ENCALHE

novembro 10, 2007

Petróleo no Brasil: há mais de uma década, Aloysio Biondi JÁ DIZIA que este país tem reservas comparáveis até mesmo às da Arábia Saudita!!!

Petrobrás, Vale e o mar de mentiras

ALOYSIO BIONDI
Na semana passada, a Petrobrás anunciou a descoberta de um novo poço gigante, furado no fundo do mar de Campos, no Rio, capaz de produzir 10 mil barris por dia. Talvez um em cada 1 milhão de brasileiros seja capaz de entender o significado fantástico desse número. Então, vale a pena dissecá-lo, neste momento em que se debate a privatização da vale do Rio Doce, a quebra do monopólio estatal do petróleo, a venda de estatais a toque de caixa, com a divulgação de mentiras para manipular a opinião pública.
* No Brasil – os primeiros poços de petróleo do Brasil, descobertos no Recôncavo Baiano, produziam em média cem barris por dia; eram poços ”fraquinhos” quando comparados com os do México, Venezuela ou Oriente Médio.
No final dos anos 60, em 1968, a Petrobrás descobriu o primeiro poço de petróleo no fundo do mar, mais exatamente na plataforma submarina de Sergipe, com poços capazes de produzir 1.300 barris por dia, isto é, 13 vezes mais do que os poços baianos e próximo da média de México e Venezuela.
O grande salto, que até hoje não foi suficientemente entendido pela opinião pública, veio a ocorrer em meados dos anos 70, com a descoberta de petróleo na plataforma submarina de Campos, onde poços de produção cada vez mais estonteante foram sendo localizados: 3.500 barris/dia, 7.000 barris/dia e, agora, 10 mil barris/dia. Cada poço.
*No mundo – esses poços de produção gigantesca fornecem o dobro ou o triplo dos poços recordistas da Venezuela e do México. E, atenção, equivalem aos poços ”malucamente” recordistas do Oriente Médio.
EUA e mentiras
Para atacar a Petrobrás, analistas mal-intencionados dizem frequentemente que as empresas petrolíferas abrem milhares de poços nos EUA a cada ano, contra centenas ou dezenas perfurados no Brasil.
A comparação é totalmente enganosa. Nos EUA, por causa da formação dos terrenos e outros fatores, os lençóis de petróleo estão situados a poucos metros de profundidade _e, por isso mesmo, não há brasileiro que não tenha visto, em filmes norte-americanos, um ”mocinho” achar petróleo usando ridículas sondas normalmente usadas para abrir cisternas d’água.
Poços de poucos metros de profundidade, facílimos de perfurar _mas que, em compensação, não produzem mais do que dez barris (dez, mesmo) por dia. Mil vezes menos que o poço gigante brasileiro.
A Petrobrás está no extremo oposto. Com plataformas sofisticadíssimas, realiza façanhas: as sondas atravessam uma lâmina d’água (isto é, da superfície até o ”chão” do mar) de 300, 500 metros _e depois começam a perfurar o ”chão” do mar, chegando a até 2.000 metros de terreno perfurado.
Uma tecnologia tão avançada, tão ano 2000 _para usar o modismo dominante_ que a Petrobrás é premiada como líder absoluta, primeiro lugar absoluto em tecnologia de perfuração submarina. No mundo.
Ainda sem rubor
No caso da Vale, as mentiras são as mesmas. Há décadas, a Vale, por meio da sua subsidiária Docegeo, é a grande descobridora de minérios no país.
Por isso mesmo, descobriu e é dona, em Carajás, no Pará, da maior concentração de _atenção_ todos os tipos de minério de _atenção_ todo o mundo.
Quanto à sua eficiência administrativa, foi elogiada em artigo recente nesta Folha pelo empresário Antonio Ermírio de Moraes, que, com sua honestidade intelectual, chegou a pôr em dúvida o acerto da privatização ( isso, apesar de seu grupo ser um ”comprador em potencial” ). Se a Vale tem tecnologia e eficiência administrativa, é preciso inventar outra mentira, repetida por ministros, ex-ministros e de-formadores de opinião. Diz-se que a Vale só paga de dividendos ou rende 1% a 2% ao ano para o Tesouro.
Ora, qualquer empresa privada faz o mesmo: se tem um lucro 100, entrega só uma fatia aos donos, aos acionistas, aos sócios e reinveste o restante em novos negócios, novas empresas. Aumenta, com isso, o patrimônio dos donos e o valor de suas ações.
A capacidade de mentir à opinião pública ultrapassou qualquer limite da capacidade de ter vergonha.

