ENCALHE

junho 6, 2009

"Castigo extra", por Delfim Netto

Castigo extra
Mais um vez assistimos à penalização do setor exportador brasileiro devido à enorme flutuação a que está exposta a taxa de câmbio. Além da queda do volume do comércio mundial em decorrência da crise financeira, nossas empresas passaram a lidar mais recentemente com a perda de competitividade devido à forte valorização do Real. Um pedaço dessa valorização – todos sabemos – é o espelho da desvalorização do dólar que produz efeito parecido na moeda dos demais países, mas no caso brasileiro, estamos submetidos a um castigo extra: nos últimos meses, o Real foi exposto a um processo de supervalorização sem paralelo, devido ao ingresso de capitais atraídos pelo diferencial de juros interno e externo. A taxa de juros que oferecemos continua sendo a mais generosa do mundo para todo tipo de investimento financeiro. O Real foi a moeda que mais se valorizou neste período pós-crise, tirando a condição de nossos exportadores de enfrentarem a dura competição nos mercados. Isso acontece exatamente quando os concorrentes “forçam a mão” oferecendo substanciais descontos nos preços e “retornos” disfarçados em condições, digamos, heterodoxas. Nós vivemos um momento bastante curioso. Quando veio a crise, Brasil e China estavam em condições razoavelmente adequadas para enfrentar a situação externa, o Brasil talvez um pouquinho melhor porque é um mercado menos aberto que o chinês. Em relação a seus mercados internos os dois foram na mesma direção de estimular o consumo popular e acelerar investimentos na infra-estrutura para ocupar mão-de-obra, garantir empregos e sustentar a renda. Apesar de embaraçado com as questões ambientais, o Brasil vem avançando (liberou as usinas do Madeira, mas se enrola nas rodovias); perde longe, porém, para a China que liberou em um mês mais de cem projetos de construção de rodovias que estavam encrencados na burocracia ambiental. No campo externo, os chineses foram eficientes ao manter a moeda desvalorizada frente ao dólar e se tornaram ainda mais agressivos nas exportações, atropelando concorrentes em todos os cantos do mundo. Vão perder produto como os demais, mas saem de um crescimento de 9% para 7% este ano, menos 2% de PIB. O Brasil está ameaçado de não crescer este ano, uma forte queda em relação aos 5.1% de crescimento de 2008. A diferença em termos de eficiência entre os dois países é gigantesca: por conta de recuos desnecessários na política monetária, o Brasil não lançou mão a tempo da musculatura que estava disponível para defender seu setor produtivo do “apagão do crédito” importado e ainda permite a penalização extraordinária das empresas que investem e enfrentam os riscos no exterior. Não há justificativa para continuar segurando a queda das taxas de juro. É preciso eliminar os inconvenientes enormes dessa política, dentre os quais o maior deles é a volatilidade dramática da taxa de câmbio.
Antonio Delfim Netto

maio 30, 2009

"Economia do Brasil não vai andar de lado", por Delfim Netto

Economia do Brasil não vai andar de lado
29/05/09
Antônio Delfim Netto
Mesmo que a economia mundial “ande de lado” nos próximos anos, como preveem muitos economistas que têm sérias dúvidas sobre a capacidade de recuperação americana, não creio que a economia brasileira esteja condenada a ter níveis de crescimento medíocres no médio ou longo prazo.Estimativas respeitáveis apontam para uma saída lenta da recessão nos países desenvolvidos e a volta da expansão da economia global a partir de 2010 de forma ainda bastante lenta. No Seminário Internacional dos 15 anos da revista Carta Capital, em São Paulo, o professor Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, por exemplo, disse acreditar que o crescimento mundial será muito pequeno nos dois anos a partir de 2010.
Suas estimativas são muito respeitadas. Afinal, ele previu com razoável antecedência a quebradeira dos bancos e das financeiras no curso da especulação das hipotecas americanas. Não tenho motivos para discordar dessas avaliações quanto à economia global.
Vai demorar muito para que o mundo volte a viver uma expansão robusta como a dos últimos 10 anos e isso obviamente conterá a velocidade de crescimento dos países. Quanto ao Brasil, tenho excelentes motivos para acreditar que já no último trimestre deste ano estaremos com a economia em recuperação e em condições de voltar a crescer robustamente (entre 3.5% e 4%) em 2010.
Isso já nos colocará num nível de crescimento acima da expansão mundial no próximo ano, podendo continuar nos anos seguintes sem maiores problemas, na medida em que superarmos as ameaças de crise energética ou de dificuldades de financiamento externo.
Insisto em que isso é uma crença, pois ninguém tem condições de garantir paz, tranquilidade e juízo ao mundo.
O que nos dá segurança é o fato de que o Brasil hoje depende muito menos do exterior para crescer. O País depende, isso sim, de seu mercado interno, que se robusteceu de forma extraordinária nos vinte e um trimestres seguidos de crescimento desde o terceiro trimestre de 2003.
Em que pese a queda do ritmo de expansão a partir de setembro do ano passado, nos dois trimestres seguintes a economia não entrou em recessão e o desemprego foi contido. O potencial de crescimento da economia brasileira não diminuiu por causa da crise. Somos quase 200 milhões de habitantes num mercado de consumo com renda para sustentar um nível de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) importante, sem voltar a depender excessivamente da demanda externa.
Superamos aquela fase em que o Brasil só conseguia crescer durante os ciclos de expansão da economia mundial. Hoje temos a contrapartida de uma indústria altamente diversificada, apta a abastecer um mercado interno que cresceu nos últimos anos graças aos programas de combate à miséria, à redução da pobreza e principalmente ao aumento da renda salarial durante o Governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Sem esquecer a expansão do crédito facilitado, nos anos recentes, que garantiu o aumento do consumo de alimentos e dos bens das indústrias que respondem pela sustentação dos níveis de emprego.

