ENCALHE

abril 7, 2009

"A morte de Márcio Moreira Alves ( Marcito )", por Jasson de Oliveira Andrade

O jornalista, escritor e ex-deputado Márcio Moreira Alves morreu no dia 3 de abril de 2009, aos 72 anos (nasceu em 14 de julho de 1936), após cinco meses internado acometido que foi por um derrame (AVC). Ele se tornou conhecido por ter sido o pivô da decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5). É que o governo Costa e Silva queria cassá-lo por ter pronunciado discurso na Câmara Federal em 2 de setembro, protestando contra a invasão da Universidade de Brasília (UnB), com espancamento de estudantes. Tratei do assunto no artigo DISCURSO QUE PROVOCOU O AI-5, publicado em 2004 e reproduzido em meu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA (páginas 271 a 273). Por este motivo não vou me aprofundar na análise do que aconteceu naquela época. Apenas dizer que o discurso dele foi a desculpa. Quem diz isto é Delfim Neto. Ele era ministro e participou da reunião que decidiu decretar o Ato e conhecia os bastidores do que ocorreu lá. Em depoimento ao escritor Elio Gaspari, o ex-ministro disse: “Naquela época do AI-5 havia muita tensão, mas no fundo era tudo teatro. Havia as passeatas, havia descontentamento militar, mas havia sobretudo teatro. Era um teatro para levar ao Ato. Aquela reunião foi pura encenação. O Costa e Silva de bobo não tinha nada. Ele sabia a posição do Pedro Aleixo [vice-presidente e jurista] e sabia que ela era inócua. Ele era muito esperto. Toda vez que ia fazer uma coisa dura chamava o Pedro Aleixo para se aconselhar e, depois, fazia o que queria. O discurso do Marcito não teve importância nenhuma. O que se preparava era uma ditadura mesmo. Tudo era feito para levar àquilo” (A Ditadura Envergonhada, página 339).
Mauricio Dias David, no artigo publicado no Observatório da Imprensa, em 10/3/2009, definiu Márcio Moreira Alves: “antes de tudo um jornalista”. No entanto, o jornalista Marcito não teve o mesmo destaque do que o parlamentar. Precisamos conhecer essa faceta dele. Wilson Tosta, ao noticiar no Estadão (4/4) a morte de Márcio Moreira Alves, ressalta: “Márcio chegou à política pelo jornalismo. Tornou-se nacionalmente famoso ao cobrir uma sessão da Assembléia Legislativa de Alagoas, em 1958, que julgaria processo de impeachment contra o governador Muniz Falcão, mas degenerou em tiroteio entre parlamentares. Mesmo baleado, o repórter relatou o incidente – e ganhou o Prêmio Esso, o mais importante do jornalismo brasileiro”. Em 1982, ele tentou se eleger deputado federal. Não se elegeu. Abandonou a política e voltou ao jornalismo. O escritor Carlos Heitor Cony, que foi colega dele no extinto Correio da Manhâ, do Rio, assim descreveu essa volta, no artigo Marcito (Folha, 11/12/2008): “Elegeu-se deputado pela antiga Guanabara [hoje Rio], foi cassado e viveu anos no exílio. Ao voltar, optou por um jornalismo sem ressentimentos. Dedicava uma crônica semanal a um aspecto positivo da sociedade brasileira, destacando municípios e entidades que davam certo. Em todos os sentidos, Marcito era não apenas um garotão de sucesso, mas um puro”.
Outra faceta importante dele: o escritor. Márcio escreveu vários livros, mas destaco dois que tiveram impacto naquela época: TORTURA E TORTURADOS, com prefácio de Alceu Amoroso Lima, editado em 1967, 2ª edição ( a primeira foi apreendida). Nele, ele denunciava as torturas. Na orelha do livro, o escritor Antonio Calado, após descrever como os presos eram torturados (pau-de-arara, tenazes, telefone, choque elétricos, geladeira, banho chinês e outros métodos), conclui: “É muita tortura para tão pouca revolução”. O outro livro: O CRISTO DO POVO, editora Sabiá, 1968. Nesta obra, Marcito relata as perseguições que a ditadura impunha a católicos e protestantes. Logicamente que esses livros-denúncia provocaram o ódio de militares da linha-dura ao Márcio Moreira Alves.
Voltando à política, termino com essa frase do ex-deputado José Frejat, de 85 anos: “Já não se fabricam homens como ele [Marcito]. Hoje se tapa o nariz para a política”. Já o ex-deputado David Lerer, que também foi cassado pelo AI-5, disse: “Ele é o símbolo de uma época em que os políticos se moviam por idéias”. Assim era o corajoso Marcito!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Abril de 2009

