ENCALHE

fevereiro 28, 2008

Chico Pinto, cassado por criticar Pinochet

Jasson de Oliveira Andrade
Fotos: Reprodução

No dia 19/2/2008, morreu, aos 77 anos, vitimado por um câncer, o ex-deputado Chico Pinto. Tornou-se famoso na década de 70, quando pronunciou um discurso contra a visita do ditador chileno ao Brasil, na posse de Geisel. Por este discurso, ele foi cassado e preso. Teve ainda destacada atuação no MDB autêntico. Apesar dessa famosa carreira, a morte dele não foi noticiada na imprensa. Apenas a Folha, na seção MORTES, publicou, no dia 23 de fevereiro, uma pequena nota de Willian Vieira, sob o título “Chico Pinto, autêntico mesmo no MDB”.

Em 3/1/2008, Chico Pinto foi entrevistado pelo jornalista Cláudio Leal para o Terra Magazine. O que se vai ler a seguir são alguns trechos dessa longa e definitiva entrevista. São dados importantíssimos e que precisam ser conhecidos. Não se deve esquecer um parlamentar que honrou a política brasileira.

Em 1964, [ depois do Golpe militar ] fora deposto da prefeitura de Feira de Santana, na Bahia. [ Chico Pinto ] Fez, sozinho, sua defesa no tribunal militar. Absolvido, partiu para novo encontro com as urnas, elegendo-se deputado federal. Ele declarou ao jornalista: “No meu primeiro discurso na Câmara terminei falando: “Brasil acima de tudo!”. Era um recado pra eles. Médici quis me cassar por esse discurso. Proibiram a publicação no Diário Oficial, enquanto eles decidiam. A notícia é que eu seria cassado. Os jornalistas: “ó, você vai ser cassado…” (…) E eles começaram a dizer que era um discurso agressivo, comunista, contra as Forças Armadas. Não pegou porque espalhei o discurso entre os militares conhecidos, muitos deles reimprimiram com os colegas. Criou um clima de resistência. (…) Como é que vão cassar este homem que está defendendo os militares? E como é que eu defendia? Peguei a origem das Forças Armadas brasileiras, toda luta travada contra a escravidão, a resistência de muitos militares daquela época em cumprir a ordem de perseguição aos escravos… A revolução de 22, 24, 25 … Se não cassaram nesta oportunidade, cassaram-no 10 anos depois.

Prossegue Cláudio Leal. Em 14 de março de 1974, [ Chico ] Pinto discursou contra a presença de Pinochet no Brasil. O general viera [ juntamente com outros ditadores ] prestigiar a posse de Geisel e sugeriu a formação de um eixo Brasil-Bolívia-Chile-Uruguai. Soou o alarme. O deputado do MDB redigiu o discurso com cuidado. Mediu as palavras. Preservou a artilharia verbal. “O que nos vem do Chile de Pinochet é o fechamento de jornais, é a censura desvairada à imprensa remanescente. O que nos vem do Chile é a opressão mais cruel, de que nos dá idéia a reportagem e as fotos publicadas pela revista Visão [ extinta ], do campo de concentração da Ilha Dawson. O que nos vem do Chile é o clamor dos presos (…) Três mil mortos, segundo Pinochet declarou a Dorrit Harazim, da revista Veja. (…) Mas o que nós desejamos, Sr. Presidente, é apenas deixar registrado nos Anais, o nosso protesto e a nossa repulsa pela presença indesejável dos vários Pinochets que o Brasil infelizmente está hospedando. Se aqui houvesse liberdade, o povo se manifestaria seu descontentamento e a sua ira santa, nas ruas, contra o opressor do povo chileno. Para que não lhe pareça, contudo, que no Brasil estão todos silenciosos e felizes com a sua presença, falo pelos que não podem falar, clamo e protesto por muitos que gostariam de reclamar e gritar nas ruas contra sua presença em nosso País”.Em vista desse discurso, aconteceu o fato que o jornalista relata. A pedido do presidente Geisel, o ministro da Justiça Armando Falcão representou contra Chico Pinto, com base num artigo da Lei de Segurança Nacional que vedava ofensas a chefes de nações estrangeiras. Mandato cassado, preso no 1º Batalhão da Polícia Militar de Brasília, Chico Pinto foi libertado em abril de 1975. Dois anos depois, o deputado seria absolvido pelo Supremo Tribunal Federal. Em 17/12/1974, em carta a Geisel recusou indulto de Natal: “Rogo a Vossa Excelência que me livre de mais este constrangimento – o de um perdão que não solicitei”. Willian Vieira revela que ele voltou à Câmara em 1978, afirmando ainda: “Junto com nomes como Jarbas Vasconcelos e Tancredo Neves, foi fundamental no diálogo com os militares para a futura distensão política. Saiu da Câmara em 1990, desiludido”.

O tempo se encarregou de dar razão às palavras de Chico Pinto contra Pinochet. Finda a Ditadura chilena, ele foi preso ( prisão domiciliar por estar doente ) por causa da repressão e acusado de corrupção!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

Fevereiro de 2008

Postado por Redação Portal Mogi Guaçu

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.