maio 21, 2009

"Blindagem do BC ", por Delfim Netto

20/05/2009
É cada vez mais evidente que o Brasil “importou” uma crise de crédito no dia 16 de setembro de 2008 em dimensão muito superior à necessária.
O nosso sistema bancário havia sido “saneado” com o Proer em 1997 ( alguns de seus autores ainda respondem por isso na Justiça! ), e suas “ligações” com o sistema financeiro mundial poderiam ter sido sustentadas ( pelo menos no curto prazo ) por uma ação mais enérgica e mais expedita do nosso Banco Central.
Na falta dela, nossos banqueiros, infelizmente, mas compreensivelmente, entraram em pânico naquele domingo à tarde, quando o Tesouro americano e o Fed comunicaram ao mundo a grande “barbeiragem” do século 21. Haviam destruído um “nó” importante da grande rede de crédito mundial com o abandono do Lehman Brothers à sua própria sorte. Isso levou ao colapso instantâneo de toda a rede, antes mesmo de os mercados abrirem na segunda-feira…
Entre 2002 e 2008, nossa situação mudou completamente, como resultado da expansão mundial:
1) nossas exportações, que cresciam à taxa de 4% ao ano, passaram a crescer a 22%;
2) nossa dívida externa, que representava quatro anos de exportações, foi reduzida a um ano;
3) nossas reservas, que representavam 10% da dívida externa, passaram a 100% dela, e nosso crescimento econômico anual duplicou, sem risco para a taxa de inflação ou o equilíbrio externo.
Durante esse período, o nosso Banco Central adquiriu musculatura suficiente para dar conforto imediato aos bancos nacionais. Como explicar que, depois de oito meses, ainda estamos fazendo o que deveríamos ter feito em setembro: amenizar a redução do crédito interbancário e frustrar a busca pela liquidez que a insegurança impôs a todos os agentes do mercado ( banqueiros, empresários e trabalhadores )?
Há muitas hipóteses. Talvez a mais plausível seja a de que a estrutura jurídica existente não dava (e ainda não dá) “conforto” ao próprio Banco Central. Ele não recebeu suporte jurídico necessário e criou uma perigosa filosofia: banco grande é melhor do que banco pequeno, e banco público é melhor do que banco privado, dificultando ainda mais o restabelecimento do crédito interbancário.
A situação do crédito está melhorando, mas ainda está muito longe da normalidade e, na margem, o seu custo continua absurdo. O BC agiu na direção correta, mas sem convicção, e estamos pagando um alto preço por isso.
Talvez seja hora de o “blindarmos”, de fato, para que ele possa, com maior desenvoltura e com sua musculatura, estimular a atividade neste meio ano de 2009 que nos falta viver…

