VERMELHO, 12.06.08
Imprensa e oposição –que hoje em dia, no Brasil, são praticamente a mesma coisa –estão indignadas com a aprovação da CSS (Contribuição Social para a Saúde). Usam dois argumentos básicos para sustentar sua contrariedade: a de que a CSS é mais um imposto que vai corroer o poder aquisitivo da população e as finanças das empresas e o de que a Saúde não precisa de verba extra, pois o governo já arrecada o bastante. Os dois argumentos, assumidos até por setores da esquerda, tem um único objetivo: impedir qualquer iniciativa de distribuição de renda no país.
Por Cláudio Gonzalez
Depois de muita discussão e diversos adiamentos, a base governista aprovou a criação da CSS (Contribuição Social para a Saúde). A votação foi apertada e o novo imposto teve 259 votos favoráveis, apenas dois a mais que o necessário, 159 contrários e duas abstenções. O projeto agora depende de aprovação no Senado. Está previsto que a CSS entrará em vigor apenas em janeiro de 2009.
Ontem, o líder do governo na Câmara, deputado Henrique Fontana (PT-RS), ao agradecer a base aliada pelo resultado da votação, disse que aquela era “uma grande vitória do povo brasileiro, uma grande vitória da saúde pública deste país”. “Os milhões que entrarem nos hospitais do SUS (Sistema Único de Saúde), os milhões que entrarem nos postos de saúde, que receberem seu medicamento, vão agradecer a esta base que está tendo a responsabilidade de respeitar o povo brasileiro que precisa do SUS”, discursou Fontana.
Outras lideranças da base reforçaram esta visão. O líder do PT na Câmara, Maurício Rands (PE), lembra que muita gente contrária à CSS, como alguns líderes empresariais, “certamente nunca precisou de utilizar a rede pública de saúde, já que tem dinheiro para bancar um plano de saúde privado”. De acordo com o líder do PT, a idéia é de que a CSS seja um tributo “em que os ricos, os que fazem grande movimentação financeira, repassem uma parte dos seus recursos, solidariamente, para a saúde publica. Existe algo mais solidário e distributivo do que isso”? questiona Maurício Rands. Ele acrescenta que ao longo das negociações para a aprovação da CSS, entre os líderes da base aliada, definiu-se que haverá uma melhoria gerencial do sistema público de saúde.
A deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) disse que a contribuição que se cria é mínima e justa, por isso, o PCdoB votou unânime com a clareza de que iria buscar um outro patamar de sustentação da saúde. “Neste momento é absolutamente justa a criação da CSS para garantir integralidade dos recursos para a saúde”, disse.
A CSS foi proposta pelo deputado Pepe Vargas (PT-RS) como instrumento de arrecadação para sustentar a regulamentação da chamada Emenda 29. O projeto de autoria do senador Tião Viana (PT-AC) destina percentuais mínimos de investimento para a Saúde por parte dos governos federal, estaduais e municipais. Atendendo a uma reivindicação histórica dos movimentos sociais, o projeto fixa que a União deverá investir na saúde 10% da arrecadação de impostos, o que, segundo cálculos do governo indicam recursos extras de R$ 11,8 bilhões via CSS em 2009. O texto define ainda percentuais de 12% para os Estados e 15% para os municípios.
Atualmente, nenhum dos cinco estados mais ricos do país (São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraná) cumprem com esta exigência. Vale lembrar que destes cinco estados, três (SP, RS e MG) são governados pelo PSDB.
A CSS isenta de contribuição os aposentados e pensionistas do regime geral da Previdência e os trabalhadores que recebem salários de até R$3.038,00, o teto da Previdência Social. Ou seja, quem ganha um salário de R$ 5 mil, contribuirá com apenas R$ 2 por mês. “É uma pequena contribuição para quem não pode ter um plano de saúde privado e necessita da rede pública de saúde”, diz Rands.
