Essa é sobre o Metrô de São Paulo.
Durante muito tempo – ou seja: desde que eu consigo lembrar – havia um zelo, senão na forma de investimentos que o ampliassem de acordo com a necessidade crescente e que garantissem uma manutenção geral e metódica, pelo menos o zelo que se observava no cuidado com a limpeza das dependências e áreas de circulação; desde os túneis e acessos, passando pela região das catracas, bilheterias e chegando às plataformas e interior dos trens.
O mencionado zelo chegava ao excesso: se você se encontrasse numa das áreas acima apontadas, mas onde não houvesse assentos, ficasse cansado de permanecer em pé, e resolvesse apenas agachar, ficando de cócoras, para descansar um pouco, não tardaria a ouvir um aviso, ríspido, saído do sistema de som interno da estação:”NO METRÔ, NÃO É PERMITIDO SENTAAR-SE…”. Um aviso impessoal, mas você sabia que era dirigido a você. E você estava apenas agachado, hein? Envergonhado, você levantava e encarava, de pé mesmo – fazer o quê?- a espera.
Agora, se a advertência não surtisse efeito e você continuasse ali, dando uma de João-sem-braço ( tipo o cara que, ao mesmo tempo, passa no sinal vermelho enquanto fala ao celular e, ao ser multado diz que a “Indústria daMulta” é culpada de tudo ), a segunda ( e última, podes crer ) argumentação surgia ameaçadora em sua frente, na figura de 2 ou mais daqueles “Homens de Preto” vitaminados, portando cassetetes que pareciam ter sido desenhados por projetistas da DINA para serem usados em manifestantes e oposicionistas chilenos. Os MIB fariam suas antes exaustas pernas recobrarem a força, a jovialidade e o vigor da mocidade.
Bem sabem os budistas ( seriam eles mesmo? ): as coisas sempre mudam, o tempo todo. Com isso, as outrora razoavelmente asseadas estações do Metrô paulistano mudaram ( muito e para pior ): eu estranhei quando, com o passar do tempo, pequenas alterações foram ocorrendo. De repente, hippiezinhos de Shopping Centers, mochileiros – provavelmente de Shoppings, também -, estudantezinhos do Etapa, Dante e Objetivo e demais personagens de nossa juventude puderam passar a sentar-se confortavelmente nas dependências das estações. Quantas vezes você presenciava aquela rodinha de moleques sentados, como se estivessem num acampamento, até mesmo próximos aos locais mais “sensíveis”, como as áreas das catracas e bilheterias, só faltando a fogueira e o violão. E sem ser abordados pelos MIB!!
Para a coisa descambar de vez, foi questão de pouco tempo: e num dia desses qualquer, uma latinha vazia de Coca e uma embalagem de Ruffles “enfeitavam” a plataforma da estação Vila Mariana, no sentido Jabaquara ( agora tive uma dúvida: não sei se foi na Vila Mariana, Paraíso, Ana Rosa ou Pça. da Árvore; bom, foi numa dessas ). Minutos se passaram e não apareceu funcionário de limpeza algum, e os detritos lá permaneceram.
Eu queria – hipoteticamente – ter um celular com câmera ( ou uma máquina digital, tanto faz, é hipótético mesmo ).
O tabú foi devidamente quebrado: o Metrô deixou de ser “área verde” ou zona de preservação da catástrofe comportamental. Não dá para ter esperança em mais nada: no povão ( bom, nesse eu não confio mesmo ) e nos administradores ( os tais da “gestão de resultados” ). O sucateamento se percebe nestes detalhes.
E o “cada um, cada um” da população vai tomando conta. Poucos anos se passarão e, quando você estiver tropeçando em sofá velho ou pneu usado DENTRO da estação Vila Mariana ( ou Consolação, isso é o de menos ), depositados ali pelo “povo puro” ( como disse o Kajuru, em seu livro – que aliás, deixou-me bem decepcionado ), então lembre-se de que a situação chegou a tal ponto, mas começou quando sacos vazios do McDonalds e copos de Milk-Shake da mesma rede abriram o caminho da porquice. Pois quando jogou o detrito pela primeira vez ( um papel de bala, por exemplo ) e não foi repreendido – não havia MIB – e o lixo ficou lá – não havia funcionário da limpeza – o camarada criou coragem para prosseguir.
E entenda de uma vez o significado de expressões como “corte de custos” e “cada um, cada um”. Acho que elas se alimentam, mutuamente.
Além disso, entenda o significado de “hipocrisia”, já que o mesmo camarada costuma se comportar de forma bem diferente quando está perambulando num Shopping Center. Ali, o medo da censura alheia ( ou seja, das gostosinhas caça-dotes ) é maior. Que isso não signifique que não há incivilidade dentro desses ambientes. É que aí você também aprende o significado de “o cliente tem sempre razão”. Uma estupidez mau-caratista total.



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