"Blindagem do BC ", por Delfim Netto

20/05/2009
É cada vez mais evidente que o Brasil “importou” uma crise de crédito no dia 16 de setembro de 2008 em dimensão muito superior à necessária.
O nosso sistema bancário havia sido “saneado” com o Proer em 1997 ( alguns de seus autores ainda respondem por isso na Justiça! ), e suas “ligações” com o sistema financeiro mundial poderiam ter sido sustentadas ( pelo menos no curto prazo ) por uma ação mais enérgica e mais expedita do nosso Banco Central.
Na falta dela, nossos banqueiros, infelizmente, mas compreensivelmente, entraram em pânico naquele domingo à tarde, quando o Tesouro americano e o Fed comunicaram ao mundo a grande “barbeiragem” do século 21. Haviam destruído um “nó” importante da grande rede de crédito mundial com o abandono do Lehman Brothers à sua própria sorte. Isso levou ao colapso instantâneo de toda a rede, antes mesmo de os mercados abrirem na segunda-feira…
Entre 2002 e 2008, nossa situação mudou completamente, como resultado da expansão mundial:
1) nossas exportações, que cresciam à taxa de 4% ao ano, passaram a crescer a 22%;
2) nossa dívida externa, que representava quatro anos de exportações, foi reduzida a um ano;
3) nossas reservas, que representavam 10% da dívida externa, passaram a 100% dela, e nosso crescimento econômico anual duplicou, sem risco para a taxa de inflação ou o equilíbrio externo.
Durante esse período, o nosso Banco Central adquiriu musculatura suficiente para dar conforto imediato aos bancos nacionais. Como explicar que, depois de oito meses, ainda estamos fazendo o que deveríamos ter feito em setembro: amenizar a redução do crédito interbancário e frustrar a busca pela liquidez que a insegurança impôs a todos os agentes do mercado ( banqueiros, empresários e trabalhadores )?
Há muitas hipóteses. Talvez a mais plausível seja a de que a estrutura jurídica existente não dava (e ainda não dá) “conforto” ao próprio Banco Central. Ele não recebeu suporte jurídico necessário e criou uma perigosa filosofia: banco grande é melhor do que banco pequeno, e banco público é melhor do que banco privado, dificultando ainda mais o restabelecimento do crédito interbancário.
A situação do crédito está melhorando, mas ainda está muito longe da normalidade e, na margem, o seu custo continua absurdo. O BC agiu na direção correta, mas sem convicção, e estamos pagando um alto preço por isso.
Talvez seja hora de o “blindarmos”, de fato, para que ele possa, com maior desenvoltura e com sua musculatura, estimular a atividade neste meio ano de 2009 que nos falta viver…

maio 16, 2009

"Crescimento econômico à vista", por Delfim Netto

Crescimento econômico a vista
Antônio Delfim Netto
Em fórum sobre o cenário econômico promovido pela revista Exame na semana passada em São Paulo para discutir basicamente opções para sair da crise financeira global, reafirmei que a economia brasileira pode voltar a crescer 4% em 2010, respondendo às ações de governo e na medida em que continuem positivas as reações do setor privado e dos consumidores.Diante da divulgação de previsões ( algumas de organismos internacionais e de corporações privadas de peso ) que variam entre uma queda do PIB brasileiro de 4% em 2009, com uma retomada pífia do crescimento em 2010, minha opinião é que nenhuma delas pode ser levada a sério.
O crescimento de 2009 não está escrito nas estrelas, nem o de 2010 pode ser visto numa bola de cristal. Ele será aquilo que formos capazes de fazer, a sociedade reagindo aos estímulos da política econômica, os empresários acreditando nas medidas do governo, os consumidores mostrando que não se deixaram inibir com o pânico midiático e o setor financeiro voltando gradualmente à normalidade.
Hoje, o que já se pode antecipar com razoável segurança é que o crescimento de 2009 não será negativo. Tivemos um primeiro trimestre negativo e alguma tênue reação neste segundo trimestre, que ainda está no meio.
Pelo comportamento que observamos do setor produtivo e dos níveis de consumo, acredito que podemos recomeçar a crescer, lentamente, já no próximo trimestre e terminar o último trimestre do ano com um crescimento de uns 2% do PIB em relação ao mesmo trimestre de 2008.
É perfeitamente possível termos em cada trimestre de 2010 um crescimento mínimo de 1% sobre o trimestre anterior.
Significa que podemos chegar ao final do ano com 4% de crescimento do PIB, ou algo muito próximo.
É uma avaliação que faço e que está no nível das probabilidades, voltando a insistir que vai depender da boa política do governo, de como o setor privado vai interpretar essa política e da resposta do consumidor brasileiro.
Esse consumidor tem se comportado bastante bem, reagindo aos estímulos, o que comprova que eles estão na direção correta.
A verdade é que a sociedade não se deixou acorrentar nem pelo medo nem pelo tom negativo das análises que povoam uma parte da mídia. É preciso que a população esteja preparada e não se deixar influenciar pelo fato de que no ano que vem, mesmo com a retomada do crescimento, os dados do crescimento anual medidos entre os trimestres ainda não serão positivos, o que dará a impressão de que a economia está se reduzindo, quando na realidade ela já estará em recuperação.
Voltando ao Fórum da Exame, em que foram avaliados alguns dos obstáculos que os países terão de enfrentar para superar a crise, ouvi com muita satisfação que os outros três conferencistas, os notáveis “Prêmios Nobel” de Economia Edward Prescott, Joseph Stiglitz e Roberto Mundell (de 2004, 2001 e 1999, respectivamente) concordaram (em graus ligeiramente diferentes) que o Brasil não só vem reagindo bem aos efeitos da crise como será um dos primeiros países a sair mais rápido do prejuízo. Prescott foi mais longe, ao concluir sua intervenção dizendo que “a questão agora não é se, mas quando o Brasil entrará na lista das maiores economias do mundo”…
A questão, na verdade, é que já fomos a oitava economia do mundo. Demos uma grande bobeada nas duas últimas décadas do século 20, mas podemos apostar que vamos chegar lá. Quando, só depende de nós mesmos…

