ENCALHE

agosto 21, 2009

HORA DO POVO: "ALI KAMEL COMEÇOU A TESTAR HIPÓTESES EM FILME PORNÔ"

Carreira de Kamel na pornografia teve início no cinema antes de ir parar na Veja e na Globo
Vídeo colocado no youtube registra o início da carreira do diretor responsável pela Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, quando foi uma das estrelas do filme pornô “Solar das Taras Proibidas”, de 1984. Uma tia ninfomaníaca e suas sobrinhas estão de luto por causa da morte de um cachorro, quando Kamel (foto) e seu amigo pilantra fingem que são primos e vão consolá-las. Foi um dos pontos altos de sua trajetória profissional, que inclui uma passagem pela Veja antes de acabar na Globo.

No canto inferior, à nossa esquerda, a foto do comedor, em momento de masturbação sociológica…

Kamel começou testar hipóteses em filme pornô
O diretor responsável pela Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, foi um dos astros do filme pornô “Solar das Taras Proibidas”, produzido em 1984, tendo como diretor Roberto Mauro. Foi onde aprendeu os sólidos fundamentos que colocaria em prática, anos depois, nos telejornais da emissora.
Segundo trecho do filme disponível na internet, a trama é assim:
“Uma tia ninfomaníaca e suas sobrinhas estão de luto por causa da morte de um cachorro. Diretor de famosa rede de TV e seu amigo pilantra fingem que são primos e vão consolá-las”.
“Entre os pontos altos da película, a magistral interpretação do galã no take ‘isso, gostosa!’ e o momento em que ele, no afã de arrastar a moça pro matinho, discorre sobre a moralidade – “Sabe o que é imoral? Imoral é a fome, são nossos irmãos do nordeste morrendo de fome. Imoral são tantos cada vez mais pobres e uns poucos cada vez mais ricos. Fazer amor não é imoral. É o pouco a que temos direito”, diz o blog Cloaca News. O blog informa que Roberto Mauro é o mesmo diretor de “Eu compro essa virgem” (1979) e “As cangaceiras eróticas” (1974). “Após horas de minuciosa análise e utilizando equipamentos de última geração, uma junta de especialistas convocada por este Cloaca News chegou à seguinte conclusão: o pornoastro identificado como Ali Kamel nos créditos da obra cinematográfica ‘Solar das Taras Proibidas’ é, verdadeiramente, esta pessoa”, destaca o blog.

NO CLOACA NEWS, MAIS SOBRE A CARREIRA CINEMATOGRÁFICA DE ALI KAMEL

http://cloacanews.blogspot.com/2009/08/pericia-atesta-ali-kamel-e-ali-kamel.html

http://cloacanews.blogspot.com/2009/08/as-taras-proibidas-de-ali-kamel.html

Diante destas revelações, agora fica fácil entender o “Não somos racistas”. Acho que o diretor do filme perguntou se o Kamel tinha algum problema em contracenar com negra, japonesa, loira, mulata, ruiva, argentina. “MANDA QUALQUER UMA AÍ!”, deve ter sido a resposta.

