ENCALHE

março 4, 2009

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

outubro 9, 2008

Higuera, Bolívia: Bolivianos celebram 41 aniversário da execução de Che Guevara; cidade passará a contar, finalmente, com energia elétrica

Adital -
08.10.08
A pequena localidade boliviana da Higuera será cenário hoje (08) das comemorações centrais pelo 41 aniversário da execução do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ocorrido em 8 de outubro de 1967. O povoado onde caiu o lendário combatente receberá organizações bolivianas e representantes da colaboração cubana e venezuelana neste país andino.
Segundo notícia de Prensa Latina, a jornada servirá para que vários médicos da Ilha exponham teses de mestrados, enquanto representantes destacados nos projetos de cooperação na saúde, a alfabetização e a revolução energética serão estimuladas.
Contudo, a maior atenção se centrará no acontecimento que viverá os habitantes da Higuera com a chegada de energia elétrica pela primeira vez em sua historia.
Na véspera, o mausoléu de Che no município de Vallegrande serviu de sede para a cerimônia de declaração de Santa Cruz como segundo departamento boliviano livre do analfabetismo.
Os oradores, entre eles o presidente Evo Morales, ressaltaram que a entrega dessa distinção ao território de Santa Cruz constituía uma homenagem ao mítico lutador. Como conclusão do dia, Morales e o embaixador de Cuba em La Paz, Rafael Dausá, depositaram uma oferenda de flores em honra a Guevara, um símbolo mundial na batalha pelas causas justas.
Por outro lado, na cidade de El Alto, perto de La Paz, também se recordará a data com um ato diante a uma estátua monumental do conhecido internacionalmente como o Guerrilheiro Heróico. Organizadores da festa anunciaram que na mesma participarão senadores e deputados, além de agrupações populares e cooperadores cubanos.
A noticia e da ABI
E MAIS:
Sob o céu de La Higuera
Daniel Cassol, nov/07
Escorada pelo braço, na janela da casa de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me pagam 20 pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro, mês que traz o maior número de estrangeiros para La Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município de Pucará, departamento de Santa Cruz de la Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara morria para transformar a vida dos seus 76 habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia
2,5 mil metros de altitude, a vida é um esforço. Ao largo das estradas estreitas, as roças de milho se acomodam em meio aos penhascos, para o bem das poucas vacas, que ali se contentam em mascar a terra. O mítico homem morto nesta região, em 9 de outubro de 1967, teria dito à professora da escolinha que lhe dava comida que o objetivo da guerrilha era melhorar a vida daquela gente. De certo modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene pessoal de Che Guevara, em La Higuera, seu leito de morte, ele é mais do que um santo ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é uma necessidade de sobrevivência para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram Che. Hoje, é diretor do Museu de La Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos um Che presente e espiritual”, ele diz, a uma pequena platéia de militantes políticos brasileiros. Embora a presença de estrangeiros movimente a precária economia da cidade, que consiste em dois armazéns e algumas pessoas dispostas a contar histórias para turistas, René relativiza a tese: “O turismo não rende muito, porque é mais ideológico do que econômico. As pessoas sempre vêm sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade fala mais alto. Ela corre na porteira para convidar os que chegam a descer ao ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta uma história confusa, sobre uma cabra que teria vendido aos barbudos e de um conselho do Che: “Dizia para não termos medo deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada indica o nome do local onde vive: Quebrada del Churo. Com a ajuda que recebe dos visitantes, planeja erigir uma placa de madeira para que os turistas não passem reto por ali. De uma forma sincera, manifesta sua devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando não tenho nada, rezo para o Che e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais moradores da região, diz, dedicam-se a viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande apresenta também uma certa indiferença em relação ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento das camponesas, que carregam seus filhos em coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis dos turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”, resume José Peña, motorista, que mantém um comércio com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32 anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, depois enterrado em local desconhecido, até ser encontrado por pesquisadores cubanos numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997. Contam os moradores que a população formou filas por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças que perduram até hoje, para seu José, na cabeça de gente fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois de Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária de escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe gente boa, existe gente má”, resolve a questão. Ela contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito, com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça. Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com quem chega, sentada ao lado do marido em frente ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
Milagreiro e carrasco
De crença e fé vive o único brasileiro morador de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva, 36 anos, pernambucano de Recife, é missionário da Assembléia de Deus e há dez anos dedica a vida a ganhar almas para a igreja na Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de uma filha, Moisés não é exatamente um admirador de Che Guevara. “Não concordo com a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”, diz. Personagem sui generis desta história, Moisés mistura palavras em castelhano no seu sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido comentários de curas atribuídas a Che Guevara, ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui tem é uma indignação contra esse cara aí. Ele matou um punhado de bolivianos”.
Pobres e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade de pequenos agricultores, beneficiados por uma reforma agrária realizada na década de 1950, um dos fatores que levaram a guerrilha do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha, porque aqui todos têm a sua parcela de terra, e não havia necessidade de reforma agrária”, explica com simplicidade o motorista José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém conservador, que repete como um mantra as pregações ideológicas vindas de Santa Cruz de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores admirações pelo personagem que colocou a cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é uma parte importante, mas não é tudo”, diz o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática Nacional (ADN), no seu quarto mandato, não consecutivo.
É domingo e ele recebe os camponeses em seu gabinete. Um casal está aflito porque o terreno em que vivem teria sido vendido, com autorização do prefeito. Ele puxa o telefone, fala com alguém e resolve a questão. O casal sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos para receber a minha gente que vem à cidade”, explica.
Reclamando mais recursos e autonomia para os estados e municípios bolivianos, Rojas retira importância do turismo gerado em torno do seu visitante mais famoso, aposta no fortalecimento da fruticultura, mas revela que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
Promessa cumprida
Quarenta anos depois de morrer, Ernesto Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à professora da escolinha de La Higuera. Para além de levar levas de estrangeiros todo ano a Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma tentativa de ocupação da região pela solidariedade entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco e se chamam embaixadores da Alternativa Bolivariana para as Américas. Só médicos cubanos são 1,8 mil na Bolívia, dois deles trabalhando em La Higuera, com a ajuda de um cavalo que os leva às moradas mais distantes do centro hospitalar inaugurado em 14 de junho do ano passado, data do aniversário do Che. Ali, funcionam também a escola e o programa de alfabetização para adultos, baseados no método de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que já formou a primeira turma. “Era um compromisso do Che trazer assistência médica e educação gratuitas”, diz a médica cubana Adis Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano ouve falar em revolução. A vida, porém, segue a mesma peleia cotidiana, só restando a fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter vivido sua hora definitiva sobre os céus de La Higuera.