"Crescimento econômico à vista", por Delfim Netto

Crescimento econômico a vista
Antônio Delfim Netto
Em fórum sobre o cenário econômico promovido pela revista Exame na semana passada em São Paulo para discutir basicamente opções para sair da crise financeira global, reafirmei que a economia brasileira pode voltar a crescer 4% em 2010, respondendo às ações de governo e na medida em que continuem positivas as reações do setor privado e dos consumidores.Diante da divulgação de previsões ( algumas de organismos internacionais e de corporações privadas de peso ) que variam entre uma queda do PIB brasileiro de 4% em 2009, com uma retomada pífia do crescimento em 2010, minha opinião é que nenhuma delas pode ser levada a sério.
O crescimento de 2009 não está escrito nas estrelas, nem o de 2010 pode ser visto numa bola de cristal. Ele será aquilo que formos capazes de fazer, a sociedade reagindo aos estímulos da política econômica, os empresários acreditando nas medidas do governo, os consumidores mostrando que não se deixaram inibir com o pânico midiático e o setor financeiro voltando gradualmente à normalidade.
Hoje, o que já se pode antecipar com razoável segurança é que o crescimento de 2009 não será negativo. Tivemos um primeiro trimestre negativo e alguma tênue reação neste segundo trimestre, que ainda está no meio.
Pelo comportamento que observamos do setor produtivo e dos níveis de consumo, acredito que podemos recomeçar a crescer, lentamente, já no próximo trimestre e terminar o último trimestre do ano com um crescimento de uns 2% do PIB em relação ao mesmo trimestre de 2008.
É perfeitamente possível termos em cada trimestre de 2010 um crescimento mínimo de 1% sobre o trimestre anterior.
Significa que podemos chegar ao final do ano com 4% de crescimento do PIB, ou algo muito próximo.
É uma avaliação que faço e que está no nível das probabilidades, voltando a insistir que vai depender da boa política do governo, de como o setor privado vai interpretar essa política e da resposta do consumidor brasileiro.
Esse consumidor tem se comportado bastante bem, reagindo aos estímulos, o que comprova que eles estão na direção correta.
A verdade é que a sociedade não se deixou acorrentar nem pelo medo nem pelo tom negativo das análises que povoam uma parte da mídia. É preciso que a população esteja preparada e não se deixar influenciar pelo fato de que no ano que vem, mesmo com a retomada do crescimento, os dados do crescimento anual medidos entre os trimestres ainda não serão positivos, o que dará a impressão de que a economia está se reduzindo, quando na realidade ela já estará em recuperação.
Voltando ao Fórum da Exame, em que foram avaliados alguns dos obstáculos que os países terão de enfrentar para superar a crise, ouvi com muita satisfação que os outros três conferencistas, os notáveis “Prêmios Nobel” de Economia Edward Prescott, Joseph Stiglitz e Roberto Mundell (de 2004, 2001 e 1999, respectivamente) concordaram (em graus ligeiramente diferentes) que o Brasil não só vem reagindo bem aos efeitos da crise como será um dos primeiros países a sair mais rápido do prejuízo. Prescott foi mais longe, ao concluir sua intervenção dizendo que “a questão agora não é se, mas quando o Brasil entrará na lista das maiores economias do mundo”…
A questão, na verdade, é que já fomos a oitava economia do mundo. Demos uma grande bobeada nas duas últimas décadas do século 20, mas podemos apostar que vamos chegar lá. Quando, só depende de nós mesmos…

Poupança: "Foi uma solução engenhosa", diz Delfim Netto, "adotada por conta da irresponsabilidade monumental da oposição."