Para Pepe Vargas, a CSS pode ser considerada também uma forma de distribuir a renda no país. “É uma contribuição de solidariedade social, e com isso o Sistema Único de Saúde (SUS) terá mais dinheiro para atender melhor milhões de brasileiros que dependem exclusivamente da rede pública quando têm algum problema de saúde”, argumenta o deputado.
Estratégia da oposição
Mas esta noção de que se trata de apenas de uma “pequena contribuição de relevância social” não é aceita pelos setores que representam a elite brasileira. DEM e PSDB, os maiores representantes partidários desta elite no Congresso, junto com parlamentares de outros partidos que representam os interesses empresariais, uniram-se aos seus porta-vozes na mídia para acusar o governo de querer extorquir o contribuinte com mais um imposto.
Por trás do discurso tributarista, preocupa a oposição e os setores empresariais a possibilidade de que a CSS venha a ser usada para monitorar o sistema financeiro, combater a lavagem de dinheiro e flagrar sonegadores. O deputado federal Flávio Dino (PCdoB-MA) destacou esta função da CSS ao comemorar sua aprovação na Câmara. “A CSS é um poderoso instrumento de combate à sonegação na medida que identifica o trânsito do dinheiro por dentro do sistema bancário”, argumentou.
Ao lado do temor com a vigilância fiscal, a oposição tenta usar suas barricadas anti-CSS para também impedir que o governo garanta verbas suplementares para financiar serviços públicos essenciais como a Saúde. Afinal de contas, mais serviço público com mais qualidade sempre acaba revertendo em mais popularidade para o governante de plantão. É a lógica da democracia, que os oposicionistas não querem ver concretizada. Por isso, entre um canapé e outro, eles soaram as trombetas do apocalipse como se a implementação da CSS fosse arruinar as economias do povo brasileiro e prometeram não dar trégua ao governo enquanto não conseguirem impedir a criação do tributo.
O próprio presidente Lula acusou a estratégia da oposição. Durante discurso em Campinas, Lula disse que estes setores que derrubaram a CPMF e agora boicotam a CSS agem movidos por “por ódio e por vontade de que as coisas não dêem certo”.
Outro argumento hipócrita usado pela oposição para questionar a CSS é a de que a cobrança do tributo irá agravar a inflação, já que a tendência do mercado é repassar o imposto para os preços de produtos e serviços. Porém, para sustentar este argumento, a oposição precisa primeiro explicar por que os preços não caíram quando a CPMF deixou de existir. Considerando que a alíquota da CPMF era 0,38% e a da CSS é apenas um quarto disso (0,1%), não há como sustentar o argumento de que a CSS, com alíquota de apenas 0,1%, terá impacto maior nas contas das empresas do que a queda da CPMF, que tinha uma alíquota quase três vezes maior.
Problema dos mais ricos
Para Francisco Fonseca, cientista político da FGV-SP, a criação de qualquer imposto é sinônimo de desgaste político, mas, a CSS não deve arranhar a popularidade do presidente Lula, apesar das críticas da oposição e de diversos setores da sociedade.
”Se for aprovado [no Senado] a oposição irá, sobretudo nas eleições, fazer um grande estardalhaço, que é o seu papel. Mas aparentemente, o governo Lula tem uma muita popularidade. Como a isenção relativamente é alta [R$ 3.038], eu lembraria que boa parte dos brasileiros recebe menos que isso. Então é um imposto que afeta as classes médias e não os pobres. Não acredito que [a aprovação do novo imposto] vá fazer grande estrago na popularidade do governo Lula e dos partidos que apóiam o governo”, afirmou.
Segundo critérios adotados por institutos de pesquisas privados a partir de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as classes A e B representam uma pequena parte da população brasileira — somadas, são apenas 15% dos mais de 187 milhões de brasileiros. Pesquisa encomendada pela Cetelem, financeira do grupo francês BNP Paribas, em parceria com o Instituto de Pesquisa Ipsos revela que nas classes A/B, a renda média foi de R$ 2.484 em 2005, R$ 2.325 em 2006, e de R$ 2.217 em 2007. Se considerarmos os trabalhadores formais que ganham acima de 3 mil reais por mês, este percentual cai para cerca de 5% do total de trabalhadores brasileiros, o que representa cerca de 2% da população.
