ENCALHE

setembro 8, 2009

"O dia em que Jango prendeu o cabo Anselmo", por Argemiro Ferreira

O dia em que Jango prendeu o cabo Anselmo
A veemência com que, na entrevista ao Canal Livre da Rede Bandeirantes, o notório cabo Anselmo (José Anselmo dos Santos), de olho numa indenização como “perseguido político”, tentou negar que já era agente infiltrado (e provocador) da direita ANTES do golpe de 1964, não consegue contestar o depoimento enfático do delegado Cecil Borer em 2001 – conforme o texto (talvez definitivo) assinado por Mário Magalhães na Folha de S.Paulo, a 31 de agosto de 2009 (leia AQUI).
Estou me metendo nessa discussão por ser assunto que me apaixona desde que participei, há pouco mais de três décadas, de uma reportagem de investigação da revista Playboy, conduzida pelo jornalista Marco Aurélio Borba, meu amigo (e editor nacional de Opinião no período em que dirigi sua redação, 1975-76), que morreria poucos anos depois, num acidente em Brasília. Ouvi depoimentos para a revista no Rio, enquanto mais jornalistas faziam o mesmo em outros estados (não tenho aquele número da revista, mas seria bom se alguém pudesse informar ao menos o mês e o ano, entre 1977 e 1979, pois ainda acho que existem ali dados relevantes).
Na época entrevistei vários militantes de partidos clandestinos e ex-presos políticos que tiveram contato com Anselmo (alguns insistem ainda hoje no detalhe de que seria apenas marinheiro de 1ª classe e não cabo). Eles relataram fatos e dúvidas. Ouvi ainda pessoas que tinham servido no coração do governo João Goulart. A começar por meu amigo pessoal Raul Ryff, ex-colega de trabalho no Departamento de Pesquisa do Jornal do Brasil, que tinha sido secretário de imprensa de Jango.
Com a ajuda de Ryff, cheguei a outros nomes de pessoas que tinham servido no Palácio durante o governo Jango. Eduardo Chuahy, amigo dele, capitão do Exército até ser cassado em 1964, servira como ajudante de ordens no gabinete militar da presidência, então chefiado pelo general Assis Brasil, reconstituiu com riqueza de detalhes o clima existente no setor militar do Palácio e as muitas trapalhadas de Assis Brasil, que garantia existir o célebre – e ilusório – “dispositivo militar” capaz de impedir um golpe.
O aviso de Corseuil: “ele é espião”
Eu estava particularmente interessado em falar com o comandante Ivo Acioly Corseuil, o que foi possível na época graças ao aval de Ryff e Chuahy, que o conheciam bem. De fato, Corseuil contou muita coisa, aprofundando relatos já conhecidos. Mas o núcleo central do depoimento dele a mim foi a ratificação do que já dissera a Moniz Bandeira e estava no livro (publicado em 1977) O Governo João Goulart – as lutas sociais no Brasil, 1961-1964 (capa na parte inferior deste texto), sobre o qual escrevi minuciosa resenha para IstoÉ, infelizmente publicada na época com alguns cortes.
Ele explicou que no governo de Jango o chefe da Casa Militar (Assis Brasil) era também secretário do Conselho de Segurança Nacional. Segundo a entrevista que Corseuil me deu, em 1962 ele era chefe de gabinete do CSN e em 1963 passou a sub-chefe da Casa Militar. Entendi então que era de 1962, no tempo em que estava no CSN, o informe (ele não lembrava a data precisa) avisando que Anselmo era agente infiltrado, provocador e trabalhava para a CIA.
Corseuil me disse que tinha informações de várias fontes, segundo as quais havia gente infiltrada entre os marinheiros. Até pessoas vestidas de marinheiros que, na verdade, não eram marinheiros. Uma das fontes que lhe passaram tais informações era “um rapaz da turma de Carlos Lacerda”, então governador da Guanabara. Julgou confiável o dado porque o rapaz, que conhecia há algum tempo, ex-funcionário do ministério da Marinha, trabalhava para Lacerda junto aos marinheiros (lacerdista, tinha saído do emprego para trabalhar no Palácio Guanabara).
