Vou tentar entender – didaticamente – o que estaria ocorrendo, baseado apenas no que diz o artigo do BOL [ abaixo do meu texto ]:
Digamos que Júlio tenha dado o dinheiro. Se existe um caso de extrorsão, como o padre diz, a grana que o ( s ) sujeito ( s ) recebeu ( ram ) é fruto de crime. O dinheiro só foi chegar em suas mãos por meio de um crime, uma exigência ilegal, uma pressão violenta e ameaçadora. Até aqui, tudo bem, né?
Por outro lado, existiriam outros motivos que fariam o padre dar algum dinheiro para estes personagens. Um trabalho remunerado, por exemplo. Uma tarefa, encher laje. Ganhariam o dinheiro, sem recorrer ao uso da força. Um motivo, certo? Mas, se estou acompanhando corretamente, isso está descartado, ou sequer foi mencionado. Eles não trabalharam para o padre.
Chegamos à espinhosa questão do romance amoroso. O padre sucumbiu aos prazeres carnais e proibidos:
- com Batista, interno da Febem, por tentativa de roubo e bem antes de 2001 ( 1 );
- Batista estava foragido da Febem, em 2000 ( 2 ) quando começou a pedir dinheiro para o padre, no que foi atendido e Lancelotti, para piorar sua situação, não denunciou o foragido à polícia ou à FEBEM;
- Batista, com 25 anos atualmente, teria em 2000 a idade de 17 ou 18 anos ( não entendo muito disso, mas acho que o rapaz não devia estar na FEBEM )**;
- em 2001, o padre pagou ao advogado cerca de R$ 6000 ( em seis depósitos bancários ), pela prestação de serviços advocatícios ( 3 ), defendendo Batista em uma acusação de assassinato. De acordo com a anotação 2 , à essa época o padre já dava dinheiro para Batista;
- de acordo com o advogado, os valores recebidos por seu cliente, desde 2000, chegam à casa de “700 mil reais” ( 3 ) tudo a título de gratificações – não só dinheiro, parece;
- o advogado é um bom advogado, atendendo Batista desde 2000/2001 e permanecendo a seu serviço durante estes últimos 6 ou 7 anos;
- desde outubro de 2006, Batista está casado ( 4 ), com uma mulher 16 anos mais velha, e que não devia ter sabido do passado homossexual do marido, ou sabia e não ligava, ou então é amor mesmo. O relacionamento entre os dois ( padre e ex-interno ) acaba, mas por algum motivo ( que não a extorsão ou chantagem ) Lancelotti continua a fornecer dinheiro para Batista;
Vamos testar as hipóteses, como faz o melhor do jornalismo caboclo:
1. Padre e interno têm ( tiveram ) um relacionamento amoroso, o que justifica o fornecimento de dinheiro, sem que o ex-presidiário tivesse que recorrer à força. Ou seja: amor não caracteriza crime. Nessa linha, a defesa provando que Júlio tinha um lance homossexual com Batista, quer dizer que não haveria crime, nem chantagem, nem extorsão. Portanto, nem cadeia para a gangue. Eles têm obrigação de provar o romance para livrar a cara.
2. Padre e interno têm ( tiveram ) um relacionamento amoroso, mas que se acabou. O padre continuaria dando dinheiro para Batista, de livre e expontânea vontade. Lancelotti denuncia, talvez por ciúme, uma suposta extorsão ou chantagem, sem se preocupar que um romance proibido torne-se público e ele acabe se transformando em um tipo de pária, aos olhos de uma sociedade e imprensa que o têem em alta conta, e que ficariam aterrorizados com a revelação.
3. Não houve relacionamento. Houve chantagem ou algum tipo de extorsão, a partir de certa data. O padre, renomado e odiado defensor dos moradores de rua e internos da FEBEM ( inclusive já tendo sido ameaçado e jurado de morte ) paga durante algum tempo, mas se cansa e denuncia os autores. Estes, talvez já com um plano em mente há tempos, aproveitam que denúncias de pedofilia, tendo padres católicos como protagonistas, surgiram nos noticiários há alguns anos e causaram comoção mundial ( há até um documentário inglês a respeito ); decidem, então, que esta será a linha de defesa: “não houve crime, o padre está inventando uma chantagem; existia, isso sim, um romance ( que não é crime ) desde minha estadia na FEBEM”. O padre torna-se, então, um estranho algoz: pedófilo que teve um caso com alguém internado na FEBEM, e que já era maior de idade**.
Acho que até aqui, diante do quadro que a notícia a seguir apresenta, as hipóteses acima não estão fora de cogitação. O melhor é esperar. Sempre. Acho que o Brasil economizaria muito se substituísse os caríssimos tribunais de marajás do Judiciário por redações jornalísticas que, de acordo com algumas opiniões, custam muito pouco. A mão de obra é barata e mal-paga e não liga para direitos trabalhistas e nem Direitos Humanos.
Vamos ao artigo:
Advogado de ex-interno afirma ter recebido pagamento do padre Júlio Lancelotti
27/10/2007
O advogado de defesa de Anderson Marcos Batista, 25, Nelson Bernardo da Costa, afirmou neste sábado ter recebido R$ 6 mil em honorários do padre Júlio Lancelotti. O pagamento seria referente à defesa em um caso de homicídio e teria sido quitado em 2001 ( 3 ).
Batista foi preso na sexta-feira ( 26 ), juntamente com sua mulher Conceição Eletério, 44, e Evandro Guimarães, 28, em um prédio na rua Riachuelo ( região central ), todos acusados de extorquir o padre.
O advogado negou que seu cliente tenha praticado extorsão e afirma que o dinheiro e os presentes eram dados pelo padre a título de “gratificação”.
De acordo com Costa, o pagamento foi feito por meio de depósito bancário, em seis parcelas de mil reais. Na época, Batista era acusado por homicídio doloso após matar a tiros um homem em uma briga de bar.
Relacionamento amoroso
Ex-interno da Febem, Batista teria conhecido e iniciado um relacionamento amoroso com o padre na instituição, onde foi internado por roubo ( 1 ) . Em 2000, após fugir da instituição ( 2 ), teria começado a solicitar ajuda financeira ao sacerdote e, mais tarde, passado a exigir uma soma cada vez maior em dinheiro.
O advogado afirma que o valor dos bens recebidos por seu cliente foi de “quase 700 mil reais ( 3 )” e que o relacionamento entre o padre e ex-detento acabou após Batista ter se casado, em outubro de 2006 ( 4 ).
O delegado da SIG ( Setor de Investigações Gerais ), André Luis Pimentel, informou que irá pedir a quebra do sigilo bancário do padre para apurar o valor total da extorsão. De acordo com ele, foram comprados cerca de cinco carros de luxo com o valor.
A polícia também informou que Cúria Metropolitana de São Paulo ( setor administrativo da Igreja Católica ), pediu no início da semana passada sigilo de Justiça para o caso.