ENCALHE

novembro 27, 2008

Sinais de deterioração

Essa é sobre o Metrô de São Paulo.
Durante muito tempo – ou seja: desde que eu consigo lembrar – havia um zelo, senão na forma de investimentos que o ampliassem de acordo com a necessidade crescente e que garantissem uma manutenção geral e metódica, pelo menos o zelo que se observava no cuidado com a limpeza das dependências e áreas de circulação; desde os túneis e acessos, passando pela região das catracas, bilheterias e chegando às plataformas e interior dos trens.
O mencionado zelo chegava ao excesso: se você se encontrasse numa das áreas acima apontadas, mas onde não houvesse assentos, ficasse cansado de permanecer em pé, e resolvesse apenas agachar, ficando de cócoras, para descansar um pouco, não tardaria a ouvir um aviso, ríspido, saído do sistema de som interno da estação:”NO METRÔ, NÃO É PERMITIDO SENTAAR-SE…”. Um aviso impessoal, mas você sabia que era dirigido a você. E você estava apenas agachado, hein? Envergonhado, você levantava e encarava, de pé mesmo – fazer o quê?- a espera.
Agora, se a advertência não surtisse efeito e você continuasse ali, dando uma de João-sem-braço ( tipo o cara que, ao mesmo tempo, passa no sinal vermelho enquanto fala ao celular e, ao ser multado diz que a “Indústria daMulta” é culpada de tudo ), a segunda ( e última, podes crer ) argumentação surgia ameaçadora em sua frente, na figura de 2 ou mais daqueles “Homens de Preto” vitaminados, portando cassetetes que pareciam ter sido desenhados por projetistas da DINA para serem usados em manifestantes e oposicionistas chilenos. Os MIB fariam suas antes exaustas pernas recobrarem a força, a jovialidade e o vigor da mocidade.
Bem sabem os budistas ( seriam eles mesmo? ): as coisas sempre mudam, o tempo todo. Com isso, as outrora razoavelmente asseadas estações do Metrô paulistano mudaram ( muito e para pior ): eu estranhei quando, com o passar do tempo, pequenas alterações foram ocorrendo. De repente, hippiezinhos de Shopping Centers, mochileiros – provavelmente de Shoppings, também -, estudantezinhos do Etapa, Dante e Objetivo e demais personagens de nossa juventude puderam passar a sentar-se confortavelmente nas dependências das estações. Quantas vezes você presenciava aquela rodinha de moleques sentados, como se estivessem num acampamento, até mesmo próximos aos locais mais “sensíveis”, como as áreas das catracas e bilheterias, só faltando a fogueira e o violão. E sem ser abordados pelos MIB!!
Para a coisa descambar de vez, foi questão de pouco tempo: e num dia desses qualquer, uma latinha vazia de Coca e uma embalagem de Ruffles “enfeitavam” a plataforma da estação Vila Mariana, no sentido Jabaquara ( agora tive uma dúvida: não sei se foi na Vila Mariana, Paraíso, Ana Rosa ou Pça. da Árvore; bom, foi numa dessas ). Minutos se passaram e não apareceu funcionário de limpeza algum, e os detritos lá permaneceram.
Eu queria – hipoteticamente – ter um celular com câmera ( ou uma máquina digital, tanto faz, é hipótético mesmo ).
O tabú foi devidamente quebrado: o Metrô deixou de ser “área verde” ou zona de preservação da catástrofe comportamental. Não dá para ter esperança em mais nada: no povão ( bom, nesse eu não confio mesmo ) e nos administradores ( os tais da “gestão de resultados” ). O sucateamento se percebe nestes detalhes.
E o “cada um, cada um” da população vai tomando conta. Poucos anos se passarão e, quando você estiver tropeçando em sofá velho ou pneu usado DENTRO da estação Vila Mariana ( ou Consolação, isso é o de menos ), depositados ali pelo “povo puro” ( como disse o Kajuru, em seu livro – que aliás, deixou-me bem decepcionado ), então lembre-se de que a situação chegou a tal ponto, mas começou quando sacos vazios do McDonalds e copos de Milk-Shake da mesma rede abriram o caminho da porquice. Pois quando jogou o detrito pela primeira vez ( um papel de bala, por exemplo ) e não foi repreendido – não havia MIB – e o lixo ficou lá – não havia funcionário da limpeza – o camarada criou coragem para prosseguir.
E entenda de uma vez o significado de expressões como “corte de custos” e “cada um, cada um”. Acho que elas se alimentam, mutuamente.
Além disso, entenda o significado de “hipocrisia”, já que o mesmo camarada costuma se comportar de forma bem diferente quando está perambulando num Shopping Center. Ali, o medo da censura alheia ( ou seja, das gostosinhas caça-dotes ) é maior. Que isso não signifique que não há incivilidade dentro desses ambientes. É que aí você também aprende o significado de “o cliente tem sempre razão”. Uma estupidez mau-caratista total.