março 7, 2008

Para Nassif, ’Veja’ está num processo de deterioração moral

NOVAE
Por trás da escalada “neocon” da revista Veja, há uma trama que envolve dossiês falsos — “os planos Cohen da vida” —, lobbies com políticos e empresários, “assassinatos de reputações”, manipulações e outros desprezos à lei. Em entrevista ao Vermelho, reproduzida na NovaE, Luis Nassif revela como e por que resolveu desmascarar a farsa, através do “dossiê Veja”, publicado em capítulos no blog Luis Nassif Online.
Por André Cintra e Priscila Lobregatte, do www.vermelho.org.br
Luis Nassif: dossiê anti-Veja Diz a série: o conservadorismo da maior revista semanal do Brasil ganhou ainda mais ênfase com a ascensão de Eurípedes Alcântara e Mario Sabino aos cargos, respectivamente, de diretor de Redação e redator-chefe. Com eles no comando, também tiveram projeção o editor especial Lauro Jardim, da seção “Radar”, e o colunista Diogo Mainardi. Estava formado o “quarteto de Veja”, responsável — segundo Nassif — pelo “maior fenômeno de antijornalismo dos últimos anos”.
O dossiê conta os bastidores e as evidências desse processo. Mostra as relações promíscuas entre Eurípides e o banqueiro Daniel Dantas, o clima bélico injetado por Veja contra jornalistas de outros veículos, a campanha ostensiva e golpista contra o governo do presidente Lula, entre outros descalabros. A repercussão é estrondosa. Da página de Nassif na internet, a série já é reproduzida em mais de 800 blogs.
Para Nassif, enfrentar a Veja é lutar em defesa do jornalismo. Mas o dossiê só tem êxito, segundo ele, porque a internet começou a democratizar a comunicação no Brasil, permitindo denúncias de abusos, além de contrapontos fora da grande mídia. E Nassif acredita que uma outra entrevista sua ao Vermelho, concedida em 2006, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, “foi a primeira que rompeu com essa cortina de silêncio”.
Você já escreveu um livro (O Jornalismo dos Anos 90) para tentar explicar mudanças paradigmáticas da imprensa na última década. Após as eleições 2006, soltou o artigo “A longa noite de São Bartolomeu”, que é quase um apêndice do livro, com um resumo e atualizações a respeito dessas transformações. O que houve nesse período? Como e por que a grande mídia mudou?
O livro terminava relativamente otimista. Eu achava que, com o avanço do discernimento por parte dos leitores, a imprensa seria mais seletiva e mais rigorosa na apuração de notícias. Mas nos anos 90 e nesta década entre 2000 e 2010, ao menos até agora, ocorreu uma confluência de fatores que piorou muito o ambiente midiático.
Tivemos, de um lado, a crise das empresas jornalísticas, que cometeram o que chamamos de ato de fraqueza como forma de não só saírem da crise como também de enfrentarem um outro cenário adverso que viria pela frente.
Cederam à mídia internacional, com grandes grupos entrando e um novo padrão sendo introduzido — e nossos homens da mídia eram sempre acostumados com um ambiente fechado, sem uma visão estratégica para sobreviver num ambiente de competição.
Isso levou a um pacto de autodefesa entre esses grupos, porque eles precisariam fazer parcerias também com grandes investidores. É aí que aparece a figura dos banqueiros dos anos 90, alguns bem barra-pesada, que passam a ser uma das bóias de salvação da mídia. E aí você vende a alma.
Quando você vende a alma e tem essa falta de critério jornalístico em algumas publicações, você dá tanto poder para seus diretores que eles saem do próprio controle da organização.
Nessa série da Veja que estou fazendo, há muitos episódios que não têm Abril no meio. A Abril perdeu o controle. A comparação que faria é a de uma empresa que usa o caixa 2 e sistemas não-formais para poder conseguir negócios — e que perde o controle de quem está fazendo as coisas. Na Veja, você tem matérias que são muito estranhas. Você olha e diz: que justificativa tem para isso? É a Abril que está pedindo isso? São os diretores?
Você está nos dizendo que a “hierarquia militar” da Abril foi violada? Ou o Roberto Civita (presidente da Editora Abril) poderia intervir e não interveio?
O Roberto Civita foi alvo, em momentos passados, de ataques pessoais pesados. E aí vem um pessoal pistoleiro de reputação e oferece a chance de fazer com eles o que antes fizeram com o Civita. E então ele libera esses mastins para sair atacando todo mundo. O que acontece? Ele não é um cara ideológico. Esse negócio de dizer que os sócios sul-africanos é que estão levando a essa posição da Veja é mentira.
O Civita é um sujeito que se guia pelo mercado e que se baseia muito no que acontece nos Estados Unidos. E nos Estados Unidos tem início esse movimento neocon, de agressividade na linguagem. Ele pensou: “Vamos trazer isso para cá”. E entregou essa função para as piores mãos possíveis — um pessoal jornalisticamente incompetente e inescrupuloso no trato da informação. Começaram a radicalização, a grosseria, os ataques contra todo mundo e os beneficiamentos pessoais. O que aconteceu com o livro do Mário Sabino? Ele usou todo o ferramental disponível inclusive para mudar critérios dos livros mais vendidos e, assim, se beneficiar. Isso aí não é coisa da Abril. É inacreditável um negócio desses.
Se essa série tivesse saído no ano passado, o que eles alegariam? São os inimigos políticos da Veja, são os chapas-brancas E atrás desse discurso, dessa blindagem, eles faziam tudo. A qualquer crítica que surgisse, eles diziam: “Ah, são os chapas-brancas”. O Diogo Mainardi foi usado pelo Mário Sabino, é um doente. Foi utilizado para isso: se alguém chegar perto, cria a marca “é da equipe do governo”, “é chapa-branca”. Com isso, você libera a direção para fazer o que desse na telha.
Foi o que fizeram com o Franklin Martins, com a Tereza Cruvinel…
Você pega o Franklin Martins. Eles conseguiram jogar nos braços do governo o melhor jornalista político do país: “Ah, agora está provado que o Franklin era governista”. Provado coisa nenhuma! O Franklin ficou fora do mercado e foi trabalhar no governo. A Tereza Cruvinel era uma das melhores colunistas que havia. Começaram com esses ataques baixos, desqualificadores, e ela foi trabalhar no governo. A questão toda não é somente os ataques, mas a maneira como os jornais reagiram a isso. No Globo, o (diretor-executivo de jornalismo) Ali Kamel fechou com eles. O que o Ali Kamel fez com o Franklin quando foi atacado? Rompeu contrato com ele.
Isso foi uma deslealdade que intimidou todos os demais colunistas do O Globo. Na Folha, o Otavinho (Otávio Frias Filho, diretor de Redação) não saiu em defesa quando seus colunistas foram atacados. Não digo nem a mim — mas ao Kennedy Alencar, ao Marcelo Coelho e a outros. Isso criou uma insegurança geral nos colunistas. Nos anos 90, havia diversidade jornalística dada por eles.
Quando se cria essa guerra e essa unanimidade para derrubar o Lula — e se permite que os seus jornalistas sejam atacados —, você induz todos eles a fazerem discurso único por uma questão de sobrevivência profissional. Eu pulei fora.
Nos anos 50, havia um jornalismo bastante carregado de opiniões. Isso voltou tal como era antes ou você vê diferenças?
Voltou com tudo, inclusive com os planos Cohen da vida. Toda aquela manipulação, inclusive dossiês falsos, passou a ser usada. Isso é uma loucura! Estamos na era da internet, da comunicação, e a Veja passa a usar dossiês falsos, passa a misturar a notícia com fantasia. Aquele negócio de dólares de Cuba é um exemplo. A qualidade da notícia deveria ser melhor até por uma questão de cautela. Se hoje não há mais aquele controle da informação que se tinha antes, você não pode se dar à imprudência de sair inventando história, porque vai ser desmascarado.
Há um capítulo do dossiê em que você diz que, a cada sucessão no comando da Veja, entram jornalistas cada vez mais desqualificados e incompetentes…
É. A Veja está num processo de deterioração moral. Recebo vários e-mails de jornalistas que trabalharam lá, e há um que fala que, a cada edição, morria de medo de involuntariamente fuzilar alguma reputação. Porque eles pegam as matérias e alteram tudo. Existem vários exemplos de jornalistas que faziam parte de um grande veículo e que, agora, têm seus sites e blogs, estão “nadando contra a corrente”.
Temos o Paulo Henrique Amorim e o Luiz Carlos Azenha, que eram da Globo. Há você, que saiu da Folha. A internet virou uma válvula de escape? Vou falar da minha experiência. Na Folha, sempre procurei jogar no contrafluxo. Um exemplo foi a Escola Base.
Esse negócio de não seguir a manada, para mim, sempre foi um oxigênio. Qualquer forma de restrição ao pensamento, para mim, é um terror. E a restrição ao pensamento pode vir da empresa, pode vir do governo ou pode vir do leitor. Ao longo dos anos 90, um grande fator de restrição à imprensa foram essas pesquisas de opinião.
Os jornais criavam um escândalo, o leitor queria mais daquele escândalo, e o jornal ficava prisioneiro daquela opinião do leitor que ele mesmo tinha criado. Era um círculo vicioso. O que aconteceu nos últimos anos foi que você não podia mais jogar no contrafluxo por conta dessa frente que se formou contra o governo. Uma das características do jornalismo é que a capacidade que você tem de fazer um elogio é que te garante credibilidade e a eficiência quando você faz a crítica. Se for sistematicamente a favor ou sistematicamente contra, não se faz jornalismo.
Só que quando, começou aquela campanha maluca contra o Lula, você tinha que ficar sistematicamente contra. Tinha denúncia verdadeira? Tinha. Mas também havia denúncias falsas.
O jornalismo coerente tinha que separar o falso do verdadeiro. Só que o patrulhamento foi um negócio tão intenso — e essa frente da mídia foi tão emburrecedora — que acabou essa diferenciação. Quando fomos para a internet, o público que estava lá era o público dos jornais. Mas a internet também é uma armadilha; você tem que tomar cuidado para não ficar prisioneiro dela também. Meu público é 80% a favor do Lula. Mas, se você cede a esse público, você perde a liberdade.
Que pressões você sofreu na Folha?
Ali foram desgastes internos, que já vinha há algum tempo. Quando entrou a “guerra santa” e eu comecei a fazer o contraponto, gerei insatisfação e não teve jeito.
Existe na blogosfera um “ativismo jornalístico” cujos principais nomes seriam o seu, o do Paulo Henrique Amorim?
