ENCALHE

julho 16, 2008

Exclusivo: Em diálogos, Daniel Dantas cita FHC

TERRA MAGAZINE, 15.07.08
Bob Fernandes*
Os intestinos do Brasil.
Esta a seguir é a transcrição de conversas telefônicas interceptadas, legalmente, no bojo da Operação Satiagraha.
Neste capítulo, Daniel Dantas cita o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Coloca-o em cena numa conversa com ele, Dantas, e dirigentes do Citibank. Cena essa que, segundo o roteiro dantesco, marcaria os primeiros passos da montagem do fundo CVC, sociedade entre Daniel e o Citibank.
No diálogo entre Dantas e sua diretora jurídica, Danielle Silberglade Ninnio, o banqueiro ensaia vender influência junto ao presidente e a importância da sua presença na montagem do fundo.
O editor-chefe deste Terra Magazine acaba de ter, nesta tarde de terça-feira 15 de julho, uma longa conversa com o ex-presidente da República. A entrevista está sendo transcrita e irá ao ar ainda nesta tarde. Adiante-se um trecho do que Fernando Henrique disse:
- …Não tem base. Na verdade, fui procurado por ele e pelo pessoal do Citibank, que me comunicaram que iam fazer um fundo que tinha feito muito sucesso nos Estados Unidos, o Equity (…) muitas pessoas me procuravam. Isso já é conversa dele, já é usar o santo nome em vão…
Na entrevista exclusiva a Terra Magazine o ex-presidente fala sobre que tipo de relação teve com o banqueiro, busca recordar o que passou naquele encontro e em outro, este apenas com Dantas, anos depois.
Fernando Henrique comenta ainda a crise detonada pela Satiagraha e aborda as relações, excessivamente próximas, entre o capital privado e um estado deficiente na regulação. Toda entrevista daqui a pouco.
A montagem
Quinze de novembro de 2007. O banqueiro Daniel Dantas conversa com a diretora jurídica do Opportunity, Danielle Silbergleide Ninnio, às 09h01m42s.
Ambos debatem, mais uma vez, umas das incontáveis batalhas jurídico-comerciais de Dantas. No caso, o objetivo é levar o Citi a retirar as ações judiciais contra ele – algo correspondente a US$ 1 bilhão – e fazer a fusão Brasil Telecom e Oi, onde ganharia R$ 1 bilhão.
Para ser concretizada a fusão BrOi, é necessário ultrapassar o Citibank. Daniel discute com Danielle a sinuosa estratégia, a munição que levarão para enfrentar o Citi em Nova Iorque.
Na conversa ele parece se preparar para um depoimento. Num flash-back, retorna ao início da empreitada.
Segundo Daniel, tudo começa, ou passa, por um encontro em Brasília entre o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso e os responsáveis, no Citibank, pela parte de Private Equity (investimentos não financeiros).
O banqueiro, ao rememorar uma de suas pelejas, avança por território movediço. Recorda a reunião com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, antes da criação do fundo de investimentos (o que veio a ocorrer no final de 1997).
Presentes, no tal encontro, além do presidente da República, os norte-americanos Bill Confort e Mary Lynn Putney, chefes de Private Equity no Citi.
Mary Lynn era gestora de relacionamento de Daniel Dantas, hospedava-se em sua casa em Búzios e visitava-o na Bahia.
O que vaza das entrelinhas na montagem da estratégia de Daniel e Danielle é uma tentativa de comprometer o Citibank. Por quê?
Depois do escândalo Enron, vigora a lei Lei Sarbanes-Oxley (do senador Paul Sarbanes e do deputado Michael Oxley), de 2002, que pune com até 10 anos de cadeia os executivos de empresas com operações financeiras no exterior. Quem entende os pormenores desse tatame, sente que o Citi vive diversos temores ante esse novo marco jurídico.
Nessa montagem de estratégia para enfrentar o gigante Citi, Dantas se refere a um documento que veio de Londres (“eu já tinha dito que eu não li um documento que eu assinei, tá?”) e explica o batismo do fundo.
- … “Ah, por que que vocês botaram o nome do CVC?” Eu digo: por que o CITI pediu. “Mas vocês não pediram ao CITI pra botar em nome do CVC?” Não, o Citi achou que pra “raise the fund internacional” (elevar o fundo internacional-inglês) era bom. “Ahh, e no Brasil, o nome CVC não te ajudava?” Eu digo: nada, é um nome de uma agência de turismo…
O diálogo sobe de andar, e até de tom. Chega ao Planalto. Aos trechos seminais. Foram mantidos, inclusive, os erros de transcrição.
Daniel Dantas: Sobre o uso do nome. E também, o CVC… o CITI não era bem visto na época, porque…por conta dos rescaldos da negociação da dívida, o banco era atribuído ao banco onde as causas do…da crise econômica brasileira. Então, não tinha nada que o CITI trouxesse de positivo na captação. Eu disse pra ele que os investidores dos fundos de pensão se motivaram porque nós oferecemos a ele “internacional exposure” (exposição iternacional-inglês), sócios estrangeiros que poderiam melhorar as práticas e o entendimento dos fundos de pensão. E ele disse: “ahhh, mas você teve uma reunião com FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, quem estava na reunião?” FERNANDO HENRIQUE, MARY LYNN e o presidente do CITI do Brasil. “Como é o nome dele?” Não lembro. “Ahh, o que que vocês falaram lá, mas tem aqui num email seu você dizendo que CARDOSO disse que tinha gostado da reunião e que ia apoiar a iniciativa”. Eu digo: CARDOSO esteve na reunião, BILL CONFORT explicou na reunião que PRIV EQUIT FUND tinha sido responsável pela revolução de eficiência na economia americana, o “shaking up for corporate america” (o agito para empresas americanas-inglês) e que podia ser muito interessante pro Brasil e que podia também atrair muito capital pro Brasil. Alô?
Danielle - Oi?
Daniel Dantas: E aí, o presidente achou que era interessante, depois eu fui ao BNDES e tal, conversei porque ele tinha achado interessante tentar desenvolver a linha de “private equit” aqui no Brasil.
Danielle: … (inaudível) que ele ia te perguntar isso. Lembra daquele negócio da CPI? Eu tinha certeza!
Daniel Dantas: Aí ele, aí ele… não, foi isso que o mister CONFORT foi…foi falar com… falou com mister CARDOSO. Aí, o que que acontece, então ajudou no fundo a persuadir o governo a simular o “private equit” no Brasil. Está muito distante de que tenha investido por conta do …(inaudível). Já se diz que os fundos investiram, você alguma vez disse aos fundos que: “ahhh, o que que você faria…?”. Aí, primeiro ele inventou agora que estava inconsistente esse meu “declaration”, porque os fundo, o fundo tinha uma carta lá de não sei quem mostrando que o fundo nacional fechou depois que o fundo estrangeiro já tinha fechado, quando o fundo nacional fechou e tal. Não sei. “Ahhh, mas como é que você não sabe?”. Eu não sei. “Mas você não assinou esse “declaration?”. Assinei o “declaration”. “Mas você não preparou?”. Eu digo: Não, não preparei. O “declaration” foi preparado pelos “lawyer”, eu basicamente revisei os “declaration”, confiei naquilo que me foi informado e acredito que está certo. Ele… quer dizer, não fui disputar, é ou não é, não sei. Aí o que acontece é o seguinte, nessa linha, é difícil dele pegar. Aí, onde eu sei ele não sabe, onde ele sabe eu não sei.
* Colaboraram: Claudio Leal e Raphael Prado