dezembro 17, 2008

ANÚNCIOS DA TFP – Quem pagou? Quem está por trás?, por Alberto Dines

Observatório da Imprensa, 16/12/2008
O centenário de nascimento de Plínio Corrêa de Oliveira foi uma festa: nos jornalões paulistas, Folha e Estado, anúncios de página inteira na edição de sábado (13/12). No auge da temporada natalina de 2008 – talvez a última dos tempos de vacas gordas – anúncios no primeiro caderno não são baratos. O apelido “informe publicitário” garante que não foram oferta da casa.
Quem era Plínio Corrêa de Oliveira? De uma família de senhores de engenho, formou-se em direito, fundou a Ação Universitária Católica e participou da criação da LEC (Liga Eleitoral Católica). Eleito deputado constituinte, participou da redação da “Polaca” (a Constituição de 1937, inspirada na carta promulgada pelo homem forte da Polônia, o marechal Józef Pilsudski).
Em 1960, Plínio criou a TFP – Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade “para organizar a contra-revolução”. Opunha-se a qualquer iniciativa modernizadora do Vaticano, combatia a infiltração progressista na igreja católica, lutava contra o divórcio e o aborto. Foi um dos esteios da mobilização civil contra o governo de João Goulart.
Reportagem no capricho
Era amigo pessoal de Octávio Frias de Oliveira, falecido publisher da Folha de S.Paulo, que o recebia para almoçar no jornal. Nada demais: Plínio Corrêa de Oliveira era culto, educadíssimo, agradável, e, sobretudo, sabia evitar azedumes durante uma refeição.
A Folha liderou as comemorações do seu centenário. Na sexta-feira (12/12), publicou na seção “Tendências/Debates”, na página A-3, um artigo assinado por Bertrand de Orleans e Bragança (com o título de dom, abreviado – argh!), que se apresenta como herdeiro dos princípios defendidos por Plínio. Nada demais: a Folha gosta de provocar os leitores, tanto assim que no dia seguinte pelo menos dois – um candentemente contra e outro devotamente a favor – manifestaram-se no “Painel do Leitor”.
Como naquele dia o outro freqüentador da página de opinião era o chefe do lobby da indústria do diploma, o imortal Arnaldo Niskier, o leitor mais avisado considerou que a nobre página 3 estava suspensa – ou em liquidação, ocupada pelos saldos.
No dia 13, sábado, a Folha publicou o informe publicitário pago pelo Instituto Plínio Correa de Oliveira (pág. A-9); três páginas adiante (pág. A-12), ocupa outra, praticamente inteira, com uma caprichada reportagem sobre a TFP, no momento falida e corroída por uma acirrada disputa entre os herdeiros políticos e espirituais do fundador da entidade.
Pergunta que não cala
Aqui a Folha excedeu-se: revelou que a escolha das matérias que publica não obedece aos paradigmas jornalísticos. A TFP não existe, a direita católica hoje é claramente dominada pela [ OBS: " 'DO' Opus Dei, caro Dines" - Humberto ] Opus Dei. Bertrand de Orleans e Bragança, o trineto de D. Pedro II, não tem um centésimo do valor intelectual do seu trisavô. Gosta de dizer que não é nazista, mas de direita. Na verdade é um clone do monarquismo fascista dos anos 1930 e 40. É um neocon brazonado que deveria viver na França e militar na Action Française, aquela que entregou a França a Hitler. Jean-Marie Le Pen para ele é moderno demais.
O Estado de S.Paulo, tradicionalmente mais católico, não embarcou nessa piada política. Octávio Frias de Oliveira tinha bons amigos em todo espectro político, não os beneficiava com matérias de favor, por isso era respeitado. Se vivo fosse não permitiria esse carnaval.
E como Frias dizia, com muita graça, que não se importava em pegar um clipe caído no chão, tal o seu horror ao desperdício, somos obrigados a perguntar e os dois jornalões têm obrigação de informar: quem pagou pelos anúncios? A falida TFP? O que há por trás desta nostalgia comemorada exatamente no dia do 40º aniversário do AI-5?
Comentário do BFI: “Adoramos a propaganda da TFP. Vai servir de inspiração para melhorarmos nossos posts no site do venerado Professor Hariovaldo e, assim, melhor combatermos o comunismo ateu, materialista e bolchevique do PT, com a graça de São Serapião. “Alvíssaras”, como diria o Vinícius Duarte.”