Foi uma solução engenhosa, diz Delfim
Mercado Aberto – Guilherme Barros
Folha de S. Paulo – 14/05/2009
O ex-ministro Delfim Netto considerou positivas as mudanças anunciadas ontem pelo governo para a caderneta de poupança. Para ele, foi uma boa solução, tanto do ponto de vista econômico como do político.”Foi uma solução engenhosa, acomoda todos os interesses.”Apesar de ter apoiado a medida, Delfim reconhece que o melhor teria sido a adoção de uma solução definitiva para o problema. Ou seja, a de baixar os juros da poupança.”Não pode existir uma taxa de juro real fixa. Isso não existe”, diz Delfim.
Mas o mais absurdo ainda, no caso da poupança, de acordo com Delfim, é ter uma aplicação que, ao mesmo tempo, é mais segura que todas as outras, de maior liquidez e que ainda pode proporcionar a maior taxa de retorno.
Segundo Delfim, o governo acabou sendo obrigado a adotar essa solução por conta do uso político que foi dado à questão. Alguns partidos de oposição espalharam o boato de que o governo estava estudando um confisco na poupança, a exemplo do que fez o governo Collor.
“O que fizeram foi uma irresponsabilidade monumental, em um momento de crise como agora. A sociedade ainda está esfolada pela maluquice do Collor”, diz. “O governo acabou dando uma solução economicamente razoável e politicamente a menos danosa.”
Delfim considera que o mais importante, no entanto, nem foi exatamente a mexida na poupança, mas a redução da tributação dos fundos de investimento.
Aliás, ele afirma que o maior benefício desta crise têm sido as medidas do governo de desoneração tributária, um hábito muito pouco comum na história do país.
A redução do imposto sobre os fundos será mais do que compensada com a economia que o governo vai fazer com o corte dos juros. De acordo com Delfim, a renda dos rentistas será transferida para o governo com a queda dos juros.”A economia não pode viver dos rentistas e sim de quem produz”, diz. “Não que os rentistas não produzam, mas o rentista não pode ter uma taxa de retorno muito superior à produtividade média da sociedade”, afirma.
O que Delfim espera, agora, com a mudança na poupança, é que o Banco Central baixe a taxa de juros.”Pelo menos o Banco Central não tem mais a justificativa de que não pode baixar um pouco mais os juros.”

Poupança: "Foi uma solução engenhosa", diz Delfim Netto, "adotada por conta da irresponsabilidade monumental da oposição."

Foi uma solução engenhosa, diz Delfim
Mercado Aberto – Guilherme Barros
Folha de S. Paulo – 14/05/2009
O ex-ministro Delfim Netto considerou positivas as mudanças anunciadas ontem pelo governo para a caderneta de poupança. Para ele, foi uma boa solução, tanto do ponto de vista econômico como do político.”Foi uma solução engenhosa, acomoda todos os interesses.”Apesar de ter apoiado a medida, Delfim reconhece que o melhor teria sido a adoção de uma solução definitiva para o problema. Ou seja, a de baixar os juros da poupança.”Não pode existir uma taxa de juro real fixa. Isso não existe”, diz Delfim.
Mas o mais absurdo ainda, no caso da poupança, de acordo com Delfim, é ter uma aplicação que, ao mesmo tempo, é mais segura que todas as outras, de maior liquidez e que ainda pode proporcionar a maior taxa de retorno.
Segundo Delfim, o governo acabou sendo obrigado a adotar essa solução por conta do uso político que foi dado à questão. Alguns partidos de oposição espalharam o boato de que o governo estava estudando um confisco na poupança, a exemplo do que fez o governo Collor.
“O que fizeram foi uma irresponsabilidade monumental, em um momento de crise como agora. A sociedade ainda está esfolada pela maluquice do Collor”, diz. “O governo acabou dando uma solução economicamente razoável e politicamente a menos danosa.”
Delfim considera que o mais importante, no entanto, nem foi exatamente a mexida na poupança, mas a redução da tributação dos fundos de investimento.
Aliás, ele afirma que o maior benefício desta crise têm sido as medidas do governo de desoneração tributária, um hábito muito pouco comum na história do país.
A redução do imposto sobre os fundos será mais do que compensada com a economia que o governo vai fazer com o corte dos juros. De acordo com Delfim, a renda dos rentistas será transferida para o governo com a queda dos juros.”A economia não pode viver dos rentistas e sim de quem produz”, diz. “Não que os rentistas não produzam, mas o rentista não pode ter uma taxa de retorno muito superior à produtividade média da sociedade”, afirma.
O que Delfim espera, agora, com a mudança na poupança, é que o Banco Central baixe a taxa de juros.”Pelo menos o Banco Central não tem mais a justificativa de que não pode baixar um pouco mais os juros.”