outubro 19, 2007

Avaliação dos ativos pertencentes ao Estado de São Paulo, para posterior doação à iniciativa privada, será feita pelo Citibank

Citi vai comandar privatizações de Serra
Instituição financeira vai preparar para a venda estatais de peso, como Nossa Caixa, Cesp e Sabesp
São Paulo - O Citibank foi o banco escolhido para assessorar o governo do Estado de São Paulo no processo de privatização das estatais paulistas. Foram abertos ontem os envelopes de três concorrentes contendo as propostas de comissão para avaliar o valor de diversas empresas do governo englobadas no chamado serviço B, que inclui a Nossa Caixa, a companhia elétrica Cesp e a empresa de saneamento Sabesp, e prepará-las para serem privatizadas. O Citibank venceu por ter oferecido a menor delas, de 0,08% do valor arrecadado com a eventual venda de participações minoritárias ou controle acionário das companhias.
O Banco Fator já havia vencido a concorrência para o serviço A, que envolve 18 estatais. O Sindicato, aliado a diversas entidades representantes dos trabalhadores ameaçados pelo planos, realizou protestos contra a nova onda de privatização tucana que se avizinha.
> Planos de Serra colocam Nossa Caixa em perigo
> Ato contra privatizações de Serra
O governador tentou negar a sua intenção, alegando que tenta apenas levantar o valor das empresas e ironizando os pretestos. “Sabemos o histórico tucano e que o governador busca freneticamente recursos para colocar em prática seus objetivos políticos e sabemos também que o governador tem maioria na Assembléia Legislativa, podendo, a seu gosto, mudar qualquer lei restritiva a seus planos privatistas. Por isso vamos nos manter em guarda para proteger o patrimônio público de suas garras”, diz a diretora do Sindicato e funcionária da Nossa Caixa Raquel Kacelnikas.
> Serra ironiza protesto contra privatização
Segundo matéria do jornal Valor Econômico publicada nesta quinta, 18, é dada como certa a venda integral da Cesp, e que também estariam nos planos ofertas públicas de ações da Nossa Caixa e da Sabesp. Segundo o jornal, o governo não quer dar publicidade aos planos de venda das estatais por razões políticas, para evitar críticas de adversários em relação às privatizações.
Danilo Pretti Di Giorgi
Sindicato dos Bancários
18/10/2007

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