Higuera, Bolívia: Bolivianos celebram 41 aniversário da execução de Che Guevara; cidade passará a contar, finalmente, com energia elétrica

Adital -
08.10.08
A pequena localidade boliviana da Higuera será cenário hoje (08) das comemorações centrais pelo 41 aniversário da execução do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ocorrido em 8 de outubro de 1967. O povoado onde caiu o lendário combatente receberá organizações bolivianas e representantes da colaboração cubana e venezuelana neste país andino.
Segundo notícia de Prensa Latina, a jornada servirá para que vários médicos da Ilha exponham teses de mestrados, enquanto representantes destacados nos projetos de cooperação na saúde, a alfabetização e a revolução energética serão estimuladas.
Contudo, a maior atenção se centrará no acontecimento que viverá os habitantes da Higuera com a chegada de energia elétrica pela primeira vez em sua historia.
Na véspera, o mausoléu de Che no município de Vallegrande serviu de sede para a cerimônia de declaração de Santa Cruz como segundo departamento boliviano livre do analfabetismo.
Os oradores, entre eles o presidente Evo Morales, ressaltaram que a entrega dessa distinção ao território de Santa Cruz constituía uma homenagem ao mítico lutador. Como conclusão do dia, Morales e o embaixador de Cuba em La Paz, Rafael Dausá, depositaram uma oferenda de flores em honra a Guevara, um símbolo mundial na batalha pelas causas justas.
Por outro lado, na cidade de El Alto, perto de La Paz, também se recordará a data com um ato diante a uma estátua monumental do conhecido internacionalmente como o Guerrilheiro Heróico. Organizadores da festa anunciaram que na mesma participarão senadores e deputados, além de agrupações populares e cooperadores cubanos.
A noticia e da ABI
E MAIS:
Sob o céu de La Higuera
Daniel Cassol, nov/07
Escorada pelo braço, na janela da casa de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me pagam 20 pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro, mês que traz o maior número de estrangeiros para La Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município de Pucará, departamento de Santa Cruz de la Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara morria para transformar a vida dos seus 76 habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia
2,5 mil metros de altitude, a vida é um esforço. Ao largo das estradas estreitas, as roças de milho se acomodam em meio aos penhascos, para o bem das poucas vacas, que ali se contentam em mascar a terra. O mítico homem morto nesta região, em 9 de outubro de 1967, teria dito à professora da escolinha que lhe dava comida que o objetivo da guerrilha era melhorar a vida daquela gente. De certo modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene pessoal de Che Guevara, em La Higuera, seu leito de morte, ele é mais do que um santo ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é uma necessidade de sobrevivência para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram Che. Hoje, é diretor do Museu de La Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos um Che presente e espiritual”, ele diz, a uma pequena platéia de militantes políticos brasileiros. Embora a presença de estrangeiros movimente a precária economia da cidade, que consiste em dois armazéns e algumas pessoas dispostas a contar histórias para turistas, René relativiza a tese: “O turismo não rende muito, porque é mais ideológico do que econômico. As pessoas sempre vêm sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade fala mais alto. Ela corre na porteira para convidar os que chegam a descer ao ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta uma história confusa, sobre uma cabra que teria vendido aos barbudos e de um conselho do Che: “Dizia para não termos medo deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada indica o nome do local onde vive: Quebrada del Churo. Com a ajuda que recebe dos visitantes, planeja erigir uma placa de madeira para que os turistas não passem reto por ali. De uma forma sincera, manifesta sua devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando não tenho nada, rezo para o Che e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais moradores da região, diz, dedicam-se a viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande apresenta também uma certa indiferença em relação ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento das camponesas, que carregam seus filhos em coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis dos turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”, resume José Peña, motorista, que mantém um comércio com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32 anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, depois enterrado em local desconhecido, até ser encontrado por pesquisadores cubanos numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997. Contam os moradores que a população formou filas por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças que perduram até hoje, para seu José, na cabeça de gente fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois de Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária de escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe gente boa, existe gente má”, resolve a questão. Ela contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito, com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça. Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com quem chega, sentada ao lado do marido em frente ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
Milagreiro e carrasco
De crença e fé vive o único brasileiro morador de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva, 36 anos, pernambucano de Recife, é missionário da Assembléia de Deus e há dez anos dedica a vida a ganhar almas para a igreja na Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de uma filha, Moisés não é exatamente um admirador de Che Guevara. “Não concordo com a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”, diz. Personagem sui generis desta história, Moisés mistura palavras em castelhano no seu sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido comentários de curas atribuídas a Che Guevara, ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui tem é uma indignação contra esse cara aí. Ele matou um punhado de bolivianos”.
Pobres e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade de pequenos agricultores, beneficiados por uma reforma agrária realizada na década de 1950, um dos fatores que levaram a guerrilha do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha, porque aqui todos têm a sua parcela de terra, e não havia necessidade de reforma agrária”, explica com simplicidade o motorista José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém conservador, que repete como um mantra as pregações ideológicas vindas de Santa Cruz de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores admirações pelo personagem que colocou a cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é uma parte importante, mas não é tudo”, diz o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática Nacional (ADN), no seu quarto mandato, não consecutivo.
É domingo e ele recebe os camponeses em seu gabinete. Um casal está aflito porque o terreno em que vivem teria sido vendido, com autorização do prefeito. Ele puxa o telefone, fala com alguém e resolve a questão. O casal sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos para receber a minha gente que vem à cidade”, explica.
Reclamando mais recursos e autonomia para os estados e municípios bolivianos, Rojas retira importância do turismo gerado em torno do seu visitante mais famoso, aposta no fortalecimento da fruticultura, mas revela que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
Promessa cumprida
Quarenta anos depois de morrer, Ernesto Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à professora da escolinha de La Higuera. Para além de levar levas de estrangeiros todo ano a Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma tentativa de ocupação da região pela solidariedade entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco e se chamam embaixadores da Alternativa Bolivariana para as Américas. Só médicos cubanos são 1,8 mil na Bolívia, dois deles trabalhando em La Higuera, com a ajuda de um cavalo que os leva às moradas mais distantes do centro hospitalar inaugurado em 14 de junho do ano passado, data do aniversário do Che. Ali, funcionam também a escola e o programa de alfabetização para adultos, baseados no método de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que já formou a primeira turma. “Era um compromisso do Che trazer assistência médica e educação gratuitas”, diz a médica cubana Adis Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano ouve falar em revolução. A vida, porém, segue a mesma peleia cotidiana, só restando a fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter vivido sua hora definitiva sobre os céus de La Higuera.