É para defender o interesse destes 2%, contra o interesse da imensa massa de usuários dos serviços públicos de saúde que a oposição e a grande mídia armam suas barricadas contra a CSS. No fundo, fazem o que sempre fizeram: defendem os interesses de uma minoria privilegiada em detrimento da maioria do povo.
Câmara derrota 159 sovinas e aprova os 10 bilhões da Saúde
Batalha da CSS vai agora para o Senado
Quanto maior a fortuna, maior o choro para não pagar imposto do cheque
A Câmara dos Deputados aprovou, na quarta-feira, por 259 a 159, a Contribuição Social para a Saúde (CSS). Com isso, a Saúde terá mais R$ 10 bilhões, podendo chegar até R$ 11,8 bilhões, no próximo ano. Os 70 milhões de brasileiros mais pobres estarão isentos do tributo. Representante dos viciados em sonegar e parasitar o dinheiro dos impostos que o povo paga, a oposição não conseguiu impedir que a maioria prevalecesse. O projeto irá agora ao Senado, onde não precisará, ao contrário da CPMF, de três quintos dos senadores, podendo ser aprovado por maioria simples.
Câmara dos Deputados aprova recursos para a saúde do povo
Por 259 a 159 foi criada a CSS que dará ao setor de R$ 10 bilhões até R$ 11,8 bilhões
A Câmara dos Deputados aprovou, na quarta-feira, por 259 votos favoráveis, 159 contrários e duas abstenções, a criação da Contribuição Social para a Saúde (CSS). A contribuição, com alíquota de 0,1% a partir de janeiro de 2009, incidirá sobre as movimentações financeiras e terá sua arrecadação destinada integralmente ao financiamento da saúde. Os recursos que serão canalizados para o setor via CSS são estimados em R$ 10 bilhões no próximo ano, podendo chegar até R$ 11,8 bilhões.
A contribuição, que agora será levada para votação no Senado, não incidirá sobre aposentadorias, pensões e salários de trabalhadores com carteira assinada até o valor de R$ 3.080,00. Esse limite de isenção significa que os 70 milhões de brasileiros mais pobres não pagarão a CSS. Além disso, os saques das contas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), do PIS/Pasep e seguro-desemprego também não serão taxados pela CSS.
Mesmo para quem não está isento, a contribuição será modesta: alguém que ganha R$ 5.000,00, por exemplo, terá que pagar meros R$ 5,00 de CSS por mês. Na verdade, serão os mais ricos, cujas movimentações financeiras são mais freqüentes e mais volumosas, que arcarão com a maior parte do tributo.
É sintomático que seja sobre um tributo em que é evidente o seu caráter de justiça social, que a oposição concentrou a sua raiva – a bem dizer, a sua histeria. Sempre foi um cacoete da oligarquia latifundiária a disposição de fazer os pobres pagar pelos ricos. Que o digam os antepassados do senador Agripino. Mas também os heróis atuais da canalha, isto é, do neoliberalismo, sempre acharam que a função do povo é pagar impostos para que eles encham os seus cofres. A espoliação do país via juros da dívida pública não é outra coisa senão a pilhagem sobre os tributos que o povo paga, para que alguns magnatas acumulem montanhas de dinheiro sem pagar impostos.
Daí, a CSS ser tudo o que eles não gostam: um tributo que os ricos pagam, e não podem nem ao menos sonegar, além de ser destinado a beneficiar a saúde dos mais pobres.