Isso aí é malandragem desse pessoal da Veja. Quando a Veja resolveu montar a blindagem para a revista, o álibi encontrado contra as críticas foi dizer que se formou uma frente contra ela. Quando comecei minha série, o Paulo Henrique ligou me apoiando. E eu falei: “Não me apóia”. Daí, quando eu lancei o primeiro capítulo, ele fez um carnaval lá, e eu publiquei uma coluna até deselegante com ele, mas não tive outro jeito. Falei que não tenho nada a ver com Paulo Henrique — só para deixar bem claro que não havia essa ligação. Você pega esses blogs da Veja e tem lá: “Porque o iG tem o Paulo Henrique, o Mino, o Nassif…”. Isso é malandragem. Qualquer crítica que você faz, eles dizem: “Você está fazendo a crítica porque existe uma frente”. Então a maior precaução que eu tomei quando comecei a escrever foi deixar bem claro que não havia essa ligação.
Trabalhei com o Paulo Henrique há alguns anos e, nos últimos dois ou três anos, encontrei com ele em uma ou outra palestra. Não tenho intimidade com ele, nem ele comigo. Fazemos tipos diferentes de jornalismo. Esse negócio de frente foi malandragem da Veja. A discussão que quero ter é jornalística.
A Veja tem o direito de ser de direita ou de esquerda — quem define é o dono. Não tenho a pretensão de achar que tenha que haver uma assembléia de jornalistas definindo isso. O jornalista, quando quer ter opinião, vem para a internet. Minha crítica é que a Veja não obedeceu aos princípios jornalísticos. Manipulou, jogou, assassinou reputações, atropelou a lei.
Quando foi entrevistado por nós, em outubro de 2006, você já dava indícios de que havia esses problemas na Veja, mas apenas passava de raspão. Falava nos superpoderes do Eurípedes, comentou também da relação entre a revista e o Daniel Dantas. Por que você resolveu abrir a tampa e ir a fundo só agora, chegando ao dossiê?
Olha, eu teria assunto para mais uns 15 dossiês, se eu tivesse tempo. O meu método de trabalho é um pouco diferente do da Veja. Quando, lá atrás, sofri o ataque da Veja, fui procurar entender o que estava por trás daquilo. Estava na cara que era o Mainardi atuando na defesa do Daniel Dantas, mas não estavam claras as ligações e quem era quem no jogo. Passei esse período todo tentando entender.
Depois que você coloca as peças no lugar, basta pegar todas as matérias que estão lá e ir encaixando. Há uns oito meses, comecei a dar uns cutucões na Veja e o blog desse rapaz ficou oito meses me atacando, dizendo que eu era ladrão. Dizia coisas inacreditáveis. Sabe aquela coisa de você encontrar o cara de madrugada, bêbado, e ele vem xingar sua mãe, seu pai (risos). Depois que você fecha a lógica, é só encaixar as matérias.
Você levanta quatro nomes à frente dessa linha na Veja – Eurípedes, Sabino, Jardim e Mainardi. Por que o Reinaldo Azevedo, outro radical, não entra nessa lista?
O Azevedo é menor. Você tem o Mário Sabino, certo? E o Reinaldo Azevedo é um Sabininho. Pegue o último capítulo da série que foi publicado, sobre os livros — que tem o Azevedo escrevendo resenha. Aquilo lá é só Sabino. Você pega o texto do Azevedo, pega um professor de literatura, e compara. São as impressões e as marcas do Sabino.
O que o Mario Sabino faz na Veja? Ele tem dois ou três ali que ele usa para atacar: o Sérgio Martins, o Jerônimo Teixeira, por exemplo. Ele altera os textos deles. No caso do Reinaldo, o Sabino dá o texto pronto. O Reinaldo é apenas uma caricatura. E isso é importante porque, sendo uma caricatura, ele deixa mais à mostra o que é esse jogo. Outro dia, ele escreveu sobre o Obama (Barack Obama, pré-candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos), descendo o cacete, e de repente a Veja sai com uma visão diferente. Ele entrou em pânico, porque ele não representa nada. Como caricatura, todos os defeitos da Veja ficam mais evidentes com ele. Mas ele é apenas um Sabininho.
E quem é Daniel Dantas? Como ele aparece na história?
Nos anos 90, você teve o avanço dessas colunas de negócios, que passaram a ser utilizadas como ferramentas de lobbies empresariais. Não estou generalizando. Isso começa a ficar muito pesado mesmo nos anos 90, e esses lobistas maiores passam a recorrer aos serviços de assessorias de imprensa barras-pesadas. Com o tempo, eles passam a entrar direto com seus jornalistas.
A IstoÉ é um caso clássico de uso de jornalistas para jogadas comerciais. Só que quando se chega na maior revista do país, quando se atinge e coopta o seu centro, aí é demais. O Daniel Dantas é o maior exemplo de como degringolou política no país.
No dia em que ele contar suas histórias, não sobrarão grandes próceres tucanos e não sobrarão grandes figuras petistas também, nem jornalistas expressivos, Poder Judiciário. Ele conseguiu montar uma rede de influência inacreditável. Nos Estados Unidos, talvez no século passado houve esses abusos — mas a sociedade americana criou formas de autodefesa. Aqui não. Aqui se fecha em torno dos novos homens do dinheiro. Esse é um grande mal que o Fernando Henrique deixou para o país, um mal que vai ter — aliás, já está tendo — desdobramentos terríveis. E com a mídia se dispondo a fechar com eles, você tem uma parte relevante dos poderes institucionais que vão pro vinagre.
A mídia é muito poderosa, cria mitos inacreditáveis. O Mainardi é um exemplo. Começou-se a criar um mito de que ele seria o novo Paulo Francis. Mas quando você vê as coisas que ele escreve… E não estou entrando em juízo de valor, mas em juízo de qualidade. De repente, você o transforma num personagem. E, nesses grupos de autodefesa, você tem o Sabino elogiando o Ali Kamel, que elogia o Mainardi, etc. Ou seja, cria-se dentro da imprensa um negócio fora das estruturas de controle dos jornais, grupos de autopromoção que são uma coisa mafiosa. Destrói-se pessoa que não seja do grupo e passa-se a tentar criar reputações intelectuais. Foi o que o Sabino faz na Veja, com essas manipulações com relação ao livro dele.
Ele escreve e assina sobre o Otavinho, sobre o Ali Kamel. Mas, na hora de tentar destruir o Davi Arrigucci, o Silviano Santiago (críticos literários e professores acadêmicos), ele coloca outros para assinar. Tentaram destruir o (também crítico José Miguel) Wisnik, o Santiago, o Arrigucci. E quem são as novas personalidades intelectuais que surgem? Ali Kamel, Mário Sabino, Mainardi. É inacreditável! Mainardi! Duas das maiores organizações do país — Abril e Globo — passaram a ser manipuladas por três ou quatro pessoas, criando esses mitos. É uma loucura.
Então você tinha uma clara dimensão de onde estava se metendo quando iniciou o dossiê?
Quando entrei, me preparei para o pior. Vamos pegar um exemplo. Há oito meses, esse rapaz (Reinaldo Azevedo) me ataca. Há oito meses, o Reinaldo escrevia baixaria contra os professores da USP. Dava no Jornal Nacional e dava na Veja. Aí percebi que, quando começasse a série, eles usariam esse cara para me fazer ataques. Minha reputação continua a mesma. Estava até esperando coisa pior, que deve vir ainda.
Mas usei esses oito meses para preparar minha família. Dizia: “Olha, vão lendo isso aqui. Essa baixaria vai estar ampliada quando eu começar a cutucar esse pessoal”. Minha preocupação maior era com os meus familiares.
Cada vez que minha mulher ficava mais horrorizada com os ataques, eu dizia: “Maravilha — estão se enforcando na própria corda”. Desse pessoal, eu esperava tudo. Acho que a Abril está um pouco mais cuidadosa do que eles. Mas, se dependesse deles, estariam falando da minha mãe, das minhas filhas. Eles não têm limites. Por outro lado, para mim era terrível, como jornalista, essa história de ver um grupo que conseguia ficar incólume com superpoderes para injúrias e difamações.
No jornalismo, em qualquer lugar democrático, toda vez que você vê manifestações de superpoder, ou essa arrogância, é um desafio para a gente. Mas ninguém queria desafiar por que? Porque os jornais foram covardes na hora de defender os seus profissionais. Não tem nenhum jornalista neste país que respeite o jornalismo da Veja. Eles temem. Temem porque a Veja tem autorização para atirar em cima deles, e seus jornais não vão defendê-los. Foi o que aconteceu comigo na Folha. Quando eu saí de lá, eu falei: “Bom, agora estou por minha conta”. Esperei um tempo para o blog pegar e para a radicalização política diminuir, e aí comecei. Vamos ver no que vai dar.
Se bem que, logo depois do artigo do Leonardo Attuch contra você (“Nassif: o fracasso lhe subiu à cabeça”), o Otavinho deu uma declaração a seu favor…
Esse negócio de que fui demitido da Folha porque eu recebia propina — o blog deles estava há oito meses falando sobre isso. Os meus leitores vinham e diziam: “Você não vai responder?”. Não. Se responder, você vai dar munição para um cara desqualificado. Você vai desviar toda a discussão para se defender de maluquices.
O Attuch é conhecido. A Veja, no começo, o atacava — até que fizeram um acordo. Quando veio o ataque do Attuch, foi bom, porque aí o Comunique-se e a Imprensa procuraram o Otávio Frias Filho, e ele esclareceu tudo. Agora, você vê: foram oito meses em que os caras ficaram falando isso aí no portal da Veja, que é maior revista do país. Quer dizer, será que não tem nada de errado com a mídia? Se isso não for uma deformação completa, eu não sei o que é.
Sobre a Globo…
A Globo não tem a mesma baixaria da Veja. A Globo é Ali Kamel.
Mas tem essa questão da superexploração da febre amarela, das crises…
Isso é coisa do Ali Kamel. O jornal O Globo caminhava para ser o melhor do país. Aí entrou o Ali Kamel com essas maluquices dele: o caso da TAM, da febre amarela, apagão, atletas cubanos, etc. O Globo tinha tudo para ocupar o espaço que a Folha deixou e foi comprometido pelo Ali Kamel.
Essa situação tem a ver com a questão da concentração da mídia?
Tem tudo a ver, mas a internet já está democratizando a mídia. Eu recebi aqui alguns e-mails que falam do Mário Sabino brigando com a Folha. A característica desse pessoal é que são todos puxa-sacos. Eles elogiam suas empresas de um tal jeito… Qualquer ser humano com um mínimo de pudor teria vergonha. Faz parte desse perfil. E é interessante quando você pega o Sabininho. Como ele é caricatura, fica ele todo dia falando do Victor Civita (fundador da Editora Abril), comovido. É inacreditável. Fico vermelho por eles. Aí tinha o Kamel mandando carta toda semana para a Folha, para atacar a Folha e defender O Globo. A Folha era o grande agente de tensão e exerceu um papel de equilíbrio muito importante. Num determinado momento, a Folha deixa de exercer esse papel, e cria-se um pacto tácito entre os jornais. E eles acham que, com esse pacto fechando a atuação deles, nada do que não quisessem viraria notícia. Não se deram conta do fenômeno da internet. Esse foi o grande engano. Aquela entrevista que a gente fez, acho que foi a primeira que rompeu com essa cortina de silêncio. Isso é resultado do fenômeno da internet.
Saiba +
Dossiê Veja – Luis Nassif assina reportagem denúncia contra revista. Revista NovaE foi uma das pioneiras no combate ao jornalismo marrom da publicação.

