ENCALHE

setembro 2, 2009

Deputado lê Carta Capital no plenário da ALESP e pergunta porquê o caso que envolve ALSTOM e o PSDB de Covas/ Serra/ Alckmin não sai na Globo!

A TV Assembléia é um barato. As participações de Adriano Diogo, Major Olímpio e do Carlos Gianazzi costumam ser – no bom sentido – impagáveis. Essa madrugada, estava passando uma discussão sobre as OSS e o Adriano Diogo mostrou num telão, um trabalho em “flash”, acho que preparado pelo SINDISAUDE, denunciando as mazelas da terceirização/ precarização da Saúde no Estado de São Paulo, principalmente no que tange as chamadas OSS / OSCIPS ( que, no Congresso Nacional, e só para inglês ver, são investigadas mas, aqui em SP, são praticamente sócias do poder tucano, sem aparente contestação ). Infelizmente eu ainda não consegui descolar esse trabalho. Duas coisas de que me lembro, expostas ali: a média salarial de um funcionário terceirizado [ ou sei lá como chamam ] é de cerca de 5 mil e poucos reais enquanto a média de um funcionário da Secretaria da Saúde estaria em torno de hum mil e quinhentos reais.
Outra coisa que lembro: um laboratório, desses que prestam uns serviços terceirizados – Laivosier, se recordo – pertence ao Laboratório Fleury que, por sua vez pertence ao laboratório DASA que tem como um de seus membros, em seu Conselho de Administração, a tucana Claudia Costin, atual secretária de educação do município do Rio de Janeiro.
Em seguida ao Adriano Diogo, o deputado Roberto Felício leu no microfone a matéria da Carta Capital desta semana, sobre as novas revelações do caso internacional de propina envolvendo a ALSTOM e políticos do governo no poder em São Paulo, quando da assinatura de um contrato para fornecimento ao Metrô Paulista, ainda na administração Mário Covas. Roberto Felício dirigiu-se à platéia, externando sua incompreensão pelo fato do caso ALSTOM-PSDB de SÂO PAULO não aparecer na Globo. “Nós sabemos porquê”, disse o deputado.
Felício diz existir “blindagem” do governador Serra no caso Alston
31/08/2009
Reportagem do jornalista Gilberto Nascimento, da revista CartaCapital, traz novos detalhes sobre o esquema de propinas pagos pela Alstom e Siemens para políticos tucanos de São Paulo
31/08/2009
Leia a íntegra da matéria:
A nova testemunha
O caminho sinuoso do esquema de propinas das empresas Alstom e Siemens para políticos tucanos de São Paulo começa a ser desvendado nos seus mínimos detalhes. Um executivo que acompanhou de perto a execução do plano forneceu informações valiosas sobre o método de operação das duas grandes companhias europeias para favorecer autoridades e funcionários de empresas públicas no Brasil.
Um documento com informações sobre o modus operandi da Alstom e da Siemens foi repassado ao Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo pelo alto funcionário, cujo nome não foi revelado. O relatório do informante faz menção também a pagamentos a políticos de Brasília e da Bahia.
A francesa Alstom é uma grande fabricante de turbinas elétricas, trens de alta velocidade e vagões de metrô. Maior empresa de engenharia da Europa, a alemã Siemens faz desde lâmpadas até trens-bala e faturou 72 bilhões de euros no ano passado. As duas companhias são concorrentes, mas em determinados momentos na disputa tornavam-se aliadas, de acordo com a fonte.
Para que o dinheiro da “caixinha” retornasse ao Brasil, a Alstom e a Siemens, de acordo com o documento entregue ao MP, utilizariam um mesmo esquema: os serviços dos lobistas Arthur Gomes Teixeira e Sergio Meira Teixeira, donos das empresas Procint Projetos e Consultoria Internacional e Constech Assessoria e Consultoria Internacional, apontadas pelo informante como as responsáveis pelas offshore no Uruguai Leraway Consulting S/A e Gantown Consulting S/A.
A propina seria enviada para essas empresas uruguaias e daí para a Procint e Constech. Estas repassavam o dinheiro a políticos e diretores de empresas públicas, por meio de notas frias, como um suposto pagamento a serviços de consultoria. Arthur e Sergio Teixeira foram procurados por CartaCapital no escritório da Procint, em Cerqueira César, região central de São Paulo, mas não telefonaram de volta. Uma gerente administrativa, identificada como Marina, adiantou que “com certeza, ninguém vai falar nada, por não ser verdade”. Arthur também não foi localizado em sua residência.
O executivo sem nome revelado entregou ao MPF dois contratos da Siemens (em nome da matriz na Alemanha e da filial brasileira) com as offshores uruguaias. Em sua avaliação, ambos comprovariam o envolvimento da empresa alemã no esquema. Informado sobre o relato do executivo, o deputado estadual Roberto Felício (PT) encaminhou as denúncias ao procurador da República Rodrigo De Grandis para auxiliá-lo “no aprofundamento das investigações”.
Desde o ano passado, a Siemens é investigada na Alemanha e em outros países por causa de pagamentos suspeitos num total de 2 bilhões de dólares. Reportagens do Wall Street Journal a respeito da Alstom no Brasil também apontaram irregularidades semelhantes às praticadas pela Siemens. Um tribunal de Munique acusou a empresa alemã de ter pago suborno a autoridades da Nigéria, Líbia e Rússia. Um ex-diretor, Reinhard Siekaczek, acrescentou que o esquema de corrupção atingiria ainda Brasil, Camarões, Egito, Grécia, Polônia e Espanha.
O relatório enviado ao MPF aponta supostas irregularidades e desvios nos projetos da Siemens no Brasil na linha 5 do Metrô, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, na entrega dos trens série 3000 (também conhecido como trem alemão) para o governo paulista e num contrato de manutenção do Metrô do Distrito Federal. No caso do trem alemão, hoje em circulação na Vila Olímpia, na mesma zona sul paulistana, teria sido realizado um acordo para a empresa Mitsui fornecer dez desses veículos à CPTM.
Os vagões seriam produzidos na fábrica da Siemens em Viena e a Mitsui ficaria responsável pela assistência técnica, o fornecimento de peças de reposição, o treinamento e a operação inicial. Ocorre que a Mitsui não fabrica peças, tampouco tem experiência ou competência na prestação desse tipo de serviço, segundo o executivo. Daí porque a empresa subcontratou o trabalho a terceiros. O “acordo” não teria qualquer sentido, já que a Siemens é uma das fabricantes originais das peças e a provedora natural desses serviços.
O informante sugeriu ao MPF a quebra do sigilo bancário e fiscal das firmas envolvidas nas denúncias para comprovar o trajeto do dinheiro que retorna ao Brasil. Contatado, o procurador Rodrigo De Grandis informou que não comenta o caso em razão de estar sob segredo de Justiça.
Outras novidades sobre o caso Alstom têm vindo à tona. O deputado Felício e o líder da bancada do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo, Rui Falcão, pediram ao MP estadual o exame da movimentação financeira de duas empresas. Uma delas tem como sócio o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE), Robson Marinho, e outra o ex-presidente da Alstom no Brasil, José Luiz Alquéres.
Marinho é suspeito de ter ajudado a Alstom a conseguir um contrato de 100 milhões de reais em 1998, pouco depois de deixar a chefia de gabinete da Casa Civil do governo Mário Covas e assumir o cargo de conselheiro do TCE. O Ministério Público da Suíça bloqueou uma conta naquele país atribuída a Marinho, com cerca de 1 milhão de dólares. O conselheiro nega ser o titular da conta.
A empresa de Marinho tem um sugestivo nome: Rumo Certo Incorporação e Participação Ltda. Fica na cidade paulista de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, atua no ramo imobiliário e aluga imóveis próprios. Tem um capital social de 1 milhão de reais. O ex-presidente da Alstom é sócio majoritário da J.L. Alquéres Engenharia Consultiva Ltda., localizada na avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. Certidões emitidas pela Receita Federal mostram que as duas empresas continuam em atividade, de acordo com os deputados petistas. Os parlamentares querem que o MPF analise se a movimentação das empresas e de seus sócios é adequada ao porte de cada uma delas e se a evolução patrimonial de Marinho e Alquéres é compatível com os seus rendimentos.
Apesar das denúncias feitas pelas autoridades suíças e pelo Ministério Público estadual e federal no Brasil, o governo Serra mantém a mesma relação com a Alstom. “O governo continua utilizando os mesmos contratos com aditivos e não fazendo novas licitações. Fizeram aditivos com valores muito diferentes dos originais, com os contratos de até cinco anos que não poderiam ser prorrogados”, critica Felício. “Para comprar novos trens, teria de ser feita outra concorrência pública.”
Entre os contratos com problemas há um de 1997 firmado com o consórcio Metrosist (do qual a Alstom faz parte), no valor de 219 milhões de reais (em valores corrigidos). O último aditivo, que o prorrogou até 2011, foi de 92 milhões de reais. Segundo o Ministério Público, os contratos nunca poderiam ultrapassar o período de 60 meses, mas o da Metrosit já completa 14 anos. O contrato da Linha 4 do metrô paulistano (a Linha Amarela, entre Vila Sonia e Faria Lima), no total de 2 bilhões de reais, já atingiu 77 meses. Teve um aditamento de 142 milhões de reais.
O total de contratos firmados pelo governo com a Alstom, entre 1989 e 2006, somou 7,5 bilhões de reais. Desses, 5,7 bilhões foram assinados pelo Metrô e 2,6 bilhões pela CPTM. No governo Serra, foram mais 2,08 bilhões de reais, dos quais 320 milhões em aditamentos. Em um novo contrato para a reforma e modernização de trens antigos da Linha 3 (na zona leste), em abril, a Alstom ganhou uma licitação no valor de 375 milhões de reais. O contrato, estranhamente, dura 68 meses.
Os recursos destinados à Alstom aumentaram entre os governos tucanos de Alckmin e Serra. Houve uma elevação no valor dos contratos de 34,5%. Na gestão de Alckmin, entre 2001 e 2006, eles totalizaram 3,1 bilhões de reais. Nos dois anos e meio de Serra, 2,08 bilhões. Por mês, Alckmin destinou à empresa 51 milhões de reais e Serra, 69,5 milhões.
Há um ano, o PT tentou, sem sucesso, aprovar a criação de uma CPI para investigar o caso Alstom na Assembleia Legislativa de São Paulo. Conseguiu coletar apenas 23 assinaturas, das 32 necessárias. “Há uma blindagem na Casa para proteger o governador”, reclama Felício. “Há uma relação espúria entre agentes públicos ligados diretamente ao Palácio dos Bandeirantes e uma empresa privada que paga propinas para continuar mantendo privilégios do Poder Público estadual”, diz o deputado petista.
Em 1999, um ex-diretor da Alstom, José Sidnei Colombo Martini, deixou a empresa para dirigir a estatal Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP). Em 2006, no governo Alckmin, Martini foi responsável pelo processo de privatização dessa companhia.
Outros diretores de empresas públicas envolvidos no caso Alstom ainda gozam da confiança de Serra. Presidente da Companhia do Metropolitano entre 2003 e 2007, Luiz Carlos Frayze David foi apontado como um dos responsáveis pelo acidente da Linha 4 do Metrô e perdeu o cargo. Hoje, integra o conselho de administração da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A), o Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista e a Comissão de Ética da Agência Reguladora dos Transportes no Estado de São Paulo (Artesp).
Durante suas gestões como superintendente do Departamento de Estradas de Rodagens do Estado (DER) e a presidência do Metrô, assinou contratos considerados irregulares pelo TCE num total de 510 milhões de reais (em valores atualizados). David responde ao menos a doze processos. Ele não foi encontrado na Dersa. Uma assessora identificada como Eny disse não fazer ideia de como localizá-lo.
Ex-diretor-jurídico da mesma empresa, Benedito Dantas Chiaradia também assinou contratos considerados irregulares, no total de 325 milhões de reais. Fez isso nos períodos em que ocupou os cargos de chefe de gabinete da Secretaria de Administração do Estado de São Paulo e de diretor da CPTM. Entre outros contratos com problemas, segundo o TCE, Chiaradia foi o responsável por um contrato com a Tejofran-Cegelec (esta do Grupo Alstom), para a reforma da Linha Sul da CPTM, no valor de 58 milhões de reais. Contatado por meio de uma ex-colaboradora, ele não retornou o telefonema.
Protestos
As obras da Linha Amarela trazem transtornos para os moradores da região.
Por Luana Lila
A satisfação de ter uma estação de Metrô perto de casa durou pouco para os vizinhos da Linha 4 (Amarela), que ligará o bairro da Vila Sônia à região da Luz, no centro de São Paulo. As obras já ganharam destaque pela abertura de uma cratera gigante, na futura estação Pinheiros, que deixou sete mortos em janeiro de 2007. Mas acidentes menores, e menos divulgados, também fazem parte do percurso desse empreendimento.
No bairro do Butantã, região do Jardim Previdência, dezenas de pessoas sofrem com problemas causados pela construção do Metrô. São rachaduras no chão e nas paredes, canos partidos e vazamento de água. O exemplo mais emblemático é o de dona Cida, que preferiu não revelar o sobrenome por temor de represálias. Em razão dos estragos, ela e seu marido foram obrigados a mudar para a edícula de sua casa. O conserto foi efetuado por uma empresa contratada pelo Consórcio Via Amarela e se arrastou por dez meses. Durante esse período, dona Cida foi assaltada por dois ladrões que usavam uniformes da terceirizada. Segundo ela, durante as obras, muitos funcionários da empresa se encontravam em seu quintal para discutir questões alheias à sua reforma. “Não dava para saber quem saía e quem entrava, até que um dia os ladrões renderam os pedreiros. Depois eles nos levaram para o fundo, pois já sabiam que estávamos morando lá.”
Cyro Fiuza, gerente de comunicação do Jockey Club de São Paulo, vive na mesma rua. Ele entrou em contato com a Coordenadoria de Relacionamento do Metrô e solicitou uma vistoria para indicar uma série de rachaduras que surgiu durante as obras. Depois da avaliação, o engenheiro responsável concluiu que a casa não está na área de influência do Metrô. No entanto, residências localizadas no mesmo quarteirão foram indenizadas pelo Consórcio. “Parece que eles já vieram com a conclusão pronta. Olharam apenas para cumprir o protocolo”, lamenta Fiuza. Em nota, o Consórcio Via Amarela afirmou que “as alterações encontradas no imóvel do senhor Fiuza não têm relação com as obras da Linha 4-Amarela”.
(fonte: revista Carta Capital – 31/8/2009)