abril 11, 2009

" "Minha Casa, Minha Vida" chega no momento certo", afirma Delfim Netto

Mãos à obra
“Minha Casa , Minha Vida” é um programa de construção de moradias exeqüível, bem lançado e que chega no momento certo para enfrentar um dos problemas mais angustiantes das famílias brasileiras.
Antonio Delfim Netto
Os céticos se apressam a duvidar, achando que construir “um milhão de casas em dois anos não vai dar, o governo sequer assumiu prazos”, quando não se trata de desafiar o governo, mas sim um desafio ao setor privado. O Brasil, hoje, tem uma indústria de construção a meu ver perfeitamente apta a responder a esse desafio. É um setor que evoluiu enormemente nos últimos anos, desenvolveu avanços tecnológicos que estão aí, prontos para serem utilizados na nova escala de oportunidades que o programa oferece.
Erguer um milhão ou dois milhões de moradias num mercado que apresenta um déficit de oito ou dez milhões que não cessa de aumentar ( e, portanto, de demanda crescente) não tem nada de extraordinário. O que vai fazer o programa funcionar é o fato que a execução é toda do setor privado, um setor que envolve hoje 100 mil empresas de grande, médio e pequeno porte em todo o Brasil e que hoje já constrói 300 mil casas por ano. O que o governo Lula precisa fazer é honrar o compromisso que assumiu fazendo chegar os recursos prometidos à Caixa Econômica Federal e exigir o retorno à eficiência que ela teve no passado, cumprindo os cronogramas de desembolso junto às empresas.
Nós temos memória fraca. Quando insisto que as metas quantitativas do “Minha Casa, Minha Vida” são bastante razoáveis, valho-me do exemplo de quase 30 anos atrás, quando a indústria de construção, embora dinâmica, não tinha a dimensão e os recursos da tecnologia que cresceram enormemente nas últimas décadas. De 1979 a 1982, sob a liderança do Ministro do Interior Mário Andreazza, construíram-se 500 mil casas por ano financiadas pelo sistema oficial, sendo que 30% eram de moradias para a população de baixa renda. E não existia o suporte dos programas de renda mínima que a sociedade brasileira hoje oferece. Foram 2 milhões de moradias em menos de quatro anos, sem esquecer que também lidávamos com uma crise mundial derivada da explosão dos preços do petróleo.
Não se justifica o ceticismo de alguns quanto à viabilidade do atual programa, nem em relação às dimensões nem quanto a questões de prazo pelo simples fato que o governo não quis assumir compromisso com datas. Quem vai responder a esses desafios é o setor imobiliário, as empresas de construção e os próprios mutuários. O que o presidente Lula disse ao setor privado ao lançar o programa foi que colocou os recursos na Caixa Econômica e que esta vai mobilizar seu pessoal, agilizar os serviços, apressar os registros para não frustrar a iniciativa das empresas. Prometeu, aí sim, que vai trabalhar para atrair o maior número possível de prefeitos e governadores, insistindo que cabe a eles cooptar os empresários e mostrar-lhes que responder ao desafio do “Minha Casa, Minha Vida” será uma forma prática de superar os efeitos da importação da crise financeira em nossa economia.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP. ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento – e-mail contatodelfimnetto@terra.com.br

