por completo.
Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

ELIO GASPARI

O terrorista de 1968 remunera-se em 2008
A família do soldado morto no atentado recebe R$ 1.140 mensais, já o rapaz da VPR fatura R$ 1.627
QUARENTA ANOS DEPOIS do atentado a bomba contra o Consulado Americano em São Paulo, Sérgio Ferro, intitulando-se “único sobrevivente” do grupo terrorista que fabricou, transportou e detonou o explosivo, informa:
1) Diógenes Oliveira e Dulce Maia não participaram dessa ação.
2) A ação foi iniciativa da ALN (Ação Libertadora Nacional), e não da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).Quem disse que Diógenes, o “Luís”, e Dulce de Souza, a “Judith”, participaram do atentado, organizado pela VPR, foi o doutor Sérgio Ferro em seu depoimento à polícia em 29 de março de 1971. Na ocasião, Ferro estava preso e a tortura era uma política de Estado para obtenção de confissões, verdadeiras ou falsas. Passados 37 anos, Ferro julgou oportuno corrigir seu testemunho. Em 1969, na prisão, Pedro Lobo de Oliveira e Diógenes, ambos da VPR, revelaram suas participações no atentado. Diógenes admitiu ter fabricado a bomba, com “um ou dois quilos de dinamite”.
Quando Ferro incriminou Dulce de Souza Maia, sabia que ela estava a salvo, no exílio. Além disso, uma bomba a mais, uma bomba a menos, não faria muita diferença na carga que a polícia imputava à dupla mencionada por Ferro.
Diógenes e Dulce foram associados a dois retumbantes atentados terroristas. No dia 26 de junho de 1968, a VPR lançou um caminhão-bomba com 15 quilos de dinamite contra o Quartel General do 2º Exército, em São Paulo. Na explosão, morreu o soldado Mário Kozel Filho, de 18 anos. Dulce Maia contou sua participação nesse episódio numa entrevista a Luiz Maklouf Carvalho. Ela foi publicada no livro “Mulheres que foram à luta armada”, em 1998. Diógenes nunca falou publicamente sobre o caso. Os documentos conhecidos, que devem ser vistos com reservas, são o depoimento dele e de camaradas seus, todos presos. Diógenes admitiu ter fabricado a bomba. Onofre Pinto, que participou do atentado, disse que Diógenes acendeu o estopim.
Diógenes e Dulce também foram acusados de terem participado do planejamento e do assassinato do capitão americano Charles Chandler, em outubro de 1968. Na mesma entrevista a Maklouf, Dulce narrou sua colaboração no levantamento dos hábitos do capitão. Diógenes nunca discutiu esse atentado em público. Contudo, Pedro Lobo de Oliveira, seu colega de VPR, contou aos organizadores do livro “Esquerda Armada no Brasil”, premiado em Cuba em 1973, que eram três as pessoas que estavam no carro do qual partiram os assassinos do capitão: ele, que ficou ao volante, e mais dois, um com um revólver e outro com uma metralhadora. Pedro Lobo não os nomeou. Informou que a dupla só foi identificada quando um militante da VPR que “sabia quais os companheiros que haviam participado” contou o caso à polícia, na prisão. Esse “delator”, Hermes Camargo, tornou-se um colaborador do regime. Anos mais tarde ele repetiu o dois nomes numa entrevista a “O Estado de S. Paulo”: os atiradores foram Diógenes Oliveira, o “Luís”, e Marco Antonio Brás de Carvalho, o “Marquito”, morto meses depois do atentado.Assim como deve-se dosar o crédito às confissões de Sérgio Ferro e deve-se duvidar dos depoimentos de pessoas presas, é necessário registrar que a narrativa de Diógenes, preso, é semelhante à de Pedro Lobo, solto. Diógenes reconheceu ter sido um dos autores dos disparos.Orlando Lovecchio, que teve a perna esquerda amputada abaixo do joelho por conta da explosão da bomba que Sérgio Ferro e seus camaradas puseram no Consulado Americano, recebe R$ 570 mensais da Viúva. Os pais do soldado Mário Kozel conquistaram em 2003 uma pensão de R$ 330, reajustada no ano seguinte para R$ 1.140 mensais. Desde o dia 24 de janeiro, Diógenes ficou em melhor situação. Ele ganhou uma Bolsa Ditadura de R$ 1.627 mensais (as vítimas, juntas, recebem R$ 1.710), com direito a R$ 400 mil de atrasados. Repetindo: há algo de errado na aritmética das indenizações e numa álgebra que acaba remunerando melhor o terrorista que participou de um atentado do que a família da sentinela assassinada ou o transeunte amputado.

