O jornalista, escritor e ex-deputado Márcio Moreira Alves morreu no dia 3 de abril de 2009, aos 72 anos (nasceu em 14 de julho de 1936), após cinco meses internado acometido que foi por um derrame (AVC). Ele se tornou conhecido por ter sido o pivô da decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5). É que o governo Costa e Silva queria cassá-lo por ter pronunciado discurso na Câmara Federal em 2 de setembro, protestando contra a invasão da Universidade de Brasília (UnB), com espancamento de estudantes. Tratei do assunto no artigo DISCURSO QUE PROVOCOU O AI-5, publicado em 2004 e reproduzido em meu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA (páginas 271 a 273). Por este motivo não vou me aprofundar na análise do que aconteceu naquela época. Apenas dizer que o discurso dele foi a desculpa. Quem diz isto é Delfim Neto. Ele era ministro e participou da reunião que decidiu decretar o Ato e conhecia os bastidores do que ocorreu lá. Em depoimento ao escritor Elio Gaspari, o ex-ministro disse: “Naquela época do AI-5 havia muita tensão, mas no fundo era tudo teatro. Havia as passeatas, havia descontentamento militar, mas havia sobretudo teatro. Era um teatro para levar ao Ato. Aquela reunião foi pura encenação. O Costa e Silva de bobo não tinha nada. Ele sabia a posição do Pedro Aleixo [vice-presidente e jurista] e sabia que ela era inócua. Ele era muito esperto. Toda vez que ia fazer uma coisa dura chamava o Pedro Aleixo para se aconselhar e, depois, fazia o que queria. O discurso do Marcito não teve importância nenhuma. O que se preparava era uma ditadura mesmo. Tudo era feito para levar àquilo” (A Ditadura Envergonhada, página 339).Mauricio Dias David, no artigo publicado no Observatório da Imprensa, em 10/3/2009, definiu Márcio Moreira Alves: “antes de tudo um jornalista”. No entanto, o jornalista Marcito não teve o mesmo destaque do que o parlamentar. Precisamos conhecer essa faceta dele. Wilson Tosta, ao noticiar no Estadão (4/4) a morte de Márcio Moreira Alves, ressalta: “Márcio chegou à política pelo jornalismo. Tornou-se nacionalmente famoso ao cobrir uma sessão da Assembléia Legislativa de Alagoas, em 1958, que julgaria processo de impeachment contra o governador Muniz Falcão, mas degenerou em tiroteio entre parlamentares. Mesmo baleado, o repórter relatou o incidente – e ganhou o Prêmio Esso, o mais importante do jornalismo brasileiro”. Em 1982, ele tentou se eleger deputado federal. Não se elegeu. Abandonou a política e voltou ao jornalismo. O escritor Carlos Heitor Cony, que foi colega dele no extinto Correio da Manhâ, do Rio, assim descreveu essa volta, no artigo Marcito (Folha, 11/12/2008): “Elegeu-se deputado pela antiga Guanabara [hoje Rio], foi cassado e viveu anos no exílio. Ao voltar, optou por um jornalismo sem ressentimentos. Dedicava uma crônica semanal a um aspecto positivo da sociedade brasileira, destacando municípios e entidades que davam certo. Em todos os sentidos, Marcito era não apenas um garotão de sucesso, mas um puro”.
Outra faceta importante dele: o escritor. Márcio escreveu vários livros, mas destaco dois que tiveram impacto naquela época: TORTURA E TORTURADOS, com prefácio de Alceu Amoroso Lima, editado em 1967, 2ª edição ( a primeira foi apreendida). Nele, ele denunciava as torturas. Na orelha do livro, o escritor Antonio Calado, após descrever como os presos eram torturados (pau-de-arara, tenazes, telefone, choque elétricos, geladeira, banho chinês e outros métodos), conclui: “É muita tortura para tão pouca revolução”. O outro livro: O CRISTO DO POVO, editora Sabiá, 1968. Nesta obra, Marcito relata as perseguições que a ditadura impunha a católicos e protestantes. Logicamente que esses livros-denúncia provocaram o ódio de militares da linha-dura ao Márcio Moreira Alves.
Voltando à política, termino com essa frase do ex-deputado José Frejat, de 85 anos: “Já não se fabricam homens como ele [Marcito]. Hoje se tapa o nariz para a política”. Já o ex-deputado David Lerer, que também foi cassado pelo AI-5, disse: “Ele é o símbolo de uma época em que os políticos se moviam por idéias”. Assim era o corajoso Marcito!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Abril de 2009



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