outubro 16, 2007

Carta aberta ao professor Ali Kamel

Denilson Botelho (*)
Caro Ali Kamel,
Primeiramente gostaria de agradecer-lhe pelo brilhantismo com que tem brindado os leitores do jornal O Globo nas últimas semanas. Os seus últimos artigos são verdadeiras aulas de história, cuja perspicácia e sagacidade eu jamais vi durante toda a minha formação acadêmica. Sua análise dos livros didáticos de história, que nós professores temos adotado, talvez distraidamente, soa como um alerta que não podemos desprezar. Quando demolistes o livro de Mario Schmidt, um certo desconforto já tomara conta de mim. Não porque eu o tenha adotado nas turmas para as quais leciono história no ensino fundamental, embora eu nada possa dizer que desabone ou desaconselhe o uso dos livros deste autor. É que eu aprendi desde cedo, já na escola, creio eu, que texto algum é portador de verdades absolutas. Tal convicção consolidou-se nos anos que freqüentei a graduação em História na Universidade Federal Fluminense. Lá, os professores que tive, cujos conhecimentos nem se comparam à enorme sabedoria que tens, ensinaram-me que todo texto precisa ser analisado de forma crítica. Seja uma fonte utilizada para elaborar o conhecimento histórico, seja o livro didático que sintetiza as pesquisas produzidas na universidade. E tal perspectiva crítica deve ser insistentemente compartilhada com os alunos, como parte do processo de aprendizagem que se desenvolve nesta disciplina que hoje tem no senhor um notório especialista. Além disso, aprendi também que em tudo há a tal da ideologia, mesmo nos textos e autores que insistem em negá-la ou ocultá-la. Ou seja, nossas escolhas político-ideológicas sempre se fazem presentes, ainda que queiramos omiti-las, de boa ou má fé. Em suma, aqueles professores que eu tanto admirava, até conhecê-lo nas páginas desse tão renomado diário, ensinaram-me já nos primeiros períodos da faculdade que não existe conhecimento neutro e isento, seja ele científico ou não. Lembro-me do caso clássico da análise – que sempre faço com os meus alunos – da carta-testamento de Getúlio Vargas. Nela desaparece o ditador perverso do Estado Novo para dar lugar ao homem que deixa a vida para entrar para a história, numa pérola de discurso político-ideológico que reconstrói a memória de quem pretende ingressar na posteridade como pai dos pobres. E funda-se no Brasil o populismo endêmico que até hoje grassa entre nossos políticos e tanto mal nos faz. Mas devo estar mesmo equivocado, pois descobri com o senhor que o jornalismo é, sim, um caso raro e indiscutível de conhecimento neutro, isento e objetivo (ver “O jornalismo”, em O Globo de 23/01/2007). Prova disso está na mesmice do noticiário dos grandes jornais deste país. Se O Globo, a Folha de S. Paulo, o Jornal do Brasil e o Estadão deram ontem, hoje e sempre as mesmas notícias é porque, como o senhor teve a bondade de nos explicar, seus repórteres e jornalistas foram “treinados” ( jamais imaginei que se treinavam jornalistas tal como se adestram cães… ) para identificar e selecionar o que é relevante nos acontecimentos do dia-a-dia. Ou seja, os jornalões nos servem diariamente a verdade dos fatos, de forma neutra e isenta, sem qualquer abordagem de natureza ideológica. Talvez por isso agora o senhor retome as críticas aos livros didáticos de história do Projeto Araribá, que eu, idiota, escolhi usar em 2008 com os meus alunos. Afinal, os livros didáticos de história deveriam ser como os jornais – neutros e isentos – e estão por aí catequizando nossas criancinhas na cartilha do socialismo e pior, do governo Lula, do PT. Francamente! Esse mundo está perdido, não é mesmo? Até porque professores como eu não foram “treinados” como são os jornalistas d’O Globo para identificar o que é relevante para nossos alunos… Então eu lhe faço aqui publicamente uma proposta, senhor Kamel. Abro mão do meu posto de professor de história da escola pública municipal em que leciono e… cedo-lhe a vaga – inclusive com o respectivo salário, que há de alterar significativamente o seu padrão de vida. Venha o senhor dar aulas de história para a garotada do morro do Cruz, logo ali no Andaraí, zona norte do Rio de Janeiro. Deixe o conforto do ar condicionado da redação em que trabalha e venha enfrentar nossas calorentas salas de aula já! Venha dar sua contribuição inestimável, dando aulas não só através das páginas do jornal, mas como o professor talentoso que demonstra ser. A sociedade brasileira certamente terá muito a ganhar com uma atitude como esta… Só não vale enviar no seu lugar aquele tal de Eduardo Bueno, que nos últimos domingos tem estado no seu prestigioso Fantástico, junto com o Pedro Big Brother Bial, dando aulas de história como nunca antes se viu. Não leve a mal, mas é que o Bueno insiste em apresentar a história de forma maniqueísta, como tendo sido feita por vilões e mocinhos. E o senhor sabe que esta é uma visão estreita e empobrecedora da história. Afinal, temos por aí vários vilões que se apresentam como mocinhos, inclusive ao fazer a análise de livros didáticos…
(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.
Publicado no NovaE