maio 29, 2009

"O antigo silêncio dos influenciáveis", por Gilson Caroni Filho

No momento em que tucanos e demos voltam à ofensiva, através de uma CPI que vai bem além da dimensão eleitoreira, adentrando o terreno do entreguismo puro e simples, convém recordar como eram tratadas questões estratégicas nos dois governos de FHC. Ainda mais quando sabemos que o verdadeiro alvo é o marco regulatório do pré-sal, em um eventual retorno do consórcio neoliberal ao poder. Talvez isso nos ajude a entender o arrazoado de certos colunistas em defesa da CPI da Petrobrás e compreendamos com mais facilidade os princípios que norteiam articulistas zelosos na defesa de uma política externa que privilegia os objetivos de grandes conglomerados
GILSON CARONI FILHO*
Hora do Povo, edição 2769
29.05.09
Nada como folhear revistas e jornais antigos para constatarmos a eterna briga do jornalismo de mercado com fatos que incomodam seus interesses e os dos eternos aliados no campo político. No momento em que tucanos e demos voltam à ofensiva, através de uma CPI que vai bem além da dimensão eleitoreira, adentrando o terreno do entreguismo puro e simples, convém recordar como eram tratadas questões estratégicas nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso. Ainda mais quando sabemos que o verdadeiro alvo é o marco regulatório do pré-sal, em um eventual retorno do consórcio neoliberal ao poder.
Voltemos no tempo, mais precisamente a março de 2004. Como reagiria a opinião pública de uma nação soberana se tomasse conhecimento, por meio de conceituada publicação jornalística, que sua Polícia Federal foi comprada por serviços de inteligência de um país estrangeiro? Que as instituições republicanas são inteiramente controladas por redes de espionagem, e setores expressivos da imprensa local cooptados para produzir uma imagem favorável aos interesses da potência controladora?
Seria impossível conter o terremoto político advindo de tais revelações, salvo se um isolamento acústico fosse imediatamente construído por aqueles que elaboram a agenda da opinião pública. E é nesse ponto, no silêncio consensual do complexo midiático, que reside a atualidade deste pequeno artigo.
Reportagem de capa da edição de Carta Capital, com data de 19/3/2004, trouxe à tona um personagem que poderia ter saído das páginas de qualquer romance de John Le Carré. Versão tão patética quanto real do “espião que sabia demais”, o português naturalizado americano Carlos Costa chefiou o FBI no Brasil de 1999 a outubro de 2003. Na época, em entrevista ao jornalista Bob Fernandes, ele foi categórico:
“Os Estados Unidos compraram a Polícia Federal. Há um antigo ditado, e ele é real: quem paga dá as ordens, mesmo que indiretamente”.
Não descartando a possibilidade de alguma agência americana ter grampeado o Palácio da Alvorada e o Itamaraty, Costa disse que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), ao pedir equipamentos e recursos ao mundo todo, “se prostitui”.
Não menos contundente foi sua afirmação segundo a qual uma das mais importantes funções da embaixada americana no país era manipular a imprensa brasileira. Usando, eufemisticamente o verbo influenciar, o ex-agente não poderia ter sido mais claro:
Detectamos jornalistas que sejam pró-América e os convidamos a ir aos Estados Unidos com todas as despesas pagas. Essa não era minha área, mas começa assim. Influenciar é mudar o pensamento contrário aos nossos interesses”.
E qual seria o modus operandi? Mais uma vez, Carlos Costa foi direto: “Seja lá o que for necessário. Se é comprar, é comprar, há várias maneiras. Mas deixa isso pra lá”.
Eis o cenário da realidade brasileira no reinado de Fernando Henrique Cardoso. Agindo com total desenvoltura, uma profusão de siglas tais como a US Customs, DEA, NAS, CIA e FBI faziam de nossa legislação letra morta e tornavam o conceito de soberania nacional, numa perspectiva otimista, uma hipótese a ser permanentemente verificada. Tínhamos, enfim, polícias compradas e submetidas a comandos externos, uma Abin supostamente controlada e formadores de opinião “influenciados”. O quadro se tornava mais dramático quando o monitoramento de setores estratégicos do governo era apresentado como rotina.
O que chamou a atenção, há cinco anos, foi a ausência de repercussão da matéria de Carta Capital no Congresso e, acima de tudo, em outros veículos jornalísticos. Por conta de episódios de gravidade bem menor, o conservadorismo põe-se a falar em crise de governo, perda de capacidade administrativa e riscos à coesão social. Clama-se pela instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito e o alarido udenista se reflete nos editoriais das empresas que abrigam aqueles a quem Costa chama de “os influenciáveis”.
A título de exemplo, por que a denúncia da revista dirigida por Mino Carta não provocou, à época, a mesma comoção que o destempero do então ministro José Dirceu em entrevista ao jornalista Merval Pereira, de O Globo?
Desde sua publicação, o espaço concedido à reportagem de Bob Fernandes foi praticamente inexistente. Uma ou outra nota, até o abafamento total. Qual terá sido o motivo do silêncio reinante nas redações dos principais jornais e revistas do eixo Rio-São Paulo quando o assunto é a ingerência imperialista na política brasileira?
Há nove anos, Carta Capital sistematicamente denuncia o aparelhamento do Estado por agências americanas. Para ser mais preciso, vem historiando um processo que se inicia em 12/4/1995, quando é assinado o Acordo para Combate ao Narcotráfico, e se estende aos dias de hoje, com a DEA efetuando pagamentos a policiais brasileiros.
Na edição de 3/3/1999, a revista já apresentava a CIA controlando o antigo Centro de Dados Operacionais (CDO). À época, Fernando Henrique Cardoso teve grampeada uma conversa com o então chefe do Cerimonial da Presidência da República, embaixador Júlio César Gomes dos Santos.
A que devemos o silêncio dos “influenciáveis?” Traria a matéria denúncias graves sem a verificação adequada? Ausência de fundamentação empírica que indicasse sensacionalismo ingênuo ou petição conspiracionista? Não, Carta Capital tem feito um belo trabalho investigativo. Na edição de 2004, à riqueza de detalhes somam-se fotos que documentam a desenvoltura de Carlos Costa nos salões do poder.
Seria conseqüência da lógica concorrencial das empresas jornalísticas, ignorar os fatos noticiados por veículos rivais? Ante a magnitude do assunto, era pouco plausível uma argumentação de cunho puramente mercantil. O mais sensato seria aprofundar a matéria, focalizando atores políticos relevantes, diretamente envolvidos na questão, tais como militares e estrategistas.
Estaríamos, então, nos deparando com um fenômeno hierárquico presente no interior do campo jornalístico? A existência de um veículo, e apenas um, que pautaria os demais? A história recente da imprensa brasileira impossibilita tal conjectura. Diferentes publicações puxaram o fio da meada de assuntos relevantes e foram seguidas pelas demais. Basta lembrar que o impeachment de Collor começou nas páginas da revista Veja e os principais escândalos do governo FHC foram inicialmente noticiados pela Folha de S.Paulo.
Talvez o desdobramento mais importante da matéria de capa da revista dirigida por Mino Carta tenha sido a ausência de desdobramentos. O silêncio gritante do resto da mídia realçou ainda mais as palavras do agente Carlos Costa, quando define a ação dos serviços secretos sobre os seus diletos profissionais de redação: “Influenciar é mudar o pensamento contrário aos nossos interesses”.
Talvez isso nos ajude a entender o arrazoado de certos colunistas em defesa da CPI da Petrobrás, talvez compreendamos com mais facilidade os princípios que norteiam articulistas zelosos na defesa da política externa que privilegiava os objetivos de grandes conglomerados. Quem sabe, nesse prosaico episódio, redescoberto no folhear de um exemplar antigo da melhor publicação brasileira, esteja desnudada a política editorial de várias publicações.
Alguém pode retrucar que a argumentação desenvolvida no parágrafo acima é simplificadora. Certamente. Mas, enquanto os “influenciáveis” não romperem seu pacto de silêncio, qualquer teoria conspiratória terá relevância analítica. Ou repetindo a sabedoria do senso comum: “Quem cala, consente”. Just do it.
É bom relembrar quando uma nova batalha se avizinha.
* Professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e Colaborador do HP e do Observatório da Imprensa.

abril 9, 2009

"Nossa cultura mima os adolescentes" ( Maria Rita Kehl, em entrevista publicada na revista Carta na Escola )

Quando bati o olho nessa entrevista pensei: “Taí. Tem que deixar para quem sabe.”
O que isso quer dizer? Bem, em uma entrevista curta e agradável de se ler a gente vai ter contato com algumas bárbaras reflexões de Maria Rita ( que se adianta em apresentar-se como uma “não pedagoga” e “não professora”, mas como psicanalista com uma “visão panorâmica” das coisas e interessada na questão da juventude ) sobre escola, adolescência, vida em sociedade, autoridade, gravidez precoce, drogas, classes sociais etc.
Mas, bacana mesmo, é quando ela trata de temas como consumo, rebeldia, anos 60, busca incessante do prazer, drogas ( de novo, meu ). E aí é que chega no ponto que eu me referi, sobre “deixar para quem sabe”. Em poucas palavras ela – que viveu e presenciou algumas delas – derruba do altar “revoluções” comportamentais e culturais que, depois de certo tempo, acabam sendo apoderadas pelo sistema ( tá bom, vai: pelo “capitalismo” ) e devolvidas na forma de mercadorias encontráveis em gôndolas de supermercados [ Mmmm. Sobre algo parecido com isso, lembro-me de um trecho de música dos Dead Kennedys: " ( ... ) We strip-mine your underground culture / Take the bite out and rinse it clean / Give ourselves credit for creating it / Then sell it back to you / At twice the price ( ... )" - "FLESHDUNCE" ]. Ou seja, em suas próprias palavras: ” ( … ) houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.”
Em meu entender, isso significa que as coisas se resumem a entretenimento e ilusão. Não é de todo mal, quando admitimos e aceitamos isso.