A informação de que Anselmo (que aparece acima, à direita, numa foto de 1964, e aqui ao lado, à esquerda, em foto recente, de óculos escuros e sob o logotipo da Globo) era agente da CIA não viera desse agente (identificado apenas como “Tanahy”) e sim de um correspondente de jornal norte-americano – “pessoa com muitos contatos, que falava com muita gente”. Ele sempre telefonava para dar informações. Por exemplo, tinha passado imediatamente a informação sobre uma reunião de Lacerda com correspondentes norte-americanos para conclamar os EUA a derrubar Jango.
Para a CIA, “útil por liderar”
Para Corseuil, Anselmo não era o único agente infiltrado, mas pode ter sido escolhido pela CIA onde era visto como capaz de liderar. Perguntado por que nada foi feito pelo governo de Jango, apesar das muitas informações e avisos feitos, respondeu que as providências não cabiam ao CSN. A Marinha é que teria de se aprofundar no caso, por estar na sua área. A tarefa teria de ser especificamente do Cenimar, que era sempre avisado. Corseuil enfatizou que também tomara a iniciativa de avisar pessoalmente o Cenimar. “Aquela gente do Cenimar era toda do Lacerda. E o Lacerda fomentava a rebelião”, disse-me ele.
Corseuil também explicou que nenhuma providência foi tomada desde 1962, apesar de tantos avisos e informes, em parte por causa do próprio temperamento de Jango, que “tinha um coração grande demais”. Lembrou o episódio da revolta dos marinheiros, no Sindicato dos Metalúrgicos, quando o presidente foi especificamente alertado para o papel de Anselmo e nada fez – embora outras pessoas do governo também tenham alertado na época para a necessidade de ação vigorosa para deter a conspiração.
Mas pelo menos dois oficiais que serviam no Palácio recordam ainda hoje um episódio no qual Jango, pessoalmente, agiu com firmeza, mostrando estar consciente do papel de Anselmo como provocador e agente infiltrado. Chuahy, então capitão, pediu que Ryff alertasse Jango e mostrasse ao presidente como a mídia, desde que começara o problema dos sargentos, superdimensionava a questão (em busca de reações contra a indisciplina), apostando ainda numa ação potencial de Anselmo que agravasse o quadro e empurrasse até os moderados das Forças Armadas para o lado do complô golpista em marcha.
O episódio citado foi o da prisão de Anselmo em março de 1964, quando tentava penetrar – e falar – na reunião do Automóvel Clube. Tem sido praticamente ignorado até hoje, pois nunca interessou à mídia, cúmplice do processo golpista desde o início. Quem me reviveu o episódio agora, com detalhes preciosos que expõem o repúdio de Jango à indisiciplina que enfraquecia o governo na área militar e encantava os golpistas e a mídia, foi o coronel Juarez Mota – à época capitão e ajudante de ordens (além de amigo) do presidente, hoje aposentado, com 75 anos, e vivendo em Porto Alegre.
“Preso por ordem do presidente”
Estava em andamento, claro, a operação destinada a desestabilizar o governo, como parte do esforço para superdimensionar os movimentos dos sargentos e dos marinheiros (ainda que muitos, obviamente, tenham deles participado por desinformação ou ingenuidade). Conforme o relato do coronel Juarez, o presidente não sabia que Anselmo planejava falar no Automóvel Clube, mas tinha consciência de que ele era agente infiltrado na esquerda.
“Quem o viu chegar foi o coronel Carlos Vilela, da Casa Militar”, conta o militar aposentado. “Como eu estava mais à frente, acompanhando o presidente, ele me chamou: ‘Está chegando o cabo Anselmo, o que faço?’ O próprio Jango antecipou-se e deu a ordem: ‘Prende!’ Quando Anselmo começava a entrar, voltei com Vilela, que o segurou pelo ombro, enquanto eu punha a mão no pescoço. Os dois desviamos o cabo à força para outra sala, onde havia um sofá de dois lugares. Vilela mandou que ele sentasse e comunicou: ‘Por ordem do presidente, o senhor está preso’. Em seguida Vilela foi chamar o coronel (Domingos) Ventura, comandante da Polícia do Exército. Ventura veio com a escolta e levou Anselmo preso para o quartel da PE.”
