Valor Econômico
30/07/2007 07:43
SÃO PAULO – Margeando o lago do Ibirapuera, em São Paulo, sob uma temperatura de 11 graus e uma garoa fina e insistente, a pequena massa avançava. Muitos estavam de preto. Alguns traziam flores na mão. Outros, placas de protesto. Apesar de rigoroso, o frio parecia incomodar a poucos: não faltavam casacos bem cortados, botas de couro, cachecóis. Até óculos escuros apareciam, apesar do tempo encoberto. E havia cachorros. Muitos e de todos os tipos: pastor alemão, são bernardo, border collie, cocker, labrador…
O caos aéreo e ( ??! ) o acidente com o avião da TAM, que provocou 199 mortes, motivaram as primeiras manifestações públicas de protesto da classe média paulistana contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu segundo mandato. Mais que as causas diretas do desastre – as investigações da caixa-preta agora apontam as principais suspeitas na direção da falha humana – os manifestantes extravasaram suas insatisfações generalizadas com a administração petista. Fernando Portaro ocupava um lugar nas primeiras fileiras do grupo. ” Estou aqui por indignação ” , dizia o empresário, enfático. Nas próximas três horas, ele não pouparia a voz ao acompanhar palavras de ordem como ” fora, Lula ” e ” relaxe e saia ” , repetidas com entusiasmo pela multidão, que aos poucos se avolumava. A indignação a que Portaro se refere tem um catalisador: o acidente com o avião da TAM que matou 199 pessoas, no pior desastre aéreo da história do país. É esse o motivo imediato que levou milhares de pessoas, ontem, a caminhar cerca de seis quilômetros, do Parque do Ibirapuera ao aeroporto de Congonhas, até a frente do prédio destruído pelo choque com o avião. Como Portaro – que nos últimos 30 dias fez sete viagens de avião -, o público da marcha é o mais atingido pelo caos aéreo. Para muitos, Congonhas passou a ser um nome quase maldito. ” Na empresa, já exigi voar apenas por Guarulhos ” , diz Ricardo Lima, um executivo do mercado financeiro que andava ao lado de sua bicicleta, trajando um uniforme de ciclista com críticas à figura de Lula. Mais à frente, uma senhora, que preferiu não se identificar, confessava nunca ter sentido tanto medo. ” Ontem (sábado), ao voltar de Florianópolis, eu precisei descer em Congonhas. Rezei a viagem inteira. ” Orações também fizeram parte do encerramento da marcha, quando o público rezou em frente ao prédio destruído. Mas em que pese o caos aéreo e a solidariedade às famílias das vítimas, a maioria dos participantes, calculados em 6,5 mil pessoas, demonstrou que esses não foram os únicos motivos para ir às ruas. ” É muito mais que o acidente ” , disse Ana Cavalcante, que cumpriu o percurso ao lado de seu labrador, batizado de Whisky. Também executiva do mercado financeiro, Ana disse achar que o povo brasileiro está sendo desrespeitado e chamava o governo de passivo. Ela não é eleitora de Lula, assim como a maioria dos participantes da marcha. ” Não votei e não votaria no Lula nem que me pedissem para escolher entre ele e o fim do mundo ” , afirmava Portaro. Vestida de preto dos pés à cabeça, Cléia Carvalho ( link para o fotoblog da cidadã ), uma pensionista que trabalhou 32 anos em companhias aéreas, fazia coro: ” Os governantes são os verdadeiros responsáveis ” . O carro de som que conduzia a passeata dava o tom: em cima dele, o cantor Seu Jorge às vezes cantava ” Prá não dizer que não falei de flores ” , o velho hino contra de Geraldo Vandré, usado contra o regime militar nos anos 60. Os motivos da insatisfação variavam bastante: enquanto uns reclamavam dos impostos, outros citavam a falta de segurança, os problemas na educação ou na saúde pública. ” ( O acidente ) foi a gota d’água ” , resumiu a ortodontista Maria Edith Campos Cruz, que perdeu dois ex-pacientes no acidente.
Da mesma forma, não era fácil identificar entre os manifestantes uma pauta de medidas práticas contra os problemas levantados. E, novamente, o carro de som refletia isso. Além das críticas ao governo, houve várias homenagens a corporações como os bombeiros e pedidos de palmas até a Jesus. A passeata conseguiu, no entanto, tirar a classe média de casa – e a classe média se sentiu confortável na rua.
