ENCALHE ( Descontinuado em 05.10.2013 )

junho 16, 2012

( Demóstenes Torres e a ) Lei do retorno, Por Maurício Pestana


Desde muito cedo, ainda criança, ouço a expressão: “a lei de retorno existe” ou frases correlatas como: “aqui se faz, aqui se paga”. O ceticismo de afrodescendente num país subdesenvolvido, no qual a lei de Gerson é a que mais prevalece em todas as instâncias, principalmente na área política, me fizeram, por vezes, desacreditar nessa tal “lei do retorno”. Este ceticismo talvez se deva às diversas desilusões políticas, em que pude constatar a ação de indivíduos comprovadamente desonestos serem eleitos e reeleitos de forma contínua, e sempre se dando bem, sem que nada os abalassem, colocando por terra qualquer esperança vitoriosa da tal lei do retorno.
Aliás, toda vez que a invocam, digo sempre que, caso realmente ela exista, deve ter sido obra de algum autor dessas novelas televisivas que, em geral, enaltecem por mais ou menos seis meses vilões, corruptos, bandidos, megeras e, no último capítulo, o herói e a mocinha se casam e são felizes para sempre (no nosso imaginário, é claro!), uma vez que as novelas diferentemente do cotidiano realista acabam nesse capítulo.
Esta encenação da vida real nos dá a impressão que mais vale a pena ser mau a vida inteira, já que só no último capítulo é que alguma coisa pode dar errado (e olha que nem isso tem acontecido mais, vide o final da trama Fina Estampa). Assim sendo, arriscaria dizer que o Brasil está no meio de sua novela, afinal, somos um país jovem, que, dos poucos mais de 500 anos de vida, 380 foram sob regime de escravidão, seguidos por quase um século de ditaduras, como a de 1964, a da era Vargas entre outras, e uma “merrequinha” de democracia estável nos últimos 20 anos, abalada por escândalos de corrupção intermináveis.
Por esses e outros motivos, quando, em meio a tantas tragédias, conseguimos assistir de camarote a lei do retorno vigorar, é algo que nos enche de esperança e, portanto, tem que ser ressaltado, enaltecido, aplaudido e muito divulgado, porque isso não acontece todo o dia em terras tupiniquins! Ver um sujeito que em pouco tempo saiu dos holofotes e dos berços esplêndidos da mídia brasileira como uma das grandes lideranças da oposição, para a condição daquele que ninguém quer chegar perto, abandonado pelos amigos, pela imprensa pelo partido e até pelos cúmplices de falcatruas, é raro no cenário brasileiro.
Para nós, afrodescendentes, este caso em especial tem um gostinho a mais, pois foi esse cidadão que declarou em pleno Congresso Nacional que os estupros ocorridos pelos senhores de escravos no Brasil era de livre consentimento das escravas oprimidas.
Pelo preço de gozar espaço e prestígio em nossa imprensa, foi um árduo combatente das cotas raciais no Brasil, fiel aliado do que há de mais reacionário e atrasado na política brasileira, grande defensor das oligarquias e dos pensamentos mais retrógrados que se tem notícia, descendo ao ponto de declarar que os negros foram os responsáveis pelos séculos de escravidão nas Américas e no velho mundo.
Questionou e emperrou o quanto pôde o Estatuto da Igualdade Racial e, sob o seu comando o DEM “partido”, primeiro a abandoná-lo, mas que há poucas semanas o tinha como principal representante e, nessa posição, entrou com ação de inconstitucionalidade das cotas no Brasil.
É, senador! Sua ruína foi desrespeitá-las, as oxuns – mãe das cachoeiras e, por isso, o senhor acabou derrotado exatamente por uma…
Como tem sido bom assistir o seu calvário, Demóstenes Torres!
Maurício Pestana é diretor executivo da RAÇA BRASIL
( PORTAL GELEDÉS )

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