Para Juarez, aquela ordem firme de Jango deixou claro que não tinha dúvida sobre quem era Anselmo. Podemos concluir que a avaliação coincidia com a descrição de Cecil Borer, delegado e torturador que o usava no DOPS como informante (conforme contou à Folha em 2001) juntamente com “a Marinha e os americanos”. O relato de Juarez é reforçado por Chuahy, que à época já era veemente também na crítica aos movimentos de sargentos e marinheiros, devido á manipulação oculta da oposição direitista com apoio da mídia. Vilela morreu no ano passado (2008). Tinha sido ajudante de ordens do general Zenóbio da Costa na II Guerra Mundial.
Juarez Mota continuou no Exército (aposentou-se como tenente-coronel) e nunca deixou de ser amigo de Jango, que conhecia praticamente desde criança. Natural de São Borja, também era parente do presidente Getúlio Vargas: seu avô era primo-irmão de Getúlio e a bisavó Zulmira Dorneles Mota era irmã de dona Cândida Dorneles Mota, mãe do presidente que se matou em 1954.
No papel de ajudante de ordens do presidente, o capitão Juarez aparece na capa do livro de Moniz Bandeira, do lado direito da foto. É o militar uniformizado, em destaque logo atrás de Jango. Ele próprio me confirmou essa identificação. E creio que é também o que aparece na primeira foto, na abertura deste post, entre o presidente e a primeira dama Maria Tereza Goulart.

agosto 13, 2009

"Reaparecimento do Cabo Anselmo após 45 anos", por Jasson de Oliveira Andrade

O Cabo Anselmo, 67 anos, reapareceu depois de 45 anos vivendo clandestino. O motivo desse aparecimento foi para tirar impressões digitais em São Paulo para recuperar documentos. O que foi feito em 30/7/2009. O procedimento, segundo o jornalista Lucas Ferraz, em reportagem para a Folha (31/7), é para instruir o seu pedido de anistia, visando a ser indenizado como “vítima” do golpe de 64. No artigo “O dito cabo Anselmo” (Folha, 4/8), Janio de Freitas escreveu: “Quem é esse Anselmo, que história verdadeira tem vivido há meio século e por que se decidiu a fazê-la são ainda segredos. Para os quais Anselmo pretende a reparação criada, entre outras, PARA AS SUAS VÍTIMAS” (Destaque meu). Aí é que entra a “misteriosa” vida de Cabo Anselmo, que vamos ver adiante.
Cabo Anselmo vivia escondido porque estava supostamente jurado de morte. O motivo dessa ameaça resultou de sua traição aos ex-companheiros, dedurando-os ao regime militar, precisamente ao delegado Fleury. Devido a essas delações, muita gente foi presa, torturada e, segundo ele mesmo declarou a uma revista, resultou na morte de “cem, duzentos” militantes de organizações de extrema esquerda, inclusive sua companheira, a jovem paraguaia Soledad Viedma, grávida dele. Temeroso de vingança, ele se escondeu por 45 anos, só reaparecendo agora!