" "Minha Casa, Minha Vida" chega no momento certo", afirma Delfim Netto

Mãos à obra
“Minha Casa , Minha Vida” é um programa de construção de moradias exeqüível, bem lançado e que chega no momento certo para enfrentar um dos problemas mais angustiantes das famílias brasileiras.
Antonio Delfim Netto
Os céticos se apressam a duvidar, achando que construir “um milhão de casas em dois anos não vai dar, o governo sequer assumiu prazos”, quando não se trata de desafiar o governo, mas sim um desafio ao setor privado. O Brasil, hoje, tem uma indústria de construção a meu ver perfeitamente apta a responder a esse desafio. É um setor que evoluiu enormemente nos últimos anos, desenvolveu avanços tecnológicos que estão aí, prontos para serem utilizados na nova escala de oportunidades que o programa oferece.
Erguer um milhão ou dois milhões de moradias num mercado que apresenta um déficit de oito ou dez milhões que não cessa de aumentar ( e, portanto, de demanda crescente) não tem nada de extraordinário. O que vai fazer o programa funcionar é o fato que a execução é toda do setor privado, um setor que envolve hoje 100 mil empresas de grande, médio e pequeno porte em todo o Brasil e que hoje já constrói 300 mil casas por ano. O que o governo Lula precisa fazer é honrar o compromisso que assumiu fazendo chegar os recursos prometidos à Caixa Econômica Federal e exigir o retorno à eficiência que ela teve no passado, cumprindo os cronogramas de desembolso junto às empresas.
Nós temos memória fraca. Quando insisto que as metas quantitativas do “Minha Casa, Minha Vida” são bastante razoáveis, valho-me do exemplo de quase 30 anos atrás, quando a indústria de construção, embora dinâmica, não tinha a dimensão e os recursos da tecnologia que cresceram enormemente nas últimas décadas. De 1979 a 1982, sob a liderança do Ministro do Interior Mário Andreazza, construíram-se 500 mil casas por ano financiadas pelo sistema oficial, sendo que 30% eram de moradias para a população de baixa renda. E não existia o suporte dos programas de renda mínima que a sociedade brasileira hoje oferece. Foram 2 milhões de moradias em menos de quatro anos, sem esquecer que também lidávamos com uma crise mundial derivada da explosão dos preços do petróleo.
Não se justifica o ceticismo de alguns quanto à viabilidade do atual programa, nem em relação às dimensões nem quanto a questões de prazo pelo simples fato que o governo não quis assumir compromisso com datas. Quem vai responder a esses desafios é o setor imobiliário, as empresas de construção e os próprios mutuários. O que o presidente Lula disse ao setor privado ao lançar o programa foi que colocou os recursos na Caixa Econômica e que esta vai mobilizar seu pessoal, agilizar os serviços, apressar os registros para não frustrar a iniciativa das empresas. Prometeu, aí sim, que vai trabalhar para atrair o maior número possível de prefeitos e governadores, insistindo que cabe a eles cooptar os empresários e mostrar-lhes que responder ao desafio do “Minha Casa, Minha Vida” será uma forma prática de superar os efeitos da importação da crise financeira em nossa economia.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP. ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento – e-mail contatodelfimnetto@terra.com.br

abril 9, 2009

Jornalista acusa Folha de manipular entrevista para prejudicar Dilma Rousseff

Indignado com a reportagem “Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto”, publicada na Folha de S. Paulo de 05/04, o jornalista Antonio Roberto Espinosa, que concedeu entrevista para o jornal, acusa o diário, na Carta de Leitores da edição desta quarta-feira, de ter manipulado as informações que passou à repórter Fernanda Odilla. Ele também se queixa de ter a primeira carta enviada recusada – publicada na íntegra em blogs como o de Luís Nassif.
Segundo o jornalista, o jornal “transformou um não fato do passado (o sequestro que não houve) num factóide do presente (o início de uma sórdida campanha), que vai desacreditar ainda mais o jornal da ‘ditabranda’”.
Seu objetivo com a carta, segundo o próprio Espinosa, é “amenizar os danos à imagem e à honra da ministra Dilma Rousseff”. A entrevista, conta na primeira carta, tratava da história da VAR-Palmares, uma organização política de resistência ao regime militar e da qual Dilma fazia parte. Espinosa foi o responsável nacional pelo setor militar da organização e assume todas as iniciativas que dali partiram contra a ditadura.
Ele também questiona as investigações feitas por telefone pela repórter, chamando o trabalho de “fonoportagem”.
Ainda na primeira carta, publicada em blogs, o autor se diz chocado com “a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário”.
Em sua defesa, Fernanda diz que a reportagem “não afirmou que Dilma Rousseff planejou o sequestro de Delfim Netto. Trouxe, sim, declarações do ex-dirigente da VAR-Palmares, que, pela primeira vez, assumiu que o plano existia e que ele foi seu coordenador. À Folha, Espinosa disse que, no final de 1969, todas as tarefas ( as ‘políticas’ e o ‘foco guerrilheiro’ ) da VAR ‘eram do comando nacional’, citou três vezes Dilma Rousseff como um dos cinco integrantes desse colegiado e, indagado pela Folha em diferentes momentos, afirmou que ‘os cinco sabiam’ do plano de sequestro e que ‘não houve nenhum veto’”.
Ela afirma que todas as declarações estão gravadas, enquanto Espinosa desafia o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para comprovar que houve manipulação.
O jornal informou que a primeira carta do jornalista chegou às 21h58 de domingo (05/04), sendo que o “Painel do Leitor” fecha às 20h. ( Comunique-se, 08.04.09 )
NOTA DESTE BLOG: num post anterior, o “Revistas que você deve ler ( 1 )“, eu sugeri a leitura da História Viva edição 65. Um dos textos / ensaios, assinado por Renato Alencar Dotta aborda a rede de jornais e revistas de conteúdo Integralista. E a Folha aparece lá também, indiretamente, em breve passagem.
Confiram: “( … ) Dirigido durante toda sua existência por Reale [ Miguel Reale, ex-reitor da USP ], o jornal [ o "Acção" ] tinha conteúdo similar ao de A Offensiva [ segundo a HV, foi um jornal de circulação nacional fundado no Rio de Janeiro em 1934, e trazia textos de Gustavo Barroso, Câmara Cascudo e D. Helder Câmara. Durou quatro anos. ], com textos doutrinários, mas também notícias locais ( … ) ao publicar material não-doutrinário, os integralistas queriam atrair o leitor comum para suas idéias ( … ) Entre seus redatores estava Mário Mazzei Guimarães, que foi chefe integralista da cidade de Colina, no interior de São Paulo, e mais tarde fez longa carreira como redator-chefe da Folha da Manhã [ mais tarde, Folha de São Paulo ] ( … )” .
Sei lá. Acho que não é nenhum segredo mas pensei: “Por quê não copiar, né?”. Aí está.