“É a vitória de todos que precisam de um hospital público, vitória do combate à sonegação”, afirmou o líder do governo, deputado Henrique Fontana (PT/RS). A oposição tentou obstruir a votação, usando manobras regimentais. Quatro sessões extraordinárias foram realizadas, uma na terça e três na quarta-feira, até a aprovação do substitutivo do deputado Pepe Vargas (PT/RS). No plenário, a bancada tucano-pefelista provocou a base aliada, expondo placas com as frases “Xô CPMF” e “PT – Partido dos Tributos”. Em resposta, os governistas levantaram cartazes, nos quais listaram os principais programas de saúde, além de informar que havia “zero de sonegação”.
A proposta de criação da CSS veio como forma de recuperar parte dos recursos destinados ao financiamento dos serviços de saúde pública, previstos no Orçamento com base na arrecadação da CPMF – cujos recursos eram destinados à saúde e aos programas sociais mantidos pelo executivo. No final do ano passado, no Senado, a oposição conseguiu, apesar de perder a votação por 45 a 34 votos, derrubar a CPMF, com uma perda de R$ 40 bilhões na arrecadação, usando o fato de que, como emenda constitucional, a CPMF necessitava dos votos de três quintos dos senadores. Diferente da CPMF, a CSS não necessita desse quorum para aprovação, já que está sendo proposta por lei ordinária, e não por emenda constitucional.
Após a derrubada da CPMF, o Senado aprovou o Projeto de Lei Complementar 306/08, de autoria do senador Tião Viana (PT/AC), regulamentando a Emenda 29, que prevê um acréscimo de mais R$ 23 bilhões para a saúde. No entanto, o texto não criava uma fonte de receita específica para cobrir o aumento de despesas, o que é obrigatório pela Constituição.
A viabilização desse aumento de recursos é a finalidade do substitutivo Pepe Vargas. Ao mesmo tempo que cria a CSS, ele mantém a regra seguida atualmente pela União, que é destinar para a Saúde o montante gasto no ano anterior, mais a variação do Produto Interno Bruto (PIB). Pelo substitutivo, caso a variação do PIB seja negativa, o governo não poderá reduzir o valor a ser investido na Saúde.
O dinheiro a mais da CSS, no entanto, não vai entrar na base de cálculo para a definição dos recursos do ano seguinte, funcionando como uma espécie de “bônus” para a Saúde. Os recursos para a Saúde serão o montante aplicado no ano anterior mais o aumento determinado pelo crescimento do PIB e mais a arrecadação da CSS.
“Considerando os R$ 10 bilhões que virão da CSS, mais uma suplementação de R$ 6 bilhões que estamos reivindicando para este ano, a saúde pública terá cerca de R$ 68 bilhões em 2009, contra R$ 48 bilhões atualmente”, declarou o deputado Pepe Vargas.
Vargas observou que a oposição falsificava o conteúdo do projeto, ao dizer que a CSS retiraria recursos da Saúde: “Ou os Democratas e o PSDB não leram o meu substitutivo, ou estão apenas criando confusão para tumultuar o processo. Está claro no artigo 5º que o financiamento da saúde virá da correção do que foi empenhado no ano anterior, corrigido pela variação nominal do PIB (Produto Interno Bruto), mais o total da CSS”.
Com a derrota na Câmara, restou aos paladinos de agiotas e sonegadores a expectativa de que o Senado barre a destinação de recursos para a saúde. “Depositamos a esperança agora nos senadores”, disse o líder do DEM na Câmara, deputado ACM Neto (BA). No entanto, segundo o líder do governo, Henrique Fontana , “se a votação no Senado fosse hoje, tenho certeza de que a CSS seria aprovada, porque a saúde tem necessidades urgentes”.
Segundo o líder do PT na Câmara, Maurício Rands (PE), a cobrança do novo imposto é uma forma de garantir fontes permanentes para o financiamento da saúde. Sem fontes fixas, acrescentou Rands, o sistema de saúde do país fica vulnerável porque passa a depender da arrecadação que varia conforme o ano.