setembro 12, 2008

Jaz São Paulo pré-eleitoral: o "Homenzinho Amarelo" paulistano me tira a vontade de votar em alguém

Filed under: civilidade, Homenzinho Amarelo, vida em sociedade — Humberto @ 3:04 pm
Quem anda de Metrô já deve ter visto a ilustração que reproduzo abaixo. Pertence a uma espécie de “campanha de civilidade”, promovida pela Companhia, para avisar os passageiros de que estes não estão nas salas de suas casas e que, portanto, naquele ambiente, certas atitudes não são muito recomendáveis. Ou, para deixar de eufemismos, não tem essa de “cada um, cada um”!!
Porém, basta prestar atenção, e ver que é um dinheiro muito mal-gasto, já que ineficiente. Ou seja, um vasto desperdício de dinheiro público.
HOMENZINHOS AMARELOS DOMINAM
Nada disso adianta. Necessária, de verdade, é uma CAMPANHA CIVILIZATÓRIA aqui nesta cidade! Pois os Homenzinhos Amarelos estão por toda parte, causando estragos, desavenças, ilicitudes, poluição.
Um “quadro negro”? Oras, claro que não. Deixe de idealizar a população!! Diariamente vejo coisas que fariam o Carlos Lessa – sempre apaixonado e generoso quando fala sobre o povo, enxergando neste virtudes que tirou não sei de onde – perder a esperança em nossa gente! “Nossa” é modo de dizer…
Quando sair à rua, esforce-se em deixar de encarar absurdos que são cometidos como se fossem naturais. Não são!
O Homenzinho Amarelo ( homem – mulher, tanto faz ) paulistano inventou uma tal “Indústria da Multa” que cometeria abusos…
Basta ficar 5 minutos numa rua onde passam muitos carros ( que besteira falei, “muitos carros” é a regra ), tentando enxergar o motorista. Veja a quantidade deles que estão falando ao celular. Eles não ligam para as penalidades. Logo, também não ligam para o próximo!
Suba no busão. Que som alto e horrível é esse?
Você veio de Marte? O Homenzinho Amarelo detesta o silêncio e sabota a paz alheia, num ambiente minúsculo como é o interior dos ônibus, e saca logo de seu celular e bota uma “musiquinha” para rolar, APESAR DA PROIBIÇÃO DE UMA LEI DE 1965; há um aviso nos ônibus. Mais gastos inúteis de dinheiro público.
Mas não fica nisso. O Homenzinho Amarelo estaciona na calçada, vem pela contramão, lava a calçada com água potável, faz festas com karaokê até as 3 da manhã.
O Homenzinho Amarelo, quando comerciante, também faz das suas. Se possui um bar, é batata que encherá a calçada de mesas e cadeiras, atrapalhando o pedestre ( que, muitas vezes, também é cliente do estabelecimento, e acaba achando tal invasão uma coisa normal ).
Com a melhora da Economia, o Homenzinho amarelo passou a ter mais grana no bolso. Para ele, ele só faz parte da sociedade quando se torna consumidor. A tal “inclusão pelo consumo”, que não vem acompanhada da necessária Educação Social. Melhor falar em “tolerância pelo consumo”, na qual as pessoas são apenas consumidoras, mas pessoas horrorosas, que deverão ser toleradas em todos os seus caprichos e estupidez, pois “estão comprando”.
Depois que inventaram o “cidadão-cliente” e, a seguir o “cliente tem sempre razão”, a Lei de Gerson parece mais uma regra monástica restritiva.
Depois eu volto ao assunto, que ficou melhor do que eu esperava.

março 30, 2008

Socorram-me. Subi no ônibus em São Paulo: A sabotagem.