CARTA NA ESCOLA, edição 34
Para a psicanalista, Maria Rita Kehl, o professor precisa aprender a valorizar seu capital intelectual, que não tem preço
A psicanalista Maria Rita Kehl é uma observadora atenta do que acontece nas escolas, embora não se apresente como especialista em educação. Também reflete agudamente sobre os dilemas e contradições da juventude, seja a partir das queixas de pais e professores, em sessões individuais de terapia, seja prestando consultoria a escolas com problemas de indisciplina. Nesta entrevista concedida a Ricardo Prado, sob o olhar vigilante de um Sigmund Freud na estante de seu consultório, Maria Rita alerta para os riscos vividos pelas escolas que negociam demais sua cultura de socialização e transmissão de saberes com a cultura juvenil. E atenta para o papel decisivo da publicidade como indutora do convite ao prazer, ao “barato” imediato. O que pode ser uma droga, literalmente.
Carta na Escola: As diferenças entre a cultura escolar e a cultura da juventude podem estar na origem de muitos dos conflitos existentes dentro da escola?
Maria Rita Kehl: Primeiro gostaria de alertar aos leitores que eu não sou nem pedagoga, nem professora, nem especialista em ensino. Sou só psicanalista e a experiência que tenho é com a minha clínica, que me dá uma espécie de panorâmica do “estado das coisas”. E gosto também de pensar a questão da juventude, mas é diferente da visão de quem está ali na escola e de quem é diretor ou professor de escola secundária. Em relação à sua pergunta, eu tenho impressão que a escola negociou demais. Digo isso como mãe de aluno de escola, que já não sou mais, e com base na minha participação em reuniões de pais. Acho que houve um mal-entendido, lá pelos anos 60. Não que não tenha sido importante ter tido uma abertura e uma mudança curricular depois dessa década, já que a escola não podia ficar rígida e fechada como era antes. Mas o que tornou a escola um pouco sem sentido, para os alunos e professores, é que se negociou demais. E isso não é culpa da escola, mas é fruto de uma cultura que mima a criança e o adolescente, principalmente o adolescente. Ele é a fatia privilegiada do mercado, é o consumidor por excelência, porque está sempre mudando. Isso acontece mais na classe média, mas atinge a cultura em geral. Então, os professores não sabem mais o que estão ensinando, porque eles estão ensinando coisas que seus alunos não querem aprender. Mas a escola sempre foi obrigação e pouca gente ia para ela porque adorava. E essa pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, também era feita. Mudanças curriculares podem ser importantes, mas eu acho que, se a escola negocia demais sua posição, que é de formadora de socialização, mais do que de conhecimento, fica muito difícil sustentar-se diante do aluno, porque o professor passa a não ver mais sentido no que faz, porque, se a televisão é importante, se os videogames são interessantes e qualquer site ensina mais do que uma aula, para que serve a escola?
CE: O papel preponderante da escola, hoje, seria de formadora da socialização?
MRK: Eu ainda acho que a escola é um aprendizado de convívio civilizado, da negociação de interesses e reconhecimento de quem se deve respeitar e como respeitar. Conheci uma escola pública de São Paulo no ano passado, chamada Amorim Lima (veja matéria publicada em Carta na Escola, ed. 25, abril de 2008) e fiquei impressionada porque é uma escola que, de um jeito muito progressista, nada rígido ou conservador, não negocia determinadas coisas. Criou um ambiente regrado, que para os alunos é um alívio. Não são regras rígidas, porque na conversa que tive eles disseram: “A gente sabe dessas regras, porque nós as escrevemos no mural”. Quer dizer, eles criaram um modo de convívio que mantém o papel educativo formador da escola e leva em consideração que os alunos, hoje em dia, não são robôs aterrorizados com medo de palmatória e de ir à sala do diretor. E acho que isso é uma questão para os pais também. O que é que sustenta o exercício da autoridade em uma sociedade tão aberta e democrática como a nossa? É diferente um professor que exerce a autoridade em nome da ordem, de Deus e das tradições, como acontecia nas escolas antigamente.
CE: E hoje onde se sustenta a autoridade do professor?
MRK:
O professor não está escorado por todos esses pilares de mármore, felizmente não está, mas, ao mesmo tempo, ele tem uma posição de autoridade. Eu acho que a minha geração sofreu muito com a ditadura e ficou com horror do autoritarismo, passando a fazer uma confusão entre autoridade e autoritarismo. O autoritarismo é totalmente arbitrário, desmedido, punitivo e cruel. Autoridade é o exercício de uma diferença de posição que tem a ver com gerações, pais e filhos, professores e alunos, e que se exerce para, a partir daí, ter o que negociar. Porque, se não, é a desmoralização da escola. O filme do João Jardim, Pro Dia Nascer Feliz, é muito impressionante, porque vemos a diferença de postura. Mesmo em escolas públicas muito pobres há alguns professores que acreditam no que estão fazendo e seguem alguma coisa e outros que negociam tudo. No filme havia uma escola do Rio que tinha um aluno que estava totalmente fora dela e o pessoal continuava negociando com ele. É aí que a escola perde a “borda”. É aquele medo de não perder o aluno e com isso se perde a escola toda.
CE: Isso me faz lembrar uma expressão que você usou no seu livro Fratria Órfã, de que ‘a vaga de adulto está aberta’ em nossa sociedade. Essa dificuldade que o professor tem em exercer sua autoridade tem a ver com isso?
MRK: Acho que tem. O professor não quer fazer o papel do careta, né? Como muitos pais também. Hoje em dia eu vejo mudanças ótimas da relação do adulto com o adolescente, como, por exemplo, o tipo de coisas que podem ser confiadas e conversadas, mas alguma diferença de lugar deve ser mantida.
CE: Quando começou essa ampliação da adolescência?
MRK: Eu costumo brincar que do homem o capitalismo aproveita tudo, até o berro, porque tem essa brincadeira que se fazia que do boi só não se aproveita o berro. E o berro, que os jovens deram nos anos 60, que era anticapitalista, libertário e progressista, foi incorporado pelo capitalismo. Os movimentos de 68, embora não fosse a intenção dos seus agentes, prepararam a transformação do capitalismo produtivo em capitalismo de consumo. Paradoxalmente por uma recusa. E era uma recusa em relação aos padrões de consumo e bom comportamento estabelecidos até então. Chama a atenção que os movimentos dos anos 60 tiveram mais efeito sobre os países capitalistas. No Leste Europeu eles foram abafados e não sobrou rastro, mas no Ocidente foram assimilados como força econômica. Lembro do meu desencanto quando no início dos anos 70 vi um outdoor de uma marca de jeans que dizia: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada”. Então, pensei: ‘Eles já nos devolviam o que nós tínhamos exigido em forma de mercadoria’. Isso me faz pensar, também, que as revoluções do comportamento das décadas de 60 e 70 foram fundamentais, por exemplo, para as mulheres, no que diz respeito ao comportamento, à liberdade sexual e à circulação no mundo, houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.
CE: Você vê, então, que a sociedade de consumo nunca esteve tão forte?
MRK:
Nunca esteve tão forte como ideologia. Não sei se estamos no auge do consumismo, mas sob o aspecto da ideologia, da crença profunda de que você vale o quanto você consome, essa crença é muito arraigada.
CE: Como o professor pode levar essa questão do consumo para a sala de aula que não pareça uma coisa sublimadora, sua mera negação?
MRK:
Se pensarmos o que é a tradição do intelectual, que é mais europeia do que brasileira, ele não é, necessariamente, um cara que está no topo econômico da sociedade. O intelectual é alguém que, de certa forma, se considera elite, na medida em que tem um patrimônio cultural valiosíssimo. Por isso acho que seria muito interessante que os professores se apropriassem desse valor, de que eles são detentores de um patrimônio cultural que não tem preço. E é isso que eles vão transmitir. Porque ouço que muitos alunos dizem: “Você é um zé-mané que não ganha nem para trocar de carro, e quer mandar em mim?”, principalmente em escolas particulares. Se o professor tiver engolido essa crença que ele vale pelo que pode comprar, sairá arrasado de um confronto desses. Agora, se ele puder dizer: “O que eu tenho você vai ter de suar muito para obter e posso te transmitir se você aprender a me respeitar”, é outra história. Talvez as escolas tenham de fazer um trabalho com suas equipes de professores. Uma vez fui numa reunião de alunos e veio esta pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, aí me ocorreu dizer que eles estavam numa situação muito privilegiada, porque antes de começarem a funcionar e serem úteis, tinham o privilégio de ter uma fatia do melhor que a sociedade já produziu. E o melhor que a sociedade produziu não foi dinheiro, foi o conhecimento. Agora, se os professores estão desmotivados, os assuntos são chatos e difíceis, e o aluno tem o celular e a tevê para se entreter, fica difícil. E é claro que essa valorização do professor deve ser primeiramente salarial.
CE: Será que o excesso de negociação que você menciona nasceu da crença de que toda a aprendizagem precisa ser prazerosa?
MRK: É, mas essa é a revolução dos anos 60, que, se teve um lado muito interessante, teve um outro que se tornou completamente indulgente em relação às crianças e jovens. Lembro de um livro do Gramsci, Literatura e Vida Nacional, no qual ele faz um elogio da escola, muito engraçado e antigo para nós, dizendo: “A escola nos ensina coisas que vão ser úteis para o resto de nossas vidas, como, por exemplo, ficar sentado quatro horas ouvindo sobre um assunto”. Quer dizer, tem algo que é precioso na escola, que é se concentrar, prestar atenção e acompanhar um raciocínio longo. Eu briguei muito em uma escola em que meu filho estudava, porque eles não davam livros para os alunos do Ensino Médio. Eu questionava porque eles não davam a oportunidade de eles lerem livros e eles diziam que os alunos não eram capazes de acompanhar. Mas é a escola que tem de torná-los capazes de acompanhar, quer dizer, se a escola vem com esse paternalismo de que é difícil demais para eles, eles não serão capazes de acompanhar mesmo. E isso começou com esse processo, demasiado, de negociação.
CE: A gravidez na adolescência, no seu ponto de vista, parece ter uma aceitação muito mais imediata do que seria de esperar. Elas querem ficar grávidas?
MRK: Isso é uma hipótese, um pouco a partir da minha clínica, um pouco a partir de filhas de conhecidos, um pouco a partir do filme Meninas, da Sandra Werneck; tudo isso foi fortalecendo essa minha hipótese. Minha pergunta inicial foi essa: como é que, com essa febre de liberdade, as meninas, hoje, não abortam? Até vinte anos atrás as meninas engravidavam e abortavam. Um pouco era por medo dos pais, mas também tinha a ver com aquela fase da liberdade delas, tanto é que nos anos 80 houve as grandes polêmicas sobre o aborto. E hoje em dia a questão aparece com um certo moralismo, mas acho que essa rapidez com que as meninas quando engravidam assumem que vão ser mães é uma espécie de artifício para colocar algum tipo de limite no excesso a que elas são convocadas. E essa inversão é muito rápida, é uma inversão que se deu em duas, três gerações. E acho que a publicidade não deve ser desprezada como um indicador dessa mudança, porque as técnicas de sondagem de marketing são muito sofisticadas. Deve-se pensar, hoje em dia, a publicidade como um dos maiores indicadores da cultura espontânea. E a publicidade convoca os jovens ao gozo e vai, desse modo, criando um ambiente cultural imaginário de que isso é o que se espera de um jovem. Então, o que percebi em meninas que ficaram grávidas e queriam, imediatamente, ter o filho, é que na falta de uma função paterna que deveria vir do pai, ou dessa corrente geracional anterior a elas, elas apostam que o filho é que vai dar o limite que, antes, era imposto pelos pais. [ NOTA DESTE BLOG: Há um texto bastante perturbador sobre o tema da "Gravidez Adolescente", na edição de janeiro do jornal ultra-comunista A Nova Democracia. Sigam o LINK, please. ]
CE: Esse fenômeno acontece na população de baixa renda também?
MRK:
No filme Meninas, da Sandra Werneck, ela acompanha cinco moradoras de favelas do Rio de Janeiro, grávidas na adolescência, que querem ter seus filhos. Apenas em dois casos o pai assume, mas é muito impressionante como ao longo da gravidez elas apresentavam um discurso do tipo: “Agora eu vou cuidar do meu filho”, como se dissessem que agora iam colocar um limite na disponibilidade. E, depois que nasciam, os filhos ficavam com as avós e elas voltavam aos bailes funk. Porque você não amadurece só porque teve um bebê. Essa esperança de que, a partir do momento em que você é mãe, você se transforma como sujeito e vai saber lidar melhor com seus desejos não é o filho que faz isso. Em meu livro sobre depressão, que estou terminando, um dos elementos que analiso como responsável pelo aumento das depressões, que é considerado um aumento epidêmico, é que o imaginário social que sustenta a função paterna está esgarçado. Então, o sujeito se vê meio à deriva. Nas meninas a gravidez tem essa imagem de impor um limite. E nos meninos, uma coisa que me impressiona muito, é o aumento de crise de pânico na adolescência.
CE: Você acha que isso está ligado, também, a essa obsessão por ser feliz?
MRK:
É, mas não é só isso. É o conceito de gozar. Gozar, em psicanálise, é um conceito que significa ir além dos limites do prazer. Por isso que a droga é o objeto privilegiado disso. Porque destrói barreiras, até corporais, da experiência e dos limites banais que a gente tem. Não é tanto a felicidade, acho que a felicidade já foi até superada. O objeto de desejo não é mais a felicidade, mas o gozo. Porque ele é mais imediato, já que a felicidade está ligada, ainda, a uma ideia de continuidade e longo prazo. E a sociedade de mercado é acelerada, porque tem de produzir, rapidamente, a absorção do que ela gera, para a roda continuar girando.
CE: Como as campanhas antidroga costumam negar o prazer, e isso é uma das coisas mais difíceis na nossa sociedade, gostaria de saber se existe algum jeito de fazer uma campanha que fuja dessa abordagem.
MRK: Não tenho uma resposta. Vou falar livremente sobre o assunto. A primeira coisa que me vem é um artigo do Eugênio Bucci, no qual ele diz: “O que vale uma campanha contra as drogas se todo o resto da publicidade é a favor das drogas?” Aí você pensa que nunca viu publicidade de cocaína e maconha. Não, mas todas as publicidades dirigidas aos jovens fazem apologia do “barato” e depois vem uma dizendo, em 30 segundos, “droga não”. Há uma de vodca, por exemplo, onde se vê uma paisagem cinzenta e através da garrafa a paisagem se transformava numa praia maravilhosa. Ou então, o cara come uma pastilha e flutua. Tudo é brincadeira, sem dúvida, mas é uma permanente convocação ao “barato”. E, como a gente se acomoda rapidamente, a dose deve ser aumentada, a dose do “barato” e da imagem do “barato”. E depois vai dizer que é para não se drogar? A sociedade está convocando o jovem a viver “de barato” permanentemente. Ele veste um tênis e pula, como se ele tivesse usado LSD. É tudo muito divertido, pensando friamente. Mas o convite que a sociedade de consumo faz ao jovem é o do mercado do “barato”. Então, eu sou a favor de legalizar, mesmo porque se legalizar vai morrer menos gente de overdose do que morre de efeito colateral da violência do tráfico. O problema principal social do País hoje é o tráfico de drogas. E, certamente, quem tem menos interesse na legalização das drogas, hoje em dia, são os chefes do tráfico.

"Nossa cultura mima os adolescentes" ( Maria Rita Kehl, em entrevista publicada na revista Carta na Escola )

Quando bati o olho nessa entrevista pensei: “Taí. Tem que deixar para quem sabe.”
O que isso quer dizer? Bem, em uma entrevista curta e agradável de se ler a gente vai ter contato com algumas bárbaras reflexões de Maria Rita ( que se adianta em apresentar-se como uma “não pedagoga” e “não professora”, mas como psicanalista com uma “visão panorâmica” das coisas e interessada na questão da juventude ) sobre escola, adolescência, vida em sociedade, autoridade, gravidez precoce, drogas, classes sociais etc.
Mas, bacana mesmo, é quando ela trata de temas como consumo, rebeldia, anos 60, busca incessante do prazer, drogas ( de novo, meu ). E aí é que chega no ponto que eu me referi, sobre “deixar para quem sabe”. Em poucas palavras ela – que viveu e presenciou algumas delas – derruba do altar “revoluções” comportamentais e culturais que, depois de certo tempo, acabam sendo apoderadas pelo sistema ( tá bom, vai: pelo “capitalismo” ) e devolvidas na forma de mercadorias encontráveis em gôndolas de supermercados [ Mmmm. Sobre algo parecido com isso, lembro-me de um trecho de música dos Dead Kennedys: " ( ... ) We strip-mine your underground culture / Take the bite out and rinse it clean / Give ourselves credit for creating it / Then sell it back to you / At twice the price ( ... )" - "FLESHDUNCE" ]. Ou seja, em suas próprias palavras: ” ( … ) houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.”
Em meu entender, isso significa que as coisas se resumem a entretenimento e ilusão. Não é de todo mal, quando admitimos e aceitamos isso.