outubro 4, 2007

A velha estória e os livros didáticos comunistas

A “Nova História Crítica” e a crítica da velha elite
Max Luiz Gimenes
04-Out-2007
Em um artigo repugnante – que mais parecia um choramingo direitista – publicado no jornal “O Globo” (18/9/2007), Ali Kamel dedicou-se a atacar o livro “Nova História Crítica – 8ª série”, de Mario Schmidt. Retirou do contexto uma série de trechos, classificados por ele como “os piores”. Um deles apresentava um quadro comparativo entre o capitalismo e o ideal marxista. O quadro, muito bem elaborado pelo professor Mario e execrado pelo jornalista, mostra também o que aconteceu no chamado “socialismo real”, sem poupar críticas. Pequeno detalhe que o jornalista global “esqueceu” – ou omitiu para poder, assim, apresentar o livro como uma cartilha marxista para doutrinar criancinhas inocentes. A verdade às vezes dói e a apresentação integral do quadro, por si só, esvaziaria as acusações apaixonadas feitas por Kamel.
As Organizações Globo – corretamente criticadas no livro por seu histórico de manipulações políticas – não deixaram barato e pressionaram o Ministério da Educação (MEC), que veio a público anunciar que vetou a participação da obra no PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), que oferece ao professor de escola pública uma lista de livros para que este adote o que considerar melhor, ficando o governo responsável pela compra e distribuição. Cerca de 50 mil professores de todo o país, das redes pública e privada, já escolheram a coleção “Nova História Crítica”, tornando-a um verdadeiro sucesso. A atitude do MEC, ao reprovar a obra em sua avaliação, atentou contra todos os princípios de liberdade: a de escolha, a de expressão e, sobretudo, a de se poder aprender e refletir sobre os acontecimentos históricos de maneira independente e crítica, indo muito além da “decoreba” de nomes e datas importantes – como querem os defensores desse obsoleto modelo tradicional.
Após o “O Globo” trazer a polêmica acerca do livro à tona, os outros grandes jornais, como “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, endossaram as críticas de Ali Kamel. Supostamente em nome da verdade e da liberdade, esses veículos repetiram os trechos apresentados por Kamel e, de maneira irresponsável, desqualificaram um valoroso trabalho. O modo superficial e manipulador com que a questão foi tratada é assustador. Os meios de comunicação já citados apontaram erros de português no livro, que podem até existir, um aqui e outro acolá; erros que vez por outra também freqüentam as páginas desses mesmos jornais. Entretanto, erros de português podem ser corrigidos em uma próxima edição. O que mais chama a atenção é a coragem de, sem uma leitura integral prévia, os jornais acusarem o livro de conter erros conceituais, o que é uma mentira daquelas que só se consegue contar quando se tem uma enorme cara-de-pau ou um sangue demasiado frio.
Ah, a liberdade. Fundamento tão citado como a principal qualidade da sociedade capitalista. Mas que liberdade é essa, senão a plena liberdade de se calar e obedecer às predeterminações da fraterna e intuitiva elite política e econômica? Pois é. A elite determina, o povo cumpre e a roda da história continua a girar. É assim que prega a hipócrita e pretensamente democrática cartilha liberal-burguesa. Atender ao predeterminado, ser conivente com a sociedade injusta que aí está é ser imparcial; desafiá-la, julgá-la ou mesmo colocá-la sob uma simples análise crítica é ir contra a democracia, é ser tendencioso. E foi exatamente assim que aconteceu no caso do livro do professor Mario. (Que previsíveis se tornaram os burgueses… Onde estará a criatividade capitalista, geralmente atribuída à premissa – um tanto desumana – da competição?).
A obra em questão é extremamente didática – ao contrário do que disse a “Folha de São Paulo” em editorial chamado “A lata de lixo da História” (20/9/2007). Contém charges, gráficos, ilustrações e outros recursos que facilitam a compreensão do período estudado e que dificilmente são vistos em outros livros. E, o que é mais importante, não há nele a pretensão de ser o dono da verdade. É com humildade que Mario Schmidt escreve, logo nas primeiras páginas, que o livro poderia ter sido escrito de outra maneira, tão válida quanto a dele. E deixa o alerta: “Por isso, nunca se esqueça de que duvidar e questionar são atividades muito saudáveis”. Se os jornalistas envolvidos nas matérias e editoriais sobre a obra “Nova História Crítica” tivessem se dado o trabalho de ler – ao menos – as dez primeiras páginas do livro em questão, certamente teriam aprendido muito. E, quem sabe, escrito muito menos bobagens.

Max Luiz Gimenes, militante do Psol, teve o privilégio de estudar com os livros do professor Mario e conhece cada detalhe da obra. Sabe, portanto, melhor do que alguns jornalistas, a importância do respeito.

E-mail:
max.gimenes@gmail.com 
Para comentar este artigo, clique aqui.

Publicado em Correio da Cidadania

04/10/07

setembro 22, 2007

Ainda sobre o Partido da Imprensa

Quando escrevi o artigo “Partido da Imprensa, o mais poderoso do Brasil”, com críticas à mídia, algumas pessoas discordaram, enviando-me artigos defendendo a posição da imprensa. O que se vai ler abaixo, infelizmente, dá razão às minhas observações. Devo salientar que a crítica de Ali Kamel, da Rêde Globo, causou reportagens na Folha, no Estadão e jornais estrangeiros!!!!!JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE

O CASO DO LIVRO NO ‘INDEX’
LUÍS NASSIF – 21/09/2007
A guerra ideológica continua produzindo uma vítima recorrente: a notícia. Digo isso a propósito do artigo de Ali Kamel [dirigente da TV Globo] em “O Globo”, reproduzido no “Estadão”, desancando o livro “Nova História Crítica, 8ª série” – acusado por ele de doutrinação comunista -, e denunciando o MEC (Ministério da Educação) de distribuí-lo gratuitamente.
A denúncia repercutiu na imprensa mundial, de “El Pais”, na Espanha, ao “Miami Herald”, nos Estados Unidos.
Na verdade o livro foi adotado pelo MEC em 2002, gestão Fernando Henrique Cardoso, e deixou de ser adotado em abril deste ano, gestão Luiz Ignácio Lula da Silva. E Kamel sabia disso.

***

Nem a indicação foi culpa de FHC (se é que se pode falar em culpa), nem a desclassificação foi obra de Lula. Kamel sabia que o processo de seleção de livros, pelo MEC, virou uma política de estado, ainda na gestão FHC, e não houve nenhuma modificação que sinalizasse para sua politização.

O sistema de seleção criado virou padrão para muitos países. O papel do MEC é definir um conjunto de universidades que sejam centros de excelência. Depois, cada qual indica professores para analisar as obras. O MEC avalia apenas se há conflito de interesses, se o professor eventualmente tem ligação com alguma editora.
Em seguida, todos são chamados a Brasília e lhes são entregues os livros sem identificação de editora ou autor.
As obras recomendadas entram em uma lista do MEC e são apresentadas às escolas, para escolha dos professores.
***
Antes, havia um problema. Grandes editoras faziam um trabalho de marketing, enviando vendedores para convencer os professores. O MEC corrigiu o que considerava uma distorção. Passou a editar um Guia de Leitura e a remeter para as escolas. E os professores passaram a fazer escolhas pela Internet. Esse modelo reduziu o poder de fogo das grandes editoras, gerou muita pressão, mas abriu a possibilidades para pequenas e médias editoras entrarem no mercado.
***
O livro em questão entrou para a lista em 2002, devido à avaliação positiva de um professor da UNESP (Universidade Estadual Júlio de Mesquita Neto), ainda na gestão Paulo Renato de Souza.
Quem retirou de pauta, na última avaliação, em abril passado, foi a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pois os novos avaliadores entenderam que as ressalvas eram fortes demais para que permanecessem. Nem o MEC interferiu no primeiro movimento, nem interferiu no segundo.
A única mudança que fez foi ampliar o número de universidades de quatro para oito. O livro acabou vetado por um avaliador de uma nova universidade incluída na seleção.
***
Repito, Kamel sabia disso. Mais. Na seleção de trechos que colocou, do livro, menciona o que considera loas aos regimes comunistas. Mas deixou de fora trechos do livro em que há críticas explícitas ao marxismo, a Stalin e a Mao.
Pior: homem que domina as estatísticas, deixou as ferramentas de lado na hora de analisar as obras colocadas à disposição dos professores. Existem 400 livros didáticos apenas na 4ª e 5ª séries. Não se valeu sequer de amostragem estatística, como, por exemplo, avaliar 20 livros e constatar problemas em parte deles.