Os ônibus em São Paulo estão sabotando ( Copyright by Gilberto Kassab ) a MINHA qualidade de vida. Hoje, cheguei no ponto que fica no terminal Ana Rosa ( Zona Sul da Capital ), às 22:13, 22:14hs, por aí. O busão só chegou e foi sair às 23:17hs. Se você não for estudante das escolas públicas tucanas, assoladas pelo Apagão Educacional Continuado, saberá fazer a conta: fiquei mais de 1 hora no ponto. A bem da verdade, eu sei que, aos Sábados, a linha em questão ( 476G, prá quem interessar ) tem intervalos entre as saídas de cerca de 1 hora. Parece oficial. Ou seja, do conhecimento e anuência da administração municipal. Pior que isso, é esperar esse tempo todo e, uma vez dentro do veículo, ter que aturar um lixo humano escutando música no celular ( eu disse “música”? ) às vistas – e tímpanos – do cobrador. Se é prá ser assim, por quê não derrubam logo a lei municipal que proíbe o fumo dentro dos ônibus? Bem que o Furio Lonza disse, uma vez, na Chiclete com Banana: qualquer governo é bom demais em se tratando desse povo. E tem quem ainda tenha medo de uma Revolução por aqui. Podem ficar sossegados, que desse ovo não sai bombom ( acabei de inventar essa expressão ).
Mas não vou ser injusto com o ambiente de um ônibus. Na segunda-feira, eu estava na sala de espera do ambulatório de um dos grandes hospitais públicos de São Paulo, e um pitboy, de uns 1, 90m e uns 30 anos, escutava o famoso funk do Ratátátá ( entre outras belas obras do musicário brasileiro que, generosamente, compartilhou conosco, sem que precisássemos pedir, ansiosos que estávamos para escutar aquelas belezas auditivas ) no – óbvio – celular, sem ser importunado pelo segurança. Imaginando a cena, vocês: hospital, celular, funk, pitboy, hospital, silêncio, lugar inadequado, hospital, funk…Não reclamem se, algum dia, vocês estiverem num funeral, e alguém sacar um telemóvel para “alegrar o ambiente” com seu belíssimo gosto musical.

fevereiro 1, 2008

Jaz São Paulo Busão: Reclamou com passageiro que ouviu música no celular dentro de ônibus e acabou apanhando!!