CARTA NA ESCOLA, edição 34
Para a psicanalista, Maria Rita Kehl, o professor precisa aprender a valorizar seu capital intelectual, que não tem preço
A psicanalista Maria Rita Kehl é uma observadora atenta do que acontece nas escolas, embora não se apresente como especialista em educação. Também reflete agudamente sobre os dilemas e contradições da juventude, seja a partir das queixas de pais e professores, em sessões individuais de terapia, seja prestando consultoria a escolas com problemas de indisciplina. Nesta entrevista concedida a Ricardo Prado, sob o olhar vigilante de um Sigmund Freud na estante de seu consultório, Maria Rita alerta para os riscos vividos pelas escolas que negociam demais sua cultura de socialização e transmissão de saberes com a cultura juvenil. E atenta para o papel decisivo da publicidade como indutora do convite ao prazer, ao “barato” imediato. O que pode ser uma droga, literalmente.
Carta na Escola: As diferenças entre a cultura escolar e a cultura da juventude podem estar na origem de muitos dos conflitos existentes dentro da escola?
Maria Rita Kehl: Primeiro gostaria de alertar aos leitores que eu não sou nem pedagoga, nem professora, nem especialista em ensino. Sou só psicanalista e a experiência que tenho é com a minha clínica, que me dá uma espécie de panorâmica do “estado das coisas”. E gosto também de pensar a questão da juventude, mas é diferente da visão de quem está ali na escola e de quem é diretor ou professor de escola secundária. Em relação à sua pergunta, eu tenho impressão que a escola negociou demais. Digo isso como mãe de aluno de escola, que já não sou mais, e com base na minha participação em reuniões de pais. Acho que houve um mal-entendido, lá pelos anos 60. Não que não tenha sido importante ter tido uma abertura e uma mudança curricular depois dessa década, já que a escola não podia ficar rígida e fechada como era antes. Mas o que tornou a escola um pouco sem sentido, para os alunos e professores, é que se negociou demais. E isso não é culpa da escola, mas é fruto de uma cultura que mima a criança e o adolescente, principalmente o adolescente. Ele é a fatia privilegiada do mercado, é o consumidor por excelência, porque está sempre mudando. Isso acontece mais na classe média, mas atinge a cultura em geral. Então, os professores não sabem mais o que estão ensinando, porque eles estão ensinando coisas que seus alunos não querem aprender. Mas a escola sempre foi obrigação e pouca gente ia para ela porque adorava. E essa pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, também era feita. Mudanças curriculares podem ser importantes, mas eu acho que, se a escola negocia demais sua posição, que é de formadora de socialização, mais do que de conhecimento, fica muito difícil sustentar-se diante do aluno, porque o professor passa a não ver mais sentido no que faz, porque, se a televisão é importante, se os videogames são interessantes e qualquer site ensina mais do que uma aula, para que serve a escola?
CE: O papel preponderante da escola, hoje, seria de formadora da socialização?
MRK: Eu ainda acho que a escola é um aprendizado de convívio civilizado, da negociação de interesses e reconhecimento de quem se deve respeitar e como respeitar. Conheci uma escola pública de São Paulo no ano passado, chamada Amorim Lima (veja matéria publicada em Carta na Escola, ed. 25, abril de 2008) e fiquei impressionada porque é uma escola que, de um jeito muito progressista, nada rígido ou conservador, não negocia determinadas coisas. Criou um ambiente regrado, que para os alunos é um alívio. Não são regras rígidas, porque na conversa que tive eles disseram: “A gente sabe dessas regras, porque nós as escrevemos no mural”. Quer dizer, eles criaram um modo de convívio que mantém o papel educativo formador da escola e leva em consideração que os alunos, hoje em dia, não são robôs aterrorizados com medo de palmatória e de ir à sala do diretor. E acho que isso é uma questão para os pais também. O que é que sustenta o exercício da autoridade em uma sociedade tão aberta e democrática como a nossa? É diferente um professor que exerce a autoridade em nome da ordem, de Deus e das tradições, como acontecia nas escolas antigamente.
CE: E hoje onde se sustenta a autoridade do professor?
MRK:
O professor não está escorado por todos esses pilares de mármore, felizmente não está, mas, ao mesmo tempo, ele tem uma posição de autoridade. Eu acho que a minha geração sofreu muito com a ditadura e ficou com horror do autoritarismo, passando a fazer uma confusão entre autoridade e autoritarismo. O autoritarismo é totalmente arbitrário, desmedido, punitivo e cruel. Autoridade é o exercício de uma diferença de posição que tem a ver com gerações, pais e filhos, professores e alunos, e que se exerce para, a partir daí, ter o que negociar. Porque, se não, é a desmoralização da escola. O filme do João Jardim, Pro Dia Nascer Feliz, é muito impressionante, porque vemos a diferença de postura. Mesmo em escolas públicas muito pobres há alguns professores que acreditam no que estão fazendo e seguem alguma coisa e outros que negociam tudo. No filme havia uma escola do Rio que tinha um aluno que estava totalmente fora dela e o pessoal continuava negociando com ele. É aí que a escola perde a “borda”. É aquele medo de não perder o aluno e com isso se perde a escola toda.
CE: Isso me faz lembrar uma expressão que você usou no seu livro Fratria Órfã, de que ‘a vaga de adulto está aberta’ em nossa sociedade. Essa dificuldade que o professor tem em exercer sua autoridade tem a ver com isso?
MRK: Acho que tem. O professor não quer fazer o papel do careta, né? Como muitos pais também. Hoje em dia eu vejo mudanças ótimas da relação do adulto com o adolescente, como, por exemplo, o tipo de coisas que podem ser confiadas e conversadas, mas alguma diferença de lugar deve ser mantida.
CE: Quando começou essa ampliação da adolescência?
MRK: Eu costumo brincar que do homem o capitalismo aproveita tudo, até o berro, porque tem essa brincadeira que se fazia que do boi só não se aproveita o berro. E o berro, que os jovens deram nos anos 60, que era anticapitalista, libertário e progressista, foi incorporado pelo capitalismo. Os movimentos de 68, embora não fosse a intenção dos seus agentes, prepararam a transformação do capitalismo produtivo em capitalismo de consumo. Paradoxalmente por uma recusa. E era uma recusa em relação aos padrões de consumo e bom comportamento estabelecidos até então. Chama a atenção que os movimentos dos anos 60 tiveram mais efeito sobre os países capitalistas. No Leste Europeu eles foram abafados e não sobrou rastro, mas no Ocidente foram assimilados como força econômica. Lembro do meu desencanto quando no início dos anos 70 vi um outdoor de uma marca de jeans que dizia: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada”. Então, pensei: ‘Eles já nos devolviam o que nós tínhamos exigido em forma de mercadoria’. Isso me faz pensar, também, que as revoluções do comportamento das décadas de 60 e 70 foram fundamentais, por exemplo, para as mulheres, no que diz respeito ao comportamento, à liberdade sexual e à circulação no mundo, houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.
CE: Você vê, então, que a sociedade de consumo nunca esteve tão forte?
MRK:
Nunca esteve tão forte como ideologia. Não sei se estamos no auge do consumismo, mas sob o aspecto da ideologia, da crença profunda de que você vale o quanto você consome, essa crença é muito arraigada.
CE: Como o professor pode levar essa questão do consumo para a sala de aula que não pareça uma coisa sublimadora, sua mera negação?
MRK:
Se pensarmos o que é a tradição do intelectual, que é mais europeia do que brasileira, ele não é, necessariamente, um cara que está no topo econômico da sociedade. O intelectual é alguém que, de certa forma, se considera elite, na medida em que tem um patrimônio cultural valiosíssimo. Por isso acho que seria muito interessante que os professores se apropriassem desse valor, de que eles são detentores de um patrimônio cultural que não tem preço. E é isso que eles vão transmitir. Porque ouço que muitos alunos dizem: “Você é um zé-mané que não ganha nem para trocar de carro, e quer mandar em mim?”, principalmente em escolas particulares. Se o professor tiver engolido essa crença que ele vale pelo que pode comprar, sairá arrasado de um confronto desses. Agora, se ele puder dizer: “O que eu tenho você vai ter de suar muito para obter e posso te transmitir se você aprender a me respeitar”, é outra história. Talvez as escolas tenham de fazer um trabalho com suas equipes de professores. Uma vez fui numa reunião de alunos e veio esta pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, aí me ocorreu dizer que eles estavam numa situação muito privilegiada, porque antes de começarem a funcionar e serem úteis, tinham o privilégio de ter uma fatia do melhor que a sociedade já produziu. E o melhor que a sociedade produziu não foi dinheiro, foi o conhecimento. Agora, se os professores estão desmotivados, os assuntos são chatos e difíceis, e o aluno tem o celular e a tevê para se entreter, fica difícil. E é claro que essa valorização do professor deve ser primeiramente salarial.
CE: Será que o excesso de negociação que você menciona nasceu da crença de que toda a aprendizagem precisa ser prazerosa?
MRK: É, mas essa é a revolução dos anos 60, que, se teve um lado muito interessante, teve um outro que se tornou completamente indulgente em relação às crianças e jovens. Lembro de um livro do Gramsci, Literatura e Vida Nacional, no qual ele faz um elogio da escola, muito engraçado e antigo para nós, dizendo: “A escola nos ensina coisas que vão ser úteis para o resto de nossas vidas, como, por exemplo, ficar sentado quatro horas ouvindo sobre um assunto”. Quer dizer, tem algo que é precioso na escola, que é se concentrar, prestar atenção e acompanhar um raciocínio longo. Eu briguei muito em uma escola em que meu filho estudava, porque eles não davam livros para os alunos do Ensino Médio. Eu questionava porque eles não davam a oportunidade de eles lerem livros e eles diziam que os alunos não eram capazes de acompanhar. Mas é a escola que tem de torná-los capazes de acompanhar, quer dizer, se a escola vem com esse paternalismo de que é difícil demais para eles, eles não serão capazes de acompanhar mesmo. E isso começou com esse processo, demasiado, de negociação.
CE: A gravidez na adolescência, no seu ponto de vista, parece ter uma aceitação muito mais imediata do que seria de esperar. Elas querem ficar grávidas?
MRK: Isso é uma hipótese, um pouco a partir da minha clínica, um pouco a partir de filhas de conhecidos, um pouco a partir do filme Meninas, da Sandra Werneck; tudo isso foi fortalecendo essa minha hipótese. Minha pergunta inicial foi essa: como é que, com essa febre de liberdade, as meninas, hoje, não abortam? Até vinte anos atrás as meninas engravidavam e abortavam. Um pouco era por medo dos pais, mas também tinha a ver com aquela fase da liberdade delas, tanto é que nos anos 80 houve as grandes polêmicas sobre o aborto. E hoje em dia a questão aparece com um certo moralismo, mas acho que essa rapidez com que as meninas quando engravidam assumem que vão ser mães é uma espécie de artifício para colocar algum tipo de limite no excesso a que elas são convocadas. E essa inversão é muito rápida, é uma inversão que se deu em duas, três gerações. E acho que a publicidade não deve ser desprezada como um indicador dessa mudança, porque as técnicas de sondagem de marketing são muito sofisticadas. Deve-se pensar, hoje em dia, a publicidade como um dos maiores indicadores da cultura espontânea. E a publicidade convoca os jovens ao gozo e vai, desse modo, criando um ambiente cultural imaginário de que isso é o que se espera de um jovem. Então, o que percebi em meninas que ficaram grávidas e queriam, imediatamente, ter o filho, é que na falta de uma função paterna que deveria vir do pai, ou dessa corrente geracional anterior a elas, elas apostam que o filho é que vai dar o limite que, antes, era imposto pelos pais. [ NOTA DESTE BLOG: Há um texto bastante perturbador sobre o tema da "Gravidez Adolescente", na edição de janeiro do jornal ultra-comunista A Nova Democracia. Sigam o LINK, please. ]
CE: Esse fenômeno acontece na população de baixa renda também?
MRK:
No filme Meninas, da Sandra Werneck, ela acompanha cinco moradoras de favelas do Rio de Janeiro, grávidas na adolescência, que querem ter seus filhos. Apenas em dois casos o pai assume, mas é muito impressionante como ao longo da gravidez elas apresentavam um discurso do tipo: “Agora eu vou cuidar do meu filho”, como se dissessem que agora iam colocar um limite na disponibilidade. E, depois que nasciam, os filhos ficavam com as avós e elas voltavam aos bailes funk. Porque você não amadurece só porque teve um bebê. Essa esperança de que, a partir do momento em que você é mãe, você se transforma como sujeito e vai saber lidar melhor com seus desejos não é o filho que faz isso. Em meu livro sobre depressão, que estou terminando, um dos elementos que analiso como responsável pelo aumento das depressões, que é considerado um aumento epidêmico, é que o imaginário social que sustenta a função paterna está esgarçado. Então, o sujeito se vê meio à deriva. Nas meninas a gravidez tem essa imagem de impor um limite. E nos meninos, uma coisa que me impressiona muito, é o aumento de crise de pânico na adolescência.
CE: Você acha que isso está ligado, também, a essa obsessão por ser feliz?
MRK:
É, mas não é só isso. É o conceito de gozar. Gozar, em psicanálise, é um conceito que significa ir além dos limites do prazer. Por isso que a droga é o objeto privilegiado disso. Porque destrói barreiras, até corporais, da experiência e dos limites banais que a gente tem. Não é tanto a felicidade, acho que a felicidade já foi até superada. O objeto de desejo não é mais a felicidade, mas o gozo. Porque ele é mais imediato, já que a felicidade está ligada, ainda, a uma ideia de continuidade e longo prazo. E a sociedade de mercado é acelerada, porque tem de produzir, rapidamente, a absorção do que ela gera, para a roda continuar girando.
CE: Como as campanhas antidroga costumam negar o prazer, e isso é uma das coisas mais difíceis na nossa sociedade, gostaria de saber se existe algum jeito de fazer uma campanha que fuja dessa abordagem.
MRK: Não tenho uma resposta. Vou falar livremente sobre o assunto. A primeira coisa que me vem é um artigo do Eugênio Bucci, no qual ele diz: “O que vale uma campanha contra as drogas se todo o resto da publicidade é a favor das drogas?” Aí você pensa que nunca viu publicidade de cocaína e maconha. Não, mas todas as publicidades dirigidas aos jovens fazem apologia do “barato” e depois vem uma dizendo, em 30 segundos, “droga não”. Há uma de vodca, por exemplo, onde se vê uma paisagem cinzenta e através da garrafa a paisagem se transformava numa praia maravilhosa. Ou então, o cara come uma pastilha e flutua. Tudo é brincadeira, sem dúvida, mas é uma permanente convocação ao “barato”. E, como a gente se acomoda rapidamente, a dose deve ser aumentada, a dose do “barato” e da imagem do “barato”. E depois vai dizer que é para não se drogar? A sociedade está convocando o jovem a viver “de barato” permanentemente. Ele veste um tênis e pula, como se ele tivesse usado LSD. É tudo muito divertido, pensando friamente. Mas o convite que a sociedade de consumo faz ao jovem é o do mercado do “barato”. Então, eu sou a favor de legalizar, mesmo porque se legalizar vai morrer menos gente de overdose do que morre de efeito colateral da violência do tráfico. O problema principal social do País hoje é o tráfico de drogas. E, certamente, quem tem menos interesse na legalização das drogas, hoje em dia, são os chefes do tráfico.

