Juninho, um aluno de uma dessas escolas caras, tipo Dante, surgindo em uma banca de jornais, acompanhado pela mãe, naqueles 4 X 4 do tipo Troley, não sei se é essa a marca.
E pede para o comerciante um jornal ou revista, em que tenha algum texto sobre o aquecimento global, esse assunto aí que está na moda.
A professora pediu para fazer um trabalho, que vale boa nota, e o garoto quer passar de ano. Tem que fazer um trabalho bem bonito, com fotos, gráficos, capa criada no computador. E FODA-SE O CONTEÚDO !!!
Enquanto o jornaleiro, pacientemente, mostra para o garoto algumas publicações, a mãe começa a escolher algumas revistas para ela mesma. E também vai levar alguma coisa para o marido.
Quatro Rodas – claro ! – pois a família quer trocar de carro ainda neste ano; a Veja… a Caras… a Casa Cláudia, pois já está na hora de renovar a decoração…algumas revistas de moda e comportamento feminino, tipo Elle, Estilo e Vogue. Mas quer voltar logo para o carro, pois está o maior calor e lá dentro tem ar-condicionado ( remédio ideal para afastar o desconforto do aquecimento do planeta ) .
Enquanto isso, e sem a menor relação com os personagens acima, Vanessa está no bote perto da Facú, com a galera, tomando várias brejas ( e, daqui a pouco um beise e, talvez, sexo) , o bar está lotado, o pessoal animado. Alguns estão no 3º. ano de Jornalismo ou de Marketing, e já descolaram um estágio. Com isso, puderam comprar uma caranga. Outros pegaram uma moto. Todos os aqui presentes têm celular, e como conversam animadamente a cada vez que o aparelho toca.
Mesmo que não tenham percebido e, política partidária à parte, o país ( pelo menos para eles ) está passando por um período legal. Muitos deles são filhos de empresários da construção civil, ou do ramo imobiliário, incorporadoras e empreiteiras ( setores que estão arrebentando e fazendo dinheiro, muito dinheiro ) . Alguns desses empresários têm participações acionárias nas empresas concorrentes ou estão juntos em consórcios que controlam rodovias, as reformam e exploram o pedágio, um negócio sem riscos e muita grana de retorno.
Alguns dos estudantes fazem planos para o intercâmbio que farão na Austrália, Inglaterra ou Canadá. Para aprender outro idioma. Por enquanto, vão curtindo a vida.
Em outro local e sem relação alguma com os personagens já apresentados, Renatinho, outro garoto de um colégio particular tem uma tarefa semelhante ao do garoto do aquecimento global. Só que o trabalho escolar que este deve fazer tem como tema a Dengue.
E vai procurar algo na banca, junto com a mãe – que vai aproveitar e comprar a Quatro Rodas para o marido e a Cláudia para si.
O garoto pegou duas revistas e um jornal. Bastante informação para o trabalho ficar legal. Tem que ficar legal, pois passou o bimestre todo jogando Winning Eleven e esqueceu de estudar. Mas não só. O prédio onde mora tem, como anexo, um parque público que a incorporadora anunciou como exclusividade para quem comprasse uma unidade do novíssimo empreendimento estilo clássico. E o garoto tem passado bastante tempo no parque privativo da família, esquecendo de estudar. O trabalho sobre a dengue tem que ficar bem legal.
Clarisse Sabáto , que não conhece nenhum dos personagens acima, é proprietária de uma griffe localizada na região da Oscar Freire. Fã de Lú Alckmin, este ano Clarisse mandou confeccionar, para brindar seus clientes, agendas exclusivas produzidas por uma ONG a partir de papel reciclado. Compromisso ambiental e responsabilidade social são muito importantes hoje em dia.
Zezé, mosquito da espécie Aedes Aegyipt, acabou de picar o braço de Renatinho contaminando-o com o vírus da Dengue. Após dois dias de uma febre horrorosa e hemorragias pustulentas Renatinho, que acabou levando B+ no trabalho sobre a Dengue, morrerá.
Vanessa, jovem e com um futuro brilhante pela frente, bebeu demais no bote da Facú, fumou uma ponta, saiu dirigindo assim mesmo, passou no vermelho e, enquanto falava no celular, chocou-se com o carro em que estavam Juninho e sua mamãe. Todos os três morreram.
A mãe de Renatinho, ainda sob o estado de luto pela morte do filho, saiu às compras para amenizar a dor. Em seu roteiro do luxo, entrou na boutique de Clarisse Sábato para provar uns sapatos exclusivos. Clarisse ofereceu-lhe o mimo, a agenda de papel reciclado que a mãe de Renatinho começou a folhear.
“11 de Setembro – pensou – era o dia do aniversário do meu filhinho…”
E começou a chorar, no que foi confortada pela dona da boutique.
As pessoas devem ser solidárias na dor do próximo.
Enquanto isso o pai de Renatinho, também inconsolável, pega a Veja e procura informações sobre viagens. Quer levar a esposa a uma tour pelo Nordeste, para tentar esquecer um pouco da morte do filho.
Só que as notícias não são animadoras: o chamado “apagão aéreo” continua, conforme a capa da revista informa. O pai desabafa, para si mesmo:
“Esse país está um horror !!! Nem avião a gente pode pegar mais !!”