Higuera, Bolívia: Bolivianos celebram 41 aniversário da execução de Che Guevara; cidade passará a contar, finalmente, com energia elétrica

Adital -
08.10.08
A pequena localidade boliviana da Higuera será cenário hoje (08) das comemorações centrais pelo 41 aniversário da execução do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ocorrido em 8 de outubro de 1967. O povoado onde caiu o lendário combatente receberá organizações bolivianas e representantes da colaboração cubana e venezuelana neste país andino.
Segundo notícia de Prensa Latina, a jornada servirá para que vários médicos da Ilha exponham teses de mestrados, enquanto representantes destacados nos projetos de cooperação na saúde, a alfabetização e a revolução energética serão estimuladas.
Contudo, a maior atenção se centrará no acontecimento que viverá os habitantes da Higuera com a chegada de energia elétrica pela primeira vez em sua historia.
Na véspera, o mausoléu de Che no município de Vallegrande serviu de sede para a cerimônia de declaração de Santa Cruz como segundo departamento boliviano livre do analfabetismo.
Os oradores, entre eles o presidente Evo Morales, ressaltaram que a entrega dessa distinção ao território de Santa Cruz constituía uma homenagem ao mítico lutador. Como conclusão do dia, Morales e o embaixador de Cuba em La Paz, Rafael Dausá, depositaram uma oferenda de flores em honra a Guevara, um símbolo mundial na batalha pelas causas justas.
Por outro lado, na cidade de El Alto, perto de La Paz, também se recordará a data com um ato diante a uma estátua monumental do conhecido internacionalmente como o Guerrilheiro Heróico. Organizadores da festa anunciaram que na mesma participarão senadores e deputados, além de agrupações populares e cooperadores cubanos.
A noticia e da ABI
E MAIS:
Sob o céu de La Higuera
Daniel Cassol, nov/07
Escorada pelo braço, na janela da casa de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me pagam 20 pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro, mês que traz o maior número de estrangeiros para La Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município de Pucará, departamento de Santa Cruz de la Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara morria para transformar a vida dos seus 76 habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia
2,5 mil metros de altitude, a vida é um esforço. Ao largo das estradas estreitas, as roças de milho se acomodam em meio aos penhascos, para o bem das poucas vacas, que ali se contentam em mascar a terra. O mítico homem morto nesta região, em 9 de outubro de 1967, teria dito à professora da escolinha que lhe dava comida que o objetivo da guerrilha era melhorar a vida daquela gente. De certo modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene pessoal de Che Guevara, em La Higuera, seu leito de morte, ele é mais do que um santo ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é uma necessidade de sobrevivência para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram Che. Hoje, é diretor do Museu de La Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos um Che presente e espiritual”, ele diz, a uma pequena platéia de militantes políticos brasileiros. Embora a presença de estrangeiros movimente a precária economia da cidade, que consiste em dois armazéns e algumas pessoas dispostas a contar histórias para turistas, René relativiza a tese: “O turismo não rende muito, porque é mais ideológico do que econômico. As pessoas sempre vêm sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade fala mais alto. Ela corre na porteira para convidar os que chegam a descer ao ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta uma história confusa, sobre uma cabra que teria vendido aos barbudos e de um conselho do Che: “Dizia para não termos medo deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada indica o nome do local onde vive: Quebrada del Churo. Com a ajuda que recebe dos visitantes, planeja erigir uma placa de madeira para que os turistas não passem reto por ali. De uma forma sincera, manifesta sua devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando não tenho nada, rezo para o Che e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais moradores da região, diz, dedicam-se a viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande apresenta também uma certa indiferença em relação ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento das camponesas, que carregam seus filhos em coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis dos turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”, resume José Peña, motorista, que mantém um comércio com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32 anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, depois enterrado em local desconhecido, até ser encontrado por pesquisadores cubanos numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997. Contam os moradores que a população formou filas por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças que perduram até hoje, para seu José, na cabeça de gente fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois de Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária de escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe gente boa, existe gente má”, resolve a questão. Ela contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito, com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça. Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com quem chega, sentada ao lado do marido em frente ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
Milagreiro e carrasco
De crença e fé vive o único brasileiro morador de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva, 36 anos, pernambucano de Recife, é missionário da Assembléia de Deus e há dez anos dedica a vida a ganhar almas para a igreja na Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de uma filha, Moisés não é exatamente um admirador de Che Guevara. “Não concordo com a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”, diz. Personagem sui generis desta história, Moisés mistura palavras em castelhano no seu sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido comentários de curas atribuídas a Che Guevara, ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui tem é uma indignação contra esse cara aí. Ele matou um punhado de bolivianos”.
Pobres e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade de pequenos agricultores, beneficiados por uma reforma agrária realizada na década de 1950, um dos fatores que levaram a guerrilha do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha, porque aqui todos têm a sua parcela de terra, e não havia necessidade de reforma agrária”, explica com simplicidade o motorista José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém conservador, que repete como um mantra as pregações ideológicas vindas de Santa Cruz de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores admirações pelo personagem que colocou a cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é uma parte importante, mas não é tudo”, diz o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática Nacional (ADN), no seu quarto mandato, não consecutivo.
É domingo e ele recebe os camponeses em seu gabinete. Um casal está aflito porque o terreno em que vivem teria sido vendido, com autorização do prefeito. Ele puxa o telefone, fala com alguém e resolve a questão. O casal sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos para receber a minha gente que vem à cidade”, explica.
Reclamando mais recursos e autonomia para os estados e municípios bolivianos, Rojas retira importância do turismo gerado em torno do seu visitante mais famoso, aposta no fortalecimento da fruticultura, mas revela que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
Promessa cumprida
Quarenta anos depois de morrer, Ernesto Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à professora da escolinha de La Higuera. Para além de levar levas de estrangeiros todo ano a Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma tentativa de ocupação da região pela solidariedade entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco e se chamam embaixadores da Alternativa Bolivariana para as Américas. Só médicos cubanos são 1,8 mil na Bolívia, dois deles trabalhando em La Higuera, com a ajuda de um cavalo que os leva às moradas mais distantes do centro hospitalar inaugurado em 14 de junho do ano passado, data do aniversário do Che. Ali, funcionam também a escola e o programa de alfabetização para adultos, baseados no método de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que já formou a primeira turma. “Era um compromisso do Che trazer assistência médica e educação gratuitas”, diz a médica cubana Adis Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano ouve falar em revolução. A vida, porém, segue a mesma peleia cotidiana, só restando a fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter vivido sua hora definitiva sobre os céus de La Higuera.

Higuera, Bolívia: Bolivianos celebram 41 aniversário da execução de Che Guevara; cidade passará a contar, finalmente, com energia elétrica