"Nossa cultura mima os adolescentes" ( Maria Rita Kehl, em entrevista publicada na revista Carta na Escola )

Quando bati o olho nessa entrevista pensei: “Taí. Tem que deixar para quem sabe.”
O que isso quer dizer? Bem, em uma entrevista curta e agradável de se ler a gente vai ter contato com algumas bárbaras reflexões de Maria Rita ( que se adianta em apresentar-se como uma “não pedagoga” e “não professora”, mas como psicanalista com uma “visão panorâmica” das coisas e interessada na questão da juventude ) sobre escola, adolescência, vida em sociedade, autoridade, gravidez precoce, drogas, classes sociais etc.
Mas, bacana mesmo, é quando ela trata de temas como consumo, rebeldia, anos 60, busca incessante do prazer, drogas ( de novo, meu ). E aí é que chega no ponto que eu me referi, sobre “deixar para quem sabe”. Em poucas palavras ela – que viveu e presenciou algumas delas – derruba do altar “revoluções” comportamentais e culturais que, depois de certo tempo, acabam sendo apoderadas pelo sistema ( tá bom, vai: pelo “capitalismo” ) e devolvidas na forma de mercadorias encontráveis em gôndolas de supermercados [ Mmmm. Sobre algo parecido com isso, lembro-me de um trecho de música dos Dead Kennedys: " ( ... ) We strip-mine your underground culture / Take the bite out and rinse it clean / Give ourselves credit for creating it / Then sell it back to you / At twice the price ( ... )" - "FLESHDUNCE" ]. Ou seja, em suas próprias palavras: ” ( … ) houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.”
Em meu entender, isso significa que as coisas se resumem a entretenimento e ilusão. Não é de todo mal, quando admitimos e aceitamos isso.

CARTA NA ESCOLA, edição 34
Para a psicanalista, Maria Rita Kehl, o professor precisa aprender a valorizar seu capital intelectual, que não tem preço
A psicanalista Maria Rita Kehl é uma observadora atenta do que acontece nas escolas, embora não se apresente como especialista em educação. Também reflete agudamente sobre os dilemas e contradições da juventude, seja a partir das queixas de pais e professores, em sessões individuais de terapia, seja prestando consultoria a escolas com problemas de indisciplina. Nesta entrevista concedida a Ricardo Prado, sob o olhar vigilante de um Sigmund Freud na estante de seu consultório, Maria Rita alerta para os riscos vividos pelas escolas que negociam demais sua cultura de socialização e transmissão de saberes com a cultura juvenil. E atenta para o papel decisivo da publicidade como indutora do convite ao prazer, ao “barato” imediato. O que pode ser uma droga, literalmente.
Carta na Escola: As diferenças entre a cultura escolar e a cultura da juventude podem estar na origem de muitos dos conflitos existentes dentro da escola?
Maria Rita Kehl: Primeiro gostaria de alertar aos leitores que eu não sou nem pedagoga, nem professora, nem especialista em ensino. Sou só psicanalista e a experiência que tenho é com a minha clínica, que me dá uma espécie de panorâmica do “estado das coisas”. E gosto também de pensar a questão da juventude, mas é diferente da visão de quem está ali na escola e de quem é diretor ou professor de escola secundária. Em relação à sua pergunta, eu tenho impressão que a escola negociou demais. Digo isso como mãe de aluno de escola, que já não sou mais, e com base na minha participação em reuniões de pais. Acho que houve um mal-entendido, lá pelos anos 60. Não que não tenha sido importante ter tido uma abertura e uma mudança curricular depois dessa década, já que a escola não podia ficar rígida e fechada como era antes. Mas o que tornou a escola um pouco sem sentido, para os alunos e professores, é que se negociou demais. E isso não é culpa da escola, mas é fruto de uma cultura que mima a criança e o adolescente, principalmente o adolescente. Ele é a fatia privilegiada do mercado, é o consumidor por excelência, porque está sempre mudando. Isso acontece mais na classe média, mas atinge a cultura em geral. Então, os professores não sabem mais o que estão ensinando, porque eles estão ensinando coisas que seus alunos não querem aprender. Mas a escola sempre foi obrigação e pouca gente ia para ela porque adorava. E essa pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, também era feita. Mudanças curriculares podem ser importantes, mas eu acho que, se a escola negocia demais sua posição, que é de formadora de socialização, mais do que de conhecimento, fica muito difícil sustentar-se diante do aluno, porque o professor passa a não ver mais sentido no que faz, porque, se a televisão é importante, se os videogames são interessantes e qualquer site ensina mais do que uma aula, para que serve a escola?
CE: O papel preponderante da escola, hoje, seria de formadora da socialização?
MRK: Eu ainda acho que a escola é um aprendizado de convívio civilizado, da negociação de interesses e reconhecimento de quem se deve respeitar e como respeitar. Conheci uma escola pública de São Paulo no ano passado, chamada Amorim Lima (veja matéria publicada em Carta na Escola, ed. 25, abril de 2008) e fiquei impressionada porque é uma escola que, de um jeito muito progressista, nada rígido ou conservador, não negocia determinadas coisas. Criou um ambiente regrado, que para os alunos é um alívio. Não são regras rígidas, porque na conversa que tive eles disseram: “A gente sabe dessas regras, porque nós as escrevemos no mural”. Quer dizer, eles criaram um modo de convívio que mantém o papel educativo formador da escola e leva em consideração que os alunos, hoje em dia, não são robôs aterrorizados com medo de palmatória e de ir à sala do diretor. E acho que isso é uma questão para os pais também. O que é que sustenta o exercício da autoridade em uma sociedade tão aberta e democrática como a nossa? É diferente um professor que exerce a autoridade em nome da ordem, de Deus e das tradições, como acontecia nas escolas antigamente.
CE: E hoje onde se sustenta a autoridade do professor?
MRK:
O professor não está escorado por todos esses pilares de mármore, felizmente não está, mas, ao mesmo tempo, ele tem uma posição de autoridade. Eu acho que a minha geração sofreu muito com a ditadura e ficou com horror do autoritarismo, passando a fazer uma confusão entre autoridade e autoritarismo. O autoritarismo é totalmente arbitrário, desmedido, punitivo e cruel. Autoridade é o exercício de uma diferença de posição que tem a ver com gerações, pais e filhos, professores e alunos, e que se exerce para, a partir daí, ter o que negociar. Porque, se não, é a desmoralização da escola. O filme do João Jardim, Pro Dia Nascer Feliz, é muito impressionante, porque vemos a diferença de postura. Mesmo em escolas públicas muito pobres há alguns professores que acreditam no que estão fazendo e seguem alguma coisa e outros que negociam tudo. No filme havia uma escola do Rio que tinha um aluno que estava totalmente fora dela e o pessoal continuava negociando com ele. É aí que a escola perde a “borda”. É aquele medo de não perder o aluno e com isso se perde a escola toda.
CE: Isso me faz lembrar uma expressão que você usou no seu livro Fratria Órfã, de que ‘a vaga de adulto está aberta’ em nossa sociedade. Essa dificuldade que o professor tem em exercer sua autoridade tem a ver com isso?
MRK: Acho que tem. O professor não quer fazer o papel do careta, né? Como muitos pais também. Hoje em dia eu vejo mudanças ótimas da relação do adulto com o adolescente, como, por exemplo, o tipo de coisas que podem ser confiadas e conversadas, mas alguma diferença de lugar deve ser mantida.
CE: Quando começou essa ampliação da adolescência?
MRK: Eu costumo brincar que do homem o capitalismo aproveita tudo, até o berro, porque tem essa brincadeira que se fazia que do boi só não se aproveita o berro. E o berro, que os jovens deram nos anos 60, que era anticapitalista, libertário e progressista, foi incorporado pelo capitalismo. Os movimentos de 68, embora não fosse a intenção dos seus agentes, prepararam a transformação do capitalismo produtivo em capitalismo de consumo. Paradoxalmente por uma recusa. E era uma recusa em relação aos padrões de consumo e bom comportamento estabelecidos até então. Chama a atenção que os movimentos dos anos 60 tiveram mais efeito sobre os países capitalistas. No Leste Europeu eles foram abafados e não sobrou rastro, mas no Ocidente foram assimilados como força econômica. Lembro do meu desencanto quando no início dos anos 70 vi um outdoor de uma marca de jeans que dizia: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada”. Então, pensei: ‘Eles já nos devolviam o que nós tínhamos exigido em forma de mercadoria’. Isso me faz pensar, também, que as revoluções do comportamento das décadas de 60 e 70 foram fundamentais, por exemplo, para as mulheres, no que diz respeito ao comportamento, à liberdade sexual e à circulação no mundo, houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.
CE: Você vê, então, que a sociedade de consumo nunca esteve tão forte?
MRK:
Nunca esteve tão forte como ideologia. Não sei se estamos no auge do consumismo, mas sob o aspecto da ideologia, da crença profunda de que você vale o quanto você consome, essa crença é muito arraigada.
CE: Como o professor pode levar essa questão do consumo para a sala de aula que não pareça uma coisa sublimadora, sua mera negação?
MRK:
Se pensarmos o que é a tradição do intelectual, que é mais europeia do que brasileira, ele não é, necessariamente, um cara que está no topo econômico da sociedade. O intelectual é alguém que, de certa forma, se considera elite, na medida em que tem um patrimônio cultural valiosíssimo. Por isso acho que seria muito interessante que os professores se apropriassem desse valor, de que eles são detentores de um patrimônio cultural que não tem preço. E é isso que eles vão transmitir. Porque ouço que muitos alunos dizem: “Você é um zé-mané que não ganha nem para trocar de carro, e quer mandar em mim?”, principalmente em escolas particulares. Se o professor tiver engolido essa crença que ele vale pelo que pode comprar, sairá arrasado de um confronto desses. Agora, se ele puder dizer: “O que eu tenho você vai ter de suar muito para obter e posso te transmitir se você aprender a me respeitar”, é outra história. Talvez as escolas tenham de fazer um trabalho com suas equipes de professores. Uma vez fui numa reunião de alunos e veio esta pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, aí me ocorreu dizer que eles estavam numa situação muito privilegiada, porque antes de começarem a funcionar e serem úteis, tinham o privilégio de ter uma fatia do melhor que a sociedade já produziu. E o melhor que a sociedade produziu não foi dinheiro, foi o conhecimento. Agora, se os professores estão desmotivados, os assuntos são chatos e difíceis, e o aluno tem o celular e a tevê para se entreter, fica difícil. E é claro que essa valorização do professor deve ser primeiramente salarial.
CE: Será que o excesso de negociação que você menciona nasceu da crença de que toda a aprendizagem precisa ser prazerosa?
MRK: É, mas essa é a revolução dos anos 60, que, se teve um lado muito interessante, teve um outro que se tornou completamente indulgente em relação às crianças e jovens. Lembro de um livro do Gramsci, Literatura e Vida Nacional, no qual ele faz um elogio da escola, muito engraçado e antigo para nós, dizendo: “A escola nos ensina coisas que vão ser úteis para o resto de nossas vidas, como, por exemplo, ficar sentado quatro horas ouvindo sobre um assunto”. Quer dizer, tem algo que é precioso na escola, que é se concentrar, prestar atenção e acompanhar um raciocínio longo. Eu briguei muito em uma escola em que meu filho estudava, porque eles não davam livros para os alunos do Ensino Médio. Eu questionava porque eles não davam a oportunidade de eles lerem livros e eles diziam que os alunos não eram capazes de acompanhar. Mas é a escola que tem de torná-los capazes de acompanhar, quer dizer, se a escola vem com esse paternalismo de que é difícil demais para eles, eles não serão capazes de acompanhar mesmo. E isso começou com esse processo, demasiado, de negociação.
CE: A gravidez na adolescência, no seu ponto de vista, parece ter uma aceitação muito mais imediata do que seria de esperar. Elas querem ficar grávidas?
MRK: Isso é uma hipótese, um pouco a partir da minha clínica, um pouco a partir de filhas de conhecidos, um pouco a partir do filme Meninas, da Sandra Werneck; tudo isso foi fortalecendo essa minha hipótese. Minha pergunta inicial foi essa: como é que, com essa febre de liberdade, as meninas, hoje, não abortam? Até vinte anos atrás as meninas engravidavam e abortavam. Um pouco era por medo dos pais, mas também tinha a ver com aquela fase da liberdade delas, tanto é que nos anos 80 houve as grandes polêmicas sobre o aborto. E hoje em dia a questão aparece com um certo moralismo, mas acho que essa rapidez com que as meninas quando engravidam assumem que vão ser mães é uma espécie de artifício para colocar algum tipo de limite no excesso a que elas são convocadas. E essa inversão é muito rápida, é uma inversão que se deu em duas, três gerações. E acho que a publicidade não deve ser desprezada como um indicador dessa mudança, porque as técnicas de sondagem de marketing são muito sofisticadas. Deve-se pensar, hoje em dia, a publicidade como um dos maiores indicadores da cultura espontânea. E a publicidade convoca os jovens ao gozo e vai, desse modo, criando um ambiente cultural imaginário de que isso é o que se espera de um jovem. Então, o que percebi em meninas que ficaram grávidas e queriam, imediatamente, ter o filho, é que na falta de uma função paterna que deveria vir do pai, ou dessa corrente geracional anterior a elas, elas apostam que o filho é que vai dar o limite que, antes, era imposto pelos pais. [ NOTA DESTE BLOG: Há um texto bastante perturbador sobre o tema da "Gravidez Adolescente", na edição de janeiro do jornal ultra-comunista A Nova Democracia. Sigam o LINK, please. ]
CE: Esse fenômeno acontece na população de baixa renda também?
MRK:
No filme Meninas, da Sandra Werneck, ela acompanha cinco moradoras de favelas do Rio de Janeiro, grávidas na adolescência, que querem ter seus filhos. Apenas em dois casos o pai assume, mas é muito impressionante como ao longo da gravidez elas apresentavam um discurso do tipo: “Agora eu vou cuidar do meu filho”, como se dissessem que agora iam colocar um limite na disponibilidade. E, depois que nasciam, os filhos ficavam com as avós e elas voltavam aos bailes funk. Porque você não amadurece só porque teve um bebê. Essa esperança de que, a partir do momento em que você é mãe, você se transforma como sujeito e vai saber lidar melhor com seus desejos não é o filho que faz isso. Em meu livro sobre depressão, que estou terminando, um dos elementos que analiso como responsável pelo aumento das depressões, que é considerado um aumento epidêmico, é que o imaginário social que sustenta a função paterna está esgarçado. Então, o sujeito se vê meio à deriva. Nas meninas a gravidez tem essa imagem de impor um limite. E nos meninos, uma coisa que me impressiona muito, é o aumento de crise de pânico na adolescência.
CE: Você acha que isso está ligado, também, a essa obsessão por ser feliz?
MRK:
É, mas não é só isso. É o conceito de gozar. Gozar, em psicanálise, é um conceito que significa ir além dos limites do prazer. Por isso que a droga é o objeto privilegiado disso. Porque destrói barreiras, até corporais, da experiência e dos limites banais que a gente tem. Não é tanto a felicidade, acho que a felicidade já foi até superada. O objeto de desejo não é mais a felicidade, mas o gozo. Porque ele é mais imediato, já que a felicidade está ligada, ainda, a uma ideia de continuidade e longo prazo. E a sociedade de mercado é acelerada, porque tem de produzir, rapidamente, a absorção do que ela gera, para a roda continuar girando.
CE: Como as campanhas antidroga costumam negar o prazer, e isso é uma das coisas mais difíceis na nossa sociedade, gostaria de saber se existe algum jeito de fazer uma campanha que fuja dessa abordagem.
MRK: Não tenho uma resposta. Vou falar livremente sobre o assunto. A primeira coisa que me vem é um artigo do Eugênio Bucci, no qual ele diz: “O que vale uma campanha contra as drogas se todo o resto da publicidade é a favor das drogas?” Aí você pensa que nunca viu publicidade de cocaína e maconha. Não, mas todas as publicidades dirigidas aos jovens fazem apologia do “barato” e depois vem uma dizendo, em 30 segundos, “droga não”. Há uma de vodca, por exemplo, onde se vê uma paisagem cinzenta e através da garrafa a paisagem se transformava numa praia maravilhosa. Ou então, o cara come uma pastilha e flutua. Tudo é brincadeira, sem dúvida, mas é uma permanente convocação ao “barato”. E, como a gente se acomoda rapidamente, a dose deve ser aumentada, a dose do “barato” e da imagem do “barato”. E depois vai dizer que é para não se drogar? A sociedade está convocando o jovem a viver “de barato” permanentemente. Ele veste um tênis e pula, como se ele tivesse usado LSD. É tudo muito divertido, pensando friamente. Mas o convite que a sociedade de consumo faz ao jovem é o do mercado do “barato”. Então, eu sou a favor de legalizar, mesmo porque se legalizar vai morrer menos gente de overdose do que morre de efeito colateral da violência do tráfico. O problema principal social do País hoje é o tráfico de drogas. E, certamente, quem tem menos interesse na legalização das drogas, hoje em dia, são os chefes do tráfico.