Modelo mexicano
No México, o governo adotou um modelo mais barato em relação aos livros didáticos. Primeiro seleciona obras, mas de autores, sem a participação de editoras. Compra os direitos autorais. Depois monta uma licitação para a impressão e distribuição. Como tem os direitos autorais, pode reproduzir o material indefinidamente. Como livro é uma obra autoral, não há necessidade de empresas entre o autor e o Estado.

agosto 15, 2007

O Hora do Povo está impossível!!! Ali Kamel é o próximo a ser abatido!

Kamel e o teste das mentiras
“A grande imprensa está sob ataque” – assim começa o artigo de Ali Kamel, publicado há alguns dias em “O Globo”.
“Grande imprensa” é como Kamel, ex-editor assistente da “Veja” e atualmente diretor de jornalismo da Rede Globo, chama a mídia golpista. Parafraseando um dito célebre, essa imprensa só lhe parece “grande” porque Kamel vive em permanente genuflexão. No entanto, mesmo nessa posição incômoda, ele esforça-se por dar cambalhotas: tudo é invertido – naturalmente, o país é que esteve sob ataque dessa mídia. Por isso, ela levou a pior. É dessa última parte do negócio que Kamel está se queixando.
Porém, não é a imprensa, grande ou pequena, que Kamel quer defender. Ele está defendendo apenas a si próprio, ao seu lauto salário – e à sua incompetência, que levou a “Globo” a uma situação inédita de acelerado descrédito. Kamel é, sem dúvida, o mais inepto diretor de jornalismo que a “Globo” já teve. Inclusive, e sobretudo, do ponto de vista do ilusionismo e da prestidigitação que são chamados de jornalismo pela “Globo”. Kamel é incapaz de disfarçar os truques que está tentando fazer. Assim, o “jornalismo” torna-se inútil, e, pior que isso, um risco para a própria “Globo”, além de um estrupício para os anunciantes, que são associados, sem querer, à desonestidade flagrante do veículo onde anunciam.
Voltemos ao seu artigo. Diz ele: “na cobertura da tragédia da TAM, a grande imprensa se portou como devia. Não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeça que está longe do fim”.
Resumindo: a mídia não erra. Não mente. Não falseia nem falsifica. Ela apenas “testa hipóteses”. Não tem culpa se a hipótese é falsa. Para que ela noticiasse apenas os fatos, seria necessário que ela fosse “pitonisa” ou “adivinha” (o que, aliás, é a mesma coisa).
Kamel não explica porque o “testar hipóteses” que preconiza como o supra-sumo da atividade jornalística é sempre contra o mesmo lado e a favor do mesmo outro lado.
CALÚNIAS
Mas é interessante essa nova teoria jornalística. “Testando hipóteses”? Sim, leitor, foi isso o que o sujeito escreveu. Ao invés de noticiar os fatos, a imprensa tem que “testar hipóteses”. Será possível forma mais desastrada de confessar a mentira, ainda por cima defendendo que é muito justo mentir? Só se ele escrevesse algo como: “desde o primeiro instante a mídia golpista foi, honestamente, mentindo, montando um quebra-cabeça que está longe do fim”.
Mas, dessa honestidade o sr. Ali Kamel realmente não é capaz. Nem que um raio o atingisse no caminho para a Barra da Tijuca (lá é a central de novelas e não de jornalismo? Perdão, leitores, pela compreensível confusão).
Continuemos: jornalismo que, em vez de noticiar os fatos, fica “testando hipóteses” é mentira, calúnia, e não jornalismo. Pois é exatamente esse o “jornalismo” que Kamel defende. Não por acaso, seu primeiro cargo de importância foi na “Veja”, que não faz outra coisa: fica “testando hipóteses” que interessam aos seus donos. Kamel levou essa tecnologia para a “Globo” – que, desde que ele deu com os costados lá, não faz outra coisa senão seguir a “Veja” com alguns dias de atraso.
Porém, vejamos algumas hipóteses que ele testou recentemente:
1) Às vésperas do primeiro turno das eleições passadas, Kamel “testou a hipótese” de que não existia um avião da Gol, com 154 pessoas a bordo, que estava desaparecido. Todos os telejornais daquele dia divulgaram o desaparecimento, menos um: o “Jornal Nacional”. Kamel “testou essa hipótese” porque achou que a divulgação do desaparecimento do avião ofuscaria o “teste” de outra “hipótese”: a de atribuir, dois dias antes das eleições e com o programa eleitoral gratuito encerrado, ao presidente Lula a compra de um dossiê, com a exibição escandalosa das imagens do dinheiro com que alguns aloprados tentaram adquiri-lo – imagens, de resto, inteiramente ilegais. Tudo isso para “testar” outra “hipótese”: a de que o presidente Lula não fosse o eleito. As três “hipóteses” eram falsas, mas Kamel, segundo seu parecer, não errou. Estava apenas “testando hipóteses”. Afinal, o rapaz não é “pitonisa”.
2) Em seguida, Kamel “testou a hipótese” de que a queda do avião da Gol não havia sido provocada pelos dois irresponsáveis pilotos norte-americanos do Legacy, como era evidente, mas pelo controle de vôo da Aeronáutica. A hipótese também era falsa. Mas Kamel também não errou. O problema é que ele não “adivinha”. Por isso, estava “testando a hipótese” da realidade ser falsa e do falso ser realidade.
3) Mas Kamel não desanimou: arrumou uma nova hipótese para testar: a de que o irmão mais velho do presidente da República, Vavá, um homem idoso, pobre e doente, era um terrível gênio do tráfico de influência. Nada havia que indicasse qualquer influência de Vavá no governo ou na máquina administrativa, nenhum suposto pedido seu havia sido atendido – e, aliás, nem feito. Seria o primeiro cidadão a traficar influência sem ter influência. Mas isso são questões de somenos importância. Importante era “testar a hipótese” – que também era falsa, mas o importante é testar. A realidade, que se dane.
4) Convicto, Kamel continuou seus experimentos, sempre “testando hipóteses”: diante de uma vaia claramente armada pelo ilustre filósofo do factóide, César Maia, Kamel insistiu que eram “vaias espontâneas” ao presidente. Ele realmente estava bem informado: segundo vários relatos, Kamel participou de uma reunião onde a vaia espontânea foi discutida – e armada. Portanto, a vaia só poderia ser espontânea, ora essa. O problema é que todo mundo viu que não foi. Mas o importante é que a hipótese foi testada, isto é, a vaia apareceu no “Jornal Nacional”.
5) Por último, nesse resumo das atividades científicas de Kamel: menos de uma hora após a queda do avião da TAM, a “Globo” já tinha lançado a hipótese de que o problema era a pista que o governo reformara, que a falta de “grooving” causara o acidente, e que a culpa era do presidente Lula. Não se sabia nada sobre as condições do pouso, a caixa-preta não havia sido encontrada, não havia nem mesmo palpite de algum técnico, mas Kamel, dinâmico como sempre, já estava “testando” a sua hipótese: a culpa é do Lula. O teste deu errado. Ou, melhor, deu certo, porque, como se sabe, a mídia não erra. A “hipótese” é que era falsa.
FABRICAÇÃO
Referindo-se a estudos sobre a mídia que apontam a cavalar falta de isenção contra Lula nos meses anteriores às eleições, diz ele: “tais estudos se esquecem apenas de contar que todo o noticiário sobre o mensalão e outros escândalos foi considerado prova de desequilíbrio contra Lula. Ora, se é assim, qual seria a alternativa para que o estudo apontasse equilíbrio? Não noticiar os escândalos? Mas isso sim seria perder o equilíbrio e a isenção”.
Não é uma gracinha? Os caras fabricam um escândalo, não conseguem provar nada, passam por cima de todas as evidências e provas, tentam dar um golpe, difamam, insultam e caluniam, e depois acham uma injustiça que se aponte que essa porcaria toda era mera tentativa golpista. Segundo Kamel, se não divulgasse o que ele mesmo fabricou, “isso sim seria perder o equilíbrio e a isenção”. Ou seja, as hipóteses que Kamel testa são sempre contra Lula porque Lula é sempre culpado, não importa o que faça – ou deixe de fazer.
CARLOS LOPES
HORA DO POVO