Adital -
08.10.08
A pequena localidade boliviana da Higuera será cenário hoje (08) das comemorações centrais pelo 41 aniversário da execução do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ocorrido em 8 de outubro de 1967. O povoado onde caiu o lendário combatente receberá organizações bolivianas e representantes da colaboração cubana e venezuelana neste país andino.
Segundo notícia de Prensa Latina, a jornada servirá para que vários médicos da Ilha exponham teses de mestrados, enquanto representantes destacados nos projetos de cooperação na saúde, a alfabetização e a revolução energética serão estimuladas.
Contudo, a maior atenção se centrará no acontecimento que viverá os habitantes da Higuera com a chegada de energia elétrica pela primeira vez em sua historia.
Na véspera, o mausoléu de Che no município de Vallegrande serviu de sede para a cerimônia de declaração de Santa Cruz como segundo departamento boliviano livre do analfabetismo.
Os oradores, entre eles o presidente Evo Morales, ressaltaram que a entrega dessa distinção ao território de Santa Cruz constituía uma homenagem ao mítico lutador. Como conclusão do dia, Morales e o embaixador de Cuba em La Paz, Rafael Dausá, depositaram uma oferenda de flores em honra a Guevara, um símbolo mundial na batalha pelas causas justas.
Por outro lado, na cidade de El Alto, perto de La Paz, também se recordará a data com um ato diante a uma estátua monumental do conhecido internacionalmente como o Guerrilheiro Heróico. Organizadores da festa anunciaram que na mesma participarão senadores e deputados, além de agrupações populares e cooperadores cubanos.
A noticia e da ABI
E MAIS:
Sob o céu de La Higuera
Daniel Cassol, nov/07
Escorada pelo braço, na janela da casa de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me pagam 20 pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro, mês que traz o maior número de estrangeiros para La Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município de Pucará, departamento de Santa Cruz de la Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara morria para transformar a vida dos seus 76 habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia
2,5 mil metros de altitude, a vida é um esforço. Ao largo das estradas estreitas, as roças de milho se acomodam em meio aos penhascos, para o bem das poucas vacas, que ali se contentam em mascar a terra. O mítico homem morto nesta região, em 9 de outubro de 1967, teria dito à professora da escolinha que lhe dava comida que o objetivo da guerrilha era melhorar a vida daquela gente. De certo modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene pessoal de Che Guevara, em La Higuera, seu leito de morte, ele é mais do que um santo ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é uma necessidade de sobrevivência para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram Che. Hoje, é diretor do Museu de La Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos um Che presente e espiritual”, ele diz, a uma pequena platéia de militantes políticos brasileiros. Embora a presença de estrangeiros movimente a precária economia da cidade, que consiste em dois armazéns e algumas pessoas dispostas a contar histórias para turistas, René relativiza a tese: “O turismo não rende muito, porque é mais ideológico do que econômico. As pessoas sempre vêm sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade fala mais alto. Ela corre na porteira para convidar os que chegam a descer ao ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta uma história confusa, sobre uma cabra que teria vendido aos barbudos e de um conselho do Che: “Dizia para não termos medo deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada indica o nome do local onde vive: Quebrada del Churo. Com a ajuda que recebe dos visitantes, planeja erigir uma placa de madeira para que os turistas não passem reto por ali. De uma forma sincera, manifesta sua devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando não tenho nada, rezo para o Che e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais moradores da região, diz, dedicam-se a viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande apresenta também uma certa indiferença em relação ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento das camponesas, que carregam seus filhos em coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis dos turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”, resume José Peña, motorista, que mantém um comércio com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32 anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, depois enterrado em local desconhecido, até ser encontrado por pesquisadores cubanos numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997. Contam os moradores que a população formou filas por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças que perduram até hoje, para seu José, na cabeça de gente fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois de Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária de escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe gente boa, existe gente má”, resolve a questão. Ela contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito, com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça. Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com quem chega, sentada ao lado do marido em frente ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
Milagreiro e carrasco
De crença e fé vive o único brasileiro morador de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva, 36 anos, pernambucano de Recife, é missionário da Assembléia de Deus e há dez anos dedica a vida a ganhar almas para a igreja na Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de uma filha, Moisés não é exatamente um admirador de Che Guevara. “Não concordo com a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”, diz. Personagem sui generis desta história, Moisés mistura palavras em castelhano no seu sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido comentários de curas atribuídas a Che Guevara, ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui tem é uma indignação contra esse cara aí. Ele matou um punhado de bolivianos”.
Pobres e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade de pequenos agricultores, beneficiados por uma reforma agrária realizada na década de 1950, um dos fatores que levaram a guerrilha do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha, porque aqui todos têm a sua parcela de terra, e não havia necessidade de reforma agrária”, explica com simplicidade o motorista José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém conservador, que repete como um mantra as pregações ideológicas vindas de Santa Cruz de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores admirações pelo personagem que colocou a cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é uma parte importante, mas não é tudo”, diz o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática Nacional (ADN), no seu quarto mandato, não consecutivo.
É domingo e ele recebe os camponeses em seu gabinete. Um casal está aflito porque o terreno em que vivem teria sido vendido, com autorização do prefeito. Ele puxa o telefone, fala com alguém e resolve a questão. O casal sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos para receber a minha gente que vem à cidade”, explica.
Reclamando mais recursos e autonomia para os estados e municípios bolivianos, Rojas retira importância do turismo gerado em torno do seu visitante mais famoso, aposta no fortalecimento da fruticultura, mas revela que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
Promessa cumprida
Quarenta anos depois de morrer, Ernesto Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à professora da escolinha de La Higuera. Para além de levar levas de estrangeiros todo ano a Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma tentativa de ocupação da região pela solidariedade entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco e se chamam embaixadores da Alternativa Bolivariana para as Américas. Só médicos cubanos são 1,8 mil na Bolívia, dois deles trabalhando em La Higuera, com a ajuda de um cavalo que os leva às moradas mais distantes do centro hospitalar inaugurado em 14 de junho do ano passado, data do aniversário do Che. Ali, funcionam também a escola e o programa de alfabetização para adultos, baseados no método de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que já formou a primeira turma. “Era um compromisso do Che trazer assistência médica e educação gratuitas”, diz a médica cubana Adis Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano ouve falar em revolução. A vida, porém, segue a mesma peleia cotidiana, só restando a fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter vivido sua hora definitiva sobre os céus de La Higuera.

Higuera, Bolívia: Bolivianos celebram 41 aniversário da execução de Che Guevara; cidade passará a contar, finalmente, com energia elétrica