"Nossa cultura mima os adolescentes" ( Maria Rita Kehl, em entrevista publicada na revista Carta na Escola )

Quando bati o olho nessa entrevista pensei: “Taí. Tem que deixar para quem sabe.”
O que isso quer dizer? Bem, em uma entrevista curta e agradável de se ler a gente vai ter contato com algumas bárbaras reflexões de Maria Rita ( que se adianta em apresentar-se como uma “não pedagoga” e “não professora”, mas como psicanalista com uma “visão panorâmica” das coisas e interessada na questão da juventude ) sobre escola, adolescência, vida em sociedade, autoridade, gravidez precoce, drogas, classes sociais etc.
Mas, bacana mesmo, é quando ela trata de temas como consumo, rebeldia, anos 60, busca incessante do prazer, drogas ( de novo, meu ). E aí é que chega no ponto que eu me referi, sobre “deixar para quem sabe”. Em poucas palavras ela – que viveu e presenciou algumas delas – derruba do altar “revoluções” comportamentais e culturais que, depois de certo tempo, acabam sendo apoderadas pelo sistema ( tá bom, vai: pelo “capitalismo” ) e devolvidas na forma de mercadorias encontráveis em gôndolas de supermercados [ Mmmm. Sobre algo parecido com isso, lembro-me de um trecho de música dos Dead Kennedys: " ( ... ) We strip-mine your underground culture / Take the bite out and rinse it clean / Give ourselves credit for creating it / Then sell it back to you / At twice the price ( ... )" - "FLESHDUNCE" ]. Ou seja, em suas próprias palavras: ” ( … ) houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.”
Em meu entender, isso significa que as coisas se resumem a entretenimento e ilusão. Não é de todo mal, quando admitimos e aceitamos isso.

CARTA NA ESCOLA, edição 34
Para a psicanalista, Maria Rita Kehl, o professor precisa aprender a valorizar seu capital intelectual, que não tem preço
A psicanalista Maria Rita Kehl é uma observadora atenta do que acontece nas escolas, embora não se apresente como especialista em educação. Também reflete agudamente sobre os dilemas e contradições da juventude, seja a partir das queixas de pais e professores, em sessões individuais de terapia, seja prestando consultoria a escolas com problemas de indisciplina. Nesta entrevista concedida a Ricardo Prado, sob o olhar vigilante de um Sigmund Freud na estante de seu consultório, Maria Rita alerta para os riscos vividos pelas escolas que negociam demais sua cultura de socialização e transmissão de saberes com a cultura juvenil. E atenta para o papel decisivo da publicidade como indutora do convite ao prazer, ao “barato” imediato. O que pode ser uma droga, literalmente.
Carta na Escola: As diferenças entre a cultura escolar e a cultura da juventude podem estar na origem de muitos dos conflitos existentes dentro da escola?
Maria Rita Kehl: Primeiro gostaria de alertar aos leitores que eu não sou nem pedagoga, nem professora, nem especialista em ensino. Sou só psicanalista e a experiência que tenho é com a minha clínica, que me dá uma espécie de panorâmica do “estado das coisas”. E gosto também de pensar a questão da juventude, mas é diferente da visão de quem está ali na escola e de quem é diretor ou professor de escola secundária. Em relação à sua pergunta, eu tenho impressão que a escola negociou demais. Digo isso como mãe de aluno de escola, que já não sou mais, e com base na minha participação em reuniões de pais. Acho que houve um mal-entendido, lá pelos anos 60. Não que não tenha sido importante ter tido uma abertura e uma mudança curricular depois dessa década, já que a escola não podia ficar rígida e fechada como era antes. Mas o que tornou a escola um pouco sem sentido, para os alunos e professores, é que se negociou demais. E isso não é culpa da escola, mas é fruto de uma cultura que mima a criança e o adolescente, principalmente o adolescente. Ele é a fatia privilegiada do mercado, é o consumidor por excelência, porque está sempre mudando. Isso acontece mais na classe média, mas atinge a cultura em geral. Então, os professores não sabem mais o que estão ensinando, porque eles estão ensinando coisas que seus alunos não querem aprender. Mas a escola sempre foi obrigação e pouca gente ia para ela porque adorava. E essa pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, também era feita. Mudanças curriculares podem ser importantes, mas eu acho que, se a escola negocia demais sua posição, que é de formadora de socialização, mais do que de conhecimento, fica muito difícil sustentar-se diante do aluno, porque o professor passa a não ver mais sentido no que faz, porque, se a televisão é importante, se os videogames são interessantes e qualquer site ensina mais do que uma aula, para que serve a escola?
CE: O papel preponderante da escola, hoje, seria de formadora da socialização?
MRK: Eu ainda acho que a escola é um aprendizado de convívio civilizado, da negociação de interesses e reconhecimento de quem se deve respeitar e como respeitar. Conheci uma escola pública de São Paulo no ano passado, chamada Amorim Lima (veja matéria publicada em Carta na Escola, ed. 25, abril de 2008) e fiquei impressionada porque é uma escola que, de um jeito muito progressista, nada rígido ou conservador, não negocia determinadas coisas. Criou um ambiente regrado, que para os alunos é um alívio. Não são regras rígidas, porque na conversa que tive eles disseram: “A gente sabe dessas regras, porque nós as escrevemos no mural”. Quer dizer, eles criaram um modo de convívio que mantém o papel educativo formador da escola e leva em consideração que os alunos, hoje em dia, não são robôs aterrorizados com medo de palmatória e de ir à sala do diretor. E acho que isso é uma questão para os pais também. O que é que sustenta o exercício da autoridade em uma sociedade tão aberta e democrática como a nossa? É diferente um professor que exerce a autoridade em nome da ordem, de Deus e das tradições, como acontecia nas escolas antigamente.
CE: E hoje onde se sustenta a autoridade do professor?
MRK:
O professor não está escorado por todos esses pilares de mármore, felizmente não está, mas, ao mesmo tempo, ele tem uma posição de autoridade. Eu acho que a minha geração sofreu muito com a ditadura e ficou com horror do autoritarismo, passando a fazer uma confusão entre autoridade e autoritarismo. O autoritarismo é totalmente arbitrário, desmedido, punitivo e cruel. Autoridade é o exercício de uma diferença de posição que tem a ver com gerações, pais e filhos, professores e alunos, e que se exerce para, a partir daí, ter o que negociar. Porque, se não, é a desmoralização da escola. O filme do João Jardim, Pro Dia Nascer Feliz, é muito impressionante, porque vemos a diferença de postura. Mesmo em escolas públicas muito pobres há alguns professores que acreditam no que estão fazendo e seguem alguma coisa e outros que negociam tudo. No filme havia uma escola do Rio que tinha um aluno que estava totalmente fora dela e o pessoal continuava negociando com ele. É aí que a escola perde a “borda”. É aquele medo de não perder o aluno e com isso se perde a escola toda.
CE: Isso me faz lembrar uma expressão que você usou no seu livro Fratria Órfã, de que ‘a vaga de adulto está aberta’ em nossa sociedade. Essa dificuldade que o professor tem em exercer sua autoridade tem a ver com isso?
MRK: Acho que tem. O professor não quer fazer o papel do careta, né? Como muitos pais também. Hoje em dia eu vejo mudanças ótimas da relação do adulto com o adolescente, como, por exemplo, o tipo de coisas que podem ser confiadas e conversadas, mas alguma diferença de lugar deve ser mantida.
CE: Quando começou essa ampliação da adolescência?
MRK: Eu costumo brincar que do homem o capitalismo aproveita tudo, até o berro, porque tem essa brincadeira que se fazia que do boi só não se aproveita o berro. E o berro, que os jovens deram nos anos 60, que era anticapitalista, libertário e progressista, foi incorporado pelo capitalismo. Os movimentos de 68, embora não fosse a intenção dos seus agentes, prepararam a transformação do capitalismo produtivo em capitalismo de consumo. Paradoxalmente por uma recusa. E era uma recusa em relação aos padrões de consumo e bom comportamento estabelecidos até então. Chama a atenção que os movimentos dos anos 60 tiveram mais efeito sobre os países capitalistas. No Leste Europeu eles foram abafados e não sobrou rastro, mas no Ocidente foram assimilados como força econômica. Lembro do meu desencanto quando no início dos anos 70 vi um outdoor de uma marca de jeans que dizia: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada”. Então, pensei: ‘Eles já nos devolviam o que nós tínhamos exigido em forma de mercadoria’. Isso me faz pensar, também, que as revoluções do comportamento das décadas de 60 e 70 foram fundamentais, por exemplo, para as mulheres, no que diz respeito ao comportamento, à liberdade sexual e à circulação no mundo, houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.
CE: Você vê, então, que a sociedade de consumo nunca esteve tão forte?
MRK:
Nunca esteve tão forte como ideologia. Não sei se estamos no auge do consumismo, mas sob o aspecto da ideologia, da crença profunda de que você vale o quanto você consome, essa crença é muito arraigada.
CE: Como o professor pode levar essa questão do consumo para a sala de aula que não pareça uma coisa sublimadora, sua mera negação?
MRK:
Se pensarmos o que é a tradição do intelectual, que é mais europeia do que brasileira, ele não é, necessariamente, um cara que está no topo econômico da sociedade. O intelectual é alguém que, de certa forma, se considera elite, na medida em que tem um patrimônio cultural valiosíssimo. Por isso acho que seria muito interessante que os professores se apropriassem desse valor, de que eles são detentores de um patrimônio cultural que não tem preço. E é isso que eles vão transmitir. Porque ouço que muitos alunos dizem: “Você é um zé-mané que não ganha nem para trocar de carro, e quer mandar em mim?”, principalmente em escolas particulares. Se o professor tiver engolido essa crença que ele vale pelo que pode comprar, sairá arrasado de um confronto desses. Agora, se ele puder dizer: “O que eu tenho você vai ter de suar muito para obter e posso te transmitir se você aprender a me respeitar”, é outra história. Talvez as escolas tenham de fazer um trabalho com suas equipes de professores. Uma vez fui numa reunião de alunos e veio esta pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, aí me ocorreu dizer que eles estavam numa situação muito privilegiada, porque antes de começarem a funcionar e serem úteis, tinham o privilégio de ter uma fatia do melhor que a sociedade já produziu. E o melhor que a sociedade produziu não foi dinheiro, foi o conhecimento. Agora, se os professores estão desmotivados, os assuntos são chatos e difíceis, e o aluno tem o celular e a tevê para se entreter, fica difícil. E é claro que essa valorização do professor deve ser primeiramente salarial.
CE: Será que o excesso de negociação que você menciona nasceu da crença de que toda a aprendizagem precisa ser prazerosa?
MRK: É, mas essa é a revolução dos anos 60, que, se teve um lado muito interessante, teve um outro que se tornou completamente indulgente em relação às crianças e jovens. Lembro de um livro do Gramsci, Literatura e Vida Nacional, no qual ele faz um elogio da escola, muito engraçado e antigo para nós, dizendo: “A escola nos ensina coisas que vão ser úteis para o resto de nossas vidas, como, por exemplo, ficar sentado quatro horas ouvindo sobre um assunto”. Quer dizer, tem algo que é precioso na escola, que é se concentrar, prestar atenção e acompanhar um raciocínio longo. Eu briguei muito em uma escola em que meu filho estudava, porque eles não davam livros para os alunos do Ensino Médio. Eu questionava porque eles não davam a oportunidade de eles lerem livros e eles diziam que os alunos não eram capazes de acompanhar. Mas é a escola que tem de torná-los capazes de acompanhar, quer dizer, se a escola vem com esse paternalismo de que é difícil demais para eles, eles não serão capazes de acompanhar mesmo. E isso começou com esse processo, demasiado, de negociação.
CE: A gravidez na adolescência, no seu ponto de vista, parece ter uma aceitação muito mais imediata do que seria de esperar. Elas querem ficar grávidas?
MRK: Isso é uma hipótese, um pouco a partir da minha clínica, um pouco a partir de filhas de conhecidos, um pouco a partir do filme Meninas, da Sandra Werneck; tudo isso foi fortalecendo essa minha hipótese. Minha pergunta inicial foi essa: como é que, com essa febre de liberdade, as meninas, hoje, não abortam? Até vinte anos atrás as meninas engravidavam e abortavam. Um pouco era por medo dos pais, mas também tinha a ver com aquela fase da liberdade delas, tanto é que nos anos 80 houve as grandes polêmicas sobre o aborto. E hoje em dia a questão aparece com um certo moralismo, mas acho que essa rapidez com que as meninas quando engravidam assumem que vão ser mães é uma espécie de artifício para colocar algum tipo de limite no excesso a que elas são convocadas. E essa inversão é muito rápida, é uma inversão que se deu em duas, três gerações. E acho que a publicidade não deve ser desprezada como um indicador dessa mudança, porque as técnicas de sondagem de marketing são muito sofisticadas. Deve-se pensar, hoje em dia, a publicidade como um dos maiores indicadores da cultura espontânea. E a publicidade convoca os jovens ao gozo e vai, desse modo, criando um ambiente cultural imaginário de que isso é o que se espera de um jovem. Então, o que percebi em meninas que ficaram grávidas e queriam, imediatamente, ter o filho, é que na falta de uma função paterna que deveria vir do pai, ou dessa corrente geracional anterior a elas, elas apostam que o filho é que vai dar o limite que, antes, era imposto pelos pais. [ NOTA DESTE BLOG: Há um texto bastante perturbador sobre o tema da "Gravidez Adolescente", na edição de janeiro do jornal ultra-comunista A Nova Democracia. Sigam o LINK, please. ]
CE: Esse fenômeno acontece na população de baixa renda também?
MRK:
No filme Meninas, da Sandra Werneck, ela acompanha cinco moradoras de favelas do Rio de Janeiro, grávidas na adolescência, que querem ter seus filhos. Apenas em dois casos o pai assume, mas é muito impressionante como ao longo da gravidez elas apresentavam um discurso do tipo: “Agora eu vou cuidar do meu filho”, como se dissessem que agora iam colocar um limite na disponibilidade. E, depois que nasciam, os filhos ficavam com as avós e elas voltavam aos bailes funk. Porque você não amadurece só porque teve um bebê. Essa esperança de que, a partir do momento em que você é mãe, você se transforma como sujeito e vai saber lidar melhor com seus desejos não é o filho que faz isso. Em meu livro sobre depressão, que estou terminando, um dos elementos que analiso como responsável pelo aumento das depressões, que é considerado um aumento epidêmico, é que o imaginário social que sustenta a função paterna está esgarçado. Então, o sujeito se vê meio à deriva. Nas meninas a gravidez tem essa imagem de impor um limite. E nos meninos, uma coisa que me impressiona muito, é o aumento de crise de pânico na adolescência.
CE: Você acha que isso está ligado, também, a essa obsessão por ser feliz?
MRK:
É, mas não é só isso. É o conceito de gozar. Gozar, em psicanálise, é um conceito que significa ir além dos limites do prazer. Por isso que a droga é o objeto privilegiado disso. Porque destrói barreiras, até corporais, da experiência e dos limites banais que a gente tem. Não é tanto a felicidade, acho que a felicidade já foi até superada. O objeto de desejo não é mais a felicidade, mas o gozo. Porque ele é mais imediato, já que a felicidade está ligada, ainda, a uma ideia de continuidade e longo prazo. E a sociedade de mercado é acelerada, porque tem de produzir, rapidamente, a absorção do que ela gera, para a roda continuar girando.
CE: Como as campanhas antidroga costumam negar o prazer, e isso é uma das coisas mais difíceis na nossa sociedade, gostaria de saber se existe algum jeito de fazer uma campanha que fuja dessa abordagem.
MRK: Não tenho uma resposta. Vou falar livremente sobre o assunto. A primeira coisa que me vem é um artigo do Eugênio Bucci, no qual ele diz: “O que vale uma campanha contra as drogas se todo o resto da publicidade é a favor das drogas?” Aí você pensa que nunca viu publicidade de cocaína e maconha. Não, mas todas as publicidades dirigidas aos jovens fazem apologia do “barato” e depois vem uma dizendo, em 30 segundos, “droga não”. Há uma de vodca, por exemplo, onde se vê uma paisagem cinzenta e através da garrafa a paisagem se transformava numa praia maravilhosa. Ou então, o cara come uma pastilha e flutua. Tudo é brincadeira, sem dúvida, mas é uma permanente convocação ao “barato”. E, como a gente se acomoda rapidamente, a dose deve ser aumentada, a dose do “barato” e da imagem do “barato”. E depois vai dizer que é para não se drogar? A sociedade está convocando o jovem a viver “de barato” permanentemente. Ele veste um tênis e pula, como se ele tivesse usado LSD. É tudo muito divertido, pensando friamente. Mas o convite que a sociedade de consumo faz ao jovem é o do mercado do “barato”. Então, eu sou a favor de legalizar, mesmo porque se legalizar vai morrer menos gente de overdose do que morre de efeito colateral da violência do tráfico. O problema principal social do País hoje é o tráfico de drogas. E, certamente, quem tem menos interesse na legalização das drogas, hoje em dia, são os chefes do tráfico.