” Estão dizendo que essa é a marcha da burguesia. Que problema há nisso? ” , perguntava uma amiga de Ricardo Lima. Ana Cavalcante disse que sempre achou passeata coisa de ” gente que gosta de fazer bagunça “, mas mudou de idéia. Antonio Tonini, que caminhava ao lado da mulher, Marialva, também não tinha dificuldades em expressar esse sentimento: ” Chegou o momento de todos nós, da classe média, colocarmos o pé nas ruas e reivindicarmos melhorias ” , afirmava. O que alguns manifestantes lamentavam é adesão menor que a de suas previsões pessoais. ” Quantas pessoas a marcha reuniu? Cinco mil? Deveriam ter comparecido cinco milhões ” , dizia Giulia Ferro, criadora do blog EducaForum, destinado a pais com filhos que estudam na escola pública. ” A parada gay, por exemplo, reuniu dois milhões de participantes. ” Para os organizadores do movimento, a marcha cumpriu seus objetivos. A proposta da passeata, encampada por várias entidades, nasceu no CriaBrasil ( Cidadão, Responsável, Informado e Atuante ), um grupo informal que se reúne na casa do empresário Marcio Neubauer. ” O movimento é apartidário, mas altamente político ” , reconhece ele. ” Estamos fazendo política? Estamos, mas de bom senso. ” Neubauer reconhece que há um risco de que eventuais ganhos de imagem com esse tipo de ação sejam encampados, indevidamente, por grupos partidários, mas afirma que até agora isso não ocorreu. No começo da manifestação, ainda no Ibirapuera, um grupo apareceu com bandeiras do PSDB, ( N. do Blog: para não ficar na caruda, já que se mostrou que a maioria não votou em Lula e duvido que tenha votado em Heloísa Helena ) mas enfrentou a reação do resto do público e acabou se retirando. Que tipo de resultado será obtido divide as opiniões. Ana Cavalcante disse achar difícil que a passeata tenha efeitos práticos, mas mesmo assim insistia na necessidade de ir à rua. Muitos, porém, viam na marcha uma chance de multiplicar a ação. ” Espero que esta seja a primeira de uma série de manifestações e que o governo se sensibilize ” , disse Flávia Papa Caltabiano, viúva do empresário Pedro Caltabiano, que morreu no acidente junto com o irmão João Francisco, e deixou três filhos. ” Até agora, ninguém nos deu apoio: nem o governo, nem a TAM. ”
E quem viu a marcha de longe? Ainda no Ibirapuera, Maria Antonia Correa, que vende doces no parque, fazia o percurso contrário ao da multidão. Vinda de Itaquaquecetuba – bem distante do Brooklin e do Jardim América, a vizinhança de alguns manifestantes – ela não sabia da marcha. ” Eu não vejo jornais ” , explicou. Maria Antonia disse acreditar que a responsabilidade do acidente é da companhia aérea, mas não poupou Lula, em quem votou nas últimas eleições. ” Estou arrependida ” .
A questão para ela não é avião. É aposentadoria: ” Muitas coisas mudou (sic)… Não posso mais me aposentar porque pago (a previdência) há 12 anos e agora é preciso pagar 15. ”
(João Luiz Rosa Valor Econômico)
1. Os manifestantes não apareceram munidos da certidão negativa da Receita Federal, como este blog costuma desafiar;
2. Insatisfção genérica, ou seja, factóides, já que fica patente a contradição em certos discursos que se dizem “contra os governantes”. Quais são estes governantes?
3. Estão manifestando seu descontentamento contra “a saúde pública e a educação pública” de má qualidade. Óbvio que eles ignoram – o que eu acho mais provável quando vindo deles, já que sua cidadania é comprada na prateleira do supermercado, e não conquistada – ou omitem que uma das causas que resultaram no Apagão Aéreo Educacional, como o do Estado de São Paulo, foi justamente quando a classe média passou a ingressar nas escolas particulares, permitindo que “os governantes” deixassem o ensino público ao deus-dará; sobre a “saúde pública”, outra generalidade, para não precisar mencionar as pessoas dormindo no chão do Hospital do Tatuapé, a falta de remédios, a superlotação das AMAS, etc, sob responsa da Prefeitura de São Paulo ou do governo tucano há 13 anos no Estado de São Paulo;
4. Acidentes acontecem: o craterão do Metrô sequer foi lembrado;
5. Mas foram corajosos: além do frio, tiveram que agüentar o Seu Jorge;
6. A polícia os tratou bem. Vamos ver se tal tratamento será igual quando os professores marcharem, agora em Agosto;
7. Eles se disseram apartidários, mas políticos. Tal definição não costuma ser considerada quando são trabalhadores que se manifestam. Para eles, toda greve é “política”. Logo “do PT”. E aí não pode;
8. Pedem segurança? Para os moradores de rua da Tabatingüera? Ou para o governo do Estado que, sabe-se-lá-como, conseguiu “dominar” o PCC e nem se ouve mais falar dos caras. Que mágica, né? Que nem quando o Serra disse que a Cidade de São Paulo estava falida e “recuperou-a” em pouquíssimo tempo. Magia negra.
9 . O POVO BRASILEIRO ESTÁ SENDO DESRESPEITADO? As famílias das vítimas do acidente também. Por vocês, seus lixos.
10. E o meu medo: a senhora que se juntou, e que está insatisfeita com a aposentadoria. Senhora, essa corja à qual se juntou, se depensesse deles, a previdência e a seguridade social iriam para mãos privadas. E a senhora trabalharia até os 100 anos. Cuidado com as más companhias.
11. Senhores cansados: vocês se juntarão àqueles que se manifestarem pela reestatização da Vale?
12. Como vocês esperam juntar cinco milhões de pessoas com essa lista ridícula de “exigências” mal costuradas? Cabotinismo tem limite.
Para terminar:
“São Paulo destoa do País e concentra renda – De 2004 para 2005, rendimento dos mais ricos no Estado cresceu 17%”
OESP, Economia B6, 24/ 09/2006
“Muito rico e decadente”
De cada três ricos no Brasil, dois residem em São Paulo, sendo que mais de 40% somente na Capital. Nos últimos vinte anos, o Estado de São Paulo passou de 37,8% ( 191,8 mil famílias ) para 58% ( 674,5 mil famílias ) do total das famílias consideradas ricas no país. ( … )
Giba UM, DCI, 05/01/2007