Antes dessa traição, Cabo Anselmo, em 1964, era dirigente de uma entidade que reunia marinheiros. Ele comandou uma revolta considerada por vários analistas como estopim do Golpe militar daquele ano. Maria da Conceição Tavares, em “Fatos e mitos de 1964” (Folha, 28/3/2004), endossa essa opinião: “A sublevação dos marinheiros, quebrando a hierarquia militar, foi a gota d´água e o sinal para antecipar o golpe, deslocando a lealdade ao presidente [João Goulart, Jango] de quase todos os comandantes do Exército”. Após o Golpe, Cabo Anselmo foi preso. Aí aconteceram alguns fatos estranhos, relatados por mim no artigo “Cabo Anselmo e o Golpe de 64” e que consta de meu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA, á página 222. Neste texto, mostrei que ele traiu seus companheiros, o que ficava comprovada sua traição após o Golpe. No entanto, algumas declarações do Cabo Anselmo são fortes indícios que ele traiu antes de 31 de março de 1964. Na entrevista dele ao jornalista Octávio Ribeiro, já falecido, na revista Istoé (28/3/1984), sob o título “Confissão do cabo”, Anselmo declarou sobre a sua fuga da prisão: “A chave da cela ficava na minha mão. A fuga veio com o pessoal da Polop (Organização Política Operária, grupo de esquerda que reunia trotskistas e militares)”. Adiante confessou: “Disse ao guarda de plantão que ia encontrar uma mulher e saí pela porta da frente. O pessoal da Polop me levou para São Paulo e de lá, de carro, fui para o Uruguai” (pág.27). Quem conhece a repressão daquela época (prisão, tortura e, muitas vezes, morte), não pode acreditar que o cabo Anselmo tivesse tanta facilidade (chave da cela na mão dele, bem como o guarda permitiu que ele saísse pela porta da frente para se encontrar com uma mulher!). Principalmente, como disse o jornalista Janio de Freitas no citado artigo: “Não, porém, para o maior incitador da rebelião [dos marinheiros antes do Golpe de 64] e das ameaças à oficialidade (…)”. Isto NUNCA iria acontecer, a não ser que ele era um auxiliar dos golpistas!
Em suma, pode não existir uma prova contundente da traição dele antes do Golpe, mas essas declarações, repito, são fortes evidências de sua colaboração já naquele período. Portanto, Cabo Anselmo não tem direito à indenização, que é uma reparação criada para atender, como afirmou Janio de Freitas, entre outras, as suas vítimas.
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Agosto de 2009

"Reaparecimento do Cabo Anselmo após 45 anos", por Jasson de Oliveira Andrade

O Cabo Anselmo, 67 anos, reapareceu depois de 45 anos vivendo clandestino. O motivo desse aparecimento foi para tirar impressões digitais em São Paulo para recuperar documentos. O que foi feito em 30/7/2009. O procedimento, segundo o jornalista Lucas Ferraz, em reportagem para a Folha (31/7), é para instruir o seu pedido de anistia, visando a ser indenizado como “vítima” do golpe de 64. No artigo “O dito cabo Anselmo” (Folha, 4/8), Janio de Freitas escreveu: “Quem é esse Anselmo, que história verdadeira tem vivido há meio século e por que se decidiu a fazê-la são ainda segredos. Para os quais Anselmo pretende a reparação criada, entre outras, PARA AS SUAS VÍTIMAS” (Destaque meu). Aí é que entra a “misteriosa” vida de Cabo Anselmo, que vamos ver adiante.
Cabo Anselmo vivia escondido porque estava supostamente jurado de morte. O motivo dessa ameaça resultou de sua traição aos ex-companheiros, dedurando-os ao regime militar, precisamente ao delegado Fleury. Devido a essas delações, muita gente foi presa, torturada e, segundo ele mesmo declarou a uma revista, resultou na morte de “cem, duzentos” militantes de organizações de extrema esquerda, inclusive sua companheira, a jovem paraguaia Soledad Viedma, grávida dele. Temeroso de vingança, ele se escondeu por 45 anos, só reaparecendo agora!