dezembro 16, 2008

"Sobral Pinto, vítima do AI-5", por Jasson de Oliveira Andrade

Sobral Pinto * foi um dos maiores advogados do Brasil, defensor de presos políticos vítimas das ditaduras brasileiras (1937 e 1964). Ele nasceu a 5 de novembro de 1893 e faleceu a 30 de novembro de 1991. Nos 98 anos de vida, dedicou-se a lutar pela liberdade. Democrata, era um crítico do Estado Novo (10/11/1937 a 29/10/1945) de Getúlio Vargas, período ditatorial. Conhecido nacionalmente como autor de cartas às autoridades, a maioria delas em favor da democracia, já naquela época, no final da ditadura varguista, escreveu ao general Góes Monteiro, poderoso Ministro da Guerra. Estas e outras cartas foram publicadas no livro SOBRAL PINTO – LIÇÕES DE LIBERDADE, editado, em 1977, pela Universidade Católica de Minas Gerais e Editora Comunicação. É neste livro que está publicada o texto da missiva que enviou ao “Exmo. Sr. Presidente da República, Marechal Arthur da Costa e Silva”, em 21 de dezembro de 1968, poucos dias após o AI-5 (13/12/1968), criticando o Ato por ele assinado e também falando de sua prisão em Goiás. No livro não existe uma explicação sobre o motivo de sua detenção. Tudo indica que iria ministrar palestra para estudantes daquele Estado. O que se vai ler a seguir são as críticas de Sobral Pinto nessa carta à Costa e Silva.
Depois de afirmar que leu, em Goiânia, o AI-5, escreveu: “Através do referido Ato, V.Exa. instituiu, em nossa Pátria, a ditadura militar, contra a qual ninguém pode, no momento, lutar eficientemente.”
“Nessa qualidade [de Presidente da República], V.Exa, baixando o ATO INSTITUCIONAL Nº 5, falhou à sua missão e traiu de maneira indiscutível a finalidade de Governante do País.”
“Com efeito, atente V.Exa., com serenidade e isenção de espírito, para o que fez com o referido ATO INSTITUCIONAL Nº 5: V. Exa. suprimiu, com a liberdade de opinião, também a garantia da Magistratura Brasileira. (…) É evidente, Sr. Presidente, que o ATO INSTITUCIONAL Nº 5, com as determinações nele contidas, é um Ato governamental que desmoraliza e quebra o caráter do homem brasileiro, principalmente o dos Magistrados. Se este Ato permanecer no nosso Direito [permaneceu até 1978, dez anos], ninguém, nesta amargurada Pátria, ousará contrariar a deliberação e a vontade dos militares das nossas Forças Armadas e as de V.Exa. porque estará, com a sua resistência, abrindo o caminho que o levará para o cárcere, sem que a Magistratura possa restituir-lhe a liberdade”.
A seguir Sobral Pinto relata a sua prisão. “Sou, Sr. Presidente, uma das vítimas do ATO INSTITUCIONAL Nº 5. A Polícia Federal de Goiás, invocando o nome de V. Exa., deu-me ordem de prisão, ordem que não acatei, declarando que nem V. Exa., nem ninguém neste País, é dono da minha pessoa e da minha liberdade. Nada fizera para esta perder. Recusava altivamente acatar ordem tão absurda e ilegal. Mal pronunciei estas palavras, quatro homens, de compleição gigantesca, lançaram-se sobre mim, como vespas sobre carniça, imobilizando-me os braços e apertando-me o ventre, pelas costas. Em seguida, empurraram-me, como um autômato, do quarto ao elevador, onde me empurram. Deste até o carro, que se encontrava à porta do Hotel, fizeram a mesma manobra. Colocado no carro, de manga de camisa, como me encontrava no quarto, conduziram-me a um Batalhão que fica nos arredores de Goiânia. Neste permaneci durante uma hora, mais ou menos, depois de um atrito com o Comandante da Unidade, que tentara desrespeitar-me, sendo levado ao Quartel da Polícia do Exército em Brasília, onde fiquei três dias (…)”.
Sobral Pinto foi mais uma das vítimas do AI-5. Felizmente, quando morreu, em 1991, aos 98 anos, o Brasil já vivia na democracia, pela qual tanto lutou. E que esses Anos de Chumbo não voltem a ocorrer em nosso país!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Dezembro, 2008
* O link não consta no texto original de Jasson