agosto 14, 2007

A pequena imprensa

Filed under: Ali Kamel, blogs, imprensalão, rede Globo — Humberto @ 4:37 pm
Urariano Mota
NOVAE
A pequena imprensa está sob ataque. Não do público, que continua considerando o jornalismo que aqui se produz como algo de extrema confiabilidade, conforme atestam pesquisas de opinião recentes. Os ataques vêm de setores autoritários e antidemocráticos, que diante do noticiário sentem-se ameaçados, como Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo de Televisão, que assim escreveu em 7.8.2007 sob o título de A grande imprensa:
“A grande imprensa está sob ataque. Não do público, que continua considerando o jornalismo que aqui se produz como algo de extrema confiabilidade, conforme atestam pesquisas de opinião recentes. Os ataques vêm de setores autoritários e antidemocráticos, que diante do noticiário, sentem-se ameaçados”. E mais, continua Ali Kamel, a última lenda de nossa grande imprensa:
“Esses setores”, os autoritários e antidemocráticos, “consideram que só é notícia aquilo que, em nenhuma hipótese, atrapalha os seus planos de poder. Não importa que alguns acontecimentos lhes sejam embaraçosos; importa que ou não sejam noticiados ou sejam levados ao público de tal forma que o efeito, para eles, seja positivo ou neutro. Já disse uma vez: isso não seria jornalismo, mas propaganda”.
Notem, se algum anjo bom retirar os signos de transcrição lá no alto, poderíamos com mais propriedade escrever:
Esses setores, os autoritários e antidemocráticos, consideram que só é notícia aquilo que, em nenhuma hipótese, atrapalha os seus planos de poder. Não importa que alguns acontecimentos lhes sejam embaraçosos; importa que ou não sejam noticiados ou sejam levados ao público de tal forma que o efeito, para eles, seja positivo ou neutro. Já disse uma vez: isso não seria jornalismo, mas propaganda.
E a seguir, em lugar de frases altissonantes transcreveríamos fatos, acontecimentos da história recente do Brasil, que o jornalismo da Rede Globo de Televisão – a bem da verdade, não só ela – desconheceu, distorceu, ou fez uma versão de pura propaganda. A saber, sem muita pesquisa:
O tratamento concedido a Lula em todas as eleições. Para nada falar sobre a competente, de um ponto de vista de crime bem executado, edição do debate com Collor, lembramos o último, em 27.10.2006. Quando o presidente aparecia, o zoom se afastava do seu rosto, e seu espaço era dividido com o adversário que o rondava pelas costas. E como se dirigia o apresentador do Jornal Nacional ao escolhido pela maioria do povo? – “Candidato Lula, toque ali no quadradinho do nosso painel…. Candidato Lula, falta só mais um quadradinho”. A impressão que ele imprimia para os milhões de eleitores era a de se dirigir a uma criança analfabeta. Isso escrevemos de memória. Mas qualquer pesquisa apontará o documentário Muito além do Cidadão Kane (*). Ali, advérbio de lugar, não um nome, se mostra o periodismo da Rede Globo que se transformou em propaganda.
No entanto, importa mais aqui a retórica e seu uso de bumerangue no artigo do Cidadão Kamel.
“Costumam seguir o seguinte padrão: mentem, atribuem à grande imprensa coisas que ela não fez e denunciam conspirações que não existem. Sempre num tom indignado, dourando a grita com defesas ’apaixonadas’ da liberdade de expressão e do que chamam de democratização da mídia. Um disfarce”.
Ora, se no parágrafo acima substituirmos “grande imprensa” por “pequena imprensa”, nada será mais preciso. E se por pequena imprensa quisermos significar aquela que se expressa no mundo da web, então o preciso atingirá o seu modo mais justo. Isso porque os blogs, os sítios são caluniados pelos antigos donos da informação como territórios de – observem a gradação – amadores, irresponsáveis, anarquistas, terroristas, novos bárbaros, porque, terrível, não lêem mais as brilhantes análises em papel, e, pior, deixaram a passividade de antes. O que é, sem dúvida, uma conspiração contra a boa, a melhor democracia dos antigos periodistas. Sempre num tom indignado, dourando a grita com defesas “apaixonadas” da liberdade de expressão … Um disfarce. O disfarce que cai – um bom título para um editorial à moda antiga – no parágrafo a seguir:
“É uma tautologia, mas, na atual conjuntura, vale dizer: o jornalismo só é livre e independente quando não depende de nenhuma fonte exclusiva de financiamento. Quanto mais variadas forem as fontes de recursos que sustentam um jornal, uma revista, um portal de internet ou uma emissora de rádio e televisão, mais livres e independentes serão esses veículos. O leitor pode fazer o teste. Veja os anunciantes da grande imprensa e verifique: a variedade é tanta que o veículo não depende, nem de longe, de ninguém isoladamente para sobreviver”.
Belo, lindo e revelador. Encantado. Em que escola aprendeu a pensar o poderoso diretor? Parece que a burguesia já não produz quadros como antes. Talvez ele não saiba que em um jornalismo livre não cabe mais qualquer adjetivo. Pero se a isto ele acrescenta “independente”, e olvidamos a doce palavra “livre”, nada seria mais desastroso que a definição que ele dá a tal fenômeno: aquele que não depende de nenhuma fonte exclusiva de financiamento. Como dizíamos, encantado. Primeiro porque se financiam – é da natureza do verbo financiar – as empresas sobre as quais existe alguma superioridade ou ordem, de quem financia. Até onde se entende, a imprensa recebe anúncios, propaganda como uma troca de serviços, o que não é bem um financiamento. Segundo porque ali, advérbio, há um transporte do sentido de independência editorial para aquele que não depende somente de uma fonte. Ou seja, ele substitui a escravidão a um indivíduo pela escravidão a todos. Aquele que depende de muitos é independente. Perfeito e encantado. Adiante.
“Portanto, livre mesmo, só a grande imprensa. Só ela tem os meios para investir em recursos humanos e tecnológicos capazes de torná-la apta a noticiar os fatos com rapidez, correção, isenção e pluralismo, sem jamais se preocupar se o que é noticiado vai ser bom ou ruim para este ou aquele cliente, para este ou aquele governo”.
Viva. Ali, acima, reside tudo que a grande imprensa não faz. Ou melhor, pode até ser verdade, se definirmos bem as palavras, as expressões. Por “recursos humanos” se entenda muitos, very and very, muchos y muchos profissionais adestrados, amestrados, sem espaço para qualquer coisa ou matéria que lembre uma crítica funda à realidade. Especialistas, quando conquistam o posto de autores, em reportagens sobre o possível e o autorizado. Mais: na frase “noticiar fatos com rapidez”, por favor, defina-se o que é fato, e depois o que é rapidez para os gigantescos paquidermes, que darão a notícia do fim do mundo amanhã, se sobreviverem. Isto, bem considerado, se não ferirem os interesses do anunciante do Apocalipse. E por “correção, isenção, pluralismo”, etc. etc., melhor nem comentar. Adiante.
“Na cobertura da tragédia da TAM, a grande imprensa se portou como devia. Não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeça que está longe do fim.”
Mas é claro. Em qualquer tragédia, e nesta específica das mortes do avião da TAM, a grande imprensa se portou e se comportou como devia: com uma frieza e oportunismo de papa-defuntos. Claro, ela não é pitonisa, e se o fosse, prepararia edições especiais e bem montadas sobre os próximos cadáveres. O obituário seria a melhor seção, patrocinada pelas ações na Bolsa de Valores dos concorrentes dos falidos. Claro, e como essa condição está longe (alô, alô, meteorologia, avise com antecedência de 90 dias onde será o próximo tsunami), o público deve servir de experiência para as mais calculadas hipóteses. Sempre apresentadas com o modo mais honesto, o que vale dizer, sem jamais perder o ar de respeitabilidade.
“É assim aqui, é assim em todas as democracias”. Sem dúvida, principalmente nas que têm modelo na dos Estados Unidos. “Quando do furacão Katrina, a imprensa americana, num continuum, testou muitas hipóteses: noticiou que aquela era uma tragédia anunciada, mostrou que houve cortes federais para obras urgentes nos diques que se romperam, denunciou a inépcia do governo no socorro imediato às vítimas”. Bravo. Em que mundo mora e vive o poderoso editor de jornalismo da Rede Globo de Televisão? Será que a sua cabeça sofre o mesmo processo de edição que os seus telejornais? Qualquer pesquisa, diria, até, qualquer aleatória pesquisa, apontaria que as denúncias dos primeiros dias, na imprensa dos Estados Unidos, cederam logo, logo lugar às fotos patrióticas da Guarda Nacional a pôr ordem na casa. O governo e a ordem reagiram, este era o tom da imprensa norte-americana. Qualquer pesquisa mostraria uma foto, da Associated Press, com a legenda: “negro acaba de saquear uma loja”, enquanto na France Press os brancos apenas conseguiam comida.
Paciência. A viver na sua redoma, na bolha e no aquário que os seus pares e interesses criaram, conclui Ali Kamel: “Porque aqui, ao contrário de lá”, nos Estados Unidos, “há quem queira que a informação esteja a reboque de projetos de poder”. É fato. Voltamos então às frases-bumerangues. A Rede Globo não possui desejo de informação a reboque de um projeto de poder, sabemos todos… A Rede Globo informa pelo prazer e dever de informar. Se assim não fosse, ela não existiria. Moral da história: as pessoas não dizem o que pensam. E quando estão em um alto cargo, nem mesmo pensam no que escrevem.
(*) Pode ser visto em http://video.google.com/videoplay?docid=-570340003958234038 ou http://www.youtube.com/watch?v=JA9bPyd1RKQ