Antes dessa traição, Cabo Anselmo, em 1964, era dirigente de uma entidade que reunia marinheiros. Ele comandou uma revolta considerada por vários analistas como estopim do Golpe militar daquele ano. Maria da Conceição Tavares, em “Fatos e mitos de 1964” (Folha, 28/3/2004), endossa essa opinião: “A sublevação dos marinheiros, quebrando a hierarquia militar, foi a gota d´água e o sinal para antecipar o golpe, deslocando a lealdade ao presidente [João Goulart, Jango] de quase todos os comandantes do Exército”. Após o Golpe, Cabo Anselmo foi preso. Aí aconteceram alguns fatos estranhos, relatados por mim no artigo “Cabo Anselmo e o Golpe de 64” e que consta de meu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA, á página 222. Neste texto, mostrei que ele traiu seus companheiros, o que ficava comprovada sua traição após o Golpe. No entanto, algumas declarações do Cabo Anselmo são fortes indícios que ele traiu antes de 31 de março de 1964. Na entrevista dele ao jornalista Octávio Ribeiro, já falecido, na revista Istoé (28/3/1984), sob o título “Confissão do cabo”, Anselmo declarou sobre a sua fuga da prisão: “A chave da cela ficava na minha mão. A fuga veio com o pessoal da Polop (Organização Política Operária, grupo de esquerda que reunia trotskistas e militares)”. Adiante confessou: “Disse ao guarda de plantão que ia encontrar uma mulher e saí pela porta da frente. O pessoal da Polop me levou para São Paulo e de lá, de carro, fui para o Uruguai” (pág.27). Quem conhece a repressão daquela época (prisão, tortura e, muitas vezes, morte), não pode acreditar que o cabo Anselmo tivesse tanta facilidade (chave da cela na mão dele, bem como o guarda permitiu que ele saísse pela porta da frente para se encontrar com uma mulher!). Principalmente, como disse o jornalista Janio de Freitas no citado artigo: “Não, porém, para o maior incitador da rebelião [dos marinheiros antes do Golpe de 64] e das ameaças à oficialidade (…)”. Isto NUNCA iria acontecer, a não ser que ele era um auxiliar dos golpistas!
Em suma, pode não existir uma prova contundente da traição dele antes do Golpe, mas essas declarações, repito, são fortes evidências de sua colaboração já naquele período. Portanto, Cabo Anselmo não tem direito à indenização, que é uma reparação criada para atender, como afirmou Janio de Freitas, entre outras, as suas vítimas.
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Agosto de 2009

agosto 10, 2008

Nesse eu não voto: Cabo Anselmo quer disputar eleição!!! Só falta o Buzaid!!

Mainardi, Azevedo e companhia já têm em quem votar na eleição de 2010
ENTRELINHAS, 08.08.08
Acabou o drama da ultra-direita brasileira, órfã de candidato para disputar a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nada de tucanos bunda-moles como Serra, Alckmin ou Aécio ou de democratas com o rabo preso e fala fina na hora que o jogo engrossa. Matéria do Jornal do Brasil, reproduzida abaixo, apresenta a melhor alternativa para Diogo Mainardi, Reinaldão Azevedo, o tal Coronel do Coturno Noturno e sua patroa Nariz Gelado, mais toda a turma do Mídia Sem Máscara: Cabo Anselmo vem aí, para salvar o Brasil do comunismo. Afinal, lugar de esquerdista é no pau de arara e o único erro de Brilhante Ustra foi ter deixado parte dessa gentinha escapar com vida (não, não é brincadeira nem ironia, é o que dizem os “comentaristas” dos blogs direitosos).A seguir, a íntegra da matéria, publicada no dia 7/8.Maior traidor da luta armada quer sair da clandestinidade e suceder LulaVasconcelo QuadrosBRASÍLIAParece brincadeira, mas era só o que faltava para tornar ainda mais exótica a política brasileira: Anselmo José dos Santos, o Cabo Anselmo, o ex-marinheiro que traiu a esquerda armada na época da ditadura militar, quer ser candidato à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2010 com uma bandeira de extrema direita: “Salvei o Brasil do comunismo em 64 e quero salvá-lo de novo” ( Leiam, abaixo, um artigo de nosso Jasson a respeito do Cabo Anselmo ).
O slogan está sendo divulgado pelo delegado da Polícia Civil paulista Carlos Alberto Augusto, conhecido no período da repressão por Carteira Preta, policial que há 39 anos desempenha sozinho os papéis de protetor, guardião e porta-voz do Cabo Anselmo.