dezembro 12, 2008

DISCURSO QUE PROVOCOU O AI-5, por Jasson de Oliveira Andrade

Na seqüência, artigo de Jasson – publicado em 2004, e reproduzido em seu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA ( pág 271 a 273 ) – no qual relembra, em meio às “comemorações” dos 36 anos da decretação do Ato Institucional nº. 5 ( 1968 ), o discurso proferido no Congresso Nacional pelo deputado Márcio Moreira Alves, cujas palavras contundentes – em parte aqui reproduzidas por Jasson – teriam servido de estopim para a decretação pelo governo militar deste Ato. Importante observação de Jasson: ” ( … ) Até hoje o texto do discurso não é conhecido, mas apenas mencionado. Nele, Márcio Moreira Alves pediu o boicote aos militares, em protesto à repressão de estudantes na Universidade de Brasília ( … )”. Tem toda razão, e eu não me excluo disso. Para tentar compensar, incluo aqui o link para o site de “Marcito” onde são disponibilizados, para downloads, diversos livros de sua autoria, além de diversas informações muito interessantes, sobretudo àqueles que desejam/ precisam conhecer mais sobre a política do País naquele período. Aproveitem, leiam, guardem, divulguem, etc: http://www.marciomoreiraalves.com/downloads/livrosdownload.html
A seguir, o artigo de Jasson:
DISCURSO QUE PROVOCOU O AI-5
Neste ano de 2004, o Ato Institucional n° 5 (AI-5) comemora trinta e seis anos, decretado em 13 de dezembro de 1968 pelo presidente Costa e Silva. O Ato, segundo o professor Roberson de Oliveira, determinava o fechamento do Congresso Nacional, a extinção dos mandatos de 51 parlamentares de oposição, censura à imprensa, estado de sítio, suspensão de hábeas-corpus para crimes contra a segurança, julgamento de crimes políticos por tribunais militares, legislação por decreto presidencial e impossibilidade de recurso para os acusados e processados com base no AI-5. O historiador afirma que ele “abriu caminho para uma das fases mais violentas e cruéis da história da República”. A causa do Ato foi um discurso pronunciado em setembro de 1968, pelo então deputado Márcio Moreira Alves (MDB), no pequeno expediente do Congresso Nacional. O discurso não teria repercussão porque o mesmo não foi divulgado pela imprensa. Poucas pessoas o leram. Entre eles, militares da “linha dura”, que exigiram a punição do deputado. O Congresso não aprovou o pedido de licença para processá-lo. Em represália, Costa e Silva decretou o AI-5.
Até hoje o texto do discurso não é conhecido, mas apenas mencionado. Nele, Márcio Moreira Alves pediu o boicote aos militares, em protesto à repressão de estudantes na Universidade de Brasília. Entre outras coisas, disse o deputado:
“Vem aí o 7 de setembro. As cúpulas militaristas procuram explorar o sentimento profundo de patriotismo do povo e pedirão aos colégios que desfilem juntos com os algozes dos estudantes. (…) Este boicote pode passar também — sempre falando de mulheres — às moças, àquelas que dançam com os cadetes e namoram os jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje no Brasil, com que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de sua casa àqueles que vilipendiam a Nação. Recusassem em aceitar aqueles que silenciam e, portanto, se acumpliciam. Discordar em silêncio pouco adianta. Necessário se torna agir contra os que abusam das Forças Armadas, falando e agindo em seu nome”.
O discurso de Márcio Moreira Alves seria apenas um rompante do jovem deputado carioca. Poder-se-ia dizer impensado. Este foi o entendimento do Congresso que negou a licença. Entretanto, os militares da “linha dura” não pensavam da mesma maneira. Pressionaram o presidente Costa e Silva, que não teve outra saída senão assinar o AI-5, bem como a repressão que se seguiu.
Outro dia lendo o livro Minhas Memórias, de José Osório de Oliveira Azevedo, presente do primo e amigo Osorinho (dr. José Osório de Azevedo Júnior, desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo e presidente do Conselho Executivo da Associação Juízes para a Democracia), tive oportunidade de tomar conhecimento dessa revelação: “Em maio de 1969 recebi em São Paulo um belo retrato de meu avô José Procópio e de seu irmão Domingos Theodoro, acompanhado da seguinte carta, em papel com o timbre de Branca de Mello Franco Alves: “Rio, 30.4.69. Caro primo. Tive o grande prazer de conhecer Marieta ( filha de José Osório ) no Chile ( onde se encontrava exilada, ao que parece ), e sua familiazinha, barulhenta, mas “charmante”. Gostei de afinal encontrar esta parenta de que minha nora falava tanto. E que grande homem é o seu genro! (Plínio de Arruda Sampaio)”. Ainda não conheço pessoalmente esta prima tão simpática, mas conheço o seu marido Márcio de Mello Franco Moreira Alves, que me visitou em minha casa, aqui em São João da Boa Vista.
(…) Branca e Márcio são pais do deputado Márcio Moreira Alves, cujo discurso na Câmara Federal desencadeou a crise de que resultou o Ato Institucional n° 5 (págs. 55 e 56). Desconhecia esse parentesco entre o sanjoanense José Osório e Márcio Moreira Alves, através da mãe, Branca.
Márcio Moreira Alves atualmente se encontra gravemente doente e impossibilitado de escrever a sua coluna no O GLOBO, a qual é assinada por outros jornalistas. { Em 2007, Márcio Moreira Alves, ao que tudo indica, NINGUÉM FALA NO ASSUNTO, ainda se encontra gravemente doente, e sua coluna desapareceu de O GLOBO }.
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Outubro de 2004.