Folha de São Paulo
28/11/98

Desculpe, sou burro, não entendo
ALOYSIO BIONDI
O governo FHC decidiu permitir que empresas multinacionais também explorem campos de petróleo no Brasil. Em outros países, latino-americanos ou árabes, que também adotaram essa abertura, as multinacionais estão pagando de 80% a 90% em “comissões”, impostos, direitos de exploração ao governo _cobrados sobre sua renda líquida.
No caso do Brasil da equipe FHC, falava-se em cobrar apenas 55% a 60%, no debate travado nos últimos meses. Alguns críticos apontavam que os percentuais eram muito baixos, quando comparados com a cobrança de outros países _isto é, que o Brasil estava abrindo mão de bilhões e bilhões de reais de arrecadação, com aumento proporcional nos lucros das multinacionais.
De repente, na quinta-feira da semana passada, o governo FHC anunciou sua decisão. Vai cobrar 80%? Ou 90%? Ou os 55% a 60%?
Nada disso. Apenas 47%. Os interesses das multinacionais foram vitoriosos. Outra vez.
Mar de petróleo - Pode-se perguntar os motivos da decisão do governo FHC. Vai ser difícil as multinacionais acharem petróleo? Os poços vão produzir poucos barris, na comparação com os outros países? Longe disso.
As multinacionais nem vão precisar gastar dinheiro para procurar, tentar achar petróleo. Elas vão receber autorização para perfurar e explorar o petróleo de áreas já estudadas, anos a fio, pela Petrobrás. Áreas com petróleo. É só perfurar. E começar a faturar.
E a produção, será baixa? Longe disso. As multinacionais poderão abrir poços até na bacia de Campos, na plataforma submarina. E, o que poucos brasileiros sabem até hoje, os poços dessa região têm uma produção absolutamente fantástica, só encontrada anteriormente nos países árabes, como Iraque, Arábia Saudita.
São poços que produzem não cem barris por dia, como nos EUA. São poços de até 7.000 ( s-e-t-e m-i-l ) barris por dia. Um único poço, a jorrar centenas de milhões de dólares por ano. Entregues a multinacionais a baixo custo de “comissões”.
Sempre eles - Além da concessão às multinacionais, a “abertura do mercado petrolífero” prevê também que a Petrobrás poderá fazer parcerias, para levantar mais recursos e acelerar seus projetos. O governo FHC anunciou uma dessas parcerias para o campo de Marlim, na bacia de Campos. A Petrobrás já gastou US$ 2,6 bilhões no projeto e produz ali 230 mil barris/dia.
Agora, o BNDES, aquele banco dito estatal, está criando ( há meses ) uma empresa, montada com o “apoio técnico” de bancos estrangeiros, para ser sócia da Petrobrás. Capital da empresa: R$ 500 milhões. O que ela vai fazer? Levantar empréstimos de R$ 1,5 bilhão _para aplicar em Marlim e ser sócia nos lucros da Petrobrás.
Pergunta inevitável: se o governo FHC quer levantar recursos para acelerar os planos da Petrobrás; se o campo de Marlim tem produção fantástica; se o petróleo já está descoberto, então por que o BNDES e a equipe FHC não lançaram campanha para a venda de ações da Petrobrás a milhões de brasileiros, empresários e trabalhadores?
Por que, mais uma vez, ao longo de meses, bancos estrangeiros montam uma “operação financeira” e apenas determinadas empresas são “convidadas” a integrar a empresa/parceira da Petrobrás?
Ainda Telebrás - Revelação recente: no primeiro semestre do ano, o governo FHC fez investimentos de nada menos de R$ 4,5 bilhões no Sistema Telebrás, que já estava sendo privatizado. O que isso significa? O governo FHC teve tanta pressa que os R$ 4,5 bilhões correspondem a nada menos de 90% (ou 87%, para sermos mais exatos) dos investimentos que estavam previstos para o ano todo.
Pergunta: por que esse investimento acelerado, com desrespeito às metas do Orçamento _numa fase de “cintos apertados”, corte e retenção de verbas para a saúde, educação ou até o Nordeste? Por que esses gastos se eles não foram incluídos nos preços de privatização da Telebrás? Eles beneficiaram somente os compradores. Final da história: dos R$ 8,8 bilhões que o governo recebeu como 40% de entrada do preço da Telebrás, mais da metade, ou R$ 4,5 bilhões, já tinha sido torrada, em proveito dos compradores, no semestre. Sobraram só R$ 4,3 bilhões. Sem comentários.
Para conquistar o apoio do consumidor, martelou-se a informação de que as empresas compradoras da Telebrás seriam rigorosamente fiscalizadas pela agência da área, a Anatel. Agora, a Anatel diz que as “metas” de instalação de telefones, qualidade dos serviços etc. só valem no ano 2000.
Diz, a Anatel, que não pode exigir que, até lá, os “compradores” cumpram qualquer meta. Só pode fazer advertências ou auditorias.Quer dizer: em 1998 e 1999, se os ‘compradores’ instalarem somente 10%, 20%, 30% dos telefones previstos, serão apenas advertidos. Legal, mesmo. Articulistas iluminados dizem que os dinossauros são incapazes de entender as gigantescas transformações que o governo FHC está promovendo no país. Realmente, os dinossauros são burros.
Folha de São Paulo
14/08/1998

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