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julho 19, 2012

O que está por trás do golpe de Estado no Paraguai, Por Ludovic Voet

Filed under: WordPress — Tags:, , — Humberto @ 7:44 pm

O Paraguai, país encravado no centro da América do Sul que faz fronteira ao norte com a Bolívia, a leste com o Brasil e ao sul e a oeste com a Argentina viveu dias turbulentos neste final de junho. O setor agrícola é o responsável por 25% do PIB. É o país da América Latina onde esse setor é o mais importante e onde as desigualdades sociais entre pequenos camponeses e grandes proprietários são maiores. A renda por habitante não passa de 4000 euros por ano. Conta-se 18% da população abaixo da linha da pobreza. Vivendo essencialmente da agricultura os camponeses não têm a propriedade da terra usurpada por grandes proprietários, os latifundiários.
UM POUCO DE HISTÓRIA
A ditadura de Alberto Stroessner entre 1954 e 1989 foi um período negro na história do Paraguai.
Stroessner era membro do Partido Colorado, conservador e nacionalista, instalado no poder por 60 anos até 2008 até a chegada ao poder do candidato de esquerda Fernando Lugo. Durante a ditadura a pilhagem das terras continuou excluindo numerosos camponeses que se refugiavam nas periferias das cidades. Atualmente essa pilhagem se mantém com a ocupação de 2 milhões de hectares de terras sem títulos de propriedade pelas grandes multinacionais do agronegócio. Segundo um relatório publicado em 1994 pela Comissão Verdade e Justiça, 8 milhões de hectares arrematados por dignitários do regime de Stroessner beneficiam seus herdeiros que têm hoje imensas fortunas. Durante esse tempo os pequenos camponeses ficaram com minúsculos pedaços de terra de algumas centenas de metros quadrados apenas e no melhor dos casos 3 a 4 hectares. 1% dos proprietários de terras, os mais ricos, controlam com efeito 77% da terra cultivável do país que grande parte desses proprietários utiliza para culturas transgênicas ou ainda para a especulação.
A chegada de Lugo ao poder em 2008 com uma grande aliança e um programa de redistribuição de terras certamente não agradou essa oligarquia.
OS FATOS
Em 15 de junho no prolongamento de sua luta pelo acesso à terra os camponeses do movimento sem terra começaram uma ocupação em Curuguati, no leste do Paraguai na fronteira com o Brasil, exigindo sua redistribuição. Essas terras de 70 mil hectares “pertenciam” à Blas Riquelme (sem títulos de propriedade), um grande proprietário de terras que acumulou muito dinheiro durante a ditadura, antigo presidente do Partido Colorado e senador da República, proprietário de grandes supermercados. O ministro do interior decidiu não negociar com os ocupantes das terras e intervir com as forças da ordem. O balanço do enfrentamento foi de 11 camponeses e 6 policiais mortos e mais de 50 feridos. As circunstâncias dos enfrentamentos continuam difusas. O ministro do interior deixou seu posto.
Nos dias que se seguiram o lobby dos proprietários a UGP (União de Grêmios de Produção) e a mídia puseram em causa a gestão política do Presidente. Rapidamente e enquanto os fatos não tinham ainda sido verificados o Presidente Lugo foi vítima de um “processo político de destituição” por haver “exercido mal suas funções” – na sexta-feira 22 de junho diante do senado. Os direitos elementares de defesa foram voiolados (são 18 dias requeridos para a preparação da defesa) e o processo expedido em 5 horas. O parlamento em algumas horas reverteu o veredito das urnas. O vice-presidente Frederico Franco do Partido Liberal tomou as rédeas do país com a sustentação de seus antigos “inimigos”, o Partido Colorado. Caracterizado por uma estrutura econômica e social desigual o Paraguai é um dos países mais gangrenado pela corrupção na administração e órgãos judiciários sempre ocupados por servidores do Partido Colorado no poder até 2008. A margem de manobra de Lugo era pequena.
ENTORNO DA OBRA
A ideia que enfim, numa democracia, é possível tirar um presidente que não faz bem seu trabalho pode seduzir. O Paraguai mostraria o exemplo que toda democracia deveria seguir? É necessário ver inicialmente os interesses em torno da obra atrás dessa história. Deixemos os direitos à defesa. Esqueçamos igualmente que os fatos não são ainda esclarecidos. Mas podemos esquecer que os que destituíram Fernando Lugo são os que se enriqueceram durante 60 anos (dos quais 35 de ditadura) ou são seus herdeiros? Os que demandam o respeito aos procedimentos em curso (como os EUA ou outros Estados ocidentais) são os que instalam e desinstalam ditaduras no terceiro mundo há 60 anos (inclusive a de Stroessner no Paraguai). São esses também os que reprimem sem vergonha seus povos e muitas vezes com sangue (pensemos nas revoltas estudantis no Chile e no Quebec). São os que enfim não querem olhar bem os processos de mudança na América Latina por governos de esquerda.
O Presidente François Sarkozy foi destituído por má gestão na reforma das aposentadorias? O primeiro-ministro Rajoy será destituído pela alta taxa de desemprego entre a população espanhola? Fernando Lugo sem dúvida cometeu erros. Não fez a reforma agrária verdadeira, ele tentou conciliar os pontos de vista de todo mundo… Mas os que agora dão lições são os paradigmas da democracia?
Uma “Frente pela defesa da democracia” foi criada. O processo é reversível.Mas ele deverá afrontar um inimigo escondido mas sempre presente na região: os EUA.
BASES MILITARES
Conta-se no continente Sul-americano 47 bases militares americanas ou da Otan que controlam um continente rico em produtos naturais. O Paraguai é fortemente infiltrado pelas “ajudas ao desenvolvimento” americanas da agência USAID conhecida por seus objetivos de implantações geopolíticas. O continente americano e seus governos de esquerda na Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai, Uruguai e Venezuela são espinhos no pé do imperialismo americano. O reforçamento do comércio e da integração regional é um golpe às exportações americanas com que querem inundar o mercado sul-americano. Os processos de integração regionais o MERCOSUL (união econômica da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e a UNASUL (união das nações sul-americanas) ou a ALBA (Aliança Bolivariana para as Américas composta essencialmente pela Bolívia, Equador, Cuba e Venezuela) perturbam a Casa Branca.
MERCOSUL
Os eventos no Paraguai na fronteira sudoeste brasileira são sinais claros dos EUA ao governo brasileiro que segue cada vez mais um curso independente dos EUA em suas relações internacionais favorecendo seu comércio com países emergentes, os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). É igualmente um sinal claro que uma operação “própria e rápida” pode destruir e frear os processos de mudanças na América Latina. As tentativas de concertação da direita venezuelana com os EUA de derrubar o Presidente Hugo Chávez acontecem há 14 anos. O Equador de Rafael Correa sofreu um golpe militar em 2010 e Evo Morales, o presidente boliviano, declarou recentemente ter provas de uma tentativa de golpe de Estado na Bolívia. Os interesses americanos ameaçados, daí o pesadelo das ditaduras sustentadas por Washington nos anos 1970 que ressurge.
O Fechamento de questão em torno da condenação do golpe de Estado pelos Estados vizinhos foi primordial nos primeiros instantes para isolar o governo golpista. Mais de 10 países do continente retiraram seus embaixadores do Paraguai que também foi excluído das reuniões do MERCOSUL e da UNASUL.
*Ludovic Voet publicou este artigo, do qual publicamos seus principais trechos, no jornal “Solidaire”, órgão do Partido do Trabalho da Belgica.
( HORA DO POVO )

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