dezembro 9, 2008

"AI-5 e seus reflexos em São João: Porque não fomos punidos", por Jasson de Oliveira Andrade

Há 40 anos, no dia 13 de dezembro de 1968, o marechal-presidente Artur da Costa e Silva decretou o Ato Institucional nº 5, o AI-5. Carlos Marchi, no texto “AI-5, A liberdade assassinada”, Caderno Especial, Estadão (7/12/2008), revela o “motivo” dessa mudança radical da Ditadura Militar: “A linha dura militar buscava pretextos para fechar de vez o regime. O motivo ideal se revelou num discurso tão despretensioso quanto inconseqüente do deputado Márcio Moreira Alves (MDB da Guanabara), de 32 anos. Às vésperas do 7 de setembro, ele apelou da tribuna da Câmara [ em protesto contra a repressão aos estudantes na Universidade de Brasília ] para que as moças não namorassem jovens oficiais. O governo militar quis processá-lo, mas a Câmara negou a licença. A resposta foi o AI-5”. O pedido foi negado por 216 votos, entre eles 96 votos de parlamentares da ARENA, partido situacionista. Estes votos foram fundamentais para a derrota do governo. Posteriormente alguns desses arenistas foram punidos, com a cassação de seus mandatos.
Carlos Marchi mostra o que aconteceu depois: “O Ato nº 5 devastou a vida política e cultural brasileira. Com base nele, 1.577 cidadãos foram punidos – 454 perderam mandatos políticos ou tiveram os direitos políticos suspensos [ Entre eles, Carlos Lacerda, líder civil do Golpe de 64, em 30/12/1968, sendo ainda preso ], inclusive 3 ministros do Supremo Tribunal Federal; 548 funcionários civis foram aposentados, 334, demitidos e 241 militares, reformados. As Assembléias dos Estados da Guanabara e do Rio, então separados, São Paulo, Pernambuco e Sergipe foram postas em recesso. Foram proibidos mais de 500 filmes e telenovelas, 450 peças teatrais, 200 livros e 500 letras de músicas; o Estado e a Tribuna da Imprensa, que não admitiram censura prévia, receberam censores nas oficinas”. Segundo Gilson Caroni Filho, “para banir oposicionistas [ o Ato ] foi empregado 80 vezes. Antes de revogá-lo, no final [ dezembro ] de 1978, o general Geisel dele fez uso várias vezes”. Dez anos durou esta quase completa ESCURIDÃO!
O AI-5 teve reflexo em São João da Boa Vista? Diretamente, não. Ninguém foi punido.
No entanto, os presos políticos sanjoanenses, revelados por mim ( GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA ), tiveram sorte. O IPM ( Inquérito Policial Militar ) de São João foi arquivado em 28 de junho de 1967. O arquivamento se deu apesar da pressão para que os acusados fossem condenados, conforme relata o Promotor Nicolau D´Ambrósio: “Víamos confirmados os nossos receios: o IPM era conseqüência de maquinações políticas. Dizia, de modo bem claro, o honrado major encarregado, QUE NADA APURARA ( destaque meu ) que o levasse a indiciar quem quer que fosse como autor de atos contra a Segurança Nacional. E O SEU RELATÓRIO ERA NESSE SENTIDO. PORÉM, COM ESSA SOLUÇÃO NÃO CONCORDARAM SUPERIORES SEUS; FIZERAM-LHE VER QUE OUTRA SERIA A SOLUÇÃO DO COMANDO ( destaque meu ). Elaborou, então, novo relatório, indiciando os 36 acusados”. O Juiz Auditor, José Tinoco Barreto, aceitou os argumentos do Promotor e, mesmo com a pressão, arquivou o IPM. Se o julgamento tivesse sido após o AI-5, ou seja, 13 de dezembro de 1968, pouco mais de um ano do arquivamento, os 36 acusados seriam punidos: a pressão seria acatada. Não tenho dúvidas disso. A minha certeza leva em conta essa revelação do jornalista Carlos Chagas, em “A GUERRA DAS ESTRELAS, página 138: “[Com o AI-5] Até juízes são cassados, sempre que fica evidenciado não terem aplicado penas violentas contra subversivos ou ACUSADOS DE SUBVERSÃO (destaque meu). (…) O juiz auditor-militar, José Tinoco Barreto, é aposentado POR ESTAR ABSOLVENDO PRESOS POLÍTICOS ( destaque meu )”. Essa punição do juiz auditor-militar não foi motivada, entre outras decisões, por ter arquivado o IPM de São João da Boa Vista? Acredito que sim. Por isso, concluo: felizmente fomos julgados e inocentados antes do AI-5! O reflexo dele naquela cidade, foi, ao que tudo indica, a punição ( aposentadoria ) do Juiz Auditor José Tinoco Barreto.
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é sanjoanense e jornalista em Mogi Guaçu
Dezembro de 2008