Adital -
08.10.08
A pequena localidade boliviana da Higuera será cenário hoje (08) das comemorações centrais pelo 41 aniversário da execução do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ocorrido em 8 de outubro de 1967. O povoado onde caiu o lendário combatente receberá organizações bolivianas e representantes da colaboração cubana e venezuelana neste país andino.
Segundo notícia de Prensa Latina, a jornada servirá para que vários médicos da Ilha exponham teses de mestrados, enquanto representantes destacados nos projetos de cooperação na saúde, a alfabetização e a revolução energética serão estimuladas.
Contudo, a maior atenção se centrará no acontecimento que viverá os habitantes da Higuera com a chegada de energia elétrica pela primeira vez em sua historia.
Na véspera, o mausoléu de Che no município de Vallegrande serviu de sede para a cerimônia de declaração de Santa Cruz como segundo departamento boliviano livre do analfabetismo.
Os oradores, entre eles o presidente Evo Morales, ressaltaram que a entrega dessa distinção ao território de Santa Cruz constituía uma homenagem ao mítico lutador. Como conclusão do dia, Morales e o embaixador de Cuba em La Paz, Rafael Dausá, depositaram uma oferenda de flores em honra a Guevara, um símbolo mundial na batalha pelas causas justas.
Por outro lado, na cidade de El Alto, perto de La Paz, também se recordará a data com um ato diante a uma estátua monumental do conhecido internacionalmente como o Guerrilheiro Heróico. Organizadores da festa anunciaram que na mesma participarão senadores e deputados, além de agrupações populares e cooperadores cubanos.
A noticia e da ABI
E MAIS:
Sob o céu de La Higuera
Daniel Cassol, nov/07
Escorada pelo braço, na janela da casa de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me pagam 20 pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro, mês que traz o maior número de estrangeiros para La Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município de Pucará, departamento de Santa Cruz de la Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara morria para transformar a vida dos seus 76 habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia
2,5 mil metros de altitude, a vida é um esforço. Ao largo das estradas estreitas, as roças de milho se acomodam em meio aos penhascos, para o bem das poucas vacas, que ali se contentam em mascar a terra. O mítico homem morto nesta região, em 9 de outubro de 1967, teria dito à professora da escolinha que lhe dava comida que o objetivo da guerrilha era melhorar a vida daquela gente. De certo modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene pessoal de Che Guevara, em La Higuera, seu leito de morte, ele é mais do que um santo ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é uma necessidade de sobrevivência para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram Che. Hoje, é diretor do Museu de La Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos um Che presente e espiritual”, ele diz, a uma pequena platéia de militantes políticos brasileiros. Embora a presença de estrangeiros movimente a precária economia da cidade, que consiste em dois armazéns e algumas pessoas dispostas a contar histórias para turistas, René relativiza a tese: “O turismo não rende muito, porque é mais ideológico do que econômico. As pessoas sempre vêm sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade fala mais alto. Ela corre na porteira para convidar os que chegam a descer ao ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta uma história confusa, sobre uma cabra que teria vendido aos barbudos e de um conselho do Che: “Dizia para não termos medo deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada indica o nome do local onde vive: Quebrada del Churo. Com a ajuda que recebe dos visitantes, planeja erigir uma placa de madeira para que os turistas não passem reto por ali. De uma forma sincera, manifesta sua devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando não tenho nada, rezo para o Che e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais moradores da região, diz, dedicam-se a viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande apresenta também uma certa indiferença em relação ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento das camponesas, que carregam seus filhos em coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis dos turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”, resume José Peña, motorista, que mantém um comércio com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32 anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor de Malta, depois enterrado em local desconhecido, até ser encontrado por pesquisadores cubanos numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997. Contam os moradores que a população formou filas por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças que perduram até hoje, para seu José, na cabeça de gente fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois de Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária de escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe gente boa, existe gente má”, resolve a questão. Ela contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito, com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça. Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com quem chega, sentada ao lado do marido em frente ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
Milagreiro e carrasco
De crença e fé vive o único brasileiro morador de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva, 36 anos, pernambucano de Recife, é missionário da Assembléia de Deus e há dez anos dedica a vida a ganhar almas para a igreja na Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de uma filha, Moisés não é exatamente um admirador de Che Guevara. “Não concordo com a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”, diz. Personagem sui generis desta história, Moisés mistura palavras em castelhano no seu sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido comentários de curas atribuídas a Che Guevara, ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui tem é uma indignação contra esse cara aí. Ele matou um punhado de bolivianos”.
Pobres e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade de pequenos agricultores, beneficiados por uma reforma agrária realizada na década de 1950, um dos fatores que levaram a guerrilha do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha, porque aqui todos têm a sua parcela de terra, e não havia necessidade de reforma agrária”, explica com simplicidade o motorista José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém conservador, que repete como um mantra as pregações ideológicas vindas de Santa Cruz de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores admirações pelo personagem que colocou a cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é uma parte importante, mas não é tudo”, diz o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática Nacional (ADN), no seu quarto mandato, não consecutivo.
É domingo e ele recebe os camponeses em seu gabinete. Um casal está aflito porque o terreno em que vivem teria sido vendido, com autorização do prefeito. Ele puxa o telefone, fala com alguém e resolve a questão. O casal sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos para receber a minha gente que vem à cidade”, explica.
Reclamando mais recursos e autonomia para os estados e municípios bolivianos, Rojas retira importância do turismo gerado em torno do seu visitante mais famoso, aposta no fortalecimento da fruticultura, mas revela que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
Promessa cumprida
Quarenta anos depois de morrer, Ernesto Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à professora da escolinha de La Higuera. Para além de levar levas de estrangeiros todo ano a Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma tentativa de ocupação da região pela solidariedade entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco e se chamam embaixadores da Alternativa Bolivariana para as Américas. Só médicos cubanos são 1,8 mil na Bolívia, dois deles trabalhando em La Higuera, com a ajuda de um cavalo que os leva às moradas mais distantes do centro hospitalar inaugurado em 14 de junho do ano passado, data do aniversário do Che. Ali, funcionam também a escola e o programa de alfabetização para adultos, baseados no método de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que já formou a primeira turma. “Era um compromisso do Che trazer assistência médica e educação gratuitas”, diz a médica cubana Adis Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano ouve falar em revolução. A vida, porém, segue a mesma peleia cotidiana, só restando a fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter vivido sua hora definitiva sobre os céus de La Higuera.