O suposto lançamento da candidatura ocorre num momento em que o país assiste a um novo confronto entre direita e esquerda: o ministro da Justiça, Tarso Genro, pede o julgamento dos torturadores, passando por cima da Lei de Anistia, e o Clube Militar, em represália, divulga hoje no Rio documento com a ficha de homens e mulheres que foram classificados como terroristas à época, entre eles o próprio Genro, e que integram o governo Lula.Traição mortalO delegado garante que a candidatura não é apenas mais uma idéia excêntrica dos órfãos da ditadura militar.– Hoje, cinco partidos de direita querem o Anselmo como candidato. E ele será – disse. – Está faltando a documentação que devolva a ele a cidadania e os direitos políticos.Traidor que levou à morte dezenas de ex-companheiros das guerrilhas urbana e rural, Cabo Anselmo é um triste personagem que vaga clandestinamente pelo país há mais de 40 anos. No ato de traição mais marcante, entregou à morte seis ex-companheiros do grupo guerrilheiro Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), entre os quais, sua ex-mulher, a paraguaia Soledad Barret Viedma, grávida de cinco meses.As execuções, ocorridas em janeiro de 1973, em Abreu e Lima, município da Região Metropolitana de Recife, ficaram conhecidas como o Massacre da Chácara São Bento e deram a Anselmo José dos Santos o apelido de Anjo da Morte. Embora já tenha afirmado que não sabia da gravidez da ex-mulher, o fato de Soledad ter sido encontrada morta ao lado do feto é o maior trauma que carrega na sua vida errante.Poucas pessoas conhecem hoje a fisionomia do marinheiro que atiçou a ira da cúpula militar com o radical discurso de resistência no Automóvel Clube do Brasil, no Rio, em 1964, e que o aproximaria do ex-presidente João Goulart e do ex-governador Leonel Brizola. Ninguém tem dúvidas, no entanto, que Cabo Anselmo ainda é um fantasma capaz de assombrar a direita e a esquerda: conviveu na luta armada com personagens que integram atualmente a cúpula do governo, mas também conhece segredos de políticos de direita que estiveram muito próximos dele nos conturbados tempos da repressão política.– O Anselmo também foi traído – afirma Carteira Preta.
A seguir, o artigo de Jasson que mencionei acima:
Cabo Anselmo quer receber indenização por ter sido, segundo ele, perseguido pelo Golpe de 64. Por este motivo, esse meu artigo, escrito em março de 2004, é bem atual. JASSON
Cabo Anselmo e o Golpe 64
Jasson de Oliveira Andrade
Em “Julgar pressupõe equilíbrio” (Folha, 19/3/2004), o coronel da reserva Jarbas Passarinho, ex-ministro da Educação (Médici) e da Previdência (Figueiredo), ao comentar o golpe de 64, ressaltou: “(…) as Forças Armadas só reagiram quando feridas no âmago da hierarquia e da disciplina, PILARES DE SUA EXISTÊNCIA (destaque meu).” O jornalista Sérgio Dávila, na reportagem “O dia em que a direita foi às ruas” (Folha, 19/3), sobre a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, constatou: “O objetivo inicial da marcha do dia 19 [março de 1964] era pressionar João Goulart. Mas não seria preciso. O presidente se sabotaria sozinho, ao visitar no dia 30 (março de 64), no Automóvel Clube do Rio de Janeiro, marinheiros rebelados há cinco dias. (…) Era a desculpa que faltava para o golpe” Leôncio Basbaum, na “História Sincera da República”, volume 4, afirma: “A sublevação dos marinheiros e fuzileiros, nos últimos dias de março [de 64], foi como um fósforo atirado a um tambor de gasolina”. Os três destacam a importância fundamental que os sargentos tiveram no Golpe de 64. Sem essa indisciplina, não existiria a Revolução: os militares indecisos, a maioria, depois dessa circunstância, aderiram ao Golpe. Maria da Conceição Tavares, em “Fatos e mitos de 1964″ (Folha, 28/3), tem a mesma opinião: “A sublevação dos marinheiros, quebrando a hierarquia militar, foi a gota d’água e o sinal para antecipar o golpe, deslocando a lealdade ao presidente de quase todos os comandantes de Exército”. O que o cabo Anselmo, líder do movimento, tem com essa história? Muito!