julho 7, 2008

Comemorando o 9 de Julho: Dono do "Estadão" propôs Ato Institucional que assustou até mesmo os generais da ditadura!!

O artigo a seguir foi extraído de “Golpe de 64 em São João da Boa Vista” ( pág 269 a 271 ) de Jasson de Oliveira Andrade, tendo sido publicado, anteriormente em “O Regional” em 24 de janeiro de 2003. Mais abaixo, Jasson comenta a “Moção de Aplausos” a seu livro, recebida junto à ALESP, por iniciativa do deputado Simão Pedro ( PT ). Pelo trecho a seguir, pode-se vislumbrar o valor da obra de Jasson.
A censura do “Estadão”
O “Estadão”, designação adotada pelo próprio O Estado de São Paulo, foi perseguido por Getúlio Vargas, então ditador ( Estado Novo ). Houve mesmo intervenção no jornal. Os Mesquita, seus proprietários, se exilaram. Muitos anos depois, Júlio Mesquita Filho tornou-se líder civil do Golpe de 64.
No início da ditadura militar, segundo Élio Gaspari no seu livro A Ditadura Envergonhada, “foram inúmeras as propostas de demolição das franquias constitucionais”. Entre elas – revela Gaspari – “uma vinha do jornalista Júlio Mesquita Filho, proprietário do O Estado de São Paulo. Redigida com a colaboração do advogado Vicente Ráo, catedrático de Direito Civil da Universidade de São Paulo e ministro da Justiça no Estado Novo ( Vargas ), foi a primeira a chamar-se Ato Institucional. Sugeria a dissolução do Senado, Câmara e assembléias legislativas, anulava o mandato dos governadores e prefeitos, suspendia o habeas-corpus e pressupunha que seria o primeiro de uma série” ( pág. 122 ). Uma contradição: o colaborador dele serviu ao governo do algoz ( Getúlio Vargas ) de sua família! O Ato não foi adotado: era muito autoritário!
O Ato Institucional sugerido pelo dono do “Estado” foi seguido pelo AI-5, em 13/12/1968, instituindo a censura no Brasil. Entre os censurados, os jornais dos Mesquita!
No dia 11/12/2002, na matéria “Júlio de Mesquita faria 80 anos hoje ( Memória )”, O Estado de São Paulo prestou uma homenagem póstuma ao ex-diretor, falecido a 05/06/1996. Nela há um relato que merece transcrição: “Submetido à censura prévia pelo Ato Institucional nº. 5, o ‘Estado’ publicava trechos de Os Lusíadas, de Luís de Camões, nos espaços reservados às informações e reportagens vetadas… No Jornal da Tarde, os leitores encontravam receitas de doces e bolos. Essa foi a saída que os dois jornais encontraram para escapar à autocensura que nunca aceitaram”.
Outra revelação do jornal: “Intimado a prestar depoimento num inquérito policial militar ( IPM ), Júlio Neto respondeu a um curto interrogatório que ficou antológico na história do governo Médici”.
- O senhor é diretor-responsável do jornal O Estado de S.Paulo?
- Não, respondeu o jornalista.
- Então, quem é?
- O ministro da Justiça, professor Alfredo Buzaid, que todas as noites tem um censor na tipografia do jornal.
Um Ato Institucional proposto pelo pai de Júlio Mesquita Neto – o de nº. 5 – atingiu também o “Estadão”, censurando-o. Era o feitiço contra o feiticeiro! Outros “revolucionários” também foram punidos. Mas essa é outra história.
Meu livro: Moção do deputado Simão Pedro
Jasson de Oliveira Andrade