Isso acontece quando o bizarro passa a ser a regra. Quando o mínimo de civilidade passa a ser um absurdo. Quando chamar alguém à razão torna-se, para este, um ataque à sua masculinidade.
Quero lembrar que o Governador José Serra baixou um decreto proibindo o uso de aparelhos celulares nas aulas. Porque, claro, havia alunos fazendo isso, o que atrapalhava as aulas e os outros alunos.
Depois, o governo meio que amaciou e colocou a bomba na mão das próprias escolas, e que cada uma resolvesse o problema por seus próprios meios. Ou seja: sobra para o professor.
O grau de incivilidade e adolescência de nossos jovens adultos não deveria mais surpreender. E nem deveria, em tese, incomodar mais.
Pegue um ônibus em São Paulo. Observe a entrada dos passageiros. No geral, “disputa-se” da medalhina para baixo.
Muito bem. Você já entrou. Tente não prestar atenção, por um momento, na velocidade que o motorista imprime ao veículo e na forma em que este dirige.
Ignore também quando algumas garotas entram, jogam conversa fiada como motorista e cobrador e depois descem pela frente mesmo. Você pagou? Azar. Elas não. Segue a viagem.
A esta altura, você deve ter percebido algumas coisas, tipo “jogo dos 7 erros”:
- os bancos para idosos e deficientes estão ocupados por pessoas saudáveis…;
- …ou por 3 ou 4 crianças de 6, 7, 8 anos cujos pais não pagarão suas passagens;
- crianças de 6, 7 , 8 anos – que não pagaram a passagem, apesar de estarem na idade para isso – estão ocupando bancos ( às vezes cada uma ocupa um assento ) enquanto adultos, adultos carregando volumes, ou apenas adultos que pagaram a passagem viajam de pé;
- o ônibus tem som interno, geralmente pagode, mas não vem ao caso o tipo de música;
- ou alguém tem um rádio ou celular – a nova praga – ligados, ouvindo e compartilhando seu excelente gosto musical com os outros passageiros. Quem não quer ouvir, ouve do mesmo jeito, calado e aumentando sua gastrite.
- diante deste quadro, o cobrador, principal responsável pelas mais elementares normas de convívio ali dentro, não faz absolutamente nada.
Bem, um passageiro de um ônibus da Zona Leste de São Paulo, incomodado com a música que um cidadão – que utilizava um “jaleco” verde da “Interligado/ SPTRANS – escutava ( e o obrigava a escutar também ) resolveu deixar a apatia de lado e solicitou ao DJ que pusesse um fone ou que desligasse. Ingênuo.
Ouviu coisas do tipo “os incomodados que se mudem”, “cada, um cada um”, “cada um com seus poblema”. Aquele jeito malandro de ser.
Estavam em três pessoas. O passageiro incomodado, prensado entre eles três, num banco apertado, e com bolsa e sacola de compras no colo.
Começa o bate-boca.
Dois deles ( o terceiro se comportou legal ) não se intimidaram. Vinte e poucos anos eles, e o oponente beirando os quarenta.
O cara perdeu as estribeiras e começou a berrar no ouvido do sujeito do celular, pois o “cada um, cada um” pareceu ter lhe irritado profundamente:
- ENTÃO QUER DIZER QUE PARA VOCÊ, DANEM-SE OS OUTROS, É ISSO? ENTÃO É O SEGUINTE: É LEI. É PROIBIDO OUVIR APARELHO SONORO DENTRO DE TRANSPORTE PÚBLICO!!!
Pareceu querer conquistar os outros passageiros, tentando mostrar que o DJ não ligava para ninguém ali dentro, o que já havia declarado. “Cada um com seus poblema.”
E o DJ:
- Aê, mostra ONDE TÁ ESCRITO QUE É PROIBIDO? Se fosse, o cobrador falava.
E apontou para o interior do ônibus onde não havia nenhuma placa, adesivo, nem nada. E precisava?
A esta altura, o cidadão deveria ter se dado por vencido, como naquele conto do lobo, da ovelha e do córrego.
Mas não. Sabedor de sua razão, surtou. E tentou incluir o cobrador e o motorista na questão:
- AÊ MOTORISTA, AÊ COBRADOR…NÃO É PROIBIDO ESCUTAR SOM DENTRO DO BUSÃO?
Silêncio dos dois.
Aé o cidadão fez o que deveria ter feito: deu uma de louco e passou a cantar BEM ALTO as frases que os DJ proferiram antes:
- CADA UUMM CAAADAA UMMM…
- CAAADDAAAA UMM M COOMM SEEEEUSS PO BBBLLEEEMMAAAAAAAA….
- QUERRREOOO VEEERRR QUUEEEM MEEEEEE FAZZZZ PAARRARAAAAAR DEEEEE CANTTAAAAAAAAAARRRRR…
Ganhou o resto do ônibus contra ele.
Resumindo, pois já tarda: o bate boca durou uns 20 minutos e, parece que não se esperava isso, foi agredido na cabeça pelo rapaz da frente ( que, aliás, quando entrou passou seu bilhete único pela janela para outro do lado de fora, um aconhecida maneira de burlar o sistema ) umas quatro vezes. As compras e bolsa em seu colo o impediram de reagir à altura e foi presa fácil. Ainda alegou que contra três, nada poderia fazer. Mas acontece que eram dois, pois um deles não participou e evitou, ainda, que a coisa piorasse para a vítima.
A coisa pesou de verdade, a partir do momento que uma garota, no fundo do busão, passou a mandar que calassem a boca do sujeito, e que o botassem para fora do ônibus, ele que não parava de berrar. Ele desafiou – se borrando – qualquer um a jogá-lo para fora. E disse que parassem a polícia, que aí saberiam quem estava com a razão. Sabedor das consequências, é bom dizer, ele passou a incluí-la na discussão. Sabia que o cavaleiros andantes e galantes acudiriam a dama para, depois, tentarem xavecá-la. Dito e feito. Foi aí que o caldo entornou para ele, e a partir daí que foi agredido. Ele sabia disso.
Ferido, ainda teve que ouvir os dois dizendo-lhe agressividades, contarem vantagem e lorotas e se fazerem de machos. Disserem que era um contra um, que não ia apanhar deles dois. Todos sabemos que não é verdade, e quando levou os croks que vinham da frente, ainda teve que se preocupar com o cara do lado.
Quando desceu, mostraram-lhe o dedo médio. Ele mandou-lhes beijinhos e inclinou-se, quando se espera aplausos.
Só para completar: o cara que escutava o celular e usava jaleco da SPTRANS, disse que era cobrador de lotação, que seu pai era dono de uma linha, e que eles escutavam música nos veículos e ninguém chiava.
Entenderam agora quando eu disse que o bizarro se torna regra e norma de conduta? Pois é.

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

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