Sabe, devo ter sido um dos poucos brasileiros que chegou a assistir a TV estatal de sei lá que nome, quando estava transmitindo a votação. Via um pouco, tirava, retornava, mudava de canal. A oposição tentava obstruir, dava aquele bafafá…
É sempre instrutivo passar algum tempo assistindo a esses canais, tipo TV Câmara ou Justiça. Sem o filtro do imprensalão, os eventos adquirem outra imagem. Claro que, em meio àquela terminologia específica utilizada no dia-a-dia dos congressistas, o leigo fica realmente perdido. Mas não se deve desanimar. A prática leva ao aperfeiçoamento. Ou à desistência.
Deve ter algo muito errado com alguém ( eu, no caso ) que muda de canal logo após o deputado e amigo de José Serra, Paulo Renato, começou a falar, mas prestou mais atenção e gastou mais tempo durante a participação de Arnaldo Faria de Sá. Bicho, é incrível como a tucanalha , arrogantíssima por sinal, está em campanha o tempo todo!!
Aí chegou a vez do Ebó Grampinho, com seu inconfundível estilo “Cabra Marcado para Matar”. Dezenas de minutos de berraria, usados para concluir que a CPMF é usada para sustentar a roubalheira que foi instituída ( juntamente com a própria CPMF ) no Brasil pelo governo do Lula. Simplesão assim: dia 05 e dia 20 de cada mês, “os políticos” fazem fila na boca do caixa para receber o “mensalão” ou o “vale-propina”, um negócio muito bem organizado, abastecido pelos recursos advindos da CPMF…
O Ebó Grampinho presta um verdadeiro desserviço à ética na política, já que com seu arsenal de lugares-comuns, não difere muito das pessoas comuns, como taxistas malufistas e descerebridades televisivas, quando estes manifestam seu descontentamento com suas vidas, culpando “os políticos ladrões”. Claro que, pro Ebózinho, é muito mais fácil lançar mão de tais generalizações. Quem não se lembra quando, durante aquelas CPIs, este pequeno Clouseau chamou para si os holofotes, declarando ter “descoberto” um esquema bilionário envolvendo fundos de pensão estatais – e já achando que, com tais “provas”, ele ia derrubar o Lula – e investimentos na Bahia, acho que em resorts, e isso acabou caíndo foi na cabeça do velho Coronel, seu avô e mentor?
A seguir, um deputado do PT do Rio de Janeiro que citou a importância da CPMF na composição dos recursos destinados a obras na Rocinha e Manguinhos ( e, completo eu, em outros lugares que a Barra adoraria ver sob as rodas do Caveirão, mas não tem coragem de dizer. O deputado também desafiou a oposição: a situação estaria mobilizada e pronta para varar a madrugada se preciso fosse, para resolver de uma vez a questão naquele dia.
Que mais? Ah…
O troféu Honestidade vai para um do PR, que coerentemente votou a favor da CPMF, já que, segundo suas palavras votou dessa forma na criação do tributo. O legal, é que não se tratou de coerência no sentido de “votei antes, voto agora”, mas em termos conceituais, o cara entende que a natureza do imposto justifica sua manutenção. E, para corroborar sua idéia, a fala de Vicentinho serve bem. Segundo o ex-sindicalista ( que afirmou ter sido contra no início ) , 40% da arrecadação vai para a Saúde. Não recordo direito, parece que outros 20% vão para o Previdência, e outra parcela semelhante é destianda ao PIS ( se alguem souber, nos diga ). Isso, sobre R$ 40 bilhões.
Teve um cidadão que tentou contrapor uma cifra de 60 bilhões,acho que do Superávit primário ou das reservas, aos R$ 40 bilhões mencionados, insinuando que por existir esse “excesso” ( os tais 60 bi ), o governo pode abrir mão da CPMF.
Mudei de canal e, quando retornei, tava lá o Ciro Gomes e o povaréu prestando a maior atenção, ao contrário do que ocorreu com outros que ali falaram. Quem deseja se candidatar à sucessão de Lula deve ter ficado preocupado com a autoridade que o Ciro demonstrou ao dirigir-se aos colegas e a atenção que estes lhe dispensaram, durante sua explanação. Aliás, favorável à CPMF. Um argumento de Ciro que, se não decidiu a fatura, serviu ao menos para esfregar na cara de certos fariseus seus papéis naquele momento, trazia um exercício de hipótese no qual se fosse imaginado o pensamento dos “investidores”, quando estes soubessem que o Brasil já não possuía o montante bilionário arrecadado pela CPMF, extinta subitamente.
Quando apareceu o Arnaldo Faria de Sá, uma coisa que ele disse, e que tocou uma sineta na minha cabeça, foi sua avaliação de que a CPMF não ajudou em nada o SUS ( ou coisa parecida ). E aí eu consegui enxergar os detalhes de uma coisa que me incomodava, já que eu não acompanho diariamente o noticiário.
Não sei se tratava de impressão, mas me pareceu que foi de repente que o noticiário passou a mostrar a calamidade na Saúde do Brasil. Greve de médico num Estado, posto de saúde sem esparadrapo, aquela coisa que a conhece empiricamente; mas eu passei a achar estranho o repentino – se percebi certo – e insistente destaque dado ao tema.
Ao acompanhar a votação da CPMF, passei a achar que não se tratou de coincidência, já que nada daquilo era novidade. Creio que passaram os dois últimos meses preparando nosso espírito até quando chegasse a fatídica data da votação, talvez achando que a opinião pública, “sabendo” que a CPMF contrariava a razão de existir conforme idealizada, não “ajudava” em nada a saúde pública, pressionaria o Congresso pela extinção do imposto, do qual não se pode escapar, e que causa o maior horror entre certos “cidadãos de bem” que conseguem driblar algumas cobranças de tributos, o que não ocorre com a CPMF.
A CPMF poderá até continuar para sempre. Pelo menos, muitos se manifestaram à favor de sua manutenção, em uma futura reforma tributária ( conjugada, claro com a extinção de outros tributos ) por ser, em teoria, um imposto insonegável.