março 31, 2009

"Lento aprendizado", por Antonio Delfim Netto

28/03/2009
Com bastante freqüência surgem críticas ao andamento das obras do PAC, o programa de aceleração do crescimento do governo Lula: que os investimentos prometidos não se realizam, que as obras não saem do papel porque se perdem no cipoal burocrático, enfim, as coisas não vão bem e vai fracassar o empenho de reconstruir a infra-estrutura física do País. Muitas dessas críticas não prosperam diante da realidade que mostra o progresso de obras nos setores rodoviário e ferroviário e no campo da produção e distribuição da energia limpa das hidrelétricas, cujo marco mais visível é o complexo do rio Madeira, no extremo oeste. É preciso reconhecer, no entanto, a permanência de sérios embaraços burocráticos emperrando o programa. Além da desorganização administrativa, se sobrepõe a dificuldade em atender às exigências ora do Ministério Público, ora do Tribunal de Contas. Esta semana, ao explicar porque não vai conseguir gastar este ano os quase R$ 10 bilhões que foram reservados para as obras de recuperação da infra-estrutura de transportes, o próprio diretor do Denit responsabilizou a burocracia. Nada disso está impedindo o progresso do PAC. A terrível burocracia perturba a marcha do programa, mas não interrompeu o seu andamento. Uma coisa é certa: se observarmos os gastos de investimento do governo, eles estão crescendo de maneira muito robusta. Costuma-se medir esse aumento em termos de porcentagem do PIB, mas esta é uma medida enganosa que, às vezes, esconde alguns resultados substanciais. Quando se transforma essa medida em investimentos reais vê-se o quanto eles cresceram nos últimos anos. No governo Lula, os investimentos começaram lentamente, foram aumentando e agora estão crescendo em torno de 20% ao ano. Este governo tem algumas características interessantes. Ao longo do tempo, ele desenvolveu uma espécie de aprendizado que lhe permitiu voltar a investir. O PAC é um achado que o ajudou a avançar no aprendizado, a melhorar a qualidade dos investimentos e a convencê-lo que precisava de bons projetos e de uma administração mais eficaz para realizá-los. O Programa de Aceleração do Crescimento é o que de melhor o Brasil tem hoje para agir contra os efeitos dessa crise que veio de fora para perturbar o nosso desenvolvimento. Não importa a crítica que aponta lentidão em alguns setores, o que realmente importa é que a velocidade está crescendo. Tão importante, ou mais, é vencer a burocracia que impede a eliminação dos gargalos na infra-estrutura para destravar a atividade econômica. Por exemplo, na recuperação de estradas: domingo passado reportagem da Folha de São Paulo mostrou o estado de destruição das BRs 364 e 163 por onde escoa a produção agro pastoril de Mato Grosso, Rondônia, Goiás e Mato Grosso do Sul. Aquelas rodovias foram pavimentadas nas décadas de 70 e 80, viabilizando a expansão da nova fronteira agrícola, que hoje é a maior produtora de grãos e carnes do País. Desde então são quase 30 anos de desgaste. Os custos do transporte já inviabilizam a produção em diversas áreas. O PAC tem as ferramentas para evitar que elas terminem isoladas do restante do País.
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