fevereiro 27, 2008

Saída de Fidel é derrota para os EUA, diz vice-presidente do Parlamento do Mercosul

O deputado federal brasileiro Dr. Rosinha (PT), vice-presidente do Parlamento do Mercosul, afirmou nesta quarta-feira (20/2) que a renúncia de Fidel Castro à presidência de Cuba significa uma derrota política para o governo dos Estados Unidos.”Os únicos derrotados [com a saída voluntária de Fidel] são os Estados Unidos, que pretendiam tirá-lo do governo através de golpes ou da sua própria morte” [ N. do Blog: VER ítem 11 do docum. PDF ], afirmou Dr. Rosinha. “No seu tempo, Fidel sai do governo e continua influenciando a história.
“Num texto escrito ontem (19/2), o vice-presidente do Parlamento do Mercosul relata um rápido encontro que teve com Fidel Castro em janeiro de 2003, durante a posse do presidente Lula, em Brasília.
“Para mim, ficou a imagem de um homem simpático e atencioso. Mas Fidel vai além da simpatia pessoal. É um homem carismático, com grande liderança, e que contribuiu para a alteração do curso da história, não só cubana, mas do mundo.”
Fidel foi alvo de uma série de atentados nas últimas cinco décadas, alguns deles comprovadamente preparados por agentes da CIA (Agência Central de Inteligência norte-americana).
O governo dos Estados Unidos mantém livre em seu território, por exemplo, o terrorista Luis Posada Carriles, apontado como um dos responsáveis, entre outros atentados, pela explosão de um avião comercial cubano, em 1976, que causou a morte de 73 pessoas. Carriles vive em liberdade nos EUA apesar de haver um pedido de extradição formulado pela Justiça venezuelana.
Para o deputado Dr. Rosinha, Fidel deixa o governo cubano num momento em que o neoliberalismo é questionado, com a eleição de presidentes comprometidos com mudanças.
“As mudanças implementadas nos últimos anos por tais governos vêm gerando maior capacidade de integração da América Latina”, observa o parlamentar.
“Esse avanço integracionista, tarefa também de Fidel, dá a Cuba melhores condições de inserção no continente.”
Avanços sociais - Desde janeiro de 1959, quando a Revolução Cubana interrompeu os quase sete anos de uma ditadura corrupta e repressiva do então presidente Fulgencio Batista, aliado dos EUA, os indicadores sociais do país deram um salto. De acordo com a ONU, o índice de pobreza de Cuba era, em 2004, o sexto menor entre os nada menos que 102 países em desenvolvimento pesquisados pela entidade. Também conforme a ONU, a mortalidade infantil de Cuba, em 2003, era de 6,2 habitantes a cada 1000 nascimentos. No Brasil, o índice era de 28,6.
Cerca de 98% das residências cubanas têm instalações sanitárias adequadas. Apenas 0,02% da população é analfabeta. A expectativa de vida ao nascer na ilha é de 77,41 anos. No Brasil, a média é de 71,9 anos.
SITE do Dr. Rosinha
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outubro 10, 2007

Hora do Povo sai em defesa de Che, e humilha revista vEJA!! ( Mais uma vez, aliás. )

