ENCALHE ( Descontinuado em 05.10.2013 )

janeiro 5, 2010

Primo exclusivo e Primo excluído

Arquivado em: WordPress — Tags:, , , — Humberto @ 2:11 pm

Diz o glorioso Correio Braziliense, em sua edição de 02 de Janeiro: “CHUVAS MATAM RICOS E POBRES NO RIO” ( Aqui: http://TwitPWR.com/AWm/ ) com o subtítulo “MORTE NO PARAÍSO”. O subtítulo se encarrega de informar que, apesar de serem “ricos e pobres” as vítimas, o destaque será o “Paraíso”. Local onde, em termos não-místicos, os pobres não chegam perto. Portanto, o texto abordará apenas as desventuras enfrentadas por alguns ricos.
Que as chuvas acabam matando pobres, não poderia ser menos surpresa, já que cerca de 70% de nossa população é pobre, remediada, vai levando a vida etc, enquanto cerca de 1,2,3% de nosso povo ( hehehe, “nosso povo” ) pode ser considerada rica. Um velho preceito jornalistico professa que, “se um cão morde um homem, isso não é notícia mas, se um homem morde um cão, aí sim, é notícia”. Ou seja, pobre morrendo no Brasil não é notícia, mas rotina. Rico morrendo pode ser mostrado de forma heróica, humana, curiosa, sentida, amargurada. Depende do caso. Às vezes até se torna uma homenagem, a alguém que muito fez e muito foi. Alguém de muito destaque que se foi.
Ricos, compreensivelmente, não costumam fazer festas em locais popularescos. Quando desejam fazer algo remotamente parecido aos festejos da ralé, mandam buscar. Fazem uma espécie de simulacro. Já a ralé não pode simular um festejo de rico. Não tem como imitar um iate de luxo e uma refeição com lagosta e outras guloseimas requintadas e inacessíveis, em termos financeiros. Por outro lado, o rico até teria o dinheiro para fazer uma caipirinha usando 51 ou Cavalinho. Mas jamais irá preparar com estes combustíveis para foguete de 0,50 centavos a dose.
Uma das coisas que diferem o rico do pobre, além de quase tudo, é o tratamento “Prime”, “Exclusive” que aqueles compram ou recebem. Títulos de distinção. “Seja exclusivo, use perfume Le Blé”. “Camisas Charmès. Para alguém como você, e ninguém mais.” Evidente que, a menos que mande fazer uma peça única no mundo, de modo a garantir a suprema exclusividade, esta será mesmo “em termos”: poucos, de fato, consumirão aquilo, por causa do preço exorbitante. É uma semi-exclusividade garantida a alguns de uma classe.
Por uma série de razões que não me cabe enumerar, os ricos podem, caso o queiram, manter um estado de semi-isolamento: moradias em lugares exclusivamente caros, ou desfrute de férias e diversão em lugares igualmente caros. Manter esse status de vida e consumo é caro, mas fazê-lo é confirmar sua distinção social. Sem contar que os produtos e objetos costumam ser melhores.
Por outro lado, o pobre/remediado – por uma série de razões etc. – que não pode pagar um aluguel ou sequer um apto de conjunto habitacional já se vê às voltas com a exclusão. E esta pode ser reforçada também com um isolamento físico: estabelecem seus barracos e casebres em localidades muitas vezes nas extremas periferias, nas franjas das cidades. “Morar longe”, entrementes, não implica, obrigatoriamente, que você seja pobre/remediado. Apenas que você “mora longe” ( do centro ). Também existem excluídos no Centro, ou nos Jardins. Geralmente são enxotados ou, simplesmente, ‘excluídos do nosso convívio”. O terreno.
Falando em “terreno”, estes podem ser “confiscados”. Há muito disso em praias bonitas. Você tá andando na areia, olhando pro chão e – PIMBA!!! Dá com a testa numa placa, onde se lê: “Propriedade Privada e Exclusiva. Não Entre. Os infratores serão punidos exemplarmente, seus corpos serão esquartejados e os pedaços servidos à matilha de rotweillers que nossa equipe de segurança da Blackwater mantém. A cabeça será usada como ‘piñata’. Ass: Angry dos Reis Condominiunns & Resorteries”.
Caberia perguntar se a Prefeitura responsável pelo local sabe disso, mas deixa quieto: por quê incomodar a Prefeitura com uma reclamação sobre prosaicas e insignificantes placas plantadas na areia? Vai cuidar de sua vida, ô meu!
Placas parecidas com avisos semelhantes estão afixadas em propriedades nas cidades. Se você for um excluído, poderá se juntar a outros, ignorar a placa, derrubar a cerca de arame farpado, limpar o mato e levantar o barraco. Umas madeiras, uns caixotes e seu bangalô tá firmeza. Ou quase isso.
A diferença mais perceptível entre o rico e o pobre ( inclusive contando com os que “morreram pela chuva”, mencionados pelo Correio Braziliense ) é a possibilidade, ou não, de se escolher onde se vai viver ( e até morrer ).

 

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