O deputado Simão Pedro apresentou uma Moção de Aplausos ao livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA, sob o Nº 37, datado de 28 de maio de 2008 e que foi publicada em 6 de junho. A Moção tem o seguinte teor: “O Livro Golpe de 64 em São João da Boa Vista idealizado por Francisco de Assis Martins Bezerra – editor e por Jasson de Oliveira Andrade – autor relata momentos importantes da história política de São João da Boa Vista. Embasado em pesquisas e fatos vivenciados, o autor Jasson de Oliveira Andrade, ex-preso político, relata os acontecimentos que precederam o Golpe militar de 1964 e os efeitos do mesmo sob o enfoque local, permitindo que a população de São João da Boa Vista conheça sua história e os principais protagonistas que refletiam as forças políticas da época e os interesses representados em seu município.
Esta brilhante e corajosa obra literária permite que conheçamos melhor a história deste importante município paulista, para que possamos entender a atualidade e assim, buscar maior desenvolvimento cultural, social e até mesmo econômico.
A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO, aplaude os Senhores Jasson de Oliveira Andrade -autor e Francisco de Assis Martins Bezerra – editor pelo importante trabalho histórico-literário que resultou na publicação do livro Golpe de 64 em São João da Boa Vista que tornou acessível a todos, as circunstancias e fatos que envolveram este período sombrio da história de nosso país, sob um corajoso enfoque local que permite identificar as forças políticas e interesses da época, compará-los aos dias de hoje e estimular o surgimento de novas lideranças” .
A iniciativa do deputado petista reflete a repercussão que obteve o livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA, confirmando a boa venda dele em São João (PAPYRUS) e em Mogi Guaçu (LIVRARIA NOBEL). Recebi também mensagens de elogios ao livro. Entre outras, destaco duas. Uma da escritora sanjoanense Yola Oliveira Azevedo, autora de A RECONQUISTA. Outra do professor Messias Prado, que leciona em Mogi Guaçu.
Yola assim se manifestou: “Acabei de ler seu livro – com muita atenção”.
“É excelente – tanto pela redação como pelo cuidado ao mostrar documentos que comprovam abusos incríveis de supostas “autoridades” – armadas – na época. Há momentos chocantes, tristissimos, que muito me comoveram”.
Parodiando Drummond – temos de lembrar para nunca esquecer”.
O professor Messias, de Mogi Guaçu, escreveu: “Terminei de ler seu excelente livro. Realmente é um registro de eventos que não devem mais acontecer… Interessante que, à medida que vamos lendo, vamos nos identificando e adquirindo simpatia com alguns personagens, enquanto em relação a outros nossos sentimentos são de raiva e em alguns momentos passamos a detestá-los. Enfim, como já cantaram Plabo Milanês e Chico Buarque:
“E quem garante que a História
É carroça abandonada
Numa beira de estrada
Ou numa estação inglória?
A História é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue.”
(Cancion por la unidad de Latino América)
Obrigado por nos passar sua experiência e sua vivência através de importante registro em livro.”
Esses depoimentos, e outros que recebi, mostram que valeu a pena escrever GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA.
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é sanjoanense e jornalista em Mogi Guaçu.
Postado em: 01/07/2008
Portal Mogi Guaçu

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