Che e as calúnias de “Veja”
Muito já foi dito sobre a tentativa de “Veja” de deformar a figura de Ernesto Che Guevara, bem de acordo com o molde da cabeça dos seus donos e da cloaca que é o cérebro de seus redatores. Além de inútil, é de uma estupidez abissal. Nada que essas pulgas façam pode alterar a estatura de titã que já passou definitivamente para a História.
Porém, há algo ainda a ser dito sobre a manipulação e a mentira.
FONTES
Quais são as fontes de “Veja”? Dois assassinos do Che. Os dois com o estigma queimando na pele, e fazendo qualquer negócio para apagá-lo. Por isso, atribuem ao Che o seu próprio estigma de assassinos e covardes. O que também não vai resolver o problema, mas, se vender a mãe resolvesse o problema, não há dúvida de que a venderiam, até porque a mercadoria não deve valer grande coisa.
Um deles, Gary Prado, na época um pau mandado da CIA dentro do exército boliviano, escreveu cinco livros para mostrar que o Che era o assassino, e ele, que assassinou o Che, era um santo e patriota. Até entrou num partido supostamente de esquerda e supostamente de passado guerrilheiro, o MIR. Hoje numa cadeira de rodas, devido a um tiro que recebeu num golpe de Estado, ele jura que é de esquerda desde criancinha – e não estamos brincando: foi exatamente o que disse numa entrevista à BBC.
Seu partido, o MIR, fora os “supostamente” já mencionados, era, na verdade, uma pasta escancaradamente neoliberal, entreguista e corrupta. Foi esteio de Hugo Banzer – o assassino do presidente general Juan José Torres e entusiasta da CIA no Plano Condor. Depois, o MIR passou a apoiar Sanchez de Losada, um capacho que falava espanhol com sotaque de Boston e queria privatizar até a água. Por isso, durante a revolta popular contra Losada, as sedes do MIR foram dos primeiros prédios a serem tomados pela população enfurecida. Em 2006, sem voto, sem militantes, e sem poder mais roubar o Estado, o MIR se dissolveu. Restou a Gary Prado apenas as páginas da “Veja”.
A outra fonte é ainda mais isenta: um esbirro do quarto escalão da CIA, Felix Rodriguez.
Rodriguez foi o capanga que George Bush, pai, encarregou do tráfico de cocaína na operação Irã-contras (um comparsa de Rodriguez, Gerald Latchinian, foi preso em outubro de 1984 pela polícia americana com um carregamento de US$ 10,3 milhões em cocaína, comprada com dinheiro da CIA); antes, havia sido parceiro do terrorista Posada Carriles nos atentados à população civil cubana. Sobrinho do ministro de Obras Públicas (e que obras!) da ditadura Fulgencio Batista, depois da revolução cubana Rodriguez foi cabecilha dos torturadores de Rafael Trujillo, na República Dominicana; em 1960, esteve na “Operação 40”, da CIA – atentados terroristas em Cuba – e foi instrutor da “brigada 2506” – os vermes da Baía dos Porcos; na Bolívia, esse gangster deu a ordem para o assassinato do Che; em seguida, foi um dos carrascos da Operação Phoenix, no Vietnã (70.000 a 100.000 assassinatos – em 1974, a CIA admitiu 26.369 assassinatos de “não combatentes”, isto é, civis, ao Congresso dos EUA) e da Operação Condor, na América Latina; um dos “encanadores” de Nixon, naquilo que acabaria redundando no escândalo de Watergate; e torturador reconhecido pela própria Justiça de Miami (decisão do juiz Neale Foster, junho de 2004, ao não aceitar seu depoimento num caso de atentado aos direitos humanos).