julho 23, 2007

No ar e no chão: imprensalão turbina o golpe

A cobertura criminosa da tragédia
Mauro Carrara

Em 68 anos de vida, e muitas décadas de jornalismo pelo mundo afora, jamais havia testemunhado cobertura tão politizada ( e vergonhosa de uma tragédia. O caso do vôo 3054 deverá, no futuro, servir aos professores de comunicação como uma anti-receita de conduta em casos dessa natureza.
Até agora estou estarrecido com a edição maquiavélica do Jornal Nacional, na noite de 18 de Julho. A dor e o desespero das famílias foram transformados em uma peça de propaganda eleitoral. Apresentou-se a comoção, a “prova” sugerida e o “culpado” por tudo.
Ultimamente, sempre que há mutreta e grave manipulação dos humores nacionais, verifica-se sempre a participação de um mestre oculto: o Sr. Ali Kamel, poderoso demiurgo das sombras a serviço das Organizações Globo.
Na revista Veja e no jornal O Globo, esse homem de comunicação foi adestrado para a função que hoje executa com inegável competência: instaurar a desconfiança e destruir imagens públicas. Na quarta-feira, ainda que sobrassem indícios de que o acidente não tinha sido causado por problemas na pista de Congonhas, todos os telejornais da Globo insistiram na teoria. Depoimentos dissonantes, como o do professor Duarte, da UFRJ, foram grosseiramente limados, desemoldurados, para quem não fossem compreendidos e assimilados pelo público.
A edição do Jornal Nacional de 18/07/2007 deve ser gravada e guardada. Em termos de distorção nada fica a dever àquela que reproduziu seletivamente trechos do último debate eleitoral de 1989. Mostrou gente desesperada, e arrancou lágrimas, até deste jornalista acostumado a ver o sofrimento humano. Em seguida, rumou para Brasília, a indicar solenemente o “culpado”.
Num trecho hard-core colocou na tela, como inquisidores impolutos, o rei das menininhas do Amazonas, senador Arthur Virgílio, e o sai-de-finiho Raul Jungmann, que até agora não explicou a história do desvio dos R$ 33 milhões no Ministério do Desenvolvimento Agrário. Não estranhamente, o Jornal Nacional de Ali Kamel desconsiderou duas entrevistas fundamentais à compreensão das causas do acidente: uma do presidente da TAM, Marco Bologna, e outra do superintendente de engenharia da Infraero, Armando Schneider Filho. Motivo evidente: ambos descartaram a ausência do grooving como causa do acidente.
No momento da exibição do Jornal Nacional, o planeta bem informado já sabia de outros detalhes fundamentais à explicação da tragédia. O avião havia percorrido a pista numa velocidade quatro vezes maior que o padrão na aterrissagem.
Meu sobrinho me disse que seria como se alguém entrasse a 100 km/h no drive-thru do Habib’s. O assunto também foi ignorado pelo JN. E por quê? Porque provocava fissuras no denso muro da tese vigente. Logo depois da tragédia, a Rede Globo de Televisão expediu seu “parecer técnico” determinando a causa da tragédia: a ausência das ranhuras na pista. Segundo esse raciocínio, a responsabilidade seria da Infraero e, por tabela, do Governo Federal. Conclusão final da Rede Globo e de Ali Kamel, repassada insistentemente a todos os brasileiros: Lula matara 200 pessoas!
Como referência de informação, a Rede Globo contaminou o resto da cobertura, influenciando todas as concorrentes e oferecendo munição a todos os articulistas anti-governo, de Norte a Sul do Brasil. De Daniel Piza, do Estadão, a Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo, todos se puseram a incriminar o Governo Federal.
A bola de neve, ou de fogo, inflamou internautas em todo os País, e não somente estes, posto que gente na rua repetia nos pontos de ônibus e nos botecos a tese do “grooving” e do Lula assassino. Causa mais estranheza a rapidez com que a Rede Globo montou seu discurso acusador, logo convertido em “reconstituições por computador” que indicavam uma suposta derrapagem. Foi rapidíssima no gatilho e evitou que qualquer outra hipótese ganhasse força. Durante dois dias, pouca gente questionou essa teoria. Quem já pousou em Congonhas sabe que uma “derrapagem” não levaria o avião para o outro lado da Avenida Washington Luís. A Rede Globo de Televisão, de Ali Kamel, construiu, portanto, aproveitando-se da tragédia, uma poderosa peça publicitária eleitoral. Manipulou, distorceu, comoveu e incitou o ódio contra o Presidente da República. Por vezes, sutilmente; por vezes, com agressividade.
Cabe ao povo brasileiro decidir, na próxima renovação de concessão, de que maneira se pode coibir a utilização do corredor público de ondas para fins eleitoreiros, ou golpistas.
* Incrível é que William Bonner, com seu pragmatismo bonachão, aparentemente não percebeu nada disso.
NOVAE

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

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