março 18, 2008

UMA COMPARAÇÃO LEVIANA, por Rui Martins

Direto da Redação
13/03/08
Berna (Suiça) – Desta vez, o que me chamou a atenção foi um texto distribuído pela Internet para emigrantes brasileiros na Suíça e Alemanha. Um texto do respeitável e competente Elio Gáspari, cujos livros da série Ditadura, adquiri nas minhas últimas viagens ao Brasil. O texto publicado na Folha de SP, comparando o que uma vítima do atentado de 20 de março de 1968 contra a embaixada americana em São Paulo, recebe do INSS, quando perdeu uma perna, com a aposentadoria paga a um dos autores do atentado pela Anistia. Elio Gaspari, jornalista e escritor, faz uma comparação, fora do contexto da época, e leva os leitores a um julgamento fácil e rápido, de culpado e inocente. Com esse mesmo tipo de argumentação se poderia condenar os resistentes ao nazismo na França ocupada. Os culpados pelos massacres de inocentes cometidos pelos nazistas em represália a atentados contra os ocupantes teriam sido os resistentes.
Fazer uma comparação entre indenizações decididas, 40 anos depois, omitindo o clima reinante na época da ditadura militar e aproveitando para colocar em questão o que animava a extrema esquerda contra a ditadura, não é nada correto. Conhecedor da situação como poucos, Gaspari optou por uma argumentação minimalista e, por isso leviana, que ignora o complexo quadro daqueles anos de chumbo.
Logo no começo da invasão americana ao Iraque, declarei, nas rádios em que falava e onde escrevia, que sempre chamaria os iraquianos de resistentes aos invasores e nunca de terroristas. Durante a ditadura militar, onde muita gente boa se enrustiu, não havia terroristas (essa era a designação dada pela governo e imprensa golpistas) mas resistentes. Idealistas, sonhadores, iludidos, irresponsáveis, tudo isso pode se discutir, mas, no caminho certo ou errado, eram movidos pelo desejo de resistir a uma situação ilegal, criada depois da deposição de um presidente e por instigação americana.
E pagaram caro por isso. Uma parte morreu, outros foram torturados e sofrem sequelas até hoje. Outros que não aderiram à luta armada mas que contestavam o regime tiveram de fugir e perderam carreira, vivendo e sofrendo o exílio. Diógenes, citado como um malvado premiado, sofreu torturas e, no exílo na África, apanhou malária, outro tipo de tortura permanente.
É dentro desse mesmo raciocínio que defendo a concessão da condição de refugiado ao italiano Cesari Battisti, ativista de uma facção de luta armada italiana, preso no Brasil e sob ameaça de extradição. Na verdade, existe hoje no Brasil, por parte da grande imprensa, a quase totalidade daquela que aderiu aos militares, uma campanha para desestablizar o governo, que apesar de numerosos erros, vem favorecendo o grande segmento da população pobre antes esquecido. E, pelo jeito, surge uma tendência negacionista, movida por uma lamentável vontade de reescrever a história. Isso faz parte da democracia, o debate franco ou desleal, porém, não se pode esquecer que no Brasil não existe imprensa de esquerda, que poderia defender o outro ângulo. Existem apenas alguns sites, jornais e revistas mantidos no benevolato, enquanto a direita dispõe de televisões, rádios e jornais de grande tiragem numa espécie esdrúxula de ditadura democrática da informação.

