As investigações sobre o tiroteio na fazenda experimental Syngenta Seeds, conduzidas pelo Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), derrubaram a versão dos seguranças da empresa NF, que alegaram apenas ter reagido a ataque dos trabalhadores sem terra. No fim de semana, a polícia cumpriu 10 mandados de busca e apreensão, nas casas dos seguranças, na sede da fazenda, e na empresa de segurança. Na casa de um dos seguranças foi encontrada uma pequena quantidade de maconha. Na NF, a polícia encontrou três revólveres calibre 38. “Aos poucos e com muitas provas e fortes indícios estamos desvendando o que aconteceu na fazenda, naquele domingo”, disse o delegado do Cope, Renato Bastos Figueiroa.
Na manhã desta segunda-feira (29), 11 trabalhadores rurais reconheceram três dos sete seguranças que estão presos como os mesmos homens que estiveram na área da fazenda da multinacional Syngenta. A Justiça determinou que a NF apresente todas as suas armas num prazo de 24 horas a pedido do Cope. Segundo a Polícia Federal, a empresa tem 18 armas registradas. “É necessário termos as armas para que sejam periciadas”, disse o delegado.
A polícia encontrou provas que não houve segurança refém e conseguiu fortes indícios que a sem-terra Izabel Nascimento de Souza, ferida gravemente com um tiro no olho, teria sido vítima de tentativa de execução. Além disso, o mesmo segurança acusado de atirar em Isabel teria várias passagens pela polícia, entre elas a de formação de quadrilha e roubo. Os policiais, durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão no fim de semana, encontraram maconha na casa de um dos seguranças envolvidos.
Segundo Figueiroa, Izabel teria sido obrigada a se ajoelhar antes de ser baleada. Ela teria sido confundida pelo segurança, com Célia Aparecida Lourenço, uma das líderes da Via Campesina, jurada de morte desde março deste ano. “Antes de atirar, o segurança teria ainda perguntado se ela era a Célia”, disse Figueiroa. Izabel já reconheceu, através de diversas fotografias levadas pelos policiais ao hospital onde está internada, o segurança Alexandre de Jesus como o autor do disparo. De acordo com Figueiroa, além de calúnia e difamação e porte ilegal de armas, Alexandre de Jesus também tem passagens por formação de quadrilha e roubo.
Sobre o caso de Izabel, o delegado aguarda agora o parecer de um médico legista para apontar a trajetória da bala no corpo da sem-terra. “Se o laudo do legista mostrar que o tiro foi dados de cima para baixo ficará comprovado que houve intenção de executar a Izabel”, explicou o delegado. Segundo o delegado, outra testemunha reconheceu o segurança Rodrigo de Oliveira Ambrósio como a pessoa que matou o agricultor Valmir Mota de Oliveira.
FARSA – Também neste fim de semana, o delegado descobriu que é falsa a acusação que os sem-terra tivessem mantido o segurança Fábio Ferreira refém. Segundo o delegado, a própria esposa de Ferreira afirmou, em depoimento, que ele já estava em casa por volta das 9h daquela manhã, momento que teria sido feito refém. “Os seguranças falaram que retornaram para área por volta das 13h30, para buscar o Fábio, mas na verdade o Fábio estava junto com eles e não era mantido refém”, disse.
Outra testemunha diretamente ligada aos seguranças confirmou para a polícia que viu os seguranças armados num barracão abandonado, nas proximidades da fazenda da multinacional Syngenta. Além dela, outra testemunha foi ouvida, sábado (27), e confirmou que os seguranças estavam armados. Ele afirmou que viu também uma van branca saindo do local. “Provavelmente as armas foram retiradas por este veículo. Quando os seguranças foram presos, a polícia não encontrou armas”, informou Figueiroa. Segundo o delegado, o vídeo entregue pelos sem-terra mostra claramente um dos seguranças empunhando uma pistola.
A acusação de que os policiais do Cope estariam coagindo os seguranças presos para adquirir informações sobre o caso é falsa e caluniosa. Segundo o delegado chefe do Cope, Miguel Stadler, os advogados da defesa estão tentando desviar o foco das atenções depois que os policiais descobriram os indícios de execução no caso.
Durante o reconhecimento, um dos seguranças apontou o sem-terra Celso Ribeiro Barbosa como o autor da morte do segurança Fábio Ferreira. Segundo o delegado Renato, esse reconhecimento foi suspeito já que os seguranças chegaram conversando sobre Celso.