"Nossa cultura mima os adolescentes" ( Maria Rita Kehl, em entrevista publicada na revista Carta na Escola )

Quando bati o olho nessa entrevista pensei: “Taí. Tem que deixar para quem sabe.”
O que isso quer dizer? Bem, em uma entrevista curta e agradável de se ler a gente vai ter contato com algumas bárbaras reflexões de Maria Rita ( que se adianta em apresentar-se como uma “não pedagoga” e “não professora”, mas como psicanalista com uma “visão panorâmica” das coisas e interessada na questão da juventude ) sobre escola, adolescência, vida em sociedade, autoridade, gravidez precoce, drogas, classes sociais etc.
Mas, bacana mesmo, é quando ela trata de temas como consumo, rebeldia, anos 60, busca incessante do prazer, drogas ( de novo, meu ). E aí é que chega no ponto que eu me referi, sobre “deixar para quem sabe”. Em poucas palavras ela – que viveu e presenciou algumas delas – derruba do altar “revoluções” comportamentais e culturais que, depois de certo tempo, acabam sendo apoderadas pelo sistema ( tá bom, vai: pelo “capitalismo” ) e devolvidas na forma de mercadorias encontráveis em gôndolas de supermercados [ Mmmm. Sobre algo parecido com isso, lembro-me de um trecho de música dos Dead Kennedys: " ( ... ) We strip-mine your underground culture / Take the bite out and rinse it clean / Give ourselves credit for creating it / Then sell it back to you / At twice the price ( ... )" - "FLESHDUNCE" ]. Ou seja, em suas próprias palavras: ” ( … ) houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.”
Em meu entender, isso significa que as coisas se resumem a entretenimento e ilusão. Não é de todo mal, quando admitimos e aceitamos isso.

