A seção “São Paulo Reclama”, publicada no Caderno Metrópole do Estadão trouxe, em 29.11, um relato impressionante de uma leitora que sofreu assalto e agressão dentro de um vagão do Metrô paulistano.
De acordo com S.H.C ( nem sei se posso revelar o nome da vítima ), o fato occorreu no domingo, dia quatro de Outubro; o vagão em que ela viajava se encontrava vazio, era 8:30hs; o trem se encontrava entre a Estação Vila Madalena e a Sumaré do Metrô ( Linha Verde ), na Zona Oeste, quando um meliante tomou-lhe o celular e exigiu sua carteira. Ela pediu que deixasse os documentos. Próximo à estação Sumaré, ele a levantou e jogou-a CONTRA A PAREDE DO VAGÃO! ( Teve esse tempo todo! ). Ela procurou proteger-se e ficar próxima à porta para, logo quando abrisse, escapar. Daí, ele deu-le DOIS SOCOS ( no rosto e na cabeça ).
Chegaram à estação, onde não havia ninguém. O cara desembarcou. Nas palavras da vítima: “Do lado de fora, ele gritou [ grifo meu ] para que eu não saísse e ficou lá até as portas fecharem [ idem ]“.
Correto: vocês não leram errado. O cara ficou ali, sem ser importunado nem mesmo por um Testemunha de Jeová. Ninguém sacou o assalto, a agressão, o grito dado na própria plataforma [ onde existem câmeras, diga-se de passagem ]. Se ele quisesse ter cometido suicídio, não haveria quem impedisse.
Afixado no interior dos novos [ e baixos ] trens que circulam pela citada linha, há o aviso de que câmeras estão nos filmando, para nossa segurança. Não sei se todos os trens possuem o equipamento. Tampouco imagino que tenha alguma serventia. Talvez as coisas bizarras que acontecem sejam gravadas e, depois, postadas no You Tube, onde conseguirão bastantes visitas, e o Metrô faturará um monte com as publicidades, tipo Google AdWords. Audiência, sabe?
Prosseguindo: a vítima seguiu viagem até a estação Clínicas onde, nas plataformas, havia vários passageiros mas, observou, nenhum funcionário.
É aí onde eu queria chegar. “Os funcionários”.
A moça seguiu em direção à saída e pediu auxílio à uma funcionária que se encontrava ao lado das catracas. Esta chamou os seguranças, que perguntaram o que aconteceu e a orientaram para que fizesse um BO na Delpom [ delegacia do Metrô ], que fica na Estação Barra-Funda [ linha Vermelha]
ROTEIRO: ela teria que continuar na linha Verde, descer no Paraíso [ linha Azul ], fazer baldeação sentido Santana [ norte ], descer na Sé [ Centro ] e pegar o trem destino Barra Funda [ Oeste ].
“Ninguém me prestou socorro nem me acompanhou à Ana Rosa, como pedi.”, disse S. Amigos a esperavam ali e a levaram ao hospital, onde sofreu uma cirurgia. Ficou internada até 07/10 e ficou 15 dias em casa, de repouso.
Depois, sua mãe contatou o Metrô, e S. fez o BO na Delpom. Até à altura que a carta foi publicada, ela não recebeu retorno da empresa. E disse que continuava fazendo tratamento de reabilitação dos músculos da face, “para não perder os movimentos e não ficar deformada”, segundo suas palavras.
RAPIDEZ
Faça um teste. Critique, pelos jornais e revistas, a SPTRANS, o DETRAN, a DERSA, ou outra destas companhias e estatais administradas [ vá lá ] pelos tucanos. A resposta vem na rapidez de trem-bala. Acho que as equipes das Assessorias de Imprensa desta gente são as equipes mais competentes, profissionais e capazes de toda a máquina de governo. O PT tem muito a aprender.
A coluna publica a carta da leitora e, logo abaixo, a rápida resposta do Metrô. Que foi essa:
“A Assessoria de Imprensa do Metrô esclarece que a companhia emprega vários meios, como a presença de agentes de segurança e monitoramento por câmeras de vídeo para garantir a segurança dos passageiros ( … )”;
Isso não impediu que a moça passasse o que passou. Se tem uma coisa que dá muita raiva são essas explicações que nos dão. Na verdade, parece mais um informe, um folder.
Eles enumeram, em termos, todo o aparato de que, vai se saber, eles dispõem. Parece até, pelo tom assumido, que estão questionando a vítima: “Ora, querida, temos seguranças e câmeras…”. So falta dizer que o crime não poderia ter acontecido. Se eles dispõem de seguranças, onde estavam que ela não os viu? E, mesmo que ali estivessem, isso não intimidou o agressor em nada.
Quando eu disse, acima, “em termos”, eu quis dizer que os “esclarecimentos” são vagos e incompletos. Eles mantém seguranças? Tá, e quanto são no total? Quantos por estação? Quais são os números da violência em suas instalações?
O Metrô prossegue com os “esclarecimentos”, dizendo que os funcionários atenderam a vítima e insistiram que ela fosse atendida no HC. A norma, diz o Metrô é, após os primeiros socorros, levar as vítimas de acidentes ou de ‘outras ocorrências’ à rede hospitalar pública ou privada, de acordo com a escolha da vítima.
Ai vem: S. não quis, pois tinha “assuntos pessoais urgentes”, e recusou o atendimento e o registro de BO, sendo orientada a fazê-lo posteriormente, o que foi feito por sua mãe, com os funcionários envolvidos servindo como testemunhas.
TRÉPLICA
A leitora respondeu que a assessoria disse absurdos, e que enviou uma carta à Ouvidoria do Metrô com quem teria ( em 01/12 ) uma reunião, ocasião em que externaria sua opinião sobre tais absurdos. Diz a leitora que ninguém lhe procurou para averiguar os fatos, e que sua mão procurou o Metrô no dia seguinte, mesmo dia em que S. passava pela cirurgia. S. alega, também que, mesmo que tivesse “recusado” [ aspas dela ] ser atendida no HC, a responsabilidade do Metrô deveria ser a de prestar os primeiros socorros ou tê-la acompanhado em segurança até a Ana Rosa.
EPÍLOGO
Já escrevi isso antes. Antigamente nem papel de bala você via no chão. Os funcionários do Metrô, principalmente os homens e mulheres de preto desapareceram. Copos de isopor, restos, embalagem do McDonalds, Lance, tudo isso você acha no chão, nos cantos, na própria plataforma, dentro dos trens.
Outro dia, aliás, eu fui pegar o Metrô nas Clínicas, sentido Ipiranga. Passei as catracas e, ao chegar a escadaria que dá acesso à plataforma, tive que desviar de uma pessoa, sentada [ dentro da estação ] bem nos primeiros degraus altos. Ela, e sua tralha, impediam a passagem em plena escada, sem ser importunada por ninguém. Lembram dos tempos quando, se você apenas agachasse para descansar as pernas, nem que fosse nos túneis [ ou seja, distante de catraca, plataforma, dependências internas ], a voz do sistema de som já ralhava com você e, se você quisesse dar uma de “cada um, cada um”, uns 3 ou 4 MIB, com cassetetes Pinochet-style apareciam e avisavam que sua perna não estava doendo tanto assim. Ainda.
Você levantava rapidinho, um milagre na sua vida.
Hoje, o Metrô virou um camelódromo desagradável. E algo que serve para “valorizar bairros”.