O HISTORIADOR TRAPALHÃO E O XIS DA QUESTÃO, por Celso Lungaretti

No último dia 12, o jornalista e historiador Elio Gaspari publicou em sua coluna na Folha de S. Paulo e outros jornais uma diatribe contra a União, por ter decidido pagar a um suposto algoz uma indenização duas vezes maior do que a outorgada à sua suposta vítima.
Como o primeiro era um militante da Resistência à ditadura e o segundo, a vítima do atentado supostamente por ele cometido, o assunto logo transbordou do circuito habitual do Gaspari para outros jornais, revistas semanais, sites de extrema-direita e correntes de e-mails neo-integralistas.
Na madrugada do próprio dia 12, já enviei uma nota à seção de cartas da Folha, contestando Gaspari. E, no dia seguinte, coloquei no ar em meu blog e enviei aos sites que me publicam e à minha rede de amigos o artigo O Gaspari de 2008 também não é mais o de 1968, afirmando, basicamente, que:
1. tudo indicava que, em suas alegações sobre o atentado à embaixada dos EUA em 1968, Gaspari havia se baseado em versões militares;
2. os inquéritos policiais-militares da ditadura militar jamais poderiam respaldar acusações contra quem quer que seja, pois estavam contaminados pela prática generalizada da tortura;
3. além disto, como os torturados freqüentemente admitiam o que os torturadores pensavam ser verdade, as ações da Resistência quase sempre eram relatadas nos IPMs com um número de participantes superior ao real, evidenciando que, além de inaceitáveis para as pessoas civilizadas, essas versões militares eram altamente fantasiosas e inconfiáveis.
Enquanto o panfleto de Gaspari era alegremente encampado pela grande imprensa, meu alerta ficou confinado à internet. Nem mesmo a Folha respeitou meu direito de apresentar o outro lado da questão, só publicando uma versão expurgada e reescrita (sem meu consentimento) da minha carta no dia 17.
O desfecho do caso foi exemplar.
O historiador Gaspari afirmara: “O atentado foi conduzido por Diógenes Carvalho Oliveira e pelos arquitetos Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre, além de Dulce Maia e uma pessoa que não foi identificada”.
A primeira a protestar foi Dulce Maia, provando que não participara de atentado nenhum. A Folha e Gaspari tiveram de dar a mão à palmatória, admitindo o erro e se desculpando.
Depois, Sérgio Ferro esclareceu que, dos quatro apontados por Gaspari, só ele e Levèvre eram realmente autores do atentado: “O Sr. Diogenes Carvalho de Oliveira e a Sra. Dulce Maia não participaram desta ação, a qual foi executada por Rodrigo Lefèvre, por ‘Marquinhos’ (não conheço seu nome, foi assassinado pela repressão pouco depois) e por mim”.
Outra bobagem de Gaspari foi se referir a “um atentado contra o consulado americano, praticado por terroristas da Vanguarda Popular Revolucionária”. Sérgio Ferro colocou os pingos nos ii: “… a ação (…) me foi proposta pela direção da ALN. e não pela VPR”.
Ou seja, de cinco imputações de Gaspari, duas estavam corretas e três erradas, inclusive a principal delas, ao satanizar Diógenes de Carvalho. O algoz não era algoz, afinal.
Resta saber se foi apenas um momento infeliz ou se o índice habitual de acertos dos livros de Gaspari sobre os anos de chumbo é de 40%…
Uma omissão significativa – Quanto à vítima, o arquiteto Orlando Lovecchio Filho, que perdeu a perna e teve de colocar uma prótese em razão de haver sido involuntariamente atingido pela explosão da bomba, Ferro também levanta uma questão importante, ao se referir aos “dois laudos médicos que seus advogados anexaram ao processo que moveram contra mim (a justiça se pronunciou a meu favor em duas instancias)”. Leiam com atenção:
“No primeiro, feito quando o Sr Orlando Lovecchio Filho deu entrada no Hospital para tratar seus ferimentos, a cura parece possível. Entretanto ele não pôde receber então tratamentos, pois foi levado para o Deops. Não sei o que passou durante seu interrogatório. Quando pôde ser enfim tratado, o segundo laudo, feito então, declara que sua perna havia gangrenado, tornando a amputação inevitável. Sem que eu negue minha responsabilidade quanto a seu ferimento – o que pesa em mim ha 40 anos – penso que sua amputação o faz também vitima do poder de então”.