Essa é a fonte de “Veja” – um torturador, assassino, terrorista e traficante. E, evidentemente, um farsante. Segundo ele diz, “tentei em vão convencer os militares bolivianos” a não assassinar o Che. Em suma, os militares bolivianos mandavam na CIA… Mais interessante ainda é o motivo pelo qual ele queria “poupar a vida” do Che: porque a CIA esperava que o Che passasse para o seu lado. O Che passar para o lado da CIA? Pois é, leitor, é isso o que o crápula diz, e a “Veja” publica. Resta saber quem mais será que a CIA pretendeu que passasse para o lado dela. Provavelmente, o Mao Tsé-tung, o Fidel, o Ho Chi Min. E por que não o Stalin? Graças à “Veja”, descobrimos que a CIA é uma agência especializada em mágica & outros fenômenos sobrenaturais. Os assassinatos, as torturas, o terrorismo e os golpes de Estado são apenas para o pessoal passar o tempo…
CARTA
Além dessas fontes pútridas, a “Veja” usa declarações do Che, tirando-as não apenas do contexto, mas deformando-as. Assim, uma carta para sua primeira mulher, Hilda, em que ele diz “estou na selva cubana, vivo e sedento de sangue”, é apresentada como tendo sentido literal. Uma imagem poética se transforma numa confissão de crime. Assim, até Castro Alves é capaz de virar um psicopata. A manipulação está à altura (ou à baixura, perdoem-nos o neologismo) da estupidez. Eis alguns trechos da carta, que não traduzimos por ser de fácil entendimento, e que descreve o desembarque e o início da guerrilha na Sierra Maestra, assim como seus cálidos sentimentos em relação à mulher e à filha:
“28 de Enero de 1957
“Querida vieja:
“Aquí, desde la manigua cubana, vivo y sediento de sangre escribo estas encendidas líneas martianas. Como si realmente fuera un soldado (sucio y harapiento estoy, por lo menos), escribo sobre un plato de campaña con el fusil a mi lado y un nuevo aditamento entre los labios: un tabaco. La cosa fue dura. Como sabrás, después de siete días de estar hacinados como sardinas en el ya famoso Granma, desembarcamos en un manglar infecto, por culpa de los prácticos, y siguieron nuestras desventuras hasta ser sorprendidos en la también célebre Alegría y desbandados como palomas. Me hirieron en el cuello y quedé vivo nada más que por mi suerte gatuna, pues una bala de ametralladora dio en una caja de balas que llevaba en el pecho y el rebote me dio en el cuello. Caminé unos días por el monte creyéndome mal herido, pues el golpe de la bala me había dejado un buen dolor en el pecho. De los muchachos que conociste allí, sólo fue muerto Jimmy Hirtzel, asesinado por entregarse. Nosotros, en un grupo en que estaban Almeida y Ramirito, de los que conocimos, pasamos siete días de hambre y sed terribles hasta burlar el cerco, y con ayuda de los campesinos volvimos a agruparnos con Fidel.
“Naturalmente, la pelea no está totalmente ganada, falta mucha batalla, pero ya se inclina a nuestro favor: cada vez lo será más.
“Ahora, hablando de ustedes, quiero saber si estás todavía en la casa a donde escribo y cómo están todos, particularmente el ‘pétalo más profundo del amor’. A ella me le das el abrazo y beso más fuerte que pueda competir con su armadura ósea. A los demás un abrazo y recuerdos. Con la precipitada salida dejé las cosas en casa de Pocho, entre ellas están las fotos tuyas y de la chiquita. Cuando escribas, mandámelas. Podés escribir a la casa de mi tío, a nombre del Patojo. Las cartas tardarán un poco, pero llegarán, creo”.
O resto da epopéia, o leitor conhece. Não é por acaso que esses vagabundos e débeis mentais não gostam do Che. Ainda bem.
CARLOS LOPES
Hora do Povo
10/10/07

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

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