CARTA NA ESCOLA, edição 34
Para a psicanalista, Maria Rita Kehl, o professor precisa aprender a valorizar seu capital intelectual, que não tem preço
A psicanalista Maria Rita Kehl é uma observadora atenta do que acontece nas escolas, embora não se apresente como especialista em educação. Também reflete agudamente sobre os dilemas e contradições da juventude, seja a partir das queixas de pais e professores, em sessões individuais de terapia, seja prestando consultoria a escolas com problemas de indisciplina. Nesta entrevista concedida a Ricardo Prado, sob o olhar vigilante de um Sigmund Freud na estante de seu consultório, Maria Rita alerta para os riscos vividos pelas escolas que negociam demais sua cultura de socialização e transmissão de saberes com a cultura juvenil. E atenta para o papel decisivo da publicidade como indutora do convite ao prazer, ao “barato” imediato. O que pode ser uma droga, literalmente.
Carta na Escola: As diferenças entre a cultura escolar e a cultura da juventude podem estar na origem de muitos dos conflitos existentes dentro da escola?
Maria Rita Kehl: Primeiro gostaria de alertar aos leitores que eu não sou nem pedagoga, nem professora, nem especialista em ensino. Sou só psicanalista e a experiência que tenho é com a minha clínica, que me dá uma espécie de panorâmica do “estado das coisas”. E gosto também de pensar a questão da juventude, mas é diferente da visão de quem está ali na escola e de quem é diretor ou professor de escola secundária. Em relação à sua pergunta, eu tenho impressão que a escola negociou demais. Digo isso como mãe de aluno de escola, que já não sou mais, e com base na minha participação em reuniões de pais. Acho que houve um mal-entendido, lá pelos anos 60. Não que não tenha sido importante ter tido uma abertura e uma mudança curricular depois dessa década, já que a escola não podia ficar rígida e fechada como era antes. Mas o que tornou a escola um pouco sem sentido, para os alunos e professores, é que se negociou demais. E isso não é culpa da escola, mas é fruto de uma cultura que mima a criança e o adolescente, principalmente o adolescente. Ele é a fatia privilegiada do mercado, é o consumidor por excelência, porque está sempre mudando. Isso acontece mais na classe média, mas atinge a cultura em geral. Então, os professores não sabem mais o que estão ensinando, porque eles estão ensinando coisas que seus alunos não querem aprender. Mas a escola sempre foi obrigação e pouca gente ia para ela porque adorava. E essa pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, também era feita. Mudanças curriculares podem ser importantes, mas eu acho que, se a escola negocia demais sua posição, que é de formadora de socialização, mais do que de conhecimento, fica muito difícil sustentar-se diante do aluno, porque o professor passa a não ver mais sentido no que faz, porque, se a televisão é importante, se os videogames são interessantes e qualquer site ensina mais do que uma aula, para que serve a escola?
CE: O papel preponderante da escola, hoje, seria de formadora da socialização?
MRK: Eu ainda acho que a escola é um aprendizado de convívio civilizado, da negociação de interesses e reconhecimento de quem se deve respeitar e como respeitar. Conheci uma escola pública de São Paulo no ano passado, chamada Amorim Lima (veja matéria publicada em Carta na Escola, ed. 25, abril de 2008) e fiquei impressionada porque é uma escola que, de um jeito muito progressista, nada rígido ou conservador, não negocia determinadas coisas. Criou um ambiente regrado, que para os alunos é um alívio. Não são regras rígidas, porque na conversa que tive eles disseram: “A gente sabe dessas regras, porque nós as escrevemos no mural”. Quer dizer, eles criaram um modo de convívio que mantém o papel educativo formador da escola e leva em consideração que os alunos, hoje em dia, não são robôs aterrorizados com medo de palmatória e de ir à sala do diretor. E acho que isso é uma questão para os pais também. O que é que sustenta o exercício da autoridade em uma sociedade tão aberta e democrática como a nossa? É diferente um professor que exerce a autoridade em nome da ordem, de Deus e das tradições, como acontecia nas escolas antigamente.
CE: E hoje onde se sustenta a autoridade do professor?
MRK:
O professor não está escorado por todos esses pilares de mármore, felizmente não está, mas, ao mesmo tempo, ele tem uma posição de autoridade. Eu acho que a minha geração sofreu muito com a ditadura e ficou com horror do autoritarismo, passando a fazer uma confusão entre autoridade e autoritarismo. O autoritarismo é totalmente arbitrário, desmedido, punitivo e cruel. Autoridade é o exercício de uma diferença de posição que tem a ver com gerações, pais e filhos, professores e alunos, e que se exerce para, a partir daí, ter o que negociar. Porque, se não, é a desmoralização da escola. O filme do João Jardim, Pro Dia Nascer Feliz, é muito impressionante, porque vemos a diferença de postura. Mesmo em escolas públicas muito pobres há alguns professores que acreditam no que estão fazendo e seguem alguma coisa e outros que negociam tudo. No filme havia uma escola do Rio que tinha um aluno que estava totalmente fora dela e o pessoal continuava negociando com ele. É aí que a escola perde a “borda”. É aquele medo de não perder o aluno e com isso se perde a escola toda.
CE: Isso me faz lembrar uma expressão que você usou no seu livro Fratria Órfã, de que ‘a vaga de adulto está aberta’ em nossa sociedade. Essa dificuldade que o professor tem em exercer sua autoridade tem a ver com isso?
MRK: Acho que tem. O professor não quer fazer o papel do careta, né? Como muitos pais também. Hoje em dia eu vejo mudanças ótimas da relação do adulto com o adolescente, como, por exemplo, o tipo de coisas que podem ser confiadas e conversadas, mas alguma diferença de lugar deve ser mantida.
CE: Quando começou essa ampliação da adolescência?
MRK: Eu costumo brincar que do homem o capitalismo aproveita tudo, até o berro, porque tem essa brincadeira que se fazia que do boi só não se aproveita o berro. E o berro, que os jovens deram nos anos 60, que era anticapitalista, libertário e progressista, foi incorporado pelo capitalismo. Os movimentos de 68, embora não fosse a intenção dos seus agentes, prepararam a transformação do capitalismo produtivo em capitalismo de consumo. Paradoxalmente por uma recusa. E era uma recusa em relação aos padrões de consumo e bom comportamento estabelecidos até então. Chama a atenção que os movimentos dos anos 60 tiveram mais efeito sobre os países capitalistas. No Leste Europeu eles foram abafados e não sobrou rastro, mas no Ocidente foram assimilados como força econômica. Lembro do meu desencanto quando no início dos anos 70 vi um outdoor de uma marca de jeans que dizia: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada”. Então, pensei: ‘Eles já nos devolviam o que nós tínhamos exigido em forma de mercadoria’. Isso me faz pensar, também, que as revoluções do comportamento das décadas de 60 e 70 foram fundamentais, por exemplo, para as mulheres, no que diz respeito ao comportamento, à liberdade sexual e à circulação no mundo, houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.
CE: Você vê, então, que a sociedade de consumo nunca esteve tão forte?
MRK:
Nunca esteve tão forte como ideologia. Não sei se estamos no auge do consumismo, mas sob o aspecto da ideologia, da crença profunda de que você vale o quanto você consome, essa crença é muito arraigada.
CE: Como o professor pode levar essa questão do consumo para a sala de aula que não pareça uma coisa sublimadora, sua mera negação?
MRK:
Se pensarmos o que é a tradição do intelectual, que é mais europeia do que brasileira, ele não é, necessariamente, um cara que está no topo econômico da sociedade. O intelectual é alguém que, de certa forma, se considera elite, na medida em que tem um patrimônio cultural valiosíssimo. Por isso acho que seria muito interessante que os professores se apropriassem desse valor, de que eles são detentores de um patrimônio cultural que não tem preço. E é isso que eles vão transmitir. Porque ouço que muitos alunos dizem: “Você é um zé-mané que não ganha nem para trocar de carro, e quer mandar em mim?”, principalmente em escolas particulares. Se o professor tiver engolido essa crença que ele vale pelo que pode comprar, sairá arrasado de um confronto desses. Agora, se ele puder dizer: “O que eu tenho você vai ter de suar muito para obter e posso te transmitir se você aprender a me respeitar”, é outra história. Talvez as escolas tenham de fazer um trabalho com suas equipes de professores. Uma vez fui numa reunião de alunos e veio esta pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, aí me ocorreu dizer que eles estavam numa situação muito privilegiada, porque antes de começarem a funcionar e serem úteis, tinham o privilégio de ter uma fatia do melhor que a sociedade já produziu. E o melhor que a sociedade produziu não foi dinheiro, foi o conhecimento. Agora, se os professores estão desmotivados, os assuntos são chatos e difíceis, e o aluno tem o celular e a tevê para se entreter, fica difícil. E é claro que essa valorização do professor deve ser primeiramente salarial.
CE: Será que o excesso de negociação que você menciona nasceu da crença de que toda a aprendizagem precisa ser prazerosa?
MRK: É, mas essa é a revolução dos anos 60, que, se teve um lado muito interessante, teve um outro que se tornou completamente indulgente em relação às crianças e jovens. Lembro de um livro do Gramsci, Literatura e Vida Nacional, no qual ele faz um elogio da escola, muito engraçado e antigo para nós, dizendo: “A escola nos ensina coisas que vão ser úteis para o resto de nossas vidas, como, por exemplo, ficar sentado quatro horas ouvindo sobre um assunto”. Quer dizer, tem algo que é precioso na escola, que é se concentrar, prestar atenção e acompanhar um raciocínio longo. Eu briguei muito em uma escola em que meu filho estudava, porque eles não davam livros para os alunos do Ensino Médio. Eu questionava porque eles não davam a oportunidade de eles lerem livros e eles diziam que os alunos não eram capazes de acompanhar. Mas é a escola que tem de torná-los capazes de acompanhar, quer dizer, se a escola vem com esse paternalismo de que é difícil demais para eles, eles não serão capazes de acompanhar mesmo. E isso começou com esse processo, demasiado, de negociação.
CE: A gravidez na adolescência, no seu ponto de vista, parece ter uma aceitação muito mais imediata do que seria de esperar. Elas querem ficar grávidas?
MRK: Isso é uma hipótese, um pouco a partir da minha clínica, um pouco a partir de filhas de conhecidos, um pouco a partir do filme Meninas, da Sandra Werneck; tudo isso foi fortalecendo essa minha hipótese. Minha pergunta inicial foi essa: como é que, com essa febre de liberdade, as meninas, hoje, não abortam? Até vinte anos atrás as meninas engravidavam e abortavam. Um pouco era por medo dos pais, mas também tinha a ver com aquela fase da liberdade delas, tanto é que nos anos 80 houve as grandes polêmicas sobre o aborto. E hoje em dia a questão aparece com um certo moralismo, mas acho que essa rapidez com que as meninas quando engravidam assumem que vão ser mães é uma espécie de artifício para colocar algum tipo de limite no excesso a que elas são convocadas. E essa inversão é muito rápida, é uma inversão que se deu em duas, três gerações. E acho que a publicidade não deve ser desprezada como um indicador dessa mudança, porque as técnicas de sondagem de marketing são muito sofisticadas. Deve-se pensar, hoje em dia, a publicidade como um dos maiores indicadores da cultura espontânea. E a publicidade convoca os jovens ao gozo e vai, desse modo, criando um ambiente cultural imaginário de que isso é o que se espera de um jovem. Então, o que percebi em meninas que ficaram grávidas e queriam, imediatamente, ter o filho, é que na falta de uma função paterna que deveria vir do pai, ou dessa corrente geracional anterior a elas, elas apostam que o filho é que vai dar o limite que, antes, era imposto pelos pais. [ NOTA DESTE BLOG: Há um texto bastante perturbador sobre o tema da "Gravidez Adolescente", na edição de janeiro do jornal ultra-comunista A Nova Democracia. Sigam o LINK, please. ]
CE: Esse fenômeno acontece na população de baixa renda também?
MRK:
No filme Meninas, da Sandra Werneck, ela acompanha cinco moradoras de favelas do Rio de Janeiro, grávidas na adolescência, que querem ter seus filhos. Apenas em dois casos o pai assume, mas é muito impressionante como ao longo da gravidez elas apresentavam um discurso do tipo: “Agora eu vou cuidar do meu filho”, como se dissessem que agora iam colocar um limite na disponibilidade. E, depois que nasciam, os filhos ficavam com as avós e elas voltavam aos bailes funk. Porque você não amadurece só porque teve um bebê. Essa esperança de que, a partir do momento em que você é mãe, você se transforma como sujeito e vai saber lidar melhor com seus desejos não é o filho que faz isso. Em meu livro sobre depressão, que estou terminando, um dos elementos que analiso como responsável pelo aumento das depressões, que é considerado um aumento epidêmico, é que o imaginário social que sustenta a função paterna está esgarçado. Então, o sujeito se vê meio à deriva. Nas meninas a gravidez tem essa imagem de impor um limite. E nos meninos, uma coisa que me impressiona muito, é o aumento de crise de pânico na adolescência.
CE: Você acha que isso está ligado, também, a essa obsessão por ser feliz?
MRK:
É, mas não é só isso. É o conceito de gozar. Gozar, em psicanálise, é um conceito que significa ir além dos limites do prazer. Por isso que a droga é o objeto privilegiado disso. Porque destrói barreiras, até corporais, da experiência e dos limites banais que a gente tem. Não é tanto a felicidade, acho que a felicidade já foi até superada. O objeto de desejo não é mais a felicidade, mas o gozo. Porque ele é mais imediato, já que a felicidade está ligada, ainda, a uma ideia de continuidade e longo prazo. E a sociedade de mercado é acelerada, porque tem de produzir, rapidamente, a absorção do que ela gera, para a roda continuar girando.
CE: Como as campanhas antidroga costumam negar o prazer, e isso é uma das coisas mais difíceis na nossa sociedade, gostaria de saber se existe algum jeito de fazer uma campanha que fuja dessa abordagem.
MRK: Não tenho uma resposta. Vou falar livremente sobre o assunto. A primeira coisa que me vem é um artigo do Eugênio Bucci, no qual ele diz: “O que vale uma campanha contra as drogas se todo o resto da publicidade é a favor das drogas?” Aí você pensa que nunca viu publicidade de cocaína e maconha. Não, mas todas as publicidades dirigidas aos jovens fazem apologia do “barato” e depois vem uma dizendo, em 30 segundos, “droga não”. Há uma de vodca, por exemplo, onde se vê uma paisagem cinzenta e através da garrafa a paisagem se transformava numa praia maravilhosa. Ou então, o cara come uma pastilha e flutua. Tudo é brincadeira, sem dúvida, mas é uma permanente convocação ao “barato”. E, como a gente se acomoda rapidamente, a dose deve ser aumentada, a dose do “barato” e da imagem do “barato”. E depois vai dizer que é para não se drogar? A sociedade está convocando o jovem a viver “de barato” permanentemente. Ele veste um tênis e pula, como se ele tivesse usado LSD. É tudo muito divertido, pensando friamente. Mas o convite que a sociedade de consumo faz ao jovem é o do mercado do “barato”. Então, eu sou a favor de legalizar, mesmo porque se legalizar vai morrer menos gente de overdose do que morre de efeito colateral da violência do tráfico. O problema principal social do País hoje é o tráfico de drogas. E, certamente, quem tem menos interesse na legalização das drogas, hoje em dia, são os chefes do tráfico.

março 24, 2009

Federação Nacional dos Jornalistas exige explicações à Camara dos Deputados sobre a censura sobre programa exercida por Gilmar Mendes

Fenaj pede explicações sobre suposto caso de censura na TV Câmara
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) solicita que a Câmara dos Deputados esclareça os fatos narrados pelo correspondente da Carta Capital em Brasília Leandro Fortes, que acusou o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de exercer pressão política para que TV Câmara censurasse uma edição do programa Comitê de Imprensa.
O ofício, assinado pelo presidente da entidade, Sérgio Murillo de Andrade, foi encaminhado ao secretário de Comunicação Social da Casa, Sérgio Chacon; ao diretor da TV Câmara, Manuel Roberto Seabra Pereira; e ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, que teria, de acordo com a acusação do jornalista, recebido o pedido de Gilmar Mendes e exigido a censura do programa.
“A liberdade de imprensa e o direito à livre manifestação são conquistas inalienáveis da sociedade brasileira e têm na Câmara dos Deputados um aliado imprescindível na proteção e defesa desses direitos sociais. Atitudes de cerceamento e censura se de fato forem confirmadas, são antagônicas com a função e o papel que se espera de integrantes da Suprema Corte do País e de funcionários e parlamentares da Câmara Federal”, diz o documento.
COMUNIQUE-SE, 24/3/2009

Federação Nacional dos Jornalistas exige explicações à Camara dos Deputados sobre a censura sobre programa exercida por Gilmar Mendes

Fenaj pede explicações sobre suposto caso de censura na TV Câmara
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) solicita que a Câmara dos Deputados esclareça os fatos narrados pelo correspondente da Carta Capital em Brasília Leandro Fortes, que acusou o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de exercer pressão política para que TV Câmara censurasse uma edição do programa Comitê de Imprensa.
O ofício, assinado pelo presidente da entidade, Sérgio Murillo de Andrade, foi encaminhado ao secretário de Comunicação Social da Casa, Sérgio Chacon; ao diretor da TV Câmara, Manuel Roberto Seabra Pereira; e ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, que teria, de acordo com a acusação do jornalista, recebido o pedido de Gilmar Mendes e exigido a censura do programa.
“A liberdade de imprensa e o direito à livre manifestação são conquistas inalienáveis da sociedade brasileira e têm na Câmara dos Deputados um aliado imprescindível na proteção e defesa desses direitos sociais. Atitudes de cerceamento e censura se de fato forem confirmadas, são antagônicas com a função e o papel que se espera de integrantes da Suprema Corte do País e de funcionários e parlamentares da Câmara Federal”, diz o documento.
COMUNIQUE-SE, 24/3/2009

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Fenaj pede explicações sobre suposto caso de censura na TV Câmara
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) solicita que a Câmara dos Deputados esclareça os fatos narrados pelo correspondente da Carta Capital em Brasília Leandro Fortes, que acusou o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de exercer pressão política para que TV Câmara censurasse uma edição do programa Comitê de Imprensa.
O ofício, assinado pelo presidente da entidade, Sérgio Murillo de Andrade, foi encaminhado ao secretário de Comunicação Social da Casa, Sérgio Chacon; ao diretor da TV Câmara, Manuel Roberto Seabra Pereira; e ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, que teria, de acordo com a acusação do jornalista, recebido o pedido de Gilmar Mendes e exigido a censura do programa.
“A liberdade de imprensa e o direito à livre manifestação são conquistas inalienáveis da sociedade brasileira e têm na Câmara dos Deputados um aliado imprescindível na proteção e defesa desses direitos sociais. Atitudes de cerceamento e censura se de fato forem confirmadas, são antagônicas com a função e o papel que se espera de integrantes da Suprema Corte do País e de funcionários e parlamentares da Câmara Federal”, diz o documento.
COMUNIQUE-SE, 24/3/2009

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A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) solicita que a Câmara dos Deputados esclareça os fatos narrados pelo correspondente da Carta Capital em Brasília Leandro Fortes, que acusou o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de exercer pressão política para que TV Câmara censurasse uma edição do programa Comitê de Imprensa.
O ofício, assinado pelo presidente da entidade, Sérgio Murillo de Andrade, foi encaminhado ao secretário de Comunicação Social da Casa, Sérgio Chacon; ao diretor da TV Câmara, Manuel Roberto Seabra Pereira; e ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, que teria, de acordo com a acusação do jornalista, recebido o pedido de Gilmar Mendes e exigido a censura do programa.
“A liberdade de imprensa e o direito à livre manifestação são conquistas inalienáveis da sociedade brasileira e têm na Câmara dos Deputados um aliado imprescindível na proteção e defesa desses direitos sociais. Atitudes de cerceamento e censura se de fato forem confirmadas, são antagônicas com a função e o papel que se espera de integrantes da Suprema Corte do País e de funcionários e parlamentares da Câmara Federal”, diz o documento.
COMUNIQUE-SE, 24/3/2009

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A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) solicita que a Câmara dos Deputados esclareça os fatos narrados pelo correspondente da Carta Capital em Brasília Leandro Fortes, que acusou o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de exercer pressão política para que TV Câmara censurasse uma edição do programa Comitê de Imprensa.
O ofício, assinado pelo presidente da entidade, Sérgio Murillo de Andrade, foi encaminhado ao secretário de Comunicação Social da Casa, Sérgio Chacon; ao diretor da TV Câmara, Manuel Roberto Seabra Pereira; e ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, que teria, de acordo com a acusação do jornalista, recebido o pedido de Gilmar Mendes e exigido a censura do programa.
“A liberdade de imprensa e o direito à livre manifestação são conquistas inalienáveis da sociedade brasileira e têm na Câmara dos Deputados um aliado imprescindível na proteção e defesa desses direitos sociais. Atitudes de cerceamento e censura se de fato forem confirmadas, são antagônicas com a função e o papel que se espera de integrantes da Suprema Corte do País e de funcionários e parlamentares da Câmara Federal”, diz o documento.
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