Ou seja, enquanto o Deops decidia se Lovecchio era um transeunte que passava pelo local ou um dos autores do atentado (atingido pela própria bomba), a sua perna gangrenou. É lamentável que ele jogue toda a culpa e dirija todo seu rancor contra o lado mais fraco e omita a responsabilidade dos responsáveis pelo estado de exceção que originava prisões, torturas, mortes e, também, iniciativas insensatas das vítimas do arbítrio.
Paulo Abrão Pires Jr., presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, também soltou nota sobre o caso, explicando que esse colegiado negou o benefício ao arquiteto por não haver “dispositivo normativo na Lei da Anistia que preveja a reparação para o Sr. Orlando Lovecchio”.
Mesmo assim, este conseguiu noutra instância o que buscava: “o Congresso brasileiro aprovou legislação específica e individual ao Sr. Orlando Lovecchio instituindo a sua atual aposentadoria (Lei 10.923/2004). Lei esta que beneficia unicamente a ele, criando regime jurídico exclusivo a ele e indisponível para esta Comissão. A produção de tal Lei constitui nova prova da ausência de omissão estatal em relação a sua situação concreta”.
Se Lovecchio, ao invés de se voltar contra Sérgio Ferro e os resistentes que enfrentavam um estado ditatorial em condições de extrema desigualdade de forças, tivesse argüido a responsabilidade das autoridades policiais que lhe recusaram tratamento médico imediato, talvez houvesse conquistado uma pensão mais vultosa. Ironias do destino.
O entulho autoritário – Enfim, esse episódio acabou servindo para comprovar, definitivamente, que o entulho autoritário deve ficar no lugar a que pertence: a lata de lixo da História.
Um regime de exceção utilizou práticas hediondas para investigar a ação dos resistentes que a ele se opunham e os inquéritos assim produzidos serviram para condenar patriotas, heróis e mártires em tribunais militares, com oficiais das Forças Armadas fazendo as vezes de jurados, o que atropelava flagrantemente o direito de defesa.
O quadro era tão kafkiano que, num julgamento em que fui réu, o advogado de ofício designado para um companheiro apresentou-se completamente embriagado e começou sua peroração não falando coisa com coisa. O juiz auditor o expulsou da sala e mandou que outro advogado de ofício improvisasse a defesa, imediatamente, mal tendo tempo para ler os autos. O julgamento prosseguiu.
A Lei da Anistia de 1979 sustou os efeitos concretos desses julgamentos e as ações seguintes do Estado brasileiro, como a constituição das comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos, evidenciaram que os antes tidos como criminosos passaram a ser considerados, oficialmente, vítimas.
Enfim, os IPMs foram, tão-somente, a versão que um inimigo apresentava do outro, para dar aparência de legalidade ao que não passava de arbitrariedade, sem compromisso nenhum com a verdade e a justiça.
Qual a credibilidade de um regime que fez afixarem-se em logradouros públicos do País inteiro, em meados de 1969, cartazes me acusando de “terrorista assassino” que teria “roubado e assassinado vários pais de família”, embora eu fosse um dirigente e nunca um homem de ação?
Mas, para aqueles militares, a verdade não existia em si. Só lhes interessava a verdade operacional, as versões mais adequadas a seus objetivos na guerra psicológica que travavam.
Passadas quatro décadas, essas versões unilaterais, fantasiosas e espúrias infestam a internet, chegando até a impregnar textos jornalísticos – por má fé dos seus autores ou por preguiça de profissionais que preferem colher subsídios nos sites de busca do que nos arquivos de seus próprios veículos, acabando por comer na mão dos Brilhantes Ustras da vida.
Então, é mais do que tempo da imprensa se compenetrar que, sem uma sentença lavrada por um tribunal na vigência plena do estado de direito, ninguém pode ser apontado taxativamente nos textos jornalísticos como “terrorista” ou autor de tais ou quais crimes com motivação política.
Os repórteres, comentaristas, articulistas e editorialistas que agirem de outra forma, estarão coonestando a prática de torturas e os julgamentos realizados por tribunais de exceção.
Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
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