Antes de 64, Anselmo, cabo da Marinha, era um agente provocador a serviço de Lacerda e da CIA? Parece que sim, mas existem dúvidas. Depois de 64, ficou comprovado que ele traiu seus companheiros, passando a ser remunerado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, o todo poderoso chefe do Dops, que o usou para dedurar os seus “amigos”. Na entrevista concedida ao jornalista Percival de Souza, “Cabo Anselmo, o rosto da traição” (Época, 15/3/1999), ele confessou que recebia salário no Dops (página 104). Em outra entrevista, esta dada ao jornalista Octávio Ribeiro, “Confissão do cabo” (Istoé, 28/3/1984), consta esse relato: “Pela primeira vez, Anselmo traz a público sua desconcertante versão de que, ao contrário do que dizem ex-companheiros de luta armada, ele jamais foi preso: entregou-se voluntariamente à polícia. A colaboração com o delegado Sérgio Fleury, do DOPS de São Paulo, teria resultado, segundo sua própria avaliação, na morte de “cem, duzentos” militantes de organizações de extrema esquerda. Entre eles estava sua companheira, a jovem paraguaia Soledad Viedma [segundo consta, grávida]” (pág. 3l).Como vimos, a traição de Cabo Anselmo depois do golpe de 64 é certa. A dúvida é se traiu antes de 3l de março, quando comandava as manifestações de sargentos, indisciplina fundamental para que a revolução acontecesse. Marcos Aurélio Borba, no livro “Cabo Anselmo, a luta armada ferida por dentro”, relata uma conversa que o comandante Ivo Acioly Corseuil, então subchefe da Casa Militar da Presidência da República (João Goulart) teve com um jornalista norte-americano, o qual lhe contou sobre a existência de agentes da CIA, por esse motivo “tornava mais fácil entender o motivo do excessivo radicalismo entre eles (sargentos)”. Entre os agentes, o jornalista cita Cabo Anselmo. Se verdadeiro ou não, é discutível. No entanto, uma declaração dele mostra que é possível a traição antes de 64. Na citada entrevista a Octávio Ribeiro, Cabo Anselmo diz, sobre sua fuga da prisão:”A chave da cela ficava na minha mão. (…) A fuga veio com o pessoal da Polop (Organizão Política Operária, grupo de esquerda que reunia trotskistas e militares). Disse ao guarda de plantão que ia encontrar uma mulher e saí pela porta da frente. O pessoal da Polop me levou para São Paulo e de lá, de carro, fui para o Uruguai” (pág.27). Quem conhece a repressão militar daquela época, não pode acreditar que Anselmo tivesse tanta facilidade (chave da cela na mão dele). A não ser que o comandante Corseuil tenha razão na sua denúncia (agente da CIA, antes de 64). Se não é verdade, é bem possível!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista de Mogi Guaçu (março de 2004)
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julho 1, 2007

Cabo Anselmo e o Golpe de 64

Filed under: Cabo Anselmo, esquerda X direita, Golpe de 64 — Humberto @ 3:09 am
Cabo Anselmo quer receber indenização por ter sido, segundo ele, perseguido pelo Golpe de 64. Por este motivo, esse meu artigo, escrito em março de 2004, é bem atual.
JASSON
Cabo Anselmo e o Golpe de 64
Jasson de Oliveira Andrade
Em “Julgar pressupõe equilíbrio” ( Folha, 19/3/2004 ), o coronel da reserva Jarbas Passarinho, ex-ministro da Educação ( Médici ) e da Previdência ( Figueiredo ), ao comentar o golpe de 64, ressaltou: “(…) as Forças Armadas só reagiram quando feridas no âmago da hierarquia e da disciplina, PILARES DE SUA EXISTÊNCIA ( destaque meu ).” O jornalista Sérgio Dávila, na reportagem “O dia em que a direita foi às ruas” ( Folha, 19/3 ), sobre a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, constatou: “O objetivo inicial da marcha do dia 19 [ março de 1964 ] era pressionar João Goulart. Mas não seria preciso. O presidente se sabotaria sozinho, ao visitar no dia 30 ( março de 64 ), no Automóvel Clube do Rio de Janeiro, marinheiros rebelados há cinco dias. (…) Era a desculpa que faltava para o golpe” Leôncio Basbaum, na “História Sincera da República”, volume 4, afirma: “A sublevação dos marinheiros e fuzileiros, nos últimos dias de março [ de 64 ], foi como um fósforo atirado a um tambor de gasolina”. Os três destacam a importância fundamental que os sargentos tiveram no Golpe de 64. Sem essa indisciplina, não existiria a Revolução: os militares indecisos, a maioria, depois dessa circunstância, aderiram ao Golpe. Maria da Conceição Tavares, em “Fatos e mitos de 1964” ( Folha, 28/3 ), tem a mesma opinião: “A sublevação dos marinheiros, quebrando a hierarquia militar, foi a gota d’água e o sinal para antecipar o golpe, deslocando a lealdade ao presidente de quase todos os comandantes de Exército”. O que o cabo Anselmo, líder do movimento, tem com essa história? Muito!
Antes de 64, Anselmo, cabo da Marinha, era um agente provocador a serviço de Lacerda e da CIA? Parece que sim, mas existem dúvidas. Depois de 64, ficou comprovado que ele traiu seus companheiros, passando a ser remunerado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, o todo poderoso chefe do Dops, que o usou para dedurar os seus “amigos”. Na entrevista concedida ao jornalista Percival de Souza, “Cabo Anselmo, o rosto da traição” ( Época, 15/3/l999 ), ele confessou que recebia salário no Dops ( página 104 ). Em outra entrevista, esta dada ao jornalista Octávio Ribeiro, “Confissão do cabo” ( Istoé, 28/3/1984 ), consta esse relato: “Pela primeira vez, Anselmo traz a público sua desconcertante versão de que, ao contrário do que dizem ex-companheiros de luta armada, ele jamais foi preso: entregou-se voluntariamente à polícia. A colaboração com o delegado Sérgio Fleury, do DOPS de São Paulo, teria resultado, segundo sua própria avaliação, na morte de “cem, duzentos” militantes de organizações de extrema esquerda. Entre eles estava sua companheira, a jovem paraguaia Soledad Viedma [ segundo consta, grávida ]” (pág. 3l). Como vimos, a traição de Cabo Anselmo depois do golpe de 64 é certa. A dúvida é se traiu antes de 3l de março, quando comandava as manifestações de sargentos, indisciplina fundamental para que a revolução acontecesse. Marcos Aurélio Borba, no livro “Cabo Anselmo, a luta armada ferida por dentro”, relata uma conversa que o comandante Ivo Acioly Corseuil, então subchefe da Casa Militar da Presidência da República ( João Goulart ) teve com um jornalista norte-americano, o qual lhe contou sobre a existência de agentes da CIA, por esse motivo “tornava mais fácil entender o motivo do excessivo radicalismo entre eles ( sargentos )”. Entre os agentes, o jornalista cita Cabo Anselmo. Se verdadeiro ou não, é discutível. No entanto, uma declaração dele mostra que é possível a traição antes de 64. Na citada entrevista a Octávio Ribeiro, Cabo Anselmo diz, sobre sua fuga da prisão:“A chave da cela ficava na minha mão. (…) A fuga veio com o pessoal da Polop ( Organizão Política Operária, grupo de esquerda que reunia trotskistas e militares ). Disse ao guarda de plantão que ia encontrar uma mulher e saí pela porta da frente. O pessoal da Polop me levou para São Paulo e de lá, de carro, fui para o Uruguai” ( pág.27 ). Quem conhece a repressão militar daquela época, não pode acreditar que Anselmo tivesse tanta facilidade ( chave da cela na mão dele ). A não ser que o comandante Corseuil tenha razão na sua denúncia ( agente da CIA, antes de 64 ). Se não é verdade, é bem possível!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